sábado, 6 de fevereiro de 2016

poemaLua

Quando o abajur dos amantes , em sépia, imerge
Recomenda-se uma praia
Pra ficar mais perto de Iemanjá

Um olho vigia o humor do mar
Outro a sereia
Pois Netuno enciumado
De minuto a minuto tarrafeia

Se for madrugada de calmaria
Prolonga-se o ritual de carícias até alvorecer

Agradeça, então, a poesia
Por dar um sentido a seu viver

domingo, 24 de janeiro de 2016

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Leveza do fardo

Uma pilha de livros no baú da sala
Um show musical na tela

Um par de tênis, que não aperta
Um violão,  que caminha pela casa

Hoje, se puder, não faço mais nada
Nem mesmo um poema

06-01-2016

Fragmento I

Os pulmões do papo de anjo estão cheios de calda

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Paraíso

Paraíso. Colagem Rafael Nolli


1
muito além das plantações de agrotóxicos
esquecido depois da derradeira ponte

do último homem que por ali passou
não resta o menor vestígio

o que ele viu – há tantos anos atrás –
é o mesmo que um satélite vê agora
da imensidão do espaço sideral

nenhum dos dois sequer suspeitou


2
onde hoje a árvore produz sombra
o prédio da prefeitura se erguerá

o rio prateado pelo sol
escorrerá
sinistro & pesado
dentro de uma galeria

pouco depois da colina
um sinal de trânsito determinará o fluxo
para o que agora é só vale e vento

3
sobre esse chão as pessoas
conhecerão fome e sede
e lutarão até as últimas forças

onde hoje prospera a grama miúda
a estátua de um boçal apontará o dedo
para a imensidão do espaço sideral


15/08/15



domingo, 6 de dezembro de 2015

Poema falante

Ela carregava o fardo das horas
Vivia num penar sem fim
Parecia uma peça de teatro
Só que de texto ruim

Não se acata conselhos
Se o barco está de partida
Pra navegar na tempestade
A vela precisa ser recolhida

Novas rotas requerem desafios
A gente se move entre vidro e cristal
O curso é a sina do rio
A água, seu bem natural

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Comèdia

I - Inferno


Nenhuma pista ou clareira
para tentar a aterrissagem
ademais
o trem de pouso emperrado

Retornar ao lar
– oh estações oh castelos! –
e ninguém ter dado pela sua falta


II - Purgatório

A TV ligada para ninguém
– em consultórios ortopédicos –
o cheiro do tédio das atendentes
& o clamor dos telefones

A fila de mulheres pensativas
– nos pronto-socorros –
as crianças tossindo em seus colos
o senhor debruçado sobre as rugas

A ante-sala dos CTI’s
as antecâmaras das policlínicas
os  azulejos brancos,
o ventilador de teto
– nas salas de espera dos centros de radiologia –

e nos demais lugares onde a morte fareja


III - Paraíso


Praticamente nada a fazer senão para o pobre agente do Centro de Controle de Pragas. A nuvem de veneno borrifada sobre as macieiras rouba o brilho das asas dos anjos e embaça o aço de suas espadas. De manhã, o batalhão de arcanjos em ordem unida, treinando para a possível batalha. E é sempre manhã, aonde quer que se vá. Longa manhã de profunda ressaca. Os que leram estão de acordo, é o mesmo paraíso descrito por Dante. Um saco! 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Gata boêmia

A gata lá de casa
Já cansou de caçar rato
Fez amizade com cachorro
Não deita mais em qualquer saco

Minha gata é bem safada
Agora sai na madrugada
Geme, e não é de socorro

Volta toda moderninha
Exige leite no seu prato

Fotografia, novembro de 2015
Nefertari, a gata

sábado, 24 de outubro de 2015

Um casal se apaixona no banco da praça



1
o casal no banco da praça
até então em encontros casuais
viria a descobrir naquele dia
que a noite
que existe desde tempos imemoriais
fora criada exclusivamente para eles

a mesma noite desde sempre
sendo aperfeiçoada aos poucos
através das eras geológicas
sendo organizada com cautela
para de repente chegar em seu auge

depois daquele dia, tudo ruiria,
e as estrelas começariam a se apagar
uma a uma, até não restar mais nada

2
o casal no banco da praça
viria a descobrir de repente
que a noite que os cobria
vinha sendo, unicamente
para eles, aperfeiçoada

a mesma noite que iluminou os oceanos vazios
a mesma sobre animais já extintos

a mesma noite que
anos a fio
levou os primeiros dos nossos
– imperfeitos, ainda com rabos –
a se abrigarem em cavernas
a passarem horas de medo
sobre os galhos das árvores

3
depois de cumprida a sua tarefa
– iluminar um casal no banco da praça –

a noite iniciava o seu declínio

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Múltipla, de Flá Perez


terça-feira, 6 de outubro de 2015

Falso desamparo

As ruas do bairro não presenteiam-me com versos

Então, eu me recolho
Não há imagem que me atraia

As árvores do parque estão mais para o cinza
Já vai tarde o frio, não há borboletas
Parece que, os pássaros aliam-se a uma certa timidez

O que me desperta para o mundo, liberta-me
É o mistério por baixo das saias coloridas
O som do galopar dos saltos altos nas calçadas

Ah, meu coração cigano...
Rouba o pouco que resta (em mim) de sensatez

domingo, 6 de setembro de 2015

Entre peles

Quem dera, o acaso nos brindasse
Com uma rara conspiração de estrelas

Ambos envoltos em camufladas ansiedades
Olhos no encalço dos olhos
Gestos mesclados ao eminente rebuliço

Uma desnecessidade de palavras
Os pilotos, esquecidos do relógio
Ligados no automático dos corpos

Depois, no bocejar da alvorada
..............................o aconchego

(Res) pingos

Fosse uma viola
A embalar seu dia
Ela nem daria bola
Pra carência de poesia

             *****

Pra brotar um dilema
Basta um verbo
Ou um poema


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

"Trabalho"

Só três dias por semana
Nas terças, quartas e quintas

Acontece em Brasília
Um faz de conta que se pinta

Do país, zombam os nobres sacanas
Enquanto a plebe paga a tinta

Fotografia, junho de 2015

domingo, 2 de agosto de 2015

MENSAGEIRO DO VENTO



Veio na 
varanda um 
vento no rosto 
quase velho
quase novo
nesta noite 
quase primavera 
de um quase
inverno ameno
quase frio
quase sereno.


Veio na
varanda um
vento que
trouxe seu
cheiro quase 
ambrosia 
quase agridoce 
quase droga
que me entorpece
que me agita
e me sufoca.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

O vendedor de algodão doce

o vendedor de algodão doce
se anunciava com um apito

senhor de diversas cáries
distribuía nuvem cristalizada
tingida de azul ou rosa

aceitava cascos de cerveja
que guardava em um saco de batatas

quando passava por uma criança
que não atendia ao seu apito
ou simplesmente não se interessava
saía resmungando

curvado sob o peso do fardo



25/01/2015

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Poemestético

Não resolve turbinar o bumbum
Se da boca só sai pum


Aforismo XXI

Inverno :

Inverno é a estação do ano
Que, durante os vinte primeiros dias, desfruta-se
Daí em diante, até seu final, sobrevive-se

Depois, no verão, bate a saudade

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Lugar, território, paisagem



1
menina com flor no cabelo
parada na calçada
aguardando para atravessar
levanta o corpo na ponta dos pés
sobre uma sandália vermelha
(a batata das pernas enrijecida)
para ver sobre os carros
o outro lado da via

2
ao cruzar a rua
passa por tantas outras meninas
nenhuma que lhe devolva o olhar
ou congregue de sua alegria

quando alcança o outro lado
a trégua com os carros se rompe
e a rua é novamente inundada
pela feroz matilha

3
não vai se lembrar
de nenhum dos dois lados
ou do que viu entre eles
(ao olhar sobre os carros)
quando chegar a hora
de contar a sua jornada


21/01/2015


do livro Poemas é um péssimo título

sábado, 6 de junho de 2015

Engenho poético

Enquanto o vestido dela dança
Bebo vinho

Como em sonho de criança
Torno-me cúmplice do vento

Ela traz a poesia que se perdeu pelo caminho
Estímulo para o meu alento

Hai Alkohol

Mach's Mir Spass
Lieber Bier
Als Schnaps

domingo, 24 de maio de 2015

Martelo, Gelado, Cinzel


Para Heleno Álvares
1
tomemos por exemplo um arqueólogo
que descobre uma cidade submersa
& em um infindável número de equívocos
interpreta tudo errado
& cria uma nova civilização

ou, percebendo as possibilidades do erro
refaz o mundo descoberto
para a glória de outros visitantes,
perplexos
perdidos entre as ruínas e o poema

2 (poesia = arqueologia)

cabe ao poeta descobrir a palavra
que passa rolando pelas cavernas do tempo
saber colhê-las entre detritos
– talvez o que há de melhor nelas –
ir aonde descansam
& instaurar o caos

3
fora isso
o poeta não passa do dono da festa
chapado de ponche
que desliga o som e manda todo mundo embora

ou o dono da bola
que acaba com o jogo ao ser driblado
ou mandado para o banco

fora isso
o poeta só arranha a superfície

descobre uma cidade submersa & grita
do alto de sua glória (ou burrice):
“é uma cidade submersa!”



20/01/2014


do livro Poemas é um péssimo título

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Esparramadas

                                    I

Encanta-nos o devaneio
Porque vemos, nele, aquilo que gostaríamos de ser

                                   II

Assumir que não somos um Adônis, ou uma Vênus
Poupa-nos de inútil fadiga

                                  III

Com o tempo, as fantasias fazem a gente piorar
Para melhor


Sociedade

Sou sócio do clube dos passarinhos

sexta-feira, 24 de abril de 2015

23 h 56 min e 4,09 seg


para Érico Baymma
1
dias ruins
por coisas pequenas
quase-nada
pingo no i na letra errada
tropeço no cadarço desamarrado

dias ruins
por grandes problemas
estouro de boiada
um caminhão entalado bloqueando a paisagem
azia no banqueta das musas

dias ruins
por bobagens corriqueiras
coisas banais
azar no jogo
– dardo, RPG, carta –
ter que repetir a frase
(quando não se disse nada)

2
dias bons
por coisas pequenas
ou por nada
um sorriso (alado)
um pássaro pousado no retrovisor do carro

(ou por qualquer coisa fugaz rápida
como a queda de um meteorito
o bote de uma naja)

dias bons
por coisas grandiosas
que tomaram tempo
& cansaram o espelho
que consumiram a tinta do calendário

dias bons
por coisas improváveis inesperadas imprevistas:
encontrar um novo amor
ao pegar o caminho errado

(ficar perdido
até ter que mudar de casa)




do livro Poemas é um péssimo título