sexta-feira, 24 de abril de 2015

23 h 56 min e 4,09 seg


para Érico Baymma
1
dias ruins
por coisas pequenas
quase-nada
pingo no i na letra errada
tropeço no cadarço desamarrado

dias ruins
por grandes problemas
estouro de boiada
um caminhão entalado bloqueando a paisagem
azia no banqueta das musas

dias ruins
por bobagens corriqueiras
coisas banais
azar no jogo
– dardo, RPG, carta –
ter que repetir a frase
(quando não se disse nada)

2
dias bons
por coisas pequenas
ou por nada
um sorriso (alado)
um pássaro pousado no retrovisor do carro

(ou por qualquer coisa fugaz rápida
como a queda de um meteorito
o bote de uma naja)

dias bons
por coisas grandiosas
que tomaram tempo
& cansaram o espelho
que consumiram a tinta do calendário

dias bons
por coisas improváveis inesperadas imprevistas:
encontrar um novo amor
ao pegar o caminho errado

(ficar perdido
até ter que mudar de casa)




do livro Poemas é um péssimo título

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Bambaleante

Arranha minha pele
Revira meu ouvido

Jura que sou
Seu amor bandido

Quando ela me toca
Sou como artista

Ando na corda
Sem rede
De equilibrista

terça-feira, 24 de março de 2015

Cidade dos sonhos


Antes do amanhecer
estarão tomando a praça central.

A imensa cavalaria
sedenta pelos jardins,

arqueiros posicionados
no alto das colinas,

a infantaria
dinamitando as pontes.

Pé ante pé, rua a rua,
as posições sendo tomadas.

No entanto,
antes que declarem o seu triunfo,

um golpe decisivo dissolve o inimigo.
Abro os olhos: acordar basta.

2
Um dia a guerra estará perdida
e o povo daquela cidade,
que só existe em meus sonhos,
ficará entregue a própria sorte.

Um dia, quando eu não acordar mais,
a cidade se extinguirá
com todos que por lá transitam,
ou eles migrarão para outros sonhos?

Quem sabe, enfim,
esse seja o dia em que terei que defendê-la
de corpo presente, com as próprias mãos...

3

Saberei eu no sonho de quem?



do livro Poemas é um péssimo título

sexta-feira, 6 de março de 2015

Poema do Não

Poesia não põe comida na mesa
Não paga as contas
Não serve pra nada

Por isso
Não dá pra viver sem ela

segunda-feira, 2 de março de 2015

SIDERALIDADES

        
                 (Matinê)

Vem do céu de novo o meu espanto,
não somente pelo seu furta-cor
desse sol contra as nuvens em branco
− agora rochas de tons de marrons
de toda a sorte, claros ou âmbares,
ocres ou quase amarelos fortes.
Tem nome tamanha exuberância
desde o meu sul até o meu norte?
Desce pela tarde um raro cinza
suave que derrama seu clamor
para que este amor, quase morno,
vire verso. E mire poesia.
E quantas cores sem nome eu vejo
no céu do poema que eu desejo.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Legados

Com meu pai aprendi a fazer troça
Pra tornar a viagem engraçada

Ele despertou, em mim, o sentimento pela música

De minha mãe veio o prazer pelos doces, livros
Ela me ensinou a nadar
A respeitar, mas não temer os rios, o mar

De nenhum dos dois herdei a loucura
Esta é, somente, minha

Nasce da caravana das horas



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Aforismo VIII

Desinteligência :

A desinteligência é diretamente proporcional à ostentação

Haicai

Neste novo ano
Banze-me
Com teus fartos pubianos

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Memória

Nunca te esquecerei,
diz o amante ao objeto amado
ou os amigos que se separam
ou a mãe ao filho que parte
(uma viagem, a morte,
a roda do acaso)

E ficam nebulosos,
transportando a ideia
(única forma de não olvidar),
até que chegue o momento
de serem esquecidos –


ou transportados.





*

sábado, 6 de dezembro de 2014

Timidez dos falantes

Me diz
Dos atributos
Que Vulcano te deu

No meu ouvido
Fala mansinho
Sobre o presente do Deus

Da tua pele, a textura
Qual a cor que desponta
Dos recatos das tuas matas
Me conta

Das tuas enseadas, grutas e ilhas
Me diz

Arrepios, sulcos
Areias
Susssurra pra esse párvulo aprendiz
Dos teus desejos na esteira

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

POUCO A POUCO



As pálpebras da tarde

− em raro escarlate −

sucumbiram ao peso

e ao desassossego

 

febril do breu da noite

que veloz e audaz

apaga horizontes

e cega astrolábios.

 

O nanquim que tingiu

o céu não dividiu

a escuridão plena

da dor que representa

 

esta tua ausência,

esta sede sedenta,

esta cor modorrenta,

esta peste endêmica

 

e que sem dó desdenha

da minha morte. Lenta.
 
 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Homem banda

Um clarão nas trevas
O artista de rua

Louco inocente
Inocente louco
A escolha é sua

A batalha pela grana honesta

Merece um teatro lotado
Por tornar o dia suportável aos passantes

Parece uma formação de coral no mar morto
Um oásis, onde bebe a estúpida
Insossa cáfila

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Elas herdarão o reino dos céus


crianças
algumas ainda muito pequenas
sem saber o que escrever
desenham corações
& flores
nas bombas
que matarão outras crianças







*

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Tira mi sù

Eu tinha fome de salgados
Vontade de temperos

Até lhe avistar
Estavam fora dos meus planos
Os exageros

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

LIVRE


Se estou dentro de você,
estou em outra dimensão,
estou com o olhar de Zeus:
imenso na imensidão.

E tenho uma liberdade 
de gozar uma liberdade 
inversa, pois só se liberta 
no pomar fundo dos teus cachos.

O voo, com você entendo,
mais alto sempre vem de dentro.
 
 

sábado, 6 de setembro de 2014

Instinto

Vejo todos os pubs do mundo
Um barman competente
Na íris, um flash a cada segundo
Moréias, piranhas, serpentes

Canalhas a granel
Uma noiva
Hordas de cafajestes

No Olimpo do lugar pressinto blues
Uma deusa morena à meia-luz
O melhor antídoto contra a peste


domingo, 24 de agosto de 2014

Processos Mnemônicos



Para não esquecer:
é um poema
não como um poema de Shakespeare
algo menos formal, mais raso
tampouco inferior em ferir o tato
incomodar, mover, tirar do lugar
– às vezes um passo basta

Para não esquecer:
é um poema sobre um homem
não o canalha da capa do pasquim
boçal, babando sobre a bandeira
por certo, um homem que não existe
se existe, existe somente nesse poema
– e isso basta

Para não esquecer:
todas as estrofes abrem com a mesma sentença
(como em um poema de Lorca)
e uma palavra, uma palavra, uma palavra
as encerra, sem ponto final:
serão mesmo a mesma palavra
ou apenas fingem que são?

Para não esquecer

– isso basta

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

FEITIO



as palavras pularam sem dizer mais nada
era apenas mais um dia que se abria
não havia código a decifrar
nada.

desembrulhamos as dores escondidas
um sorriso
minha mão escorregando e trazendo estrelas - onde antes fazia cócegas
outros sorrisos sumiram diante do brilho dos olhares de silêncios perturbadores.

sim, sim, sim
há sinais
na vida
no inimaginável pQ das manhãs, das manhas e das coisas de ser...


[CléberCamargoRodrigues]

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Desjejum

Vagamos pelos bairros
Súditos dos desejos

Seremos uma sombra de dois corpos
Por acaso

No sol da manhã

Fotografia, julho de 2014

segunda-feira, 28 de julho de 2014

July Friend


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Exercício de semântica


Uma calda espessa escorre
apagando a paisagem
o estranho molho molha
a cauda do camundongo
a fachada da sede do AA
a sede do camelo no Saara
a estampa do tecido do tudo
até que não sobre nada sobre nada

Faço um acordo com os deuses do sono

e acordo

domingo, 6 de julho de 2014

A dança

Veste verde-mármore
A negra tez
Quando se enfeita de dourado

Minha razão rouba, de vez,
Se me convida ao tablado


Fotografia, julho de 2014

Inverno

Você     Lã

Eu        novelo

quarta-feira, 2 de julho de 2014

TATUAGENS


Morar no teu pensamento
é feito colher uma flor
num deserto sem fim.
Não importa se sim
não importa se não...
Este amor aqui ultrapassa
as respostas do homem:
e só há sins no meu horizonte,
porque, contigo, todos os ontens
são eternos. E gritam o teu nome.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Oceano



Tudo é efêmero diante do mar
navegadores, sereias, tritões
o encanto dos celacantos
a cor dos corais        

Nada dura diante de suas dunas
grandes impérios, conquistadores
A memória não sabe nadar
sofre de enjoo, é presa fácil
em tempo de tempestade

Só pra nos lembrar
(que tudo é efêmero diante do mar)
o mar  o mar o mar
sobe as encostas
encharcando as nuvens

alterando a geografia do ar