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terça-feira, 7 de junho de 2011

Poemas do Bardo


leite na tigela
para o tigre de bengala
banguela




naum

naufrago no magma
virtual, inábil
em zilhões de páginas
www



Fotografia: Felipe Marques

sábado, 7 de maio de 2011

Da servidão

Da servidão

Se a moça for do solo da Toscana,
é dona de manter o desmantelo,
contente por amar e por mantê-lo
à vista de seu corpo. Que sacana!

Se ainda for ferina, que me engana,
bruxedo que arruína meus castelos,
aflige fantasias a cutelos,
os ossos esfacela. Que magana!

À luz de suas meias em turqui,
em tour por suas pernas, por prazer,
estou no que é pedido para ser...

A venda nos seus olhos e eu aqui
na frente desse espelho que me vê
fazendo o que bem quero com você.


***

sábado, 30 de abril de 2011

Jacques Réda

Jacques Réda intitula-se como um pedestre de Paris. As paisagens captadas pelo pedestre formam um material riquíssimo para a sua poesia. Em especial, o poeta prende sua atenção àqueles que povoam o entorno de suas andanças.

Correspondência

Você me escreve. Como num sonho você me escreve.
Entretanto não é mais você mesmo quem escreve, nem eu
Quem recebe como num sonho sua carta.
As novidades se vão, se extraviam e chegam
Depois de um tempo tão longo que não se sabe mais a que
Fazem alusão essas palavras cuja tinta violenta se apaga;
E que, sobre a foto que ficou pálida dentro do envelope,
Sorri ainda aos sóis que já desapareceram.


Correspondance

Vous m'écrivez. Comme en songe vous m'écrivez.
Pourtant ce n'est plus vous vraiment qui m'écrivez, ni mi
Qui reçois comme en songe votre lettre.
Les nouvelles s'en vont, s'égarent et parviennent
Après un temps si long qu'on ne sait plus à quoi
Font allusion ces mots dont l'encre violente s'efface;
Et qui, sur la photo qui a pâli dans l'enveloppe,
Sourit aux soleils disparus.




Personagens na periferia

Você ainda não acabou de juntar as coisas,
As caixas, as casas, os vocábulos.
Sem barulho o congestionamento cresce no centro da vida,
E você é empurrado para a periferia,
Para os aterros, as auto-estradas, as urtigas;
Você existe apenas em estado de ruínas ou de fumaça.
Mas você vai andando,
Dando a mão para suas crianças alucinadas
Sob este vasto céu, e você não avança;
Você pisa pisa pisa infinitamente na frente do muro da amplidão
Onde as caixas, os vocábulos quebrados, as casas o alcançam,
O empurram um pouco mais longe desta luz
Que vai tendo cada vez mais dificuldades de o sonhar.
Antes de desaparecer
Você volta a sorrir para a sua mulher atrasada,
Mas ela está tomada também por um redemoinho de solidão,
E suas feições são as de uma velha fotografia.
Ela não responde, angustiada e tensa com o peso do dia sobre suas pálpebras,
Com este peso vivo que se move na sua carne e que a sobrecarrega,
E o último vale do mês dobrado no seu colo.




Personnages dans la banlieue

Vous n’en finissez pas d’ajouter encore des choses,
Des boîtes, des maisons, des mots.
Sans bruit l’encombrement s’accroît au centre de la vie,
Et vous êtes poussés vers la périphérie,
Vers les dépotoirs, les autoroutes, les orties;
Vous n’existez plus qu’à l’état de débris ou de fumée.
Cependant vous marchez,
Donnant la main à vos enfants hallucinés
Sous le ciel vaste, et vous n’avancez pas;
Vous piétinez sans fin devant le mur de l’étendue
Où les boîtes, les mots cassés, les maisons vous rejoignent,
Vous repoussent un peu plus loin dans cette lumière
Qui a de plus en plus de peine à vous rêver.
Avant de disparaître,
Vous vous retournez pour sourire à votre femme attardée,
Mais elle est prise aussi dans un remous de solitude,
Et ses traits flous sont ceux d’une vieille photographie.
Elle ne répond pas, lourde et navrante avec le poids du jour sur ses paupières,
Avec ce poids vivant qui bouge dans sa chair et qui l’encombre,
Et le dernier billet du mois plié dans son corsage.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

French smoking




in subversify

















French smoking


Viajas para longe. Para onde?
Viajas para além do litoral.
Sou cega pela luz que em ti se esconde,
desejo que se acende ao ideal,

tateio nitidezes no Le Monde,
que estás na cintilante capital:
tu vais ao boulevard sentada ao bonde,
fumando o teu gitanes, afinal

tranquila, tranquilinha.... Tornozelos
à mostra,de lolita no minete,
até que me devolva a condição

de verme, da que vive por seus zelos
de má, suas mazelas de coquette,
o dorso na vergasta, danação.



*** Mais uma explicação desnecessária: a produção de sentido(s) exigiu-nos o abrupto escambo pronominal.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Jules Morot
















Vagabundagens

Minhas viagens são feitas de acasos e de sombras. Ou de sombras e de acasos, porque a soma e a sequência dos fatores é perfeitamente arbitrária. Ou não será assim?

Nesse momento não importa, agora o que é preciso evocar são as presenças gigantescas do verde passando por mim, sobre mim, sobre minha cabeça, meus pés, minhas mãos e meus ombros. As vestes que me cobrem e que de tempos em tempos me deixam nu, o mar que sempre me lembra de sua tarde ensolarada, da tardezinha quando uma estrela já brilhava no céu, o banco de jardim em que eu me sentei um dia quando estava numa terrazinha da Espanha, as grandes lumes na montanha, as piras que me fascinavam, que me deixavam surpreso, porque eu não conhecia ainda o fogo e sua inumerável arquitetura plena de terrores e de encantamentos, a voz do vento lá fora, pelos caminhos da montanha, solitários como flores num bosque que não se sabia bem onde ficava.

Minhas viagens são feitas de amargura, por não retornarem nunca mais. As viagens são como um rochedo em silêncio no bosque, na manhã. Num bosque onde os animais nascem e morrem, a doçura de um raio de sol ou de um luar sobre o dorso de um lobo, ou de uma inconcreta aparição.

Tenho-te a mão e eu não tenho tua mão. Imagens me rodeiam e são coisas que existem, o pão e a água que migram de lugares longínquos e que nos habitam. É a água interior, a água que tu exalas, a água que eu bebo no meu coração, são teus olhos que agora não reconheço, o fulgor do passado.

As casas que me contornam, o repentino barulho de um trem perdido e essa voz de mulher dizendo para outra, mais nova, mais vistosa: “Era aqui o nosso quarto, lembra? Fomos tantas vezes à janela, papai ainda estava vivo.” A memória que se esconde para sempre num cantinho do cérebro, como um humilde retrato num canto de mesa, numa sala bem antiga.

Minhas viagens são feitas de tudo o que nos sustenta e nos abandona nas grandes caminhadas ao longo de um rio ou de um deserto.

Minhas viagens são como livros amados e iguais aos crimes de alguém, alguém que existe e não existe, alguém que me habita as intimidades e dentro do peito que conservo ainda mergulhado nesse tempo, num outro tempo, em todos os tempos do universo.




Vagabondages



Mes voyages sont faits d’hasards et d’ombres. Ou d’ombres et d’hasards, car la somme et la séquence des facteurs c’est parfois arbitraire. Ou ce ne sera pas ainsi?


Au moment cela n’importe pas, maintenant ce qu’il faut d’évoquer sont les grandes présences des forêts en passant par moi, sur moi, sur ma tête, mes pieds, mes mains et mes épaules. Le vêtement qui m’habille et que de temps en temps me laisse à nu, la mer dont je me rappelle toujours dans cet après-midi ensoleillé, à cette fin d’après-midi quand une étoile brillait déjà dans le ciel, le banc de jardin où je me suis assis un jour dans une petite terre d’Espagne, les grands feux allumés dans la montagne, les buchers qui me fascinaient, qui me laissaient surpris, car je n’connaissais pas encore le feu et son innombrable architecture pleine de terreurs et d’enchantements, la voix du vent là dehors, par les chemins de la montagne solitaires comme des fleurs dans un bois qu’on ne sait bien où il se place.


Mes voyages sont faits d’amertume parce qu’ils ne tourneront plus jamais. Les voyages sont comme un rocher dans une forêt en silence au matin. Une forêt où des animaux sont nés et des animaux sont morts, la douceur d’un rayon du soleil ou du clair de lune sur le dos d’un loup ou d’une inconcrète apparition.


J’ai ta main et j’n'ai pas ta main. Des images m’encerclent et sont des choses qu’ existent, du pain et de l’eau apportée des places plus éloignés et qui nous habitent. C’est mon eau intérieure, l’eau qui tu exsudes, l’eau que j’ai bu dans ton coeur, ce sont tes yeux que maintenant je ne reconnais pas, la lueur du passé.


Les maisons qui courent à mon contour, le roulement soudain de tambours d’un train perdu et cette voix de femme en disant à l’autre, la plus jeune, la plus voyante: “C’était là notre chambre, te rappelles-tu? Ont été tant des fois que nous avons nous placé à la fenêtre, le père était encore vivant”. La mémoire qui se cache pour toujours dans un petit recoin du cerveau, comme un portrait humble au coin d’une table dans une salle très ancienne.


Mes voyages sont faits de tout ce qui nous soutient et nous abandonne dans les grandes randonnées, au long d’un fleuve ou d’un désert.


Mes voyages sont comme des livres aimés et égaux aux crimes d’un autre, quelqu’un qu’existe et n’existe pas, quelqu’un qui habite à mon intérieur et dans la poitrine que je conserve encore plongé dans ce temps, dans l’autre temps, dans tous les temps de l’univers.


- in “Le mardi gras”


Mais de Jules Morot na Cronópios, na Agulha e na TriploV...


Tradução de Henrique Pimenta

segunda-feira, 7 de março de 2011

Romaria aos mistérios do amor

Taktshang
You've got the love
- Florence + The Machine












Romaria aos mistérios do amor

Senhor, não vos credito o que vos devo?
A salvo, são, no colo de quem amo,
despeço-me das crenças em relevo?
Amálgama de mágoas? Não reclamo...

No solo mais celeste em que me atrevo,
o trevo do querer de quem me gamo.
Nos termos da mulher, por seu enlevo,
não temo se é vexame, não destramo.

Eu acho que estou certo perguntando
e, mesmo sem resposta, não estando
ao menos na metade do caminho,

coloco na berlinda o que é supremo,
aquilo que se espreme enquanto tremo
à flor de sua pele, pergaminho.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Cópula









In Topanien





Cópula


Em ritual secreto, madrugada,
um homem, sua fêmea, se acasalam.
Odores se harmonizam porque exalam
amor de seus hormônios, a florada.

Os dois se fazem um. Não há de cada,
revel, competição. Do que se fala,
gemidos e gritinhos a abestá-la,
e trancos nos seus quartos. Revelada

a bela sem moldura de museu,
arquétipo que afirma: sou mais eu.
Transfere-se do belo para a bela

em elo que se anela, que se apela,
o mel de seus humores irascível.
À força é toda cópula sensível.

domingo, 30 de janeiro de 2011

John Ashbery & Marie-Clotilde Roose














O que é poesia
(Ashbery)

A cidade medieval, com frisa
De escoteiros de Nagoya? A neve

Que vem quando queremos que venha?
Belas imagens? Tentar evitar

Ideias como neste poema? Mas
Voltamos a elas como a uma esposa, deixando

A amante que desejamos? Agora
Terão que acreditar

Como acreditamos. Na escola
Todo pensamento foi penteadinho:

O que restou é como um campo.
Os seus olhos fechados poderão senti-lo por muitos quilômetros.

Agora, abertos numa trilha vertical.
O que poderia nos dar em breve? Algumas flores?



What is poetry



The medieval town, with frieze
Of boy scouts from Nagoya? The snow

That came when we wanted it to snow?

Beautiful images? Trying to avoid


Ideas, as in this poem? But we

Go back to them as to a wife, leaving


The mistress we desire? Now they

Will have to believe it


As we believed it. In school

All the thought got combed out:


What was left was like a field.

Shut your eyes, and you can feel it for miles around.


Now open them on a thin vertical path.

It might give us - what? - some flowers soon?














Dois poemas de Marie-Clotilde (Roose)


Canto livre

um corpo fresco à

borda da manhã


uma só existência

que louva e jubila

a existência


o pé direito do céu

se junta ao horizonte

ó terra fértil!


às vezes o poema

semelhante a uma prece

funde-se e dança


ao ritmo subjacente

conduz a existência

na justa medida.


Libre chant
un corps frais à
l’orée d’un matin

il suffit d’une existence
qui jubile et loue
l’existence

la droite ligne du ciel
rejoint l’horizontale
ô terre fertile!

parfois le poème
semblable à une prière
fuse et danse

au rythme sous-jacent
il porte l’exister
à sa juste mesure.



* * *


Um círculo se expande

gira sobre si mesmo

espiral sedosa

e perfumada


uma haste lhe transmite

um novo vigor

o cálice dança

sobre a ponta sonora


essências suaves

se misturam

até que se irrompa

do círculo a flor:


ó oitava perfeita!



Un cercle s’agrandit

il tourne sur lui-même

spirale soyeuse et

odoriférante


une tige le porte

d’une vigueur neuve

danse le calice

sur la pointe chantante


les parfums suaves

jouent entre eux

jusqu’à ce que jaillisse

du cercle la fleur:


ô l’octave parfaite!


(Traduções de Henrique Pimenta)