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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Fragmentos da Revolução


Neruda y Matilde



Lia os “Últimos Poemas” de Neruda.
O quarto ao lado sussurrava revoluções.

Deixei minha flâmula atrás da porta;
lavei as mãos sujas de sangue
recolhendo-me à rotina.

Hoje a poeira e a fumaça industrial
tomam conta de meus ideais;
não conheço os homens;
me desconstruo.
Minha criatividade se perde
entre as estruturas metálicas
que se ergueram dia-a-dia.

Vou comendo o pão envelhecido
acompanhado de uma “Coca” em lata
que comprei mecanicamente;
é como o óleo que lubrifica
as máquinas:
vou seguindo robotizado
de cabeça baixa.
Vou matando em meu íntimo
os resquícios da poesia existente,
as leituras de poemas
vão ficando cansativas.
Prossigo insatisfeito 
em padrões disformes,
metido em uniformes indigestos.

Olho para a porta da Fábrica
sonhando descavernar-me,
desalienar-me.
Lá fora homens murmuram frases prontas
que definem este meu olhar como insano;
vou me perdendo
me prendendo à certeza de me perder.

Volto aos Poemas de Neruda
desavisado não o creio comunista.
O quarto ao lado se cala,
acostumou-se ao sistema!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Menino Poeta



Poema qual pluma tal pena
Brincando no colo do dia
É pipa que voa bem alto
É vento que sopra tão frio

Poema pequeno menino
É rima sobre rolimãs
É lima, é pé de romã
Pomar de doces frutas

O verso, menino que brinca
É nosso brinquedo bendito
É nosso segredo escondido
Rimando de tanto brincar

Menino peralta e sapeca
Com sua mania de versos
Criando imagens diversas
Gritemos bem alto: POETA.

sábado, 19 de novembro de 2011

Amor de primeira grandeza



Quando a vida parecia escurecer
Num infinito vale estranho
Vem teus olhos me reerguer
Vitalizando outra vez meus sonhos

Se a brandura que há nos encantos
De teus gestos a me levantar
Certamente, junto ao meu pranto
Toda mágoa foi-se a evolar

Pois, que agora, só há alegria
E aqueles dias já não vêm mais
Tu és doce, pura melodia
És canção em meus festivais

És a luz que me ilumina a vida
Esperança a rasgar as manhãs
Seus “bom-dias” curaram feridas
Doces beijos de aldebarã

Agradeço sua companhia
A me encher o coração de festa
Fazes destes meus melhores dias
E o amor em ti, a poesia confessa.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Uma tentativa poética***

A poesia se move silenciosa
No interior das coisas
Como serpente à espreita
Espera o tempo exato
Num bote certeiro
Mordendo as palavras
Arrastadas ao ninho
Úmido e fecundo
De pensamentos indomáveis

A poesia é como o urro da fera
Na noite escura
Cerceia a presa, se impõe
Enclausura o verso
Em cadeias extensas
Devora, domina, suprime
Significados

A poesia arrasta em sua onda
O poeta –
Que anda em sonhos, em círculos,
Em sendas – perdido.

Como gato acuado
Ela salta, cai de pé,
Se equilibra nos telhados,
Sob a luz da lua
Uiva ociosa no cio.

Impúbere debutante
Em sonhos de ontem.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Rio do Tempo


Sinuosidade a correr
Caudaloso, intenso.
Vertente margeia
Intensidade perene.
Rio grande, rio do tempo,
Temperamental desafio;
Transbordante
Avançando no eito,
Transpondo margem
E leito
Feito onda de mar.
Enchente
Enxurrada
Rio invasivo
Evasivo
Rompendo divisas
Correndo, correndo
Escorrendo
Dos montes
Alastrando em meus olhos
Irrompendo no peito
Vazante que jorra
Intempestivamente
E chora
Rio-abaixo,
À beira, à margem
Da vida que vagueia
Rio intenso,
Rio vivo
Rio lento
Serpenteante
Rio do tempo.


(*Poema escrito para a 2ª Oficina Inspiraturas )

domingo, 19 de junho de 2011

ESFINGE


Sob a sombra da noite fria
Invoco seu precioso nome
Esperando com alegria
Tua carne saciar-me a fome

Tateio teus horizontes,
Teus montes e cordilheiras
Embora no pequeno regato
É que mato minha sede

Escorro por tuas sendas
Colado em tua pele
Langores submersos
Em alma que padece

Nas curvas de teus recantos
Me cravo e desfaleço
E entre teus montes me afogo
Sonhando o recomeço.



quinta-feira, 19 de maio de 2011

Poema insurgente




Quando me propus a escrever
                                [um poema
Vieram me dizer as palavras
– que antes de escrevê-las –
Melhor que lhes deixasse a pena
Que meu ato – sem senso e falho –
                               [nada lhes valia
Se não sei sequer tocar em tema
Que se lhes compensa a densidade

De fato, eis minha colcha de retalhos,
Cerzida por todos os lados
Sem frestas, espaços
Num emaranhado disperso
De coisas, palavras, imagens
A poesia que vem, por hora, atribulada
Contém o impreciso do passo
A inequívoca pressa
                          do viajante lasso
que se perde nos desvãos da estrada

se em tudo isso me submerge as palavras
a poesia flui sensitiva como eu nunca a quis
porém, meu domínio jamais lhe serve
pois, quando penso ser eu que a faço
descubro-me ignorante crasso
arremedo a viver por um triz

palavra inaudita palavra
que nessa lavra de pedras raras
és a lâmina que me aparas
me escrevendo inteiramente

palavra interdita palavra
és larva que me sublima
subornando-me a estima
em devaneios permanentes

assim, a poesia inunda toda gente
subverte a direção do verso
buscando no interior das coisas
a palavra ciosa de significados
inscreve o poeta nas entrelinhas
                      [de formas ingentes
no peito aberto – a miragem –
o bisturi que rasga o cerne
convergindo ao coração insano
o célere impulso que tece
                                    [a paisagem

Não executo meus propósitos:
Sozinho, o verso se derrama
E me escreve – antes mesmo
do erguer da pena
sobre a pauta branca –
a poesia me desbanca
me rouba a cena
me encerra no ataúde
do esquecimento.

sábado, 19 de março de 2011

Onde a poesia?



Espero a noite inteira
como quem espera um filho
que cedo saiu à rua

O coração em miséria se enlaça
na teia do desespero se lança
conflitos que surgem urgentes
pungentes delírios de quem espera
um poema surgindo
dos mistérios da aurora
como fosse possível
o nascimento de dois sóis

Antes soubesse que um poema
é como um gato que vive a espreita;
tão logo se assusta, esconde na sombra
sobre os muros, adentra folhagens
no escuro da noite
foge desvairado pra longe dos olhos

Incrédulo, empunho a caneta,
rabisco o papel, desenhos insanos
traçado obsceno:

A poesia não vem!

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Luxúria






Flávio Offer

não me peça infidelidade que a mentira é pouca
quero sair por aí, engolindo borboletas em corpos de donzelas
rompendo o selo casto das virgens
que me espreitam pelo caminho obscuro do bosque das bruxas

Wicca pendida sobre meu corpo nu
propondo-me a mais perfeita luxúria.

...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Para uma cidadezinha qualquer


pintura interior mineiro,espatulado, pintura à óleo* 

Pequeno mimo a perder-se ao longe
                                              [nas Gerais
Em furtivos fatos de antanho se via
A mocidade anêmica e trivial fobia
A expandir-se a sombra do horizonte
                                                   [extremo
Oh, diminuto espaço, protuberância
A  se cravar nos montes – com que ânsia
Almejas alcançar os céus?
A qual sorte de ventos
Deixaste o teu triunfo crendo a vida
Imenso carrossel?
Oh, pobre menina, por que deixaste
                                               [a trança
Envolvendo-se em longos dramas
Sem exercer nenhum papel?
Coadjuvante de um filme sem regras
Suas noites são matizes de carolas
                                             [que rezam.
E tu, pequenina, dormes.
Inocente e febril em desejos recalcados
que ninguém vê.
Pobre cidadezinha distante
que agora como antes
em gemidos reprimidos segue a desfalecer.
Descanse em paz cidadezinha 
Sob os escombros da modernidade
Mergulha no caos – deserto dissonante –
Em lupanares de excentricidades.

_____________________________

***não consta autor do quadro no site:  http://www.dreamaid.com/viewProductAction.do?id=937

domingo, 19 de dezembro de 2010

Breviário di’versos

 Breviário di’versos

1.

quero a palavra disforme
análoga à forma das nuvens
prenúncio de coisas tardias
vazio sem nome –
             buraco negro a engolir estrelas.

quero o verso vazio
poesia de coisa nenhuma
silêncio em seu contrário
vazio sem nome –
             Sputnik a vagar no espaço.

quero o regresso à terra
o abraço do solo escuro
anúncio de coisas inúteis
vazio sem nome –
              Morte a engolir a vida.


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Imortalizado



Arrancaram minha pele viva
Fizeram retalhos de meu corpo
Estilhaços de minha alma
Lavaram as mãos em meu sangue
Derramado sobre a mesa
Trituraram os meus ossos
E queimaram os meus cabelos
Resta apenas a sombra
De respostas a perguntas
Que me fizeram
Restam apenas os versos
Que insistente escrevi

Intacto, em uma redoma
Colocaram meu coração
Que palpitante pulsava
Descompassadamente.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Dos quereres e do espanto




sob o manto escuro da noite
vem teu corpo aos meus assombros
privilégios feitos de açoites
forçar-me o fardo sobre os ombros

ante prazeres e desconfortos
o gozo singelo de um coice
a ceifar-me o peito a foice
de quereres absortos

do céu ao chão reluz febril
a inconstância de suas tranças
aos nossos olhos o teu ardil
inveterado feito dança
transpõe as chamas em acalanto
num último grito de espanto.

domingo, 19 de setembro de 2010

É inútil a palavra

É inútil a palavra
Aflorando das murchas manhãs de inverno
Rasgando a carne de nomes que se confundem
A outros nomes e almas que se dissipam
Na neblina turva do ar sepulcral
Que se eleva
Na orla intangível da vida.

É inútil o verso
Travestido de incongruências e dissonâncias
Que escapam entre os dedos
Transbordando medo e insônia
Tédio da vida escassa de anseios
Que perpetua a inalterável
Transposição rotineira das horas.

É inútil a poesia
Impregnada do ocaso dos dias cinzentos,
Seu sopro morno nas têmporas
Rotulando o caminho impreciso
Em tempos de angústia e espera
Lamento intenso – quimera –
Por ver toda a vida perdida.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Memórias esquecidas




meu nome? que importa?
nasci nu e descalço
sem deus nem poesia

cresci, tive leito, teto
leite fresco das tetas
que tanto suguei

meu nome? que importa?
cheguei vazio
sem crença ou melodia

pisei barro, grama, pedra
cheirei mato, fumaça
chuva a apagar poeira

meu nome? que importa?
chorei, deveras
sem saber a cor do dia

tomei banho de chuva
em trilha de beijos
sob a luz da lua.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A rosa

créditos da foto: Flávio Offer


Os pássaros cantam.
A rosa...
a rosa se cala
em busca de encantos
provindos da própria alma!



*** Poesia do Livro "Cata Ventos", 2005.

sábado, 19 de junho de 2010

Poeminha








Poeminha

Contudo me darei inteiro
Mesmo que de mim
Reste apenas um pedaço.

E do pouco que terei
Para oferecer-te
Ter-se-á a melhor parte.

No que há de mim perdido em frangalhos
Há, enfim, precioso fragmento
Das partes imputadas em cabais momentos
Meu inteiro é tudo que preciso

Te oferto em meio a risos
pequeno estado de contentamento
Dividido em partes de improviso
O que a ti agrada plenamente!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Menino e o sino


Um beato murmureja
uma Ave Maria!
Um menino boceja
pensando em Mariazinha!

A igreja vazia
é convite para brincar
com o sino.

O menino corre vadio
para a torre da igreja.
A passarada em alvoroço
voa lá de cima.

E o sino grita alto,
Eis um menino peralta
"Blém, belém, blém, blém..."

Nervoso, o sacristão
corre e vem dizendo:
"Chispa, menino matreiro,
filho de garrucheiro,
seu moleque atrevido!
Quem disse que podias tocar o sino?"

E o menino corre sorrindo,
feliz da vida,
feliz pelo sonho realizado!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Insanidade, despudor e desatinos


Aprisionado por palavras,
insana, infame pena.
Debaixo de um tapete
somente poeira.
Restos de pensamentos,
retalhos mortos
de carne humana.
Fotografia,
fotocópia,
revistas
e jornais.
Notícias velhas,
quadrinhos e esquadrilhas.
Jato de ar,
jarro de água,
jeito traiçoeiro
de afugentar crianças.
Caretas, picaretas,
marretas e arpão.
Guloseimas,
balas,
chicles de menta,
arrebento de nostalgia.
Melancolia, melancia,
flacidez
e guerra-fria.
E onde está o povo?
Voando por aí?
Buscam novas fontes,
fronteiras e minas,
lindas meninas
de vestido de chita.
Enquanto a mais bonita
faz tranças no cabelo
e seguindo o mesmo zelo
o pai descansa
na rede,
lugar onde a sede
não o alcança.
Chapéu quebrado na testa,
que vida é esta
cheia de preguiça?
Início de semana
e a cidade se inflama
por estas loucuras.
Desvelo,
falta de zelo,
rompe o lacre,
arranca o selo
e os loucos saem
pelas ruas,
mente insana,
pele nua,
desnuda de qualquer
pudor,
sem qualquer
poder sobre os demônios
que ladeiam
a gamela.

Flávio Offer
http://flaviooffer.blogspot.com/
Poema publicado nos livros:
“Grandes Escritores de Minas Gerais vol.III – Rio de Janeiro: Litteris Ed.: 2004.”
“CATA VENTOS – o destino de uma Poesia/ Flávio Otávio Ferreira. – Rio de Janeiro: Litteris Ed.: KroArt, 2005.”

sexta-feira, 19 de março de 2010

Loucura&Silêncio

imagem: Murat Harmanlikli

Não fosse esta loucura
serias mais que abstração nesta linguagem de ícones
que se movem como formigas gigantescas
a carregar consigo as lembranças.

Não fosse este silêncio
regressarias de tuas viagens, mesmo com ressaca de viver
ou tédio a corroer tuas esperanças que em vão
se movem como ratos a remexer latas na despensa.

Não fosse esta loucura
estarias presente em meu cubículo a bater-me na cara,
coagindo-me a dizer mentiras que lhe agradam,
apenas para salvar-lhe da névoa que encobre teu rosto.

Não fosse este silêncio
viria possuir-me o teu espírito em noites sem lua
em tempos de mistério e sombra, simplesmente
pra fazer gracejos e brincar sobre meu corpo quente.

Não fosse esta loucura
não serias só palavras rabiscadas por mãos trêmulas
em muros carcomidos, onde a alvura da cal
não esconde os desfavores do tempo.

Não fosse este silêncio
não terias ido embora pra longe destes olhos
deixando a este louco apenas o consolo
de versos obscenos no espelho do banheiro.

Mas, terias me libertado.
Desatando os nós que nos envolvem;
quebrando este silêncio que devora
as entranhas sufocando em nós o ânimo.
Quebraria este espelho que revela
a nossos olhos as misérias
a que nos condenamos;
Romperia o cordão que injeta em nós venenos.
Abortaria, pois, este desvanecimento
que nos rouba lentamente um do outro,
tornando loucura a tudo que um dia
dissemos querer da vida.