quinta-feira, 6 de agosto de 2015

"Trabalho"

Só três dias por semana
Nas terças, quartas e quintas

Acontece em Brasília
Um faz de conta que se pinta

Do país, zombam os nobres sacanas
Enquanto a plebe paga a tinta

Fotografia, junho de 2015

domingo, 2 de agosto de 2015

MENSAGEIRO DO VENTO



Veio na 
varanda um 
vento no rosto 
quase velho
quase novo
nesta noite 
quase primavera 
de um quase
inverno ameno
quase frio
quase sereno.


Veio na
varanda um
vento que
trouxe seu
cheiro quase 
ambrosia 
quase agridoce 
quase droga
que me entorpece
que me agita
e me sufoca.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

O vendedor de algodão doce

o vendedor de algodão doce
se anunciava com um apito

senhor de diversas cáries
distribuía nuvem cristalizada
tingida de azul ou rosa

aceitava cascos de cerveja
que guardava em um saco de batatas

quando passava por uma criança
que não atendia ao seu apito
ou simplesmente não se interessava
saía resmungando

curvado sob o peso do fardo



25/01/2015

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Poemestético

Não resolve tornear o bumbum
Se da boca só sai pum


Aforismo XXI

Inverno :

Inverno é a estação do ano
Que, durante os vinte primeiros dias, desfruta-se
Daí em diante, até seu final, sobrevive-se

Depois, no verão, bate a saudade

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Lugar, território, paisagem



1
menina com flor no cabelo
parada na calçada
aguardando para atravessar
levanta o corpo na ponta dos pés
sobre uma sandália vermelha
(a batata das pernas enrijecida)
para ver sobre os carros
o outro lado da via

2
ao cruzar a rua
passa por tantas outras meninas
nenhuma que lhe devolva o olhar
ou congregue de sua alegria

quando alcança o outro lado
a trégua com os carros se rompe
e a rua é novamente inundada
pela feroz matilha

3
não vai se lembrar
de nenhum dos dois lados
ou do que viu entre eles
(ao olhar sobre os carros)
quando chegar a hora
de contar a sua jornada


21/01/2015


do livro Poemas é um péssimo título

sábado, 6 de junho de 2015

Engenho poético

Enquanto o vestido dela dança
Bebo vinho

Como em sonho de criança
Torno-me cúmplice do vento

Ela traz a poesia que se perdeu pelo caminho
Estímulo para o meu alento

Hai Alkohol

Mach's Mir Spass
Lieber Bier
Als Schnaps

domingo, 24 de maio de 2015

Martelo, Gelado, Cinzel


Para Heleno Álvares
1
tomemos por exemplo um arqueólogo
que descobre uma cidade submersa
& em um infindável número de equívocos
interpreta tudo errado
& cria uma nova civilização

ou, percebendo as possibilidades do erro
refaz o mundo descoberto
para a glória de outros visitantes,
perplexos
perdidos entre as ruínas e o poema

2 (poesia = arqueologia)

cabe ao poeta descobrir a palavra
que passa rolando pelas cavernas do tempo
saber colhê-las entre detritos
– talvez o que há de melhor nelas –
ir aonde descansam
& instaurar o caos

3
fora isso
o poeta não passa do dono da festa
chapado de ponche
que desliga o som e manda todo mundo embora

ou o dono da bola
que acaba com o jogo ao ser driblado
ou mandado para o banco

fora isso
o poeta só arranha a superfície

descobre uma cidade submersa & grita
do alto de sua glória (ou burrice):
“é uma cidade submersa!”



20/01/2014


do livro Poemas é um péssimo título

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Esparramadas

                                    I

Encanta-nos o devaneio
Porque vemos, nele, aquilo que gostaríamos de ser

                                   II

Assumir que não somos um Adônis, ou uma Vênus
Poupa-nos de inútil fadiga

                                  III

Com o tempo, as fantasias fazem a gente piorar
Para melhor


Sociedade

Sou sócio do clube dos passarinhos

sexta-feira, 24 de abril de 2015

23 h 56 min e 4,09 seg


para Érico Baymma
1
dias ruins
por coisas pequenas
quase-nada
pingo no i na letra errada
tropeço no cadarço desamarrado

dias ruins
por grandes problemas
estouro de boiada
um caminhão entalado bloqueando a paisagem
azia no banqueta das musas

dias ruins
por bobagens corriqueiras
coisas banais
azar no jogo
– dardo, RPG, carta –
ter que repetir a frase
(quando não se disse nada)

2
dias bons
por coisas pequenas
ou por nada
um sorriso (alado)
um pássaro pousado no retrovisor do carro

(ou por qualquer coisa fugaz rápida
como a queda de um meteorito
o bote de uma naja)

dias bons
por coisas grandiosas
que tomaram tempo
& cansaram o espelho
que consumiram a tinta do calendário

dias bons
por coisas improváveis inesperadas imprevistas:
encontrar um novo amor
ao pegar o caminho errado

(ficar perdido
até ter que mudar de casa)




do livro Poemas é um péssimo título

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Bambaleante

Arranha minha pele
Revira meu ouvido

Jura que sou
Seu amor bandido

Quando ela me toca
Sou como artista

Ando na corda
Sem rede
De equilibrista

terça-feira, 24 de março de 2015

Cidade dos sonhos


Antes do amanhecer
estarão tomando a praça central.

A imensa cavalaria
sedenta pelos jardins,

arqueiros posicionados
no alto das colinas,

a infantaria
dinamitando as pontes.

Pé ante pé, rua a rua,
as posições sendo tomadas.

No entanto,
antes que declarem o seu triunfo,

um golpe decisivo dissolve o inimigo.
Abro os olhos: acordar basta.

2
Um dia a guerra estará perdida
e o povo daquela cidade,
que só existe em meus sonhos,
ficará entregue a própria sorte.

Um dia, quando eu não acordar mais,
a cidade se extinguirá
com todos que por lá transitam,
ou eles migrarão para outros sonhos?

Quem sabe, enfim,
esse seja o dia em que terei que defendê-la
de corpo presente, com as próprias mãos...

3

Saberei eu no sonho de quem?



do livro Poemas é um péssimo título

sexta-feira, 6 de março de 2015

Poema do Não

Poesia não põe comida na mesa
Não paga as contas
Não serve pra nada

Por isso
Não dá pra viver sem ela

segunda-feira, 2 de março de 2015

SIDERALIDADES

        
                 (Matinê)

Vem do céu de novo o meu espanto,
não somente pelo seu furta-cor
desse sol contra as nuvens em branco
− agora rochas de tons de marrons
de toda a sorte, claros ou âmbares,
ocres ou quase amarelos fortes.
Tem nome tamanha exuberância
desde o meu sul até o meu norte?
Desce pela tarde um raro cinza
suave que derrama seu clamor
para que este amor, quase morno,
vire verso. E mire poesia.
E quantas cores sem nome eu vejo
no céu do poema que eu desejo.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Legados

Com meu pai aprendi a fazer troça
Pra tornar a viagem engraçada

Ele despertou, em mim, o sentimento pela música

De minha mãe veio o prazer pelos doces, livros
Ela me ensinou a nadar
A respeitar, mas não temer os rios, o mar

De nenhum dos dois herdei a loucura
Esta é, somente, minha

Nasce da caravana das horas



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Aforismo VIII

Desinteligência :

A desinteligência é diretamente proporcional à ostentação

Haicai

Neste novo ano
Banze-me
Com teus fartos pubianos

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Memória

Nunca te esquecerei,
diz o amante ao objeto amado
ou os amigos que se separam
ou a mãe ao filho que parte
(uma viagem, a morte,
a roda do acaso)

E ficam nebulosos,
transportando a ideia
(única forma de não olvidar),
até que chegue o momento
de serem esquecidos –


ou transportados.





*

sábado, 6 de dezembro de 2014

Timidez dos falantes

Me diz
Dos atributos
Que Vulcano te deu

No meu ouvido
Fala mansinho
Sobre o presente do Deus

Da tua pele, a textura
Qual a cor que desponta
Dos recatos das tuas matas
Me conta

Das tuas enseadas, grutas e ilhas
Me diz

Arrepios, sulcos
Areias
Susssurra pra esse párvulo aprendiz
Dos teus desejos na esteira

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

POUCO A POUCO



As pálpebras da tarde

− em raro escarlate −

sucumbiram ao peso

e ao desassossego

 

febril do breu da noite

que veloz e audaz

apaga horizontes

e cega astrolábios.

 

O nanquim que tingiu

o céu não dividiu

a escuridão plena

da dor que representa

 

esta tua ausência,

esta sede sedenta,

esta cor modorrenta,

esta peste endêmica

 

e que sem dó desdenha

da minha morte. Lenta.
 
 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Homem banda

Um clarão nas trevas
O artista de rua

Louco inocente
Inocente louco
A escolha é sua

A batalha pela grana honesta

Merece um teatro lotado
Por tornar o dia suportável aos passantes

Parece uma formação de coral no mar morto
Um oásis, onde bebe a estúpida
Insossa cáfila

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Elas herdarão o reino dos céus


crianças
algumas ainda muito pequenas
sem saber o que escrever
desenham corações
& flores
nas bombas
que matarão outras crianças







*

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Tira mi sù

Eu tinha fome de salgados
Vontade de temperos

Até lhe avistar
Estavam fora dos meus planos
Os exageros