segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Tratado de fim de ano



as ruas estão cheias
as vitrines, decoradas
as calçadas, derrapantes
as noites, mal dormidas

dezembro se repete
exatamente como antes:
todo ano, a mesma angústia
entre luzes coloridas

de onde, esse nó na garganta:
é dezembro que o agiganta
ou ele vem das despedidas?

de onde, esse aperto no peito:
ele viria de qualquer jeito
como selo de horas perdidas?

e as pessoas se cumprimentam
como se fossem todas queridas...
para que abraços forjados
quando as testas estão franzidas?

dezembro se repete
exatamente em pormenores:
a ceia pelos lares
a tristeza aos arredores

entre estrelas e guirlandas
e velas e altares
e piscas nas varandas

todos se afligem em sigilo:
como de si fazer festa
se o que se quer é asilo?




Publicado em 18 de dezembro no Doce de Lira.
Ilustração de Fabrícia Batista.

4 comentários:

Albuq disse...

Renata, perfeito. Tenho muitas inquietações sobre 'dezembro'. bjs

Joe_Brazuca disse...

é exatamente isso...

alegria desolada,
tristeza declarada...

a poesia é ótima !

Pamela B. disse...

Risos ,visitei a pouco alguns blogs e neles é claro em sua maioria, o tema é o natal, há textos maquiando todos os dizeres deste poema, é que acho que a gente tem medo da verdade, melhor, de encarar a realidade...

Perfeito, me fez pensar sobre este dezembro..

Abraço

L. Rafael Nolli disse...

Lindo poema, Renata!
Abraços!