segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Benedita

exercício para aquarela/ rafael godoy
a daniel lopes

quando Benedita me disse que já era noite
não acreditei
porque em seus olhos brilhavam dois sóis
e o chá que ela trazia
tinha o aroma de infância
então quis pular da cama
mas suas mãos negras e quentes
me seguravam
e sua voz dizia para eu dormir

depois de noites acordada
ruminando sonhos destoantes
deitei a cabeça em seu colo
e pude dormir como dormia nos braços de minha vó

Benedita cantou canções e dormiu com meus sonhos
a noite ficou doce e suave
e tinha gosto de quintal e de manga caída do pé

(publicado originalmente no blog VOZ)

domingo, 8 de novembro de 2009

VERBO NA RUA DE GLAUBER

Palavras rimam de ponta-cabeça e não soltam o verbo
Palavras rimam de ponta-cabeça e não saltam para o papel
Como quem vê Dercy Gonçalves abraçando Glauber Rocha
Palavras rima de ponta-cabeça, baianamente em vão ou não (!?).

Não cabe no embornal, a paz ardida no caos de cada dia
Não cabe aqui a paz urdida, escorada no verbo nu, estática
Quando a alma da cidade está vazia
Dorme toda sorte de dores, cores voam.

Sair, sumir, chegar, vir, partir, ver, dizer, querer
Verbos soltos nas ruas sobrevivem
Cuspindo na cisma das certezas
Palavras rimam, imagens rodopiam no papel-cabeça.

(Para Eduardo Pedra, Laz Muniz, Eugênio Muller, Wir Caetano e Genin)

sábado, 7 de novembro de 2009

transfiguração

degolado
o poema (confidente útil)
aos pedaços exposto
no passeio público
:
palavras dilaceradas
versos interrompidos
entre tantos olhares
inconfidentes

na manhã recomposta (a quebra do feitiço)
sí la ba sí la ba
o poema se refaz
ordenado pela lembrança
: revolucionária experiência
dos que perceberam (clara-mente)
o real valor
dos signos
na subversão da memória

sexta-feira, 6 de novembro de 2009



Tua porta
ROGERIO SANTOS

tudo é mistério
nesse teu jeito
sempre deflete
tudo que penso
abafa um grito
nos quatro cantos
não deixa frestas
na tua porta
nem há escada
para a sacada
nem um caminho
para os teus olhos
de tua língua
nas madrugadas
de quando falo
aos quatro ventos
do meu amor
trocado em versos
é como fosse
sangrar de morte
em toda língua
que não falamos
que não beijamos
por todo lado
ensandecido
quarto de lua
que já não tenho
lado de dentro
evaporado
por todo poro
por onde choro
silenciado

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

SURREALISMO COM FECHO ÉCLAIR!



I

Quantos mais haverão de excitar-me
impondo-me caminhos a crer, e como ouvirão,
se não há quem duvide?
Quantos burburinhos e azedos diluir-se-ão na fantasia
em pétalas banais de orquídeas comuns?
Quem há de saciar salientes alimentos,
desnudadas palavras
— surrealismo com fecho éclair —
e rasas penetrações
deslizando sobre o meu mênstruo?

II

Haverão mais primaveras!
— Eu sei.
Haverão outras expiações...
Esfriarei meu sangue
e fabricarei rendez-vous de vento,
cuja valentia surgirá de dispares âmagos:
ermos calafrios, náuseas fecundas
e gélidas vagem de cara.

III

Sob o pé do cinzeiro da consciência,
recordo os amigos.
lembro-os de todos,
ora olvidados, ora redivivos.
Tressinto-os
e sinto e canto
em saudade... Saudade!
Música, única,
desperdiçada em fronts e perdas
haja vista gozá-la
a lembrar-me do velho violão puído,
asas dos fios da emoção.

IV

Desfolharei as páginas elétricas
do livro da minha vida.
Reprisarei o replay
da minha verde juventude...
Humilde...Sincera!
Tateação dos meus soberbos olhos
para que o papel lacrime pedante
e jugule a mão esquerda,
porque trêmula, nervosa,
e grafe-me uma nova verdade.

V

Só e desprovido de ouro,
sobra-me o papel azul da maçã;
a madrugada jaza saltitante
e faz surgir à idéia alguns poemas cheios de medo
embevecidos pela lembrança d’outrora...
Ai... dos meus olhos duas lágrimas
pulam sobre os meus pés
sugerindo-me afluir
uma nova piração...
Afloração... Decerto os meus poemas
encharcam-se de zelo,
malbaratam fétidos sonhos abafados
e rebolam a nostalgia dos velhos benjaminzeiros
— nada mais!

© Benny Franklin

DÍSTICO

(disto que é o poema)

quem como tu é como eu
faz do poema destino seu

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O Que Fez a Rainha Sorrir

O Que Fez a Rainha Sorrir. (Fábio Terra)
[in PEDRA DO CORVO]

Distância, inimiga das paixões inexatas.
Um toque na tela, e penso no cabelo dela
Palavras viram ações, um dedo inicia o fogo do jogo.

Virtual mundo, cheio de anônimos,
Buscando a insolidão, eu me refugio então
Nos seios belos, no sorriso mistério, e nos olhos ígneos.

Tão longe de minhas mãos,
Protegida pela elétrica invenção
Conduzindo energia através da paixão

Flutua sobre o disco do pêndulo
Despe-se dos pudores, fecham-se os garços olhos
Abre-se o sorriso e mordisca o canto da boca

Explode em êxtase o Rei,
Vendo os seios e as costas nuas
Antes de partir.
Não antes de se perguntar o que fez a Rainha sorrir.

O oitavo selo

a morte
essa velha metida à besta

se acha
só porque inevitável
se gaba
só porque imprevisível
se chega
só porque indesejável

a morte
essa velha metida e triste

se dane
porque da vida não
se desiste.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

henry escreve para anais

anais,

quando você chegou
parecia que algumas batalhas
sempre seriam perdidas
ganhei a percussão do teu inglês
quando me restavam somente palavras

quando nada importa mais
podemos fazer bom uso
de um baralho
de uma adaga doméstica
e de um pombo-correio
somos, de verdade, da família da Lua
corações vestindo trapos

te estendo minha mão mais cuidadosa
já que meu maior medo
é o ruído de porcelana se partindo em mil pedaços

love, henry

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Luz dos Cavalos

cotovelada na preguiça sem cor, gelo, bege
muito sangue aqui, lírio
flor do ócio, briga transada com a inércia

não

poucas fissuras fendidas nos ossos da caminhada solar
parição do trabalho entre gritos da peleja com o ganha-pão
um brilho por centésimo e as descobertas
milhares de alegrias microscópicas

ainda não

tudo trava, muros se contorcem na dor da razão
um relinhchado chorando que a mágica
não frutifica do ócio nem do trabalho

é o murro na cara mundo;
em si, o coice, a luta

amantes


Meu gosto...
Teu gosto...
misturados nos meus dedos
quando acordo de manhã.

Esse sumo glorioso
exulta minha alma de poeta e me lança
na areia movediça da tua carne.

E como é perigoso meu pensamento nessa hora!

Essa nossa pequena desordem
que transmuta de ardências
e me enche de água a boca
torna fértil minha memória antes de dormir.

Ressoa como eco seu gemido sonoro e múltiplo
na minha alma de mulher

Somos amantes esmagados pela torre de babel.

E tão complacente são os nossos segredos
que tento em vão escondê-los entre as brancuras das minhas pernas.

(Imagem de Antonio Ramos Sepúlveda)

domingo, 1 de novembro de 2009

de tanto amar

vem dizer as palmeiras, pupilas do vento,
perfiladas à margem dos meus sonhos. vem
escrever os olhos do alvorecer nos meus olhos
para que o sol devolva luz suprema ao sentido.
sabes, ceguei. de tanto amar ceguei. tacteio a terra.
planto o que não sei, na esperança de que alguma coisa
possa acontecer. podem aflorar aves nas mãos do cacimbo,
subitamente, a cantar um país que a chuva deixou amadurecer.

mariagomes



in " Di Versos"
Revista Semestral de Poesia e tradução ( 8)
Coord. de J. Vilhena Mesquita e José Carlos Marques
Edições Sempre- em- Pé ( Portugal)

O menino e o mundo

O menino caminhava pela calçada.
A bola na mão era azul
Azul como o mundo
por onde o menino andava.

Na cabeça do menino
a bola azul era o mundo.
E ele caminhava com o cuidado
de quem traz nas mãos
a humanidade.

O mundo,
nas mãos do menino,
é livre.
Livre como seria qualquer mundo
nas mãos de meninos.

Parado na calçada
ele me sorri.
Ele me sorri e na verdade
me acorda.

E só então continua caminhando
com o mundo nas mãos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A Mulher de Lot


          A mulher de Lot, que o seguia, olhou
          para trás e transformou-se numa estátua de sal.
          Gênesis


E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.
Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:
"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar
as rubras torres da tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde destes filhos ao homem amado".
Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,
seus olhos nada mais puderam ver.
E converte-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão enraizaram-se.
Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?
E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
quem deu a própria vida por um único olhar.


Anna Akhmátova

tradução: Lauro Machado Coelho

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

No Caminho, com Maiakóvski


Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!


Eduardo Alves da Costa


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Tríptico






NasaImages

***
***
***
***
Pano de fundo,
papel em branco.
Paisagem nua.


O morador de rua
amigo, nossa imagem
em tempos da sede.


O limite da consciência
inventando universos.
Na dança do infinito: -Azul.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Grito


Matisse


OS Gritos

Ai, dessas horas frias em que choro em meu próprio ombro:
Dores que nunca me pertenceram...
Dessas horas mudas, em que me agasalho em poesias
De Cora... De Barros e Adélia.
Que vontade de fazer requeijão e comer com doce de umbu.
De desistir dessas coisas de ser gente grande.
Perdão senhor por todos os meus escândalos.
Fui feita demasiada humana e quando dói: grito.
Gemer, pai, só de prazer.
Meus gritos acordaram o hospital.
As velhinhas mais decentes.
Não era tão tarde.
Meus gritos acordaram o artista que não dormia.
Despertou-o de ego inflado.
Meus gritos ecoaram palavras obscenas pela Avenida da Princesa.
Acordaram as belas adormecidas.
Só as bruxas e as santas os entenderam.
Eram gritos de quem se calou demais.

Alyne Costa
27/10/09

domingo, 25 de outubro de 2009

Meta : Morphus


Pouco me inspiram
as telas
Mais me transpiram
as velas

A musa que outrora
de rosto vívido
refletido em brilho
de versos
ora desvanece
sem purpura
nem brios,
diversos

Pouco me suspiram
as belas
Mais me aniquilam
os que advêm
delas

O rosto esculpido
que descia aurora
despido em tédio
disperso
ora entorpece
usurpa
sem vozes,
modesto

Pouco me inflamam
as guerras
Mais me devassam
os gestos obscenos
que berras

O olhar acenado
que luzia firme
e desenhava vida
olha em ponto
obscuro
antes, azulado
ora despediu-se,
foi embora, nulo
defenestrado

Pouco me abalam
os ventos
Mais me acariciam,
seus alentos...


©joe_brazuca-MMIX-sp/sp

sábado, 24 de outubro de 2009

Pacotaria do amor


Se amor se vendesse...

Eu venderia amor em muitas caixas

embrulharia cada uma

com metros de rima e, dentro, só fumaça

para o amor se esparramar, no céu, em cinza mágica.


Se amor se vendesse...

Eu venderia amor tal qual perfume na loja

com data de fabricação bem descrita

mas o vencimento... data vã, indefinida

posto não se saber, ao certo, a hora da chegada

nem quanto a dor da partida.


Se amor se vendesse...

Eu venderia amor em doses homeopáticas

capitalizaria cada gota de orvalho

faria da rosa seu marketing necessário

e, do beija-flor, um vendedor implacável:


- Quem dá mais? Quem dá mais? Quem dá mais?...

(Na Pacotaria do Amor, você compra amor e leva de brinde uma flor; por apenas alguns, poucos e míseros, trocados!)


Se amor se vendesse,

eu já estaria rica!...



by Hercília Fernandes



*Texto também disponível no site www.artigos.com, publicado em 09/08/07.

**Imagem extraída do Google.


Ópera-rock sobre o cárcere de Abaetetuba

1 – os fatos

Tinha quinze anos e subtraíra um Rolex made
in China ou um CD by Zona Franca de Manaus.

Por isso fora jogada
numa cela úmida de suor e porra.

Uma cela ocupada por homens exemplares,
educados na arte da pederastia e da extorsão
– onde trocava um copo d’água por uma chupada.

Tinha quinze anos e roubara pouco mais
de uns reais, que não lhe pagavam a fome.

Por isso fora jogada
numa cela feita de aço, músculo, testosterona.

Uma cela abarrotada de orações sinceras,
de sífilis, de gonorréia
– onde trocava fiapos de colchão por tapas na cara.

Tinha quinze anos e roubara um pedaço de pão
ou uma carteira de couro de avestruz.

Por isso fora jogada
numa cela fedendo a desinfetante de menta e cu.

Uma cela decorada com frases de ódio
e estelares bocetas globais
– onde trocava um prato de comida por uma trepada.


2 – o carcereiro

Nada perturba o seu sono.
O canto da navalha, no pescoço de quem dorme,
não lhe tira o apetite
– treta de cigarro, mulher ou cocaína:
é com sangue que se assina esses contratos.

(O trânsito é um problema que o incomoda:
busina, semáforo, lhe tiram do sério.)

Nada perturba o seu sono.
O choro noturno de quem será enforcado
não lhe rouba a disposição
– o cinto e o cadarço cumprem o papel
que Deus lhe designou.

(O chuvisco na TV é um empecilho:
não há riso sem o programa, sem o comercial.)

Nada perturba o seu sono.
A emboscada que culmina em desgraça
não lhe inibe o descanso
– ordem natural das coisas:
quatro homens no banheiro, outro que não é mais.

(Futebol é algo que o desconcerta:
o empate é inadmissível; a derrota, insuportável.)

Nada perturba o seu sono.


3 – os detentos

Um cultivou o seu amor com agrotóxico,
enterrou o corpo na horta,
onde nunca mais nasceu couve.

Outro, em nome da honra da filha,
cortou o pinto do vizinho e jogou na rua
– ali, brincavam de varinha atrás.

Mais ao fundo, um unha-de-fome
que têm o estômago como mentor
intelectual de seus atos

– roubava supermercados
com a prudência de ser preso: nada lhe
era melhor que a comida sem sal do Estado.

Alguns, resignados, assumiram crimes alheios
afim de quitarem carnês de jogatina e tráfico:
confessaram uma degola, adotaram umas fraturas

– em sua maioria ritualísticos ladrões de galinha
e usuários recreativos de cola de sapateiro,
que não teriam mesmo outro lugar para irem.

Há aqueles que não possuem crime algum
senão terem nascidos inclinados ao soco,
atraídos pelo grito, propensos ao ódio.

Aqui o sol é o mesmo para todos
e o interruptor o apaga.


4 – fim

cada casa é uma trincheira
que se defende de um inimigo invisível

(talvez seja o vizinho
ou nós mesmos – algo nos diz)

e rua a rua a guerra é perdida
pelo avanço de exército nenhum



*

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Tigre


E o tigre de mil bocas rolou, estilhaçando o solo.
E a cotovia cantou em algum lugar do Norte.
E a fumaça subiu enquanto assavam búfalos
E os galos fugiram do amanhecer, mudos de espanto
E Pedro negou dez, Judas beijou quarenta,
E todos os jornais negaram infinitas vezes.
E o ouro escorreu pelas mãos ávidas dos poderosos
Enquanto o tigre de mil bocas, faminto
Levantou seu dorso esquálido
E com uma só patada,
destruiu, engoliu, arrasou
E comeu
Ricos e pobres, brancos e negros, judeus e palestinos
americanos e árabes, europeus e latinos,
oriente e ocidente
oceanos e nuvens
O tigre de mil bocas digeriu o mundo
Depois dormiu cem anos esperando o Messias
.

Língua, colo de útero



Eu aposto
que não sabe
o que é aposto

e lamento
que tenha
esse desgosto,

pois a língua
é assento
e encosto.


Renata de Aragão Lopes

Publicado em 7 de outubro no doce de lira.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

EVENTO

Parte de mim sucumbida numa trama de intrigas
Jogos de poder
No poder
Ética-etílico

Desconhecem o por vir
Nem sabem mesmo o porque
Envaidecem do que não possuem
Mas acreditam

Tio Sam
Dita as normas
Euros comandam

Projetos chancelados.BR
Pretexto
Texto descrito
Ora justificado
Ora calado

Cai a cortina dos conchavos
Onde as máscaras são tombadas como Patrimônio da Humanidade

Fale com Fulano
Envie mensagem.com

Línguas malditas
Ações perversas
Gênese do projeto escrito
Montanhas de Minas
São Lourenço

No canto
O encanto
Parque de São Lourenço

Corre o tempo
Páginas presas na informática voam...
Vislumbro no horizonte
Em Belo Horizonte
Tudo todos em um mesmo enredo

Parte de mim na alegria
Dos olhares dos amigos
Destemidos
Competências agregadas

Mensagem.com
Desagrega Patrimônio
Humano
Conjugação de pilares sociais

Tangível se torna o intangível
Nos olhares, nos abraços
Nos sorrisos velados
Desvelam a ironia

O Ouro
Preto que é
Esconde a faceta cínica
Participação
Antecipação da trama de intrigas
No Corcovado sussurrou
No Planalto relatou

Cai a cortina dos conchavos
Onde as máscaras são tombadas ...
Choro a descoberta de quem eu nunca imaginei
Choro a descoberta de quem se desnudou
Acreditei “meu anjo da guarda”

As Musas se encontraram
Terra estrangeira
Terra Pau-Brasil

Teus olhos

Sinto saudade
De quando me olhavas
Com encantamento.

De quando me vias
Com o coração,
Não apenas com teus olhos.

Eu era tão mais bonita
Sem as rugas
Das dúvidas e dos medos.

Eu era toda a beleza
Que teus olhos viam.
Não fiquei feia.

Com o passar do tempo
Teu olhar é que mudou.
Que pena.

Vera Pinheiro

terça-feira, 20 de outubro de 2009

à luz da noite

o lampião baila assustado
sob o efeito dos ventos de outono

de repente não tenho vontade do mar lembrar
e caso houvesse vontade tão distante estaria que impossível seria

resta - me abrir os arquivos vivos
deitar sobre a cama desfeita da memória

contar até um milhão
acalmar o coração com orações de ocasião

ligar o rádio em uma estação deserta
acordar banhado em suor

entender que nada dessa noite ficou
além da tentativa frustrada de reacender o que nunca se iluminou.

companheiros esse poema está concorrendo no site do prêmio de poesia em video da Fliporto, querendo votar acessem: http://www.fliporto.net/votacao2/

A fantasia de todos os dias.

Em palavras tímidas
escapam promessas
doloridas
de infidelidade

É no disfarce da maquiagem
que se esconde o rosto
áspero
cheio de marcas

A altura
se muda do corpo
conforme
o tamanho do salto

Os caracóis esticados
alongam as vértebras
de um fio
de cabelo

Uma cor forte
esconde a sujeira
embaixo
da unha

O compromisso
com o que sai da boa
muda
se a boca veste um batom

O que mais
uma mulher em seu eterno centro
poderia querer
além da verdade?

A mentira.


Julia Duarte.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Conversão

Franco Fontana


Em solavancos vou levando a vida.
Escrevendo livros que se perdem
Em esquinas obscuras e obscenas.
Vou poetando o que é suburbano,
Subumano, sub-mundano.

Vou me pervertendo,
Convertendo-me insanamente.
Trocando olhares com prostitutas
E beijos com donzelas mais putas que as putas.

Vou bebendo o fel como se fosse mel,
Veneno diário que me sustenta.
Vou me alimentando de orgias
E fazendo cirurgias pra mudança de sexo.

domingo, 18 de outubro de 2009

O Quinhão de Leite

Ruga, remela e sulco
os olhos de vela mugem velhos
bramem a enorme melodia de mortalha
entoada ao longo da vida

a fala

um urro que ecoa rugindo
um uivo ladrado, miado
um guincho aceso

o mamífero
é um penado devedor do seu quinhão de leite