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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Espelho

Depois de chorarem juntos,
sorriu para o sorriso dela.
a cumplicidade os tornava idênticos,
ela canhota, ele destro.
 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

ORAÇÃO DE GRATIDÃO - SYLVIA BEIRUTE

























ORAÇÃO DE GRATIDÃO


há toda uma gratidão em aceitar o universo.
todas as pequenas coisas formam uma grande coisa.
há um parentesco desconhecido entre todo o conhecido.
o meu mundo tem ligação directa aos deuses.
há uma força da natureza que age na raiz das constelações.
há um erro que me pensa a fim de me construir.
há uma maneira de aproximar e que me dá todas as matérias.
e todas as matérias são feitas de paz, luz e bons espíritos.
há um compromisso e uma responsabilidade de mim para mim.
o meu dia é a minha caneta, o meu papel.
e no final do dia o universo requer um pensamento
que absorve palavras absolutamente inteligentes
e que o resumem na noite brilhante.
esse pensamento é a devolução do dia em forma
de energia para o sonho seguinte, o dia seguinte,
um novo passo, um novo começo.
há uma renovação constante em mim
na maneira de me dar e de me devolver.

Sylvia Beirute

inédito

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























CONOSCENZA

{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semêntica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.

Sylvia Beirute
4Águas, 2011
.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

1 conto curto e 1 poema longo

Pequena e triste história sobre a mulher sonâmbula que caiu pela janela aberta

Realizou seu sonho, voou.

Isaac Ruy
 
oh, lepse...

este sou eu,
frente a etnerf
com a imagem do presente

analepse do que fui
prolepse do que serei
recordações
e projeções

encarar a si mesmo
não faz bem ao ego
                                  nego

melhor seguirmos enganados
que encarar a realidade -
lindos
como
sempre

estamos apodrecendo
enquanto amaciamos a carne,
esticamos a pele
e maquiamos os vermes

a beleza está nos olhos de quem vê
tenho medo
prefiro não encarar
e se não estiver nos meus?

assim ao menos vou bonito,
imagino,
e que me esperem no fim da passarela
dessa 
vida
bela

e se insistem em perguntar
como vai?
respondo sempre
muito bem, obrigado

melhor mentir
a encarar os cacos
de fato
me mato?

não

aguardo a morte chegar
sorrindo
com sua cara 
que muito me agrada
de caveira
seca

ao menos vou melhor que ela

Isaac Ruy
 


quinta-feira, 19 de maio de 2011

Poema insurgente




Quando me propus a escrever
                                [um poema
Vieram me dizer as palavras
– que antes de escrevê-las –
Melhor que lhes deixasse a pena
Que meu ato – sem senso e falho –
                               [nada lhes valia
Se não sei sequer tocar em tema
Que se lhes compensa a densidade

De fato, eis minha colcha de retalhos,
Cerzida por todos os lados
Sem frestas, espaços
Num emaranhado disperso
De coisas, palavras, imagens
A poesia que vem, por hora, atribulada
Contém o impreciso do passo
A inequívoca pressa
                          do viajante lasso
que se perde nos desvãos da estrada

se em tudo isso me submerge as palavras
a poesia flui sensitiva como eu nunca a quis
porém, meu domínio jamais lhe serve
pois, quando penso ser eu que a faço
descubro-me ignorante crasso
arremedo a viver por um triz

palavra inaudita palavra
que nessa lavra de pedras raras
és a lâmina que me aparas
me escrevendo inteiramente

palavra interdita palavra
és larva que me sublima
subornando-me a estima
em devaneios permanentes

assim, a poesia inunda toda gente
subverte a direção do verso
buscando no interior das coisas
a palavra ciosa de significados
inscreve o poeta nas entrelinhas
                      [de formas ingentes
no peito aberto – a miragem –
o bisturi que rasga o cerne
convergindo ao coração insano
o célere impulso que tece
                                    [a paisagem

Não executo meus propósitos:
Sozinho, o verso se derrama
E me escreve – antes mesmo
do erguer da pena
sobre a pauta branca –
a poesia me desbanca
me rouba a cena
me encerra no ataúde
do esquecimento.

domingo, 3 de abril de 2011

AS PALAVRAS ESCONDEM A VERDADEIRA LINGUAGEM - SYLVIA BEIRUTE


















AS PALAVRAS ESCONDEM A VERDADEIRA LINGUAGEM


a minha língua é o ponto mais pequeno
da minha linguagem.
o azul é o ponto maior da minha insegurança.
esta chuva pode ser um homem desfeito.

o inseto vive o mesmo tempo que o seu desejo.
as coisas imortais nunca tiveram corpo.

a dificuldade de escrever revela uma leitura
ineficaz do espírito.

o instinto fechado é a metamorfose em bloco
sem um exercício atual da estátua.

o futuro exorciza o passado e esse exorcismo
é o presente.

nada do que disse acima é correto.
.
Sylvia Beirute
publicado no "uma casa em beirute"
.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Luxúria






Flávio Offer

não me peça infidelidade que a mentira é pouca
quero sair por aí, engolindo borboletas em corpos de donzelas
rompendo o selo casto das virgens
que me espreitam pelo caminho obscuro do bosque das bruxas

Wicca pendida sobre meu corpo nu
propondo-me a mais perfeita luxúria.

...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

FECHAR OS OLHOS - SYLVIA BEIRUTE

























FECHAR OS OLHOS

precisas de conhecer a insatisfação das palavras
para escreveres bem.
as subsequências têm de ser uma absorção
linguística do momento histórico.
qualquer produção
tem de mover-se como detonação de entranhas
desde o tempo passado até à arquitectura
da conversão actual.
é impossível fechares os olhos quando tudo
é cortado em metades e essas metades
procuram metades alheias e formam novos todos.
a literatura, onde quer que exista, faz deslizar
as palavras que mais não são do que documentos
contendo novas invenções do mundo,
novos pares de invenções do mundo.
e é assim onde quer que elas sejam ditas. em qualquer
situação minimamente provável.
a palavra que falta ao pensamento é livre. pode
ser dita. escrita. e viciar-se no branco polar
de uma distância verbal. e tu:
continuas a falar. e eu: não consigo ouvir-te.

Sylvia Beirute
também publicado no blogue "uma casa em beirute"
.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Desarmados - Gavine Rubro


Fotografia pela artista plástica
Vera Fernandes

Desarmados



vestes essa máscara
que se prende ao corpo,
oh térmita do ressentimento,
ódio em gesso perpétuo;
enxofre sujo pela cobardia,
lamento.
pisas o que não existe,
quieto
e calas quando te enterras de preto.
oh zarolho no seio das cobras
tira essa máscara simbiótica,
na óptica das obras da evolução.
criatura opulenta,
culta
mas cega do orgulho, o olho vão
deixa para lá as cordas do ontem.
sobe a escada comigo,
depressa.
O tempo urge.
as verdades são metamorfose mutante
e tens no instante do perdão
a opção da revolta
ou a escolha livre da educação nobre.
acorda,
oh bípede disfarçado,
porque eu sorrio para mim,
frio,
eu.
dou a mão ao inimigo
e as armas dele caiem assim.    

[clique se quiser ver
o blog do mesmo]

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

AMO-TE ASSIM SEM CORPO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

























AMO-TE ASSIM SEM CORPO


................................{a um namorado}

amo-te assim sem corpo.
sem dias que sacodem lembranças.
sem últimas coisas.
sem ouvires de língua.
sem palavras que respiram pelo
nariz de outras.
sem compromissos abdominais.
sem o coração no bolso.
sem ruídos obscenos que
indiciam nudez.
sem borboletas vulgares
sobre o poema.
sem o conhecimento de toda a gente.
sem o teu conhecimento
ou existência.
amo-te assim sem corpo
com todo o meu corpo,
lembranças,
últimas coisas,
ouvires de língua,
palavras ardentes como
febres frias,
compromissos fundidos noutros,
o coração dobrado,
as braçadas da vida
nua e lenta como a borboleta
neste poema.
amo-te assim sem vida.
sem morte.
sem corpo.

Sylvia Beirute
inédito
.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Contra a Página Branca - Sylvia Beirute

CONTRA A PÁGINA BRANCA

contra a página branca.
contra a página branca ignorar a consciência
que isola a poesia.
e imediatamente
ultrapassar o significado. contemplar
a inexistência que existe para além dele.
e preceder tal resistência que o reinaugura
como uma operação inverificável,
ininterpretável nos seus mecanismos
de duração. de génese.
e precedê-la tão urgentemente como ser-se um
pequeno preconceito nos arredores
da materialidade fluida da ideologia,
do valor de uma confirmação livre,
documentada na redução elástica
da individualidade e do espírito.

.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

HORA GRANDE

Tela - Francis Bacon


Minh’alma não se degrada
Não há líquido que faça derreter
Transforma-se, não enferruja
Descasca-se, enruga
Brilha metalizada
Quando a água vem e vem
Regendo orquestras
Do que pulsa, do que resgata
Há cheiro dócil da terra
Cio da carne, amor pleno
ciclos e suas ogivas
Estelar azulada, púrpura
Corre veia, veio, rio
entremeio de refrões
Dorme minha alma branca
à hora grande, até a chegada
Do outro ponteiro
da meia-noite
do meio-dia
Expurga sentidos
Lágrimas das mágoas
Mesmo ferro
Mesmo massa
Mesmo sangue
Não enferruja
Porque saliva
O Divino vinho



Cíntia Thomé