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sábado, 23 de junho de 2012

Se é pra falar de amor


muito se fala de amor
antes do amor:


essa vontade
de ter o outro
ainda idealizado


essa saudade
de um encontro
apenas imaginado


é que a possibilidade de amar
parece amor consolidado


mas amor sem experiência
tem algum significado?




               também se fala de amor
               durante o amor:


               essa vontade
               de manter o outro
               enamorado


               essa saudade
               banida a cada encontro
               marcado


               é que a oportunidade de amar
               parece amor consolidado


               mas amor sem convivência
               não é um tanto precipitado?




                              e pouco se falar de amor
                              após o amor:


                              essa vontade
                              de ver o outro
                              sob cuidado


                              essa saudade
                              mantida a todo encontro
                              selado


                              a capacidade de amar
                              é amor consolidado


                              amor com resistência,
                              o único autenticado






No twitter: O amor já nasce velho.


Renata de Aragão Lopes


Publicado no Doce de Lira em 11 de junho de 2012.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Significâncias



nem toda flor é rosa
nem todo azul é céu
nem todo texto é prosa
nem todo doce é mel

nem todo espelho é mágico
nem toda prece é fé
nem todo amor é trágico
nem toda meia é pé

nem todo pão é trigo
nem todo pó é sal
nem todo anjo é amigo
nem todo lobo é mau

mas toda brisa é saudade
todo lençol é divã
todo soluço é verdade
toda esperança é manhã




Publicado em 6 de janeiro no Doce de Lira.
Fotografia minha: nem todo mar é bravo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Tratado de fim de ano



as ruas estão cheias
as vitrines, decoradas
as calçadas, derrapantes
as noites, mal dormidas

dezembro se repete
exatamente como antes:
todo ano, a mesma angústia
entre luzes coloridas

de onde, esse nó na garganta:
é dezembro que o agiganta
ou ele vem das despedidas?

de onde, esse aperto no peito:
ele viria de qualquer jeito
como selo de horas perdidas?

e as pessoas se cumprimentam
como se fossem todas queridas...
para que abraços forjados
quando as testas estão franzidas?

dezembro se repete
exatamente em pormenores:
a ceia pelos lares
a tristeza aos arredores

entre estrelas e guirlandas
e velas e altares
e piscas nas varandas

todos se afligem em sigilo:
como de si fazer festa
se o que se quer é asilo?




Publicado em 18 de dezembro no Doce de Lira.
Ilustração de Fabrícia Batista.

domingo, 23 de outubro de 2011

Meninice



era tempo de criança
de cantiga e roda dança
de canjica e mariola
de bola no pé de moleque

beijinho de salada mista
no chão pista de gude
pião e banho de açude
passeio de trem aos domingos

boneca de pano e casinha
o jogo de amarelinha
o vento a subir a pipa
o sopro a girar cata-vento

tantos anos se passaram
e passado nem parece
meninice é travessura
de quem se desobedece




Publicado em 12 de outubro de 2011 no Doce de Lira.
Escrito a partir de roteiro.

sábado, 24 de setembro de 2011

Riso


riso
não foi feito
pra caber em bolsa
pra se levar em bolso
pra se guardar em gaveta

de riso
que vem do peito
não se lava louça
não se tem reembolso
não se pede gorjeta

riso
há de ser solto
talvez revolto
quase careta

riso
é um som mudo
boca de veludo
de outro planeta




Publicado no Doce de Lira em 2 de setembro de 2011.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Amar, verbo de ligação



todo tempo é pouco
todo tempo é curto

cada minuto contigo é louco
cada minuto sem ti é furto

quem fui eu antes de tua vinda?
a mulher que te sonhou um dia

quem é essa a que chamas de linda?
a mulher só que te quer companhia

se o amor existe há de ser isso
se o amor é real parece inventado

nada maior que esse compromisso
nada melhor que te ter namorado



Diálogo com Mário de Andrade.
Publicado no Doce de Lira em 4 de agosto de 2011.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Parábola do ser


o homem
apressou
os passos
na ânsia
de alcançar
o horizonte

e nunca
que ficavam
defronte

até que
se sentou
e fechou
os olhos
com apatia

era ali
que o horizonte
existia




Publicado ontem no Doce de Lira.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Pontual


que vontade de ficar
quando a pressa é de seguir

não importa em que lugar
sem roteiro ou souvenir

o agora não tem preço
faço dele um endereço

- estendo a rede na varanda do tempo -


não me venha perguntar
que eu nem quero responder

já tirei até colar
para nada me prender

o agora não tem ponteiro
é seu próprio paradeiro

- entendo a sede na garganta do tempo -




Poema publicado em 10 de maio no Doce de Lira.

Escrito a partir de:

vou ficar mais um pouquinho
para ver se eu aprendo alguma coisa
nessa parte do caminho
Tulipa Ruiz, em Efêmera

Onde é que eu atrelo o burro, e que eu desço da sela
e entrego a rédea a alguém...?
Dalva Maria Ferreira, em Poesias Soltas

sábado, 23 de abril de 2011

Prenúncio



de tudo há sinais:
amor que veste colete
caminha pro cais


A despedida se inicia bem antes do fim. (Twitter)


Renata de Aragão Lopes

Publicado em 15 de abril no Doce de Lira.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Eternamente



à véspera dos trinta e cinco
ainda sonho
ainda brinco

como aquela menina de doze
em todo retrato
com a mesma pose

: o tempo não me angustia
toda idade tem poesia

a vida é amarelinha
que pulo sozinha
rumo ao céu


Renata de Aragão Lopes

Publicado no Doce de Lira em 11 de fevereiro de 2011.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Uma só razão



Há quem não goste de Natal
por se recordar dos ausentes,
por ser tempo de presentes,
por lhe faltar alguma fé.

Já eu aprecio a data pelo que é:
a saudade de entes queridos,
o mimo aos meus preferidos,
a oração familiar de pé...


Renata de Aragão Lopes


Publicado hoje no Doce de Lira.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Caminho das pedras



Já me indagaram
sobre a água do meu banho,
imitaram meu perfume
e se benzeram com arruda.

Já me pediram
que criasse algum rebanho,
pra seguirem em cardume
meu livro de autoajuda.

Como se casar em três meses
e ainda se casar por três vezes
antes de chegar aos trinta e três?

Não há feitiço, nem mistério.
Isso tudo é muito sério
para a minha lucidez.


Renata de Aragão Lopes


Escrito ao som de Raul Seixas, na estrada Tiradentes/Juiz de Fora.
Publicado em 5 de novembro no Doce de Lira.

domingo, 24 de outubro de 2010

Tristeza



é melodia baixa
que se repete
a mesma faixa
a mesma faixa
a mesma faixa

é poesia em tom
de ladainha
o mesmo som
o mesmo som
o mesmo som

é elegia remota
e sem fim
a mesma nota
a mesma nota
a mesma nota


Renata de Aragão Lopes

Poema publicado em 10 de outubro no Doce de Lira.

Imagem: Tristeza, tela de Nilza Souza.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Poluição eleitoral



Como posso

crer no candidato,
se antes do mandato

ele já suja a cidade inteira,
a cara lavada em óleo pra madeira
pisoteada por cada pessoa que passa?

Campanha limpa honra o asseio pelo passeio.

Respeita o chão que é público e alheio.
Prioriza o discurso e não o panfleto:
a sua fala em branco e preto.

Aquele lá é predador
a só ver o eleitor

como caça.


Renata de Aragão Lopes


Soneto blavino publicado em 15 de setembro no doce de lira.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Inalante



meu sonho de menina
parece de éter agora:
me alucina
e se evapora


Renata de Aragão Lopes


Poemeto publicado em 2 de agosto no Doce de Lira.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A parede, além de ouvidos



Insaciável a parede.
Tão logo pintada,
novamente se enche
de sede.
A perder-se,
quase chega
a coitada:
trinca
e infla,
de si infiltrada.

E, recostada à cabeceira,
como se ainda
à beira de um sonho,
com a tinta
eu me ponho
intrigada,
a indagar:
_ A que assistiu
cada camada?
Pois se logo
se consumiu a parede,
não há de ter sido
por nada.


Renata de Aragão Lopes


Durante leituras de Manoel de Barros.
Poema publicado em 8 de julho no doce de lira.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Saramago



Antes que te vás, merecidamente em paz,
para conheceres os tantos saberes que nos são dormentes em vida,
permite-me, por obséquio, uma tão breve despedida,
que não ousaria atrasar-te a ida.
Segue, homem, com toda honraria e haste à Ilha Desconhecida,
consternada te digo, pois deixaste cada obra tua
como que autografada comigo.


Renata de Aragão Lopes


"todas as ilhas, mesmo as conhecidas,
são desconhecidas enquanto não desembarcamos nelas"
O Conto da Ilha Desconhecida


Homenagem publicada em 19 de junho do doce de lira.

domingo, 23 de maio de 2010

Coisa de ninguém



a poesia
não é minha filha:
não me vem do útero
bacia
e virilha

a poesia
não é minha arte:
não me vem do estudo
bibliografia
e encarte

a poesia não me vem
a poesia não é minha


Renata de Aragão Lopes

Poema publicado em 3 de maio no doce de lira.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O erro



Talvez a expectativa
seja o erro.
Vive-se à deriva,
na ânsia
de um ineditismo ilusório.
Sabe-se tão só
que ao enterro
antecede o velório.
Daí a irrelevância
e o cinismo
de todo o resto.
Há algo, enfim, mais funesto
que o aguardo
do amor verdadeiro?
Crê-se que tem sabor de primeiro.
Pra mim, terá gosto de último.


Renata de Aragão Lopes

Poema publicado em 13 de abril no doce de lira.

terça-feira, 23 de março de 2010

Soluço



Desci ao porão
pra rever
monstros antigos
- mas fui em vão.

Descobri
que se tornaram
meus amigos
- logo, somem na escuridão.

De companhia,
restaram-me
vinhos
- a uns poucos degraus do chão.

Embriaguei-me
de apatia
aos golinhos
- subsolo da solidão.


Renata de Aragão Lopes


Poema escrito para esta imagem,
publicado em 12 de março no doce de lira.