
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Ressaca

segunda-feira, 11 de maio de 2009
Quase pronto
Que as palavras venham,
Despertando dobras.
Há algo deitado
Resto sem nome
Nem sentido.
E deslizando livres,
Feito cócegas,
Ericem poros, dores
Papilas e pelos.
Façam ponto em cada ponto
- seco ou indisposto -
Do poema à espera
De corpo ou esboço
Nesta página, campo
E pouso transitório
Dos silêncios sob a vigília
De minhas feras à espreita.
quarta-feira, 11 de março de 2009
Feira do Bueiro
Hoje é dia da Feira do Bueiro das farinhas brancas e frescas ao lado dos caldos e dos galos das galinhas no calor das rinhas dos casais que andam sob o sol ela na frente enquanto ele me segue rindo da trouxa na minha cabeça e do menino carregado nas ancas e pernas de um tempo lânguido com poeira no vento e cheiro de sertão e gosto de vida da sua pele negra doce amarga boca que se abre e beija sem deixar tudo semeado prenhe de alegria e preguiça que sigo molenga na tarde dessa cama de folhas de hortelã depois mais um carinho e o toque roça e eriça a luz de uma lua que se esvazia obediente ao ritmo dos ciclos meus pedidos de benção aos dias presentes e futuros presos nos telhados e vielas dessa cidade aberta na veias da certeza do meu amor jogado nas cordas da viola cantando pagão e salvador de minha sina virada fulô
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Cronos Corte
Cortei o cabelo a navalha
Agora, minha história desfiada
Vê-se nua em pelo, no fio das horas,
Toda ela na minha cara
Explode meu perfil em camadas
Inteira, entalhada na fresta do presente,
Minha história é rua larga,
Via de mão dupla sem calçada
E cada passagem, cada camada
Passadas
Cabem no meio fio da face
A última década enrolada,
Pesa camuflada no batom desejo coral
Cobra pronta, aninhada no musgo do tempo,
No verde do muro e no côncavo da boca.
Cobra criada pra dar bote e beijo
Nos pés de um futuro que lateja
Música: Autumn Leaves / Cannonball Adderley with Miles Davis
domingo, 11 de janeiro de 2009
Interlíngua

Ce suis je
Sujeito
Je suis cela
Na floresta
Perdida
Je suis chat
Nesta flor está
Tudo e tanto
Cuidado
Que o contato
Todo
Num pulo
Se perdeu
Flor que resta
Detrito
Abjeto objeto
Moi, je crois
Sou esta
Estrela inquieta
Mar
Sou enigma
Em noite quente
Sou lábil
Cifra em suspense
Entre
A língua e o mundo
-intersentida-
Sou toda narrativa
Imagem
Drawing Hands, M.C. Escher, litografia, 1948
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Chove

Chove, quando aterrisso
Ao som do solo dedilhado
E da voz rouca
A rasgar feitiço,
Sobre a noite em plena tarde
Morna e sem sentido
Da metrópole-deserto sem oásis.
Em terra, embarco no caos de lata
Fora de hora.
Na avenida à beira-rio,
Quase quietos,
Os automóveis marginais
São como figuras de pedra
De um muro furado que grita
Sob a chuva trágica
Por onde escorre a comédia
Dessa chegada pronta pra ir embora
Da cidade que me perde
Na rapidez de uma mágica
E que é tão minha e próxima
Que a largo longe,
Mas levo comigo sempre
Assim mesmo, eu sem resgate.
Compulsão Diária
Beatriz M. Moura


