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quinta-feira, 11 de junho de 2009

Ressaca

Meu olho corre*
Fato e foto
Nos grafos dessa luz
Que encantam meu afeto
Último ístmo
De onde parto e naufrago
No estribilho
- realismo é arte ultrapassada -
Sussurado por desconstrutivismos
Agarrados no costão
Lavado pela maré que vaza

À margem dessa trilha,
Vejo-me cindida,
Sargaço sem mar
Bóio em jogos,
Correntes gramaticais,
Coberta por nuvem
Carregada de signos,
significantes cinzas,
Sinais sem sujeito

Amanheço em solidão afásica,
Desnaturada, afundo
Versos e poemas na ponta dos remos
E a língua em aclive, gagueja
Se poesia é a liberdade
Da minha linguagem
Por que escrevo com medo de errar?

Erguem-se abrigos, casebres pós-modernos
Onde vivo solta à beira de abismos
Presa, por um fio, nas algas narrativas
Entrevistas como dejetos
E experimento prazer na falta de ar

Diante da perda de referenciais,
Afogo, no vórtice das calamidades,
Rima, ritmo, métrica, tema
E os leitores desamparados
Que me acusam.
Um diz ser o excluído
Do umbigo com que escrevo
Outra reclama ver prosa
Nas imagens - meu desejo de poema

Sem piedade, cometo heresias.
Quebro-me para ser capaz de andar
Sobre júbilo múltiplo
Pós - tudo, aguerrida
Tropeço em Barthes e Derrida,
Chuto Foucault
E adeus, Delleuze

Minha nostalgia - âncora e brecha -
Resgata-me. Nado pelo meio,
Atavesso a ressaca
De olho na palavra encarnada,
Falo em silêncio,
Agarro-me à letra,
Alcanço o porto sem cais
Minha única saída



Imagem: Foto de Marco Antonio Cavalcanti - publicada em O Globo Online
*Fui ler Água e Sal e voltei ardida pelo soneto e pela imagem,
culpa do Henrique que escreve tão bem.

*** este poema não é inédito mas é quase. Faz poucos dias que o postei e estou insatisfeita com ele. Demorei pra escrever, reescrevi diversas vezes e ele não me satisfez até agora. Enfim, somos sempre insatisfeitos mas neste a dúvida é maior. Portanto, quem já leu lá no Compulsão pode opinar mais uma vez e de forma diversa.
Afinal, um poema muda a cada leitura, não?
Por isso, espero sugestões, críticas.
Desde já , agradeço de desejo bom final de feriado a todos.

abraços gerais

Beatriz


₢ Beatriz M. Moura
Compulsão Diaria
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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Quase pronto

espreita...


Que as palavras venham,
Despertando dobras.
Há algo deitado
Resto sem nome
Nem sentido.


E deslizando livres,
Feito cócegas,
Ericem poros, dores
Papilas e pelos.

Façam ponto em cada ponto
- seco ou indisposto -
Do poema à espera
De corpo ou esboço
Nesta página, campo
E pouso transitório
Dos silêncios sob a vigília
De minhas feras à espreita.

 

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quarta-feira, 11 de março de 2009

Feira do Bueiro


Matizes, upload feito originalmente por Chico.Ferreira.

Hoje é dia da Feira do Bueiro das farinhas brancas e frescas ao lado dos caldos e dos galos das galinhas no calor das rinhas dos casais que andam sob o sol ela na frente enquanto ele me segue rindo da trouxa na minha cabeça e do menino carregado nas ancas e pernas de um tempo lânguido com poeira no vento e cheiro de sertão e gosto de vida da sua pele negra doce amarga boca que se abre e beija sem deixar tudo semeado prenhe de alegria e preguiça que sigo molenga na tarde dessa cama de folhas de hortelã depois mais um carinho e o toque roça e eriça a luz de uma lua que se esvazia obediente ao ritmo dos ciclos meus pedidos de benção aos dias presentes e futuros presos nos telhados e vielas dessa cidade aberta na veias da certeza do meu amor jogado nas cordas da viola cantando pagão e salvador de minha sina virada fulô

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Cronos Corte


Cortei o cabelo a navalha
Agora, minha história desfiada
Vê-se nua em pelo, no fio das horas,
Toda ela na minha cara
Explode meu perfil em camadas

Inteira, entalhada na fresta do presente,
Minha história é rua larga,
Via de mão dupla sem calçada

E cada passagem, cada camada
Passadas
Cabem no meio fio da face

A última década enrolada,
Pesa camuflada no batom desejo coral
Cobra pronta, aninhada no musgo do tempo,
No verde do muro e no côncavo da boca.
Cobra criada pra dar bote e beijo
Nos pés de um futuro que lateja


Música: Autumn Leaves / Cannonball Adderley with Miles Davis

domingo, 11 de janeiro de 2009

Interlíngua


Ce suis je
Sujeito
Je suis cela

Na floresta
Perdida
Je suis chat

Nesta flor está
Tudo e tanto
Cuidado
Que o contato

Todo

Num pulo
Se perdeu
Flor que resta

Detrito
Abjeto objeto
Moi, je crois

Sou esta

Estrela inquieta
Mar
Sou enigma

Em noite quente
Sou lábil
Cifra em suspense

Entre

A língua e o mundo
-intersentida-
Sou toda narrativa



Imagem
Drawing Hands, M.C. Escher, litografia, 1948

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Chove


Chove, quando aterrisso
Ao som do solo dedilhado

E da voz rouca
A rasgar feitiço,
Sobre a noite em plena tarde
Morna e sem sentido
Da metrópole-deserto sem oásis.

Em terra, embarco no caos de lata
Fora de hora.

Na avenida à beira-rio,
Quase quietos,
Os automóveis marginais
São como figuras de pedra
De um muro furado que grita
Sob a chuva trágica
Por onde escorre a comédia
Dessa chegada pronta pra ir embora
Da cidade que me perde
Na rapidez de uma mágica
E que é tão minha e próxima
Que a largo longe,
Mas levo comigo sempre
Assim mesmo, eu sem resgate.

Compulsão Diária
Beatriz M. Moura