terça-feira, 6 de setembro de 2016

Vozes correntes

"Poetas detêm a chave que abre todas as portas"
 "São mestres na arte de amar"
"Desvendam os mistérios das almas"

***

Diz-se
Que seus lampejos de escrita teriam a beleza das auroras boreais
Causando inveja nas guerreiras Valquírias
Cujas armaduras refletem os raios do sol

***

Quase nunca é mencionado, porém
Que eles não querem saber de muita coisa
Que eles não se consideram geniais

***

Poetas gostam de enveredar-se pelos atalhos
Que conduziriam a um suposto Éden
(fantasiado de "pressa de viver")

***

William T. Maud
A cavalgada das Valquírias, 1890

sábado, 6 de agosto de 2016

Magnanimidade

Nada é mais generoso
Que uma árvore

Fotografia, agosto de 2016


Pentelha

Madrugada
Três horas e dezenove minutos

Encrava na mente a palavra

Ela quer brincar
De briga de travesseiro


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Estrada dos sentidos

A mim parece tão claro
Prefiro trilhas noturnas

Que venha a loucura
Ser minha apimentada, doce namorada

Beijar-me a boca, mostrar a estrada

Por ela
Guardo ternura

Por este caminho do dia
Não sinto nada

Para a amargura
Não tenho paciência

Por isso, "Vida longa à demência"!

*******

"Algumas pessoas nunca enlouquecem. Que vida horrível elas devem levar". (Charles Bukowski)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O que dizem as folhas

Parece que, um dos ensinamentos do outono
é de que "beleza dá trabalho"

O amor, qualquer que seja a sua forma, dá muito mais
e não escolhe a estação

Será ele imune ao bolor, à decadência?

Ou os duros dias existem
Para nos lembrarem que, apesar deles
o verbo amar é como o vento...

Não sei
esse tópico pertence a outro capítulo

Pois agora é tempo de prestar atenção no farfalhar das folhas
tentar resgatá-las da frieza do chão

Fotografia, junho de 2016

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Mãe

Nem havia despontado a primavera

Partiste
Atendendo a um chamado de caminhos floridos

Se eu pudesse mudar as estações
Traria incontáveis verões
Aos teus sonhos banidos

Canteiro

Semente sequestrada
Chega misturada
Com terra de jardim

Olho pra você, ai de mim

Acorda, todo dia, estrangeira
Na rica terra adubada
Ouro sem versos, sem nada
Além de inço e capim

Chamo, você não responde
Milho de beira de estrada

Perto de mim fez morada
Olho pra você, ai de mim

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Haicai

Caso à parte
Uma vida
Com arte

Fotografia, abril de 2016



Bambaleante

Arranha minha pele
Revira meu ouvido

Jura que sou
Seu amor bandido

Quando ela me toca
Sou como artista

Ando na corda
Sem rede
De equilibrista

quarta-feira, 16 de março de 2016

Pas de deux


A bailarina, desiludida, apertou o corpete novo, escolheu o mais belo tutu, vestiu a meia, prendeu o cabelo num coque apertado, se maquiou, colocou a sapatilha de ponta, deu um laço em cada fita, passou a corda no pescoço e deu sua última pirueta pendurada no ventilador de teto - a pirueta mais longa de toda sua carreira. 


Isaac Ruy

domingo, 6 de março de 2016

Amanhã, teu olhar

Sempre haverá um jeito, apesar de Paris
O ar cosmopolita de Marseilles

Um cavaquinho, partido alto, samba de breque
O sorriso de um moleque

Um povo que reaja, embora o Senado
Uma quitanda, que tenha dinheiro trocado, embora os Bancos
E o que eles nos tem explorado

Uma mídia honesta, apesar dos favores
Uma comédia, depois dos horrores

Uma morte, um nascimento

Sempre haverá um jeito, mesmo parecendo não haver outro
Haverá teu olhar


Aforismo XXIX

Felicidade

Felicidade é o estado no qual você se encontra
Quando não tem necessidade de mostrar, aos outros, que está feliz.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

poemaLua

Quando o abajur dos amantes , em sépia, imerge
Recomenda-se uma praia
Pra ficar mais perto de Iemanjá

Um olho vigia o humor do mar
Outro a sereia
Pois Netuno enciumado
De minuto a minuto tarrafeia

Se for madrugada de calmaria
Prolonga-se o ritual de carícias até alvorecer

Agradeça, então, a poesia
Por dar um sentido a seu viver

domingo, 24 de janeiro de 2016

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Leveza do fardo

Uma pilha de livros no baú da sala
Um show musical na tela

Um par de tênis, que não aperta
Um violão,  que caminha pela casa

Hoje, se puder, não faço mais nada
Nem mesmo um poema


Fragmento I

Os pulmões do papo de anjo estão cheios de calda

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Paraíso

Paraíso. Colagem Rafael Nolli


1
muito além das plantações de agrotóxicos
esquecido depois da derradeira ponte

do último homem que por ali passou
não resta o menor vestígio

o que ele viu – há tantos anos atrás –
é o mesmo que um satélite vê agora
da imensidão do espaço sideral

nenhum dos dois sequer suspeitou


2
onde hoje a árvore produz sombra
o prédio da prefeitura se erguerá

o rio prateado pelo sol
escorrerá
sinistro & pesado
dentro de uma galeria

pouco depois da colina
um sinal de trânsito determinará o fluxo
para o que agora é só vale e vento

3
sobre esse chão as pessoas
conhecerão fome e sede
e lutarão até as últimas forças

onde hoje prospera a grama miúda
a estátua de um boçal apontará o dedo
para a imensidão do espaço sideral


15/08/15



domingo, 6 de dezembro de 2015

Poema falante

Ela carregava o fardo das horas
Vivia num penar sem fim
Parecia uma peça de teatro
Só que de texto ruim

Não se acata conselhos
Se o barco está de partida
Pra navegar na tempestade
A vela precisa ser recolhida

Novas rotas requerem desafios
A gente se move entre vidro e cristal
O curso é a sina do rio
A água, seu bem natural

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Comèdia

I - Inferno


Nenhuma pista ou clareira
para tentar a aterrissagem
ademais
o trem de pouso emperrado

Retornar ao lar
– oh estações oh castelos! –
e ninguém ter dado pela sua falta


II - Purgatório

A TV ligada para ninguém
– em consultórios ortopédicos –
o cheiro do tédio das atendentes
& o clamor dos telefones

A fila de mulheres pensativas
– nos pronto-socorros –
as crianças tossindo em seus colos
o senhor debruçado sobre as rugas

A ante-sala dos CTI’s
as antecâmaras das policlínicas
os  azulejos brancos,
o ventilador de teto
– nas salas de espera dos centros de radiologia –

e nos demais lugares onde a morte fareja


III - Paraíso


Praticamente nada a fazer senão para o pobre agente do Centro de Controle de Pragas. A nuvem de veneno borrifada sobre as macieiras rouba o brilho das asas dos anjos e embaça o aço de suas espadas. De manhã, o batalhão de arcanjos em ordem unida, treinando para a possível batalha. E é sempre manhã, aonde quer que se vá. Longa manhã de profunda ressaca. Os que leram estão de acordo, é o mesmo paraíso descrito por Dante. Um saco! 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Gata boêmia

A gata lá de casa
Já cansou de caçar rato
Fez amizade com cachorro
Não deita mais em qualquer saco

Minha gata é bem safada
Agora sai na madrugada
Geme, e não é de socorro

Volta toda moderninha
Exige leite no seu prato

Fotografia, novembro de 2015
Nefertari, a gata

sábado, 24 de outubro de 2015

Um casal se apaixona no banco da praça



1
o casal no banco da praça
até então em encontros casuais
viria a descobrir naquele dia
que a noite
que existe desde tempos imemoriais
fora criada exclusivamente para eles

a mesma noite desde sempre
sendo aperfeiçoada aos poucos
através das eras geológicas
sendo organizada com cautela
para de repente chegar em seu auge

depois daquele dia, tudo ruiria,
e as estrelas começariam a se apagar
uma a uma, até não restar mais nada

2
o casal no banco da praça
viria a descobrir de repente
que a noite que os cobria
vinha sendo, unicamente
para eles, aperfeiçoada

a mesma noite que iluminou os oceanos vazios
a mesma sobre animais já extintos

a mesma noite que
anos a fio
levou os primeiros dos nossos
– imperfeitos, ainda com rabos –
a se abrigarem em cavernas
a passarem horas de medo
sobre os galhos das árvores

3
depois de cumprida a sua tarefa
– iluminar um casal no banco da praça –

a noite iniciava o seu declínio

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Múltipla, de Flá Perez


terça-feira, 6 de outubro de 2015

Falso desamparo

As ruas do bairro não presenteiam-me com versos

Então, eu me recolho
Não há imagem que me atraia

As árvores do parque estão mais para o cinza
Já vai tarde o frio, não há borboletas
Parece que, os pássaros aliam-se a uma certa timidez

O que me desperta para o mundo, liberta-me
É o mistério por baixo das saias coloridas
O som do galopar dos saltos altos nas calçadas

Ah, meu coração cigano...
Rouba o pouco que resta (em mim) de sensatez

domingo, 6 de setembro de 2015

Entre peles

Quem dera, o acaso nos brindasse
Com uma rara conspiração de estrelas

Ambos envoltos em camufladas ansiedades
Olhos no encalço dos olhos
Gestos mesclados ao eminente rebuliço

Uma desnecessidade de palavras
Os pilotos, esquecidos do relógio
Ligados no automático dos corpos

Depois, no bocejar da alvorada
..............................o aconchego

(Res) pingos

Fosse uma viola
A embalar seu dia
Ela nem daria bola
Pra carência de poesia

             *****

Pra brotar um dilema
Basta um verbo
Ou um poema