sábado, 7 de fevereiro de 2009

interno




internei-me
às próprias custas e descontados dias
no consultório da minha almargura
na porta
a placa manuscrita anuncia:
não saio nem ensaio
deixe-me sem anestesia
em dor fina
dentro
ensimesmável

__ meu corpo agora é a montanha mágica do meu tratamento __

enlouquecido
aquecido pelo esquecimento de tudo
criminoso da própria guerra
dividido pela terra
nesta vida que eu encolhi
comendo endívias e dados
endividado
mas impiamente feliz

em reza
silencioso de terços
imprecioso e indiogente

(nas manhãs visto
inospitaleira roupa
tecida com fibra de trepadeira lenhosa
que marca interna e inteiramente meu corpo
abre a fera
minha represa rompida)

internei-me
não a procura de curas
nem a procura de remédios
nem é coisa de tédios

internei-me por ruptura
a procura de uma nova tessitura
que despaute minha rotina diária
que quebre a mediocrediária bolsa dos dias
que desopile meu rim
par e ente de todos os líquidos

internei-me para copular com o silêncio das frases
comer no útero das coisas
tocar o ovular plurivitelino dos sentidos
e sair
com todo humor de meu impuro e inexato corpo
dessa mesmíssima merda






.
.
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belorizonte, infernando...
fernando cisco zappa
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15 comentários:

Compulsão Diária disse...

Potente internato
E se houver cura?
Há o perigo de curar-se, lembra?

fernando disse...

corremos esse risco
mas
nesse desenho
que é a vida
não basta correr o risco

mas
viver
e você, beatriz, sabe disso
de todo modo
no ser tão da vida
(com rosa e sem rosa)
é arriscoso.

bjos!

L. Rafael Nolli disse...

Um mergulho cego nos abismos da criação! ótimo poema, meu camarada!

Audemir Leuzinger disse...

muito bonito. e esses versos:
internei-me por ruptura
a procura de uma nova tessitura
que despaute minha rotina diária
biscoitos finos.

Felipe da Costa Marques disse...

um poema que cura,
congratulações

"do estro às vitórias" (V.G.)

mariagomes disse...

Bom, muito bom, atrevo-me a sublinhá-lo:

[...]
"internei-me para copular com o silêncio das frases"
[...]

Vera Pinheiro disse...

Eu sublinho vários trechos dos teus sublimes versos!

Diario da Fafi disse...

Olha...

Uma internação dessas é necessária par todos os poetas.

Internar a alma
e sair por aí rompendo-se em palavras.

CARINHOS.

Adriana disse...

Um poema que arrebata, aniquila e encanta. Muito bom mesmo.

Adriana disse...

internar-re é hibernar no sonho,tantas vez preciso para os poetas.

julia disse...

Poema que cura por alguns segundos.
Adorei, Zappa!

Beijos pra ti :-)

Barone disse...

Maravilha de poema.

Olhos de Folha Minha disse...

Entrar em si, esquecer de si e de outros tantos
personagens que construímos para nos salvar
do lado de fora e curar feridas internas
mas ainda ficam os queloides, os relevos
a nos perturbar...cicatrizes densas nunca findas

tagg disse...

sempre de faz tempo gostei do verbo 'desopilar'.

estiveste em uma camisa de força?

não queira.

o humor da merda bem melhor serve.

gosto da tua poesia.

Tavinho disse...

Puta Q Pariu! Rimbaud, Leminski e Cummings. Isso é poesia de Fera. Abraços,
Tavinho