terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Guarda-chuva-sombrinha preto




Não imaginei caminharmos na chuva, aquele dia, com meu guarda-chuva-sombrinha preto.
Simples, pequeno, com uma haste quebrada a desviar a circunferência da chuva.

Corei ao te ver aproximar-se com aquele meu descuidado chapéu negro. Todo primeiro encontro deseja ser impecável, como o segundo, e o terceiro. Porém, a simplicidade aproxima. Assim seja.

Então chegamos perto, dividindo o abrigo da chuva. Seu braço protegeu meu ombro nu e se alternou na travessia das alamedas me distanciando cuidadosamente da rua.
Um guarda-chuva-sombrinha preto, assim, como o próprio nome diz: o feminino abrigado entre dois braços-nomes masculinos.

Hesitei meu braço na timidez do gesto. E agradeci a chuva.


arte: Marc Chagall

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

quando vier o dia


Protesto contra a morte de uma jovem de 17 anos, moradora da favela Heliópolis, na zona sul de São Paulo, ocorrida em 1º de setembro de 2009. Foto de Werther Santana/Agência Estado.
(imagem do blog de Víctor Barone)
http://escrevinhamentos.blogspot.com

e quando vier o dia
os homens estarão mortos
as crianças tristes e perdidas
e órfãs as mulheres

quando vier o dia
ficarão pássaros com asas queimadas
e o grito insano da cidade

estaremos sedados
a noite e o país em pedaços

melhor fechar as janelas
e não ouvir

estaremos seguros em nossas casas
e alguém dirá que não existe guerra

DAS IMAGENS INACABADAS (*)

.

deita teus pés no chão dos palcos
faça arte, pinte o sete
faça parte, ria da própria sorte.

deita teus pés nas nuvens
agarre um pedaço da pele branca
encontre o suor de teus sonhos.

deita teus pés na vida
sê o impensável, o impossível
destranque a porta dos desejos.

deita teus pés no abraço dos rumos
mais que pedra sobre pedra
peito sobre peito...


(*) para os sonhos da amiga e para a amiga dos sonhos.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

todo o tempo: o passado

para V.


olhe a hora
no relógio
: olhe o tempo
já passou
(o segundo
se perdeu
já é passado
em algum lugar
ficou).

o passado
não tem tempo
o passado
não é tempo
o passado
não tem hora
: foi a hora
que passou.

nem o agora
é presente
olhe o tempo
(no relógio)
: olhe a hora
já passou.

o futuro
programado
é apenas
o instante
em que a gente
o programou
:
se tornou
realidade
foi passando
com as horas
e no passado
já ficou.

se apenas
foi sonhado
foi apenas
o passado
(e na verdade
já passou).

todo instante
é diferente
todo o tempo
é ausente
tudo urge
é urgente
olhe a gente
: já passou.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Om - poética




“in principio erat Verbum et Verbum
erat apud Deum et Deus erat Verbum”

Em nenhum sânscrito encontrou-se
o nome secreto de deus.

Buscou-se nas fendas da Terra.
em seus abismos mais remotos,

Em suas parnasianas geografias,
grutas rupestres, et coetera.

O eco perdido de outros vários,
vários nomes que nada significaram.

Buscou-se a iconografia de deus,
A única proveniente dos altos céus,

Subserviente de austero criador
criado por sua própria formosura.

admirar não compartilha criação
por ser transeunte a nomenclatura,

Entre a idéia e sua pura origem
apartada em profana imagem.

Por ser deus no severo significado,
criou tantos vários em desuso,
nomes, estes menos expressivos
o vento levava da boca onisciente

para as encostas compactuadas no
oriente, no ocidente, na falha pangeia.

Os nomes remanecentes se agitavam
nos cibórios, libertados nos sacrários
despedaçavam-se em bocas mudas.
bocas sintéticas. bocas noturnas.

boca. quanta boca. Meu Deus!
forjavam-se em dissimulada alcunha.

Tantos orfeus. Sarasvatis. argonautas.
suspensos na instituição humana.

Porém passou o vento ocidental
e expurgou todos os hereges

sublevados crismas religiosos.
Paganis Kyrie eleison.

Não se ouviu saltar do altíssimo
Trono os impropérios celestes
reinvindicados na terra.
“A mão de orfeu enorme destra”

Buscou dentro de si o secreto nome.
Ouviu o vento, percebeu-se.

O vento crismou em silêncio resplandente.
Barulhento. Febrio. Suplicante.

Era impronunciável. Invisível. Irresoluto.
Dentro do homem se conhecia

Sem a lógica intrépida,
Sem a verdade cartesiana.

Sentiu-se o Deus. Desvendou-se o poeta.
O universo se sabia completo.

Com deus e seu ex-secreto nome.
Kyrie eleison.
 
 
 

Feijoada ???

Feijoada Vegetariana

ROGERIO SANTOS

Tenho um amigo vegetariano
Vejam vocês que aventura diferente
Logo comigo, um cara suburbano
Que sempre soube onde por os dentes

Fui convidado pruma uma feijoada
Na sua casa lá na Vila Madalena
Eu tava duro e todo endividado
Sem pixo prá passagem eu vendi a antena

O gente fina prometeu-me emprego
Uma cutruca lá de balconista
Eu fui armado de pente Flamingo
E de Gomex com panca de artista

Experiência tenho de açougueiro
Matei cachorro a grito, vendi churrasquinho
Cheguei bem cedo com o meu currículo
Um olho no emprego e outro no petisco

Como era fraca aquela caipirinha
E o lero-lero foi só aumentando
O meu estomago não é de ferro
E minha fome me contrariando

Eu me senti em convenção de escoteiro
Achei estranho aquele lance todo
Topava um trampo até de coveiro
Que pelo menos eu tava almoçando

Mas foi um choque aquele acepipe
Com cara de torresmo mas com cheiro estranho
Num pururuca e nem tem os pêlo
Saquei a fita que tava rolando

Me expricaro que era de outro nível
Que era fino, coisa de muderno
Pra ser sincero nunca vi aquilo
Nêgo na fejuca envergando terno

O meu esôfago tava fechando
Sai dos trilhos, cheguei na panela
Foi quando vi que a carne de porco
Parecia esponja de lavar tigela

Em feijoada vegetariana
Tofu torresmo e tofú, tô mesmo
Eu nunca vi porco feito de soja
E minha fome continua a esmo

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

LAVRAS DA PALAVRA

 Gravura: Affirmation for 2010 by Yoko Ono

(Dedicado ao Poeta e Diretor de Teatro Paulo DePaula)

Escassos pêlos pubianos
navegam acorrentados a mirantes sem catamênios
que nem prisioneiros em barrancos metafísicos
sob noites curtas (sem) de sexo.

Ai! Esses mesmos pêlos-martelos
são os ditos que atraiçoam os nutritivos espermas
ornados com vidros baços,
moldes de branda luz
e ossos de finas rendas.

Por eles
O barco dos loucos navega na masturbação do olhar
e regurgita a ácida argúcia
de sempre acreditar
que a poesia de mim brilha mais
que a desnudada luz.

(Devoro a orquídea mas douro o cais
e de quando em vez deito o tesão
sobre o tecimento da lonjura...)

Ai! Respingamentos de tímidas poesias
são mais desprezáveis que os sangues da liberdade
posto que jamais se estancam em modelar poema nú
como estacam-se de brusco,
e cada mágoa pontiaguda fica imersa num cismar
onde os casacos da solidão e do frio estacam perante
o segredo de desacreditar que o céu
opera nas imundícies e nas sádicas palavras do desejo,
esse, porque mal gerado.

Palmo e palmo o destino a pino
que tece (poeticamente) o corrimento da gala
  mas gala que é gala se esgueira à maneira de urrar
depois palmo a palmo desdouro o orvalho cheio de limo,
e então a vida é lá fora,
vai escorrendo (caninamente) livre nas gretas
e espadas da fala, mas com certeza lá fora...

Vai escorrendo, leve e solta,
ao som de blues da picareta,
neste inverno, de nevoeiro musculoso,
onde o que se olha é uma gravidez de nada:
derradeiros cozimentos, musgos,
rosas galadas,
angústias que nunca se calam.

© Benny Franklin

A PALAVRA QUE RESTA

A PALAVRA QUE RESTA

num instante passa um ano
e (usando a pausa)
volvido esse tempo
estamos a ter um aniversário

trata-se duma pura verdade
e (procurando a forma)
para uma celebração
procuro do silêncio o som

esta voz da escrita do poema
e (tornando-o refrão)
obtenho do gesto
a gesta d’a palavra que resta

(a aventura da palavra
que fica e
temos estas que vindo
podemos colorir de poesia)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

que me perdoem
a falta de poesia
mas uma virose

tardia e judia

da metade inferior
do meu ser

e sendo esta
minha única
metade relevante

acabei fazendo
este poema

irritante

da cintura pra cima
intermitente
que me sobrou

e o pior:
usei até a mente
coisa
que nunca prestou.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

cinema mudo

o cinema rouba as minhas palavras
vem me deixando raro e bissexto
e nada posso fazer
mesmo a poesia sendo mais antiga
o cinema é presto, infinito e máquina

guardo a poesia como carta na manga
e o cinema como amigos na multidão
assim sendo
sempre escritor
morrendo com o vagar das minhas palavras.

Aviso (poema de Sylvia Beirute)
























AVISO

se tiver sintomas de poema, aguente,
não resgate o orgulho, guarde, quando falar
com os outros, uma distância
de, pelo menos, um metro,
fique em casa, não vá trabalhar, esqueça
rotinas graves, monólogos de rupturas,
a periferia de uma lição integral de intimidade,
não consulte o oráculo, des-
frequente-se a si mesmo, não vá à escola, evite
locais muito populosos e com densidades intrínsecas,
evite cumprimentar com abraços,
beijos, apertos de mão.
se tiver sintomas de poema, apenas informe
o silêncio, que ele saberá o que fazer:
esperará que o poema levante a cabeça
e o decapitará. sem uma palavra.

inédito

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

E tanto fez
que calo.
O silêncio da fala é deserto

Soluço entredentes
Calo o absurdo

Retina e paranóia.

Matinal

aurora que raia no quintal
tardeia matando o voo da noite
alçando o rumo lento
de um lamento matinal

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010



[ a DMC]


Amar as palavras que se pontificam.


Ser o som
a luz do sangue
a lonjura nítida.



mariagomes
16.out.06, 22h

Súplica

Que o desastre venha e arranque de mim o poema súbito
Que ele se imponha à minha vontade
Seja em sangue, ruína ou tormenta
E me aranhe a pele estagnada de fartura

Que venha o horror a me despertar deste sono sublime
Que ele se erga diante de mim
Sorrindo o riso dos loucos
E me arranque desta inércia de morte

sábado, 30 de janeiro de 2010

minha boa e velha coisa e tal


minha boa e velha coisa e tal
tia lúcia durante a última guerra

era capaz de dizer e dizia
aliás na cara exatamente
o quê se combatia e por

quê,
minha irmã

isabel produziu centenas
(mais
centenas) de meias sem falar de
camisas de tapa-ouvidos à prova de pulgas

coisa punhos e tal, minha
mãe torcia para que

eu morresse corajosa coisa
e talmente é claro meu pai ficava
rouco de tanto repetir que honra que
era e que se ele próprio ainda
pudesse entrementes eu

coisa e tal mesmo jazia calado
bem no fundo da coisa e

tal lama
(sonhando,
coisa
e tal, com
Teu sorriso
olhos joelhos e com tua Coisa e tal)



e.e. cummings

tradução: Nelson Archer

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A Outra Vida


Não espero outra vida, depois desta.
Se esta é má
Por que não bastará aos deuses, já,
A pena que sofri?
Se é boa a vida, deixará de o ser,
Repetida.



Cassiano Ricardo

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Eu e meu irmão

L'ENFER, C'EST LES AUTRES
JEAN-PAUL SARTRE


"Estou em todos os lugares ao mesmo tempo, com saudade de gente que não conheci e sozinho como sempre serei."

Despertar

O olhar vadio
vagou por toda a paisagem...
pediu passagem
e mergulhou no vazio.

Do olhar se esvaiu
a luz. E um manto
tépido cobriu
a miragem de pranto.

Um outro olhar
deu à luz
o que a luz traduz
mas não pode criar.

E, ao despertar,
vendo-se em outro olhar
soube, enfim, que existia.
"E foi-se a tarde, e a manhã do primeiro dia".

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Retalhos no porão


Van Gogh



Esperemos, pois, um novo século!...



..........................Seu nome será memorizado

..........................0 canto insano condecorado

..........................por violinos e violões equidistantes



Esperemos, pois, um novo século!...



..........................Sua dor medida será brava e desmedida

..........................a voz palatina

..........................efervescida pela hábil dançarina de cabaré



Esperemos, pois, um novo século!...



..........................Sua orelha, finalmente, será remendada

..........................a aquarela transfigurada

..........................à moda visionária de um artista rubro



Esperemos, pois, um novo século!...



..........................O funeral corteja a galope

..........................o viajante anteviu a primeira pá

..........................resta, enfim, costurar:

.........................(gente maldita e famigerada)

.........................- os velhos retalhos no porão!...



Esperemos, pois, um novo século!


O bar do China, da esquina...

São Paulo, 456 primaveras, 1000 povos, 1.000.000 de toneladas de lixo e chuva…Nesse poema, que dedico à minha cidade, que é nossa cidade, de todos “brazucas”, lido com uma cena redundante “pelaqui”...São tantos botecos de “chinas”, e outros tantos de tantos outros povos que aqui sobrevivem e dividem sua “cova grande pr’um defunto parco” ( João Cabral de Melo Neto, em “Morte e vida Severina”), com mais 20 milhões de almas (SP+Grande SP)...


No bar do China, lá na esquina
tem pastel de todo tipo :
“Cáni, quezo, pamitu”
Tem rango comercial
arroz, feijão, bife e coisa e tal
Entra toda gente
velho, pobre, rico, menina
nem todo mundo contente
só quem traga uma cana
acaba e finge sorridente...
la no bar do China...
Tem “sulasquino de flango”
bem temperado
tem bêbado capengando,
trabalhador mal humorado
tem tempurá, muito engordurado
Dono e dona, chinês
“Emplegado blazilelo”, “baiano”
as vezes pinta até boliviano
mas sempre tem freguês
Tem mesa onde come tudo junto
pode até ser mesa pra defunto
depois de uma briga parida
ou, vai ver, de bala perdida...
No bar do China, la na esquina
tem todo tipo de gente
tem pastel, petisco e aguardente
menino moço, irreverente
mini-saia de bonita menina,
lá na esquina...no bar do China !

domingo, 24 de janeiro de 2010

A casa


Dos homens que a ergueram

não restam sequer testemunhas:

um pó de memória que seca a garganta.


De como retiraram o barro das distâncias

e o emularam em célula não restou a sujeira

nas roupas ou o câncer que os consumiu.


De como em fornos cozinharam os miolos

e o caldo das montanhas, nada sobrou:

talvez uma ficha em arquivo de manicômio

ou uma cratera que junte água salobra.


De como chegavam a seus lares –

felizes por ainda terem os dentes na boca –

nada se sabe. Se há quem o recorde,

não há de dizer algo que valha.


De como suportavam as horas

– tendo um copo de lágrima e

um cão para lamber as feridas das mãos

– coisa alguma se relata:

ninguém anotou nada em lugar nenhum.


Por certo, os filhos dos que a ergueram

virão derrubá-la.


Disso, todos são testemunhas.



*

sábado, 23 de janeiro de 2010


ESTAÇÕES

Uma Ondina nasceu neste tanque e ninguém acredita.

Sol lavou todo pátio, minha tia decreta: é abril. Quase sempre, parece.
Dezembro esticado, janeiro perdido em janelas.
Fevereiro roubei suas flores você nem me viu.

Sou assim, meio março ou abril.

A Ondina me disse umas coisas você não me olha.

Nunca sei o que pensa.

Nem os peixes, a roda, o cavalo do tempo.

O seu corpo é de pedra, sua boca de água, sobre as folhas, a sombra. Sua boca que jorra o murmúrio de sempre.
Faz mal não, vivo assim neste abril.

Olho o tempo que passa.

Tudo mais é segredo.

Meias verdades



se te disser a verdade direi que minto
não pelo inegável prazer que há na mentira
mas por ser branca e suave a taça que a vira
enquanto a verdade é vinho seco e tinto

se minha boca suporta dizê-la inteira
eu creio que a tua não tolera prová-la
não é todo segredo que cabe na fala
as uvas mais acres que fiquem na videira

brinda comigo sem receio ou amargura
que te direi ao meio essa verdade escura
há detalhes que se devem silenciar

as palavras por mim muito bem escolhidas
serão as mais doces dessas uvas colhidas
pra que não as desaprove teu paladar


Renata de Aragão Lopes

Soneto publicado em 15 de janeiro no doce de lira.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Noites de ausência

Claro que é possível ser feliz sozinha!
Mas não precisava existir noite de sexta-feira
Nem devia haver madrugadas
Quando a vida se mergulha em saudade.

A noite avança vagarosamente,
O silêncio é cúmplice do pensamento,
Pensar acorda fantasmas do passado.
Em noites vazias como esta,
A melancolia invade o coração
E tudo se preenche de ausência.

É como estar lindamente vestida
E entrar em um salão para festa
De que somos convidadas.
A orquestra toca a música predileta,
Mas todos já foram embora.
Estamos enfeitadas, o lugar é belo,
Ainda existe melodia, mas não há
Quem tenha permanecido à nossa espera.

Perdemos a festa
E só nos resta voltar às relembranças,
Tirar a roupa que fantasiou a felicidade,
Desfazer a maquilagem que desenhou um sorriso,
E adormecer sonhos, esperas e ilusões.

Quando acorda, no dia seguinte,
A gente não sabe se viveu ou se sonhou.
Apenas sente que o vazio não se preencheu.

Vera Pinheiro

Procura

Violoncelo
entoa no tempo
o erudito
o meu tempo
agora

Voo espaços de mim
visito Deus na memória
translúcido se torna meu sentimento

Me perco
cochilo no sofá
e o poema retoma o som
violoncelo
pausa

Queria levar-me à dor
gritei por dentro

Poema
meu poema
não me abandones
a Gaia revolta
os meus irmãos se vão

Respiro
ainda seguro em ti
poema meu

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

parênteses

(cena de cinema
foto de jornal
outdoor estampado na avenida central
a chuva bate no asfalto
a fila dos táxis
as cores do dia
os relógios digitais do check - in
os faróis pintados de verde
as luas descoloridas
os sons abafados das vozes no saguão
os policiais e os cães
o transito de exageros
a imobilidade da vida
na romaria dos insanos).

Sou

Sou a cabeça
encostada na parede

Sou os braços
cruzados em cima do sofá

Sou as pernas
embaixo do chuveiro

Sou o fio de cabelo
no travesseiro quente

Sou a boca
dentro da geladeira

Sou os dedos
que dançam no piano

Sou os pedaços
que engolem espaços

Soltos no ar

Sou a promessa
escrita na mesa

Sou o diálogo
antes de dormir

Sou o que já fui
mas também ou que vou ser

Sou pela metade
do caminho

Sou a desconstrução.


Julia Duarte.