segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Diário de bordo de um capitão alienígena II

Esses seres do século XXI, nas ruas

As cabeças encerradas nos capuzes dos moletons
em dias de insuportável calor

Olhos vidrados
cravados nas telas dos celulares

Ansiosos

Recusando-se ao abandono do útero materno

***

Assusta-me a ideia
de me apoderar de seus corpos

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O mar e a mulher

O fundo do mar surpreende
Como a beleza da mulher

Também vaidoso
Quando claro, convida, se enfeita

Se opaco, esconde
Rejeita

Ambos gêmeos
Guardam profunda intimidade

O mar pelo carisma
A mulher prima pela liberdade

O mar permite a descoberta
Mas tem uma linha de alerta

Ele traz peixes
Ela gera filhos

A lua, as marés, os ventos...
São trilhos

Netuno diz
Que ao vento o mar obedece

O vento muda
O mar permanece

Segredos do mar são segredos de mulher

Ele mostra, se quiser
Ela conta pra quem quer

Igualmente amados
Benditos complicados

O mar por ser mar
A mulher por ser mulher

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Destinatária (o)

Azoe
Um coração

Grafe ao seu amor
À mão

Fotografia, agosto 2017
João Luis Calliari

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Minha avó coando café

para minha mãe
1
toda vez que alguém reza
em qualquer parte do mundo
para qualquer Maria
reza para ela também

2
uma vez a carreguei no colo
era miúda, octagenária
pesava uma tonelada
estava carregando
– de certa forma –
todo mundo que ela carregara

3
por que ela era mãe da minha mãe
e de diversos modos foi minha mãe também:

quando perdeu o juízo
- a idade avançada e o diabetes -
virou filha da minha mãe
e assim – de alguma forma –
foi minha irmã também:

a ordem das coisas invertidas
ou definitivamente alinhadas




07/08/17

domingo, 6 de agosto de 2017

Não Queremos Ser Descartáveis

O Opinião, na José do Patrocínio esquina rua da República
"arrastou" os demais bares para a Cidade Baixa, se não me engano

Foi uma espécie de líder da cena alternativa

Era tempo de Luiz Melodia*, Belchior, João Bosco, Ivan Lins, João Nogueira, Gonzaguinha e tantos outros, "dando canja" depois dos shows, na Joaquim Nabuco

Havia o Chão de Estrelas, reduto dos mais versados
Onde gente do samba pertencia também ao tango, só que em outra casa

A gente ia de um bar a outro, a qualquer hora da madrugada
Caminhávamos livres como potros selvagens

O bar do Túlio Piva chamava-se Pandeiro de Prata

Ficava na João Pessoa com Jerônimo de Ornelas
"O endereço do samba não é mais na favela" ( do próprio Túlio)

Surgiram outros tantos, não tão badalados
Talvez por isso, mais aconchegantes

Eles afagam minha memória, junto com os bares do Bom Fim, Bar João, Lola, Ocidente, Escaler...

A avenida Osvaldo Aranha (Osvaldo para os íntimos)
Não merece um capítulo, merece mais de um livro

Depois, a Cidade Baixa adormeceu
O Bom Fim sossegou

Outros tempos, novos cenários

Era chegada a vez do Bar 1, do Chips, ambos no Menino Deus
Do Sgt. Peppers, na rua Dona Laura, no bairro Moinhos de Vento

Pra quem se desloca na direção da avenida Venâncio Aires
O bar Opinião, hoje, permanece na Patrocínio, umas quadras abaixo do antigo endereço

O Bom Fim continua morno, mas com espírito rebelde
Ou seria rebelde com espírito morno?

"Lá em casa continuam os mesmos problemas", cantavam os Garotos da Rua, "mandando bala" no Rock

A Cidade Baixa despertou boêmia, repleta de bares e restaurantes

Só não dá pra sair a pé na madrugada da cidade

Afinal, somos todos descartáveis, como certas músicas...

.............................................................................*descanse em paz, poeta


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Os Mortos da Véspera



uma nova guerra se anuncia
antes da chama da anterior se apagar

(aqui havia uma casa
e há fumaça escapando de seus escombros:
talvez alguém tenha sido feliz
onde agora só há destroços)

uma nova guerra se anuncia
antes que as crianças
– que mal sobreviveram à última –
tenham tamanho suficiente para empunhar uma arma
ou saibam pelo menos amarrar o próprio cadarço

um avião risca o céu, anunciando

(ainda sequer enterramos os mortos da véspera)


07/07/17

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Estado De Graça I

Apaixonar-se é dizer coisas tolas
E é assim que tem de ser

sábado, 24 de junho de 2017

Àqueles que nos odeiam

Aqueles que nos odeiam
nunca descansam
Movidos por uma paixão
de proporção desmedida
são capazes de tudo
o tempo todo
Algo próximo do insano os impulsiona:
um amor à revelia
(ou às avessas)
que se alegra com a nossa ruína
Não dormem
e se o fazem
não sonham com nada além de estratégias
para alimentar a chama de nossa insônia
Incansáveis em seus propósitos
é impossível mencioná-los
de qualquer forma que seja
e não dimensionar
o tamanho da inveja
que os alimenta
Aqueles que nos odeiam
nunca descansam
Não reconhecem fim de semana
feriado, dia santo:
seriam funcionários exemplares
se ao trabalho se dedicassem
como se debruçam sobre nosso itinerário
Em suas vidas miúdas
estão agora mesmo escolhendo com afinco
o nomes dos fakes
como se fossem
os nomes dos seus futuros filhos
Na falta de um nome
– as vezes falha a inspiração –
um perfil anônimo, em rede social
cumpre a função
Só repetem, afinal
o que seus pais fizeram com os nossos pais
(que isso de ser um merda
quase sempre se herda)


Rafael Nolli
01/06/17

terça-feira, 6 de junho de 2017

Wide Open Eyes

Como parágrafo desconexo
Eu, perguntas sem respostas

Espelho sem reflexo
Tornei-me uma aposta

Uma larva

Eu, coração em brasa
Desatei a fazer versos

Pra defrontar meus desertos
Criei asas

O parque

Chuva e outono
Tem tudo a ver

Ela vem pra lhe benzer
Ele se deleita no abandono

sábado, 6 de maio de 2017

Belchior

A manhã de sol virou lamento
ao saber do teu suposto naufrágio

Cantarolando teus versos
navegamos, desde sempre, o tenebroso mar do falso pranto dos insensíveis

Resigno-me
porque é somente um até breve

Reflito sobre a tua
nossa, da humanidade arma quente

Uma vez mais, para dispará-la
foste chamado

Obrigado, Bardo!

**** A Felicidade é uma arma quente (Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes)

Estágios

A adolescência
Assim se fez

Bebia todas
Pra disfarçar  timidez

Hoje, ela faz
Por puro prazer

Porque não suporta ressaca

Decidiu

Há tempos
Mitiga a cachaça


quinta-feira, 6 de abril de 2017

Nadiesda

Certos nomes, quando concebidos
São envoltos em delicados mantos

Talham-se para o sussurro ao pé do ouvido

É como se a pluma de uma rara ave
Ousasse um passeio atrevido pelo corpo

Cada letra pronunciada

Corresponderia, da pele
A um arrepio

sábado, 25 de março de 2017

A mulher começou a fumar


1
a mulher começou a fumar
não havia nenhum fumante na família
ocorrendo certo desconforto
– desde sempre, pelo que se lembrava –
quando fumavam perto dela

o turno na noite
– em um estacionamento de shopping –
convidava à solidão

às vezes
no descanso do lar, ocorria de ouvir
o som dos pneus, riscando o chão
quando manobravam antes da rampa

2
se lembrava da mãe comentar
– com uma ponta de ironia –
que se não estudasse acabaria secretária
fato que lhe parecia
– no momento
– convenhamos! –
melhor do que aquilo

o pai amenizava
contava nos dedos os diplomados
– só no seu lado da família –
que terminaram assim:
“muito trampo / pouca grana”

uma tia
– um tanto distante na genealogia –
– ele frisava –
tinha devorado os livros
e terminara em um caixa de supermercado
“contando o dinheiro dos outros”

3
certa noite
pegou um guimba no chão
– perto de onde os carros manobravam –
e deu o primeiro trago

não havia um único fumante na família
ela pensava entre um &
    outro trago



segunda-feira, 6 de março de 2017

Decorpoema

Pintarei meu ninho de branco
qualquer dia desses

Nas paredes e no teto, em vez de espelhos
poemas

Entre um gole e outro de vinho, num simples percorrer de olhos
Lerei versos em negrito

Uma mesa de sinuca servirá de companhia

Alçarei voo
rumo a desconhecidos continentes

Enquanto encesto a bola sete na caçapa






sábado, 25 de fevereiro de 2017

Elegia nº 2

1. Quando a indesejável das gentes chegar

o que estiver em andamento findará
& não haverá mãos que o resgate:

o pão com manteiga sobre a mesa
(mordido uma única vez)

a reforma do telhado
(antes da temporada das chuvas)

o poema derradeiro
(abortado na última estrofe –

restando apenas – talvez –
o ponto final)

2
pequenas coisas, de uma banalidade ímpar
exigindo algum engenho & muita paciência:

encontrar o carro estacionado em local ignorado
(em alguma rua nas proximidades –
não mais que dezenas delas em dois quarteirões)

“alguém precisa ir alimentar o gato
& dar de beber às samambaias –
sabe-se aonde guardava as chaves de casa?”

quitar uma pequena dívida no mercadinho
(duas maçãs, uma garrafa de mel, cachaça –
“não há nota”, diz o cobrador meio encabulado)

3
o morto não se enterra sozinho
havendo em torno diversos encargos:

alguém que pague tudo (caixão,
carneiro, lápide)
& seja justo no rateio entre os familiares –
“a cada um segundo as suas possibilidades”

cabendo a outrem a inglória parte
– quem há de fazê-lo sem se lastimar? –
de ligar para a mãe
(aquela que o carregou por 9 meses)
que antes de se desesperar
encontrará forças
para ligar na manicure
& desmarcar o horário



sábado, 18 de fevereiro de 2017

A noite do Rato


1
quando ela avistou o rato cruzando a cozinha
– de um extremo ao outro –
 o pavor que se instalou foi irracional

se se tratasse de um ladrão
o desespero não seria tão grande
talvez tentasse argumentar
dizer: as joias estão na cômoda!
ou pedir clemência: piedade, tenho um filho!

com o rato, não:
não havia diálogo

2
toda a esperança estava ali:
uma ratoeira – comprada às pressas –
armada na varanda
por onde o animal escorreu
passando debaixo
– vão minúsculo – da porta

naquela altura
já não havia para onde ir
nem pra quem pedir ajuda

a noite seria longa e insone
assim como a noite do rato
farejando e varrendo a escuridão
incansável em seu propósito

3
não convém relatar – haveria palavras? –
a reação da mulher, logo pela manhã
ao encontrar um pobre pardal
antes alegre sobre o muro
– isso ela não viu –
debruçado sobre a ratoeira
degolado



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Raptor

O Rio de Janeiro atrai muitos amores
Outros tantos conquistará

O que ele tem, que eu não tenho
Nem carece perguntar

Tenho ciúme desse Rio
Seu carisma é tanto que me agride

Chama as musas para perto
Deixa o ponto de interrogação no meu cabide

Quem sabe, um dia eu me mude pra lá
Inspire-me, onde Vinícius de Moraes escrevia, de punho

Só não sei se vai dar certo

O Rio é de Janeiro
Eu sou de Junho

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Repouso

Branquinha
é a vela do meu veleiro

Navega meu mar

De dezembro
a fevereiro

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Noturna

Abrigo-me
Entre os seios da escuridão

Aguardo um menestrel

Um encantador de sacadas
Que empreste seus versos

Para que eu os diga
Quando a janela se abrir

Se o vizinho do lado
Jogar o vaso de flores
Farei dele
Meu ramalhete pra ela

domingo, 6 de novembro de 2016

Piperácea

Acariciava os mamilos dela o tecido
Como se fosse um meticuloso artesão

Pouco a pouco
Nutria-se o algodão dos seios

Espontaneidade sem fim
Início, ou meio

Duas vertentes de vida
Harmonizavam com o  vermelho da calcinha
Que encobria os pelos pubianos

Tão lento era o movimento
Que o dia desejaria ser ano

Fotografia, novembro 2016





quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Olhando nos olhos

Se, em jogo
Não estivessem bens imóveis

Se
Dívidas brotassem das cômodas

Se
Zero fosse o saldo da conta bancária

Se
Imperasse o desemprego

Se
Crédito no cartão não houver

Então
Aspirar-se-ia com ardor
Escutar uma voz dizendo

Meu homem, meu amor
Minha mulher



terça-feira, 6 de setembro de 2016

Vozes correntes

"Poetas detêm a chave que abre todas as portas"
 "São mestres na arte de amar"
"Desvendam os mistérios das almas"

***

Diz-se
Que seus lampejos de escrita teriam a beleza das auroras boreais
Causando inveja nas guerreiras Valquírias
Cujas armaduras refletem os raios do sol

***

Quase nunca é mencionado, porém
Que eles não querem saber de muita coisa
Que eles não se consideram geniais

***

Poetas gostam de enveredar-se pelos atalhos
Que conduziriam a um suposto Éden
(fantasiado de "pressa de viver")

***

William T. Maud
A cavalgada das Valquírias, 1890

sábado, 6 de agosto de 2016

Magnanimidade

Nada é mais generoso
Que uma árvore

Fotografia, agosto de 2016


Pentelha

Madrugada
Três horas e dezenove minutos

Encrava na mente a palavra

Ela quer brincar
De briga de travesseiro