quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sibila

Para Márcia Duarte

Tão feminino é contar estórias
Contar estórias com a arte de cruzar limiares
Impossível fugir do tecer e do tear
Da roca
Onde o fuso furando o dedo inicia outra estória
E tudo vira um sono que prescinde de olhos fechados

Ela coloca os sapatos vermelhos dançantes
Os mais escarlates da historia do sapateado
No parapeito suas pernas e pés balançam o horizonte
Como se fosse uma das Sibilas
Uma das que previram a Guerra de Tróia
Ou outra que pediu a Apolo a vida eterna
Nos livros que ela guarda estão os registros de quase tudo
Profecias, mapas, evangelhos, contos de fadas
Um atlas de tempestades futuras e passadas
São suas estórias que me levam
Não as primeiras, mas os mistérios de depois
Gosto de vê-la em casa
Quando coloca os sapatinhos carmim só pra mim

Por ela deixei os bailes das doze princesas bailarinas
Que enganavam seus príncipes após a meia-noite
Voltavam com os sapatos rotos e os pés em chamas
Na primeira hora da manhã
Meu amor dorme
Olho ao lado da cama
Seus rubros sapatos outrora dançantes estão intactos

E se me perguntam do que me alimento
Da romã do paraíso
Do pomo da linguagem
De carne de língua

São cinco os tipos de silencio,
Então, os reduzo a um único matiz
E o guardo numa caixa
Afastado de Pandora e da tua voz

Minha mulher guarda o livro universal das almas em seu enorme coração
Trago sua voz secreta na forma de estandarte
Que carrego nas águas dos carnavais do meu próprio coração.

6 comentários:

Adriana Godoy disse...

Bela homenagem. Um poema que leva a sonhar e formar belas imagens.
"Minha mulher guarda o livro universal das almas em seu enorme coração" . Demais.

Renata de Aragão Lopes disse...

Que bonito, Audemir!

"um sono que prescinde de olhos fechados"

Bea - Compulsão Diária disse...

Sherazades são raras! Elas curam loucuras de sultões pela astúcia e o engenho frente a forças injustas ou instransponíveis. Sábias mulheres islâmicas (não essas mães de terroristas cooptadas por hizbolhas) mas as que nos ensinam, arquetípicamente a Taqiyyah : disfarces em prol da vida. Arte de permanecer fiel a sua crença sem deixar-se morrer. Pomo da linguagem, romã do paraíso , furor da língua.

Audemir Leuzinger disse...

se as mulheres gostaram. fico tranquilo!

Benny Franklin disse...

Grande obra! De prima.

Barone disse...

Muito bom.

"E se me perguntam do que me alimento
Da romã do paraíso
Do pomo da linguagem
De carne de língua"