quinta-feira, 24 de julho de 2014

Exercício de semântica


Uma calda espessa escorre
apagando a paisagem
o estranho molho molha
a cauda do camundongo
a fachada da sede do AA
a sede do camelo no Saara
a estampa do tecido do tudo
até que não sobre nada sobre nada

Faço um acordo com os deuses do sono

e acordo

domingo, 6 de julho de 2014

A dança

Veste verde-mármore
A negra tez
Quando se enfeita de dourado

Minha razão rouba, de vez,
Se me convida ao tablado


Fotografia, julho de 2014

Inverno

Você     Lã

Eu        novelo

quarta-feira, 2 de julho de 2014

TATUAGENS


Morar no teu pensamento
é feito colher uma flor
num deserto sem fim.
Não importa se sim
não importa se não...
Este amor aqui ultrapassa
as respostas do homem:
e só há sins no meu horizonte,
porque, contigo, todos os ontens
são eternos. E gritam o teu nome.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Oceano



Tudo é efêmero diante do mar
navegadores, sereias, tritões
o encanto dos celacantos
a cor dos corais        

Nada dura diante de suas dunas
grandes impérios, conquistadores
A memória não sabe nadar
sofre de enjoo, é presa fácil
em tempo de tempestade

Só pra nos lembrar
(que tudo é efêmero diante do mar)
o mar  o mar o mar
sobe as encostas
encharcando as nuvens

alterando a geografia do ar

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Como a leveza do branco

Que ela me mata, suavemente
Confessei

Perguntou-me o porquê
Eu desejaria não ter respondido

Há coisas inexplicáveis
Como a instantaneidade dos acasos
Como o universo sem verso
Como a perfeição daquilo que o homem julga imperfeito
Como a relatividade da beleza

Como os caminhos de renda em seu vestido
Como o nada que se abriga na poesia

sábado, 24 de maio de 2014

Dois Poemas Um poema



1
Eu digo NÃO!
estar de acordo é acovardar
doença do caráter, falta de decoro:
é preciso ser obstinado em desobedecer

Aceitar tudo, calado
só para os que venderam a alma $
ou esqueceram o cérebro em casa –
levados aos montes pela correnteza
rio acima, rio abaixo
como cardume de peixes adestrados

Eu digo não e reconheço meus inimigos
ao vê-los gritarem SIM!, pelas praças!

2
Eu digo SIM!
Tudo que caminha, caminha para um fim
dos escombros da velha cidade
uma nova cidade
onde o povo ri duas vezes mais alto

As coisas estão aí para serem mudadas
the times they are a-changin

Regresso só para os amantes
que se frustraram
dando com a cara na murada
e os peregrinos exaustos da viagem

Eu digo sim!
e reconheço os meus inimigos

ao vê-los pintarem NÃO!, nas fachadas!

terça-feira, 6 de maio de 2014

...Acho que era poesia

Quando a cigana leu a palma da minha mão
Eu não quis saber do que se tratava

Só percebi que ela sorria...

Teatro para demônios coloridos

Sobrevoa o bairro minh'alma cigana
Ele arrebata um pedaço da história

Nas matinês de domingo
Movido pelos sonhos
Eu o visitei, andarilho que fui

Meu corpo aqui está
No sul
No extremo do longe

Para sossegar meus demônios, oferto-lhes as aquarelas
Que se lambuzem de cores
Que se fundam às dançarinas

Até que a orgia escancare as portas da aurora
Tenho a derramar tanto teatro sobre meus porões...






sexta-feira, 25 de abril de 2014

Calvário

 









Mesmo se, numa remota possibilidade,
não tivesse existido o Cristo Jesus,
não importaria mais, esta iniquidade,
pois o sofrimento que se fez e deduz
a um corpo mutilado, auferido ao estigma,
nos intriga ainda mais ao dulcíssimo enigma,
de um ser de luz, que a todos conduz
ter-se dado ao calabouço da vida
numa ação por si mesmo, pré concebida,
de padecer e morrer pela humanidade
pregado à nossa eterna cruz...

terça-feira, 8 de abril de 2014

SEM TÍTULO NEM FREIO

mandei florescer a flor
perdi a rima
raspei o tacho
pesei na pausa
passei no passeio do passado.

no fim da madrugada que desagua na manhã de meus dias
preguei os olhos
olhei os pregos pregados
barco à vela - suor à deriva
nau sem rumo
arrumo assuntos
assumo prumos.

enquanto a vida se derrama em ramos 
no barro branco da beirada do barranco
o berrante berra na boca do boiadeiro, 
mas o boi apenas olha a vaca lamber o capim cheiroso.

penso na vida sem mim
penso, insisto, resisto
visto a cara lambida de pura e instigante traquinagem

deixo escorrer sorrisos sem freios...

[Cléber Camargo Rodrigues]

domingo, 6 de abril de 2014

Panaceia

Não sou o vermelho que tu vestes
Nem a praia, onde esparramam-se    -- em ondas--  teus cabelos

Não sou as curvas que o sangue faz, pra acompanhar tua silhueta
Nem tua voz de sexta-feira, ou o beijo   --pseudo roubado --  que está por nascer

Não sou o desejo, que tu negas   -- durante o dia --  para manter as aparências
Nem a insônia, que vem cobrar de ti a conta na madrugada

Porque, quem é mesmo
Não diz

sexta-feira, 28 de março de 2014

fiufiu

Passaro

 musica do féloche

sábado, 8 de março de 2014

CARTA A UMA AMIGA INSONE

Moça da cor dos sorrisos secretos!
Como a gente brincava, quando crianças: “Oi!!!” - [oi é boi que já foi, uai...]
Nalgumas vezes a insônia tem sido minha companheira também, com uma constância desnecessária pra meu gosto. É uma coisa de gosto muito duvidoso este trem de ficar acordado contando carneirinhos. Não gosto. Não conto carneirinhos e pronto.
Acho as madrugadas sem sono muito cruéis pra quem perdeu uma série de hábitos e que, com o passar dos anos, perde também um pouco da paciência entrelaçada com umas fatias de esperança, no aprumar dos rumos que a vida espreita diariamente.
Quando o sono não vem, a cabeça vai. Fervilham ideias e dramas, sonhos e medos, esperanças nuas e tristezas paralisantes. Na necessidade, na oportunidade de mais uma manhã que se apresenta, saúdo a vida que renasce nas madrugadas dos ombros cansados – na solidão das horas que fazem o relógio dos sentidos.
Existem as melhores madrugadas quando rir é pros fracos. Existem as melhores madrugadas onde gargalhar é a senha que avista o silêncio que habita no olhar do teto e das paredes brancas da sala de amar.
A falta de sono, confesso, coloca os ânimos no ‘'talo da goiaba' – cansa. Confesso que ainda tenho a utopia como companheira mais próxima e alegre. Não estou falando de namorada e da pele da musa amada.
Falo da sorte de estar e ser, do momento em que minha emoção sobrevive. Falo de passar os elefantes nos buracos das fechaduras, sempre, desde sempre. Falo da entortamento de nossas realidades.
Falo de 'contrariar as estatísticas', do pare ou siga. Falo de sinais vermelhos e verdes.  Falo de sorrir sem medos. Falo da esperança sóbria que nos impõe limites às viagens na maionese, mas não nos impede de sonhar com outras cócegas em nossas almas simples.
Falo das almas nuas que carregam toda a garra e vontade de conquistar o melhor dos mundos, mesmo sabendo que tudo tem sua hora.
Não deves sentar e esperar que aos teus pés venham as soluções da vida e os pagamentos de tuas contas e desejos.
Deves lutar a cada dia, como lutam os guerreiros e seus amores. Deves ousar nos voos e ter a ousadia dos pousos. É do nascedouro da vida a ebulição de sentimentos que consomem nossa calma. É também do nascedouro da vida, constantemente, voltar os olhos pra nossos sonhos e fazer cócegas em nossos corações e almas...
Desejo que a ansiedade natural dos que sonham demais nestes tempos modernos dê lugar à mais serena tradução da mulher que encanta meus olhos e olhares.
Desejo que a fé inarredável seja sua companhia mais frequente quando você assumir as limitações do que pode e consegue mudar em sua sina, em seu caminho de vida – que não faltem, que nunca faltem forças e armas para lutar ‘armada’ de amor até os dentes – que você siga amando de seu coração.
Que você siga amando, sempre...
As madrugadas são pequenos e simples detalhes de nossos dias. A vida é quase tudo, meu bem. A vida. As nossas vidas...
Deixo um abraço, um beijo e um pedaço de queijo minas de São Gonçalo do Rio abaixo).


[Cléber Camargo Rodrigues

quinta-feira, 6 de março de 2014

Folguedos

Lúdica
Em prosa e verso
À noite, na própria seiva
Ela folga

Insone, úmida
Até de manhãzinha
Verte em mim

Abre-se a valva em carmim
Rega-me e aos buliçosos dedos
Unge-me a pele a lava

Dá a vida a dádiva
Ao jardim de minha mão


sábado, 8 de fevereiro de 2014

"ENQUANTO A CHAMA ARDER"

parece que foi ontem | e eu | aqui, neste canto da sala | pensando no que há de ser e acontecer na esquina do futuro. | daqui há não sei quantos vinte anos | que vento | que prosa | que pressa | que rosas espalharão perfume sobre teu cheiro? | que sal salvará o sabor de teu tempero? | pele mansa | suor escorrendo em gotas e magias. | ah! | eu colocarei minha mão no teu ombro | olharei dentro de teus olhos - como fiz na primeira vez | quando olhei bem dentro de tua alma | alisarei com calma cada pedacinho de tua face. | não guardarei sorrisos imprecisos | não esquentarei murmúrios - também | eu não sei medir o tamanho de uma saudade de verdade... [CléberCamargoRodrigues]

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Buda

Se a filosofia oriental
Diz que a pessoa só é feliz
Quando cessa o desejo

Sou um ser humano infeliz
Quando te vejo


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Genealogia

Para Eduardo Martins Nolli Duarte
As raízes

1
Descendo de uma linhagem de homens que eram
chamados pelo nome do rio mais próximo
ou tomavam de empréstimo o nome de alguma árvore. 
Como ela, mantinham-se íntegros,
anônimo pelos séculos
sem registrar os seus frutos em cartório
sem adoçá-los com aspartame
enfeitá-los com códigos de barra
& impor tarifas de exportação.

Mas vieram aqueles que nos batizaram
             com as águas de um rio da Judéia;
mais tarde, com  água mineral, engarrafada,
que não era de lugar nenhum:
brotava do seio de uma máquina que subjugava o solo
esvaziando o conteúdo que ele escondia
para os homens que ainda estavam inexistidos –
fervilhando nos rugidos das onças
              no assovio do vento.

Nada mais dizia respeito às nossas raízes.
Quando gritávamos por nossos irmãos
os inimigos
que nos massacrava, violentava,
respondiam de prontidão.

éramos donos dos mesmos nomes
o sangue na mão compartilhado nos
cumprimentos matinais.

2
Eu estava entre os portugueses
em suas fileiras de caravelas:
ensinei aos índios o beijo que apodrecia a boca
& que corroia os dentes
o abraço que desfigurava as carnes
(que deixa em rubor toda a técnica
 homicida hoje empregada)
eu trazia cínico,
em nome de Deus e da Rainha.

Mas era pouco a varíola e a gripe.
Matar os peixes dos riachos
transformando sua água em sangue,
cobrindo os leitos com cadáveres, era pouco.

Pouco foi a chuva futura
            que derretia a calha das casas
e envenenava as crianças –
             que insistiam que a felicidade
poderia estar na rua, que não era de ninguém.

Mas era. O nome na placa indicava.

3
Descendo de mulheres
que compactuavam com as ramas
                        o segredo da cura.
Sabiam extrair da menor partícula da mata
a verdade sobre o todo.

Contemplaram um dia, na face da água,
uma terra desolada que não prestava
sequer para enterrar o cadáver dos chacais
o filho de seus ventres esterilizando o chão
            com o toque dos pés.

Porém, antes que pudessem fazer algo,
havia sido decretada a era do estupro.

4
Tampouco deixei de ser contemplado
quando da expropriação das terras
que passaram a ser nossa
desde que nos fosse possível assassinar
cada um dos que nela viviam:

insolentes & preguiçosos homens
que não haviam inventado a guerra
e viviam apenas do que precisavam.

E assassinar nunca fora problema
para quem tinha na pólvora o poder
& na cruz o álibi.

5
Um selvagem impressionado
o homem de quem descendo
tremendo ao ver a ponte
que atravessava o Rio Apurimac.

Um bárbaro, meu predecessor,
que acreditou que a bacia amazônica
era formada por rios de ouro

(pouco antes temera o oceano
que escondia monstros sublimes &
era salgado pelas lágrimas dos náufragos).

Margareth Tacher agradece.

6
Descendo de uma linhagem de homens escuros como o asfalto, velozes como os carros: homens que foram assassinados em suas pátrias e trazidos para cá, para comerem a areia da praia e se tornarem donos de dores não-catalogadas.

Os que ficaram pelo caminho foram estraçalhados pelas lâminas dos corais, viajaram pelo intestino de tubarões, sedimentaram seus sonhos junto ao assoalho encharcado do mar.

Foram lançados de navios como carne podre: mulheres, homens, crianças, reis, heróis entregues ao dorso suado do oceano e suas milhares de garras.

Para futuro semelhante foram arrastados os que a travessia preservou:
– para cultivar os bigodes dos coronéis
– para manterem impecável a fazenda das mocinhas
– para financiar os estudos em Paris ou Coimbra
de vagabundos jovens advogados.

A língua que colocaram em suas bocas não podia ser entendida pelos seus deuses, enfurnado no alto-demais das nuvens – pululavam jesuítas com seu livro que pesava uma tonelada.


Aqui ficaram sozinhos os homens de quem descendo: a solidão que havia era a mesma de todo lugar – eles apenas a aperfeiçoaram.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

ABRE-TE, SÉSAMO

floresça!...
abra-te em sorrisos
quando a manhã sussurrar loucamente em teus sentidos...

[CléberCamargoRordrigues]

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Colibri

Beba-me
Porque sou água

Cheira-me
Porque sou mato

Cuida-me
Porque sou ar

Cura-te
Porque sou peste

Suga-me
Porque sou flor

Lambuzo-me
Porque és  mel

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Iminente

“Quando a vista ficar confundida, e a lua se eclipsar,
e o sol e a lua se unirem, nesse dia o homem gritará:
para onde é que se pode fugir? Oh, não haverá refúgio!”
Surata 75
 
Nos tempos de minha infância alimentava, à noite, uma náusea sem nome. Achava em silêncio – não havia palavras suficientes guardadas em mim para desfraldar esse sentimento – que algo de inevitável estava próximo de se consolidar.
            Algo ruim.
 
Não sabia dizer se achava que o escuro do quarto iria espalhar-se sobre o mundo e derramar seu pavor rastejante sobre as coisas coloridas da vida.
 Nem se seria escuro esse caos.
 
Não sabia dizer se esse fim estava sendo urgido numa sala celeste, onde os deuses discutiam com seus investidores um modo viável de esvaziar o conteúdo do cálice e por fim à criação.
Tampouco sabia se os deuses teriam algo a ver com isso.
 
Não sabia dizer se esse desconforto – que me parecia em avançado estágio de consolidação – viajava sentado na cauda de algum meteoro lançado a milhões de anos,
impelido a cruzar o universo para nos abalroar como se fôssemos um navio de H. Mellvile.
 
Não sabia, sentado em meu medo infantil, o que seria essa certeza perversa, tão nítida no apelo  das árvores. O que seria esse conhecimento explícito em mim como um amor inflamado? O que seria essa dor que vinha escondido no prato de comida e tirava o apetite? Que vinha entrelaçado na fala dos desenhos animados e enfartava o riso? Onde brotava, num peito pequeno de menino, uma água tão escura? Quando ela rompera o tecido e começara a escorrer pelo corpo
 
Fôra antes de me ver refletido mais vezes
em fundos de privadas do que em espelhos?
 
Antes de Rimbaud me seduzir para a venda
como escravo sexual aos asseclas do rei de Choa?
 
Fôra antes de cantar a Internacional, as quartas,
ao lado de pederastas, alcoólatras, poetas e açougueiros
 
que ainda acreditavam em Deus aos domingos?
 
Quando compreendi que não era o que se escondia no guarda-roupa que me causava aquele mal, mas a certeza de que o mundo – não apenas eu e as minhas fraquezas – acabaria?

Então aguardei a sua consolidação em noites de trovões, em dias de discussão adulta             – que traçavam o rumo de suas vidas conjugais e a permanência do eu no limiar das coisas alegres
 
Então o aguardei impregnando-o de imagens retiradas dos livros de gravuras. Na fala da gente humilde, sempre a rever na cozinha seus temores e suas certezas catastróficas,
complementei minha visão tingindo-a de sangue humano – substituindo árvores tombadas por homens tombados.
 
Não via no rosto das pessoas esse medo que me tirava o sono. Não via em seus gestos de prazer uma tentativa reconfortante de aproveitamento imediato – o fim estava próximo, algo me dizia em forma de pânico pediátrico
 
 – e haveria mortes,
talvez fogo nas ruas e no cabelo das mulheres
 
– e haveria dor no coração
e nos braços ensangüentados das enfermeiras.
 
Não via em seus gestos de ódio uma revolta consciente,
um ato de reprovação:

o fim do mundo talvez caminhasse nas ruas
escolhendo a dedo uma forma de melhor efetuar a
sua desgraça
 
– e haveria confusão:
talvez mães chorando crianças despedaçadas,
e haveria desespero nos olhos do menino sem mãe para
                                                                      consolá-lo.
 
Não via no choro das mulheres – tão evidentes – nem na lágrima seca que rolava quando as crianças não estavam um choro ou uma lágrima a respeito da verdade que a todo instante me redimia a um único pensamento. Talvez o fim já houvesse sido deflagrado: lento e preciso, se espalhando pelo ar, como a sombra de uma nuvem envenenada, apodrecendo sobre as cidades.
Nada se avistava no tempo, ou nas ruas.
Aguardar, essa era a palavra de ordem.
  
 *

“E para cada dia bastará apenas o seu mal”

Mateus 6:25-34