terça-feira, 24 de março de 2015

Cidade dos sonhos


Antes do amanhecer
estarão tomando a praça central.

A imensa cavalaria
sedenta pelos jardins,

arqueiros posicionados
no alto das colinas,

a infantaria
dinamitando as pontes.

Pé ante pé, rua a rua,
as posições sendo tomadas.

No entanto,
antes que declarem o seu triunfo,

um golpe decisivo dissolve o inimigo.
Abro os olhos: acordar basta.

2
Um dia a guerra estará perdida
e o povo daquela cidade,
que só existe em meus sonhos,
ficará entregue a própria sorte.

Um dia, quando eu não acordar mais,
a cidade se extinguirá
com todos que por lá transitam,
ou eles migrarão para outros sonhos?

Quem sabe, enfim,
esse seja o dia em que terei que defendê-la
de corpo presente, com as próprias mãos...

3

Saberei eu no sonho de quem?



do livro Poemas é um péssimo título

sexta-feira, 6 de março de 2015

Poema do Não

Poesia não põe comida na mesa
Não paga as contas
Não serve pra nada

Por isso
Não dá pra viver sem ela

segunda-feira, 2 de março de 2015

SIDERALIDADES

        
                 (Matinê)

Vem do céu de novo o meu espanto,
não somente pelo seu furta-cor
desse sol contra as nuvens em branco
− agora rochas de tons de marrons
de toda a sorte, claros ou âmbares,
ocres ou quase amarelos fortes.
Tem nome tamanha exuberância
desde o meu sul até o meu norte?
Desce pela tarde um raro cinza
suave que derrama seu clamor
para que este amor, quase morno,
vire verso. E mire poesia.
E quantas cores sem nome eu vejo
no céu do poema que eu desejo.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Legados

Com meu pai aprendi a fazer troça
Pra tornar a viagem engraçada

Ele despertou, em mim, o sentimento pela música

De minha mãe veio o prazer pelos doces, livros
Ela me ensinou a nadar
A respeitar, mas não temer os rios, o mar

De nenhum dos dois herdei a loucura
Esta é, somente, minha

Nasce da caravana das horas



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Aforismo VIII

Desinteligência :

A desinteligência é diretamente proporcional à ostentação

Haicai

Neste novo ano
Banze-me
Com teus fartos pubianos

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Memória

Nunca te esquecerei,
diz o amante ao objeto amado
ou os amigos que se separam
ou a mãe ao filho que parte
(uma viagem, a morte,
a roda do acaso)

E ficam nebulosos,
transportando a ideia
(única forma de não olvidar),
até que chegue o momento
de serem esquecidos –


ou transportados.





*

sábado, 6 de dezembro de 2014

Timidez dos falantes

Me diz
Dos atributos
Que Vulcano te deu

No meu ouvido
Fala mansinho
Sobre o presente do Deus

Da tua pele, a textura
Qual a cor que desponta
Dos recatos das tuas matas
Me conta

Das tuas enseadas, grutas e ilhas
Me diz

Arrepios, sulcos
Areias
Susssurra pra esse párvulo aprendiz
Dos teus desejos na esteira

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

POUCO A POUCO



As pálpebras da tarde

− em raro escarlate −

sucumbiram ao peso

e ao desassossego

 

febril do breu da noite

que veloz e audaz

apaga horizontes

e cega astrolábios.

 

O nanquim que tingiu

o céu não dividiu

a escuridão plena

da dor que representa

 

esta tua ausência,

esta sede sedenta,

esta cor modorrenta,

esta peste endêmica

 

e que sem dó desdenha

da minha morte. Lenta.
 
 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Homem banda

Um clarão nas trevas
O artista de rua

Louco inocente
Inocente louco
A escolha é sua

A batalha pela grana honesta

Merece um teatro lotado
Por tornar o dia suportável aos passantes

Parece uma formação de coral no mar morto
Um oásis, onde bebe a estúpida
Insossa cáfila

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Elas herdarão o reino dos céus


crianças
algumas ainda muito pequenas
sem saber o que escrever
desenham corações
& flores
nas bombas
que matarão outras crianças







*

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Tira mi sù

Eu tinha fome de salgados
Vontade de temperos

Até lhe avistar
Estavam fora dos meus planos
Os exageros

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

LIVRE


Se estou dentro de você,
estou em outra dimensão,
estou com o olhar de Zeus:
imenso na imensidão.

E tenho uma liberdade 
de gozar uma liberdade 
inversa, pois só se liberta 
no pomar fundo dos teus cachos.

O voo, com você entendo,
mais alto sempre vem de dentro.
 
 

sábado, 6 de setembro de 2014

Instinto

Vejo todos os pubs do mundo
Um barman competente
Na íris, um flash a cada segundo
Moréias, piranhas, serpentes

Canalhas a granel
Uma noiva
Hordas de cafajestes

No Olimpo do lugar pressinto blues
Uma deusa morena à meia-luz
O melhor antídoto contra a peste


domingo, 24 de agosto de 2014

Processos Mnemônicos



Para não esquecer:
é um poema
não como um poema de Shakespeare
algo menos formal, mais raso
tampouco inferior em ferir o tato
incomodar, mover, tirar do lugar
– às vezes um passo basta

Para não esquecer:
é um poema sobre um homem
não o canalha da capa do pasquim
boçal, babando sobre a bandeira
por certo, um homem que não existe
se existe, existe somente nesse poema
– e isso basta

Para não esquecer:
todas as estrofes abrem com a mesma sentença
(como em um poema de Lorca)
e uma palavra, uma palavra, uma palavra
as encerra, sem ponto final:
serão mesmo a mesma palavra
ou apenas fingem que são?

Para não esquecer

– isso basta

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

FEITIO



as palavras pularam sem dizer mais nada
era apenas mais um dia que se abria
não havia código a decifrar
nada.

desembrulhamos as dores escondidas
um sorriso
minha mão escorregando e trazendo estrelas - onde antes fazia cócegas
outros sorrisos sumiram diante do brilho dos olhares de silêncios perturbadores.

sim, sim, sim
há sinais
na vida
no inimaginável pQ das manhãs, das manhas e das coisas de ser...


[CléberCamargoRodrigues]

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Desjejum

Vagamos pelos bairros
Súditos dos desejos

Seremos uma sombra de dois corpos
Por acaso

No sol da manhã

Fotografia, julho de 2014

segunda-feira, 28 de julho de 2014

July Friend


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Exercício de semântica


Uma calda espessa escorre
apagando a paisagem
o estranho molho molha
a cauda do camundongo
a fachada da sede do AA
a sede do camelo no Saara
a estampa do tecido do tudo
até que não sobre nada sobre nada

Faço um acordo com os deuses do sono

e acordo

domingo, 6 de julho de 2014

A dança

Veste verde-mármore
A negra tez
Quando se enfeita de dourado

Minha razão rouba, de vez,
Se me convida ao tablado


Fotografia, julho de 2014

Inverno

Você     Lã

Eu        novelo

quarta-feira, 2 de julho de 2014

TATUAGENS


Morar no teu pensamento
é feito colher uma flor
num deserto sem fim.
Não importa se sim
não importa se não...
Este amor aqui ultrapassa
as respostas do homem:
e só há sins no meu horizonte,
porque, contigo, todos os ontens
são eternos. E gritam o teu nome.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Oceano



Tudo é efêmero diante do mar
navegadores, sereias, tritões
o encanto dos celacantos
a cor dos corais        

Nada dura diante de suas dunas
grandes impérios, conquistadores
A memória não sabe nadar
sofre de enjoo, é presa fácil
em tempo de tempestade

Só pra nos lembrar
(que tudo é efêmero diante do mar)
o mar  o mar o mar
sobe as encostas
encharcando as nuvens

alterando a geografia do ar

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Como a leveza do branco

Que ela me mata, suavemente
Confessei

Perguntou-me o porquê
Eu desejaria não ter respondido

Há coisas inexplicáveis
Como a instantaneidade dos acasos
Como o universo sem verso
Como a perfeição daquilo que o homem julga imperfeito
Como a relatividade da beleza

Como os caminhos de renda em seu vestido
Como o nada que se abriga na poesia

sábado, 24 de maio de 2014

Dois Poemas Um poema



1
Eu digo NÃO!
estar de acordo é acovardar
doença do caráter, falta de decoro:
é preciso ser obstinado em desobedecer

Aceitar tudo, calado
só para os que venderam a alma $
ou esqueceram o cérebro em casa –
levados aos montes pela correnteza
rio acima, rio abaixo
como cardume de peixes adestrados

Eu digo não e reconheço meus inimigos
ao vê-los gritarem SIM!, pelas praças!

2
Eu digo SIM!
Tudo que caminha, caminha para um fim
dos escombros da velha cidade
uma nova cidade
onde o povo ri duas vezes mais alto

As coisas estão aí para serem mudadas
the times they are a-changin

Regresso só para os amantes
que se frustraram
dando com a cara na murada
e os peregrinos exaustos da viagem

Eu digo sim!
e reconheço os meus inimigos

ao vê-los pintarem NÃO!, nas fachadas!