domingo, 24 de julho de 2011

A Dança das Nove


Musas dançam com Apolo (Baldassare Peruzzi)

Compreenderia se me dissessem que por ti
homens e mulheres secaram seus American Express:
que os sentimentais se internaram no Prozac,
mergulharam na cachaça
e acabaram por se identificar
com os personagens das músicas bregas,
com os suicidas frustrados
e os figurões às portas da falência.

Aceitaria como verídico se me contassem que por ti
jovens se masturbaram no banheiro do colégio,
esquecidos do medo das mãos ficarem cabeludas,
das espinhas abundarem,
do pau entortar noventa graus.

Eu creria se me dissessem que outros,
os de alma mística
(na veia correndo alguma coisa andina, ou céltica),
foram desesperados aos lupanares,
recorreram à nave central das igrejas
e terminaram encontrando um resquício de ti
na fumaça da maconha, nas mesas de oija,
nos terreiros de candomblé.

Eu relevaria se afirmassem que Balzac & Nabukov
foram visionários que a profetizaram:
quealgo seu, talvez os olhos,
talvez a alma, na arte de Botticelli;
que poetas menores a vislumbraram
mas incapazes de compreendê-la
terminaram escrevendo
Sonetos Bucólicos à Virgem

Acataria de bom grado se narrassem em poesia
a saga de homens lacerados
que por ti recorreram ao Merthiolate, à Aspirina,
e sem esperança se entregaram aos divãs,
à loucura mansa dos que cochicham com as sombras
ou se desnudam na rua.

Jamais duvidaria se me contassem
que uns fizeram de seu nome um mantra,
outros um hino e os exaltados um caminho.
Não duvidaria nunca!

Ó musa, como eu não te amo




14 comentários:

Pedro Antônio disse...

Muito bom o seu blog!

Parabéns!

:)

Pedro Antônio

Adriana Godoy disse...

Nolli, interessantíssimo esse poema. A musa(Amy?) reverenciada às avessas, mesmo que não a ame. Será? Gosto da maneira forte com que vc coloca seus versos. Além de intensos, extremamente poéticos e bem construídos. Beijo

Ana Ribeiro disse...

Quem seriam as novas musas da poesia contemporânera? E quanto nosso não amor por elas (des)encantam as palavras?
Prazer em lê-lo.
Um abraço,
Ana Ribeiro

L. Rafael Nolli disse...

* Pedro, agradeço em nome da turma toda!

* Adriana, gostei demais de sua indagação. Nem passou pela minha cabeça a Amy, até mesmo por que escrevi esse poema em 2008! No entanto a sua leitura enriqueceu o poema, dando um novo significado... Agradeço sempre!

* Ana, bom vê-la por aqui! Pertinente a sua pergunta! Escrevi esse poema depois de ver um milhão de poemas exaltando de forma ultra-romântica as musas contemporâneas, aí resolvi "esculhambar"... Abraço!

Tomaz disse...

" Ó musa, como eu não te amo! " Sensacional !

Congratulações

L. Rafael Nolli disse...

Obrigado, Tomaz! Valeu, meu camarada!

Joe_Brazuca disse...

EX-TRA-OR-DI-NÁ-RIO !


PUTZ !

SEM COMENTÁRIOS, SÓ REVERÊNCIA...ADOREI !

Benny Franklin disse...

Du caralho! Ode que fode a mesmice.

L. Rafael Nolli disse...

Joe e Benny! Valeu, poetas!

BAR DO BARDO disse...

Essas danadinhas (musas) estão sempre nos detonando...

Gavine Rubro disse...

Nolli,

que poema

as musas como barro mais doirado para a supremacia estética e viva do poema,

abraço

Gavine Rubro,
www.célularubra.blogspot.com

L. Rafael Nolli disse...

Bardo e Gavine, prazer em recebê-los aqui! Grato pela leitura!

Felipe Marques disse...

Adorei o Poema!

Digno das três musas, primas!

Ou àquela deusa esquecida...

Parabéns

L. Rafael Nolli disse...

Felipe, abração, meu camarada!