quinta-feira, 23 de abril de 2009

CHOVEMOS



E ainda estamos aqui, parados, esperando a hora.


E por todos os séculos choramos e acreditamos e nem assim você apareceu. e pensamos que haveria uma chegada com trombetas, mas só veio o silêncio imprevisto da noite eterna. E pensamos que estrelas brilhariam, mas nossos olhos contemplaram o vazio negro da ausência.


E esperamos um sol de verdades ofuscantes, mas só houve o brilho de nossas próprias lanternas cegas.


E conhecemos que estávamos sós, no barro, na lama, no pó de onde viéramos.


E apenas a chuva nos molhando enquanto aqui, como estátuas de pedra, esperamos alguém que talvez chegará.


Talvez é nossa moeda de troca com o delírio.


E de olhos fechados, chovemos.


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maria helena bandeira

11 comentários:

Cosmunicando disse...

sem palavras...

sidnei olívio disse...

Intensamente bela essa prosa-poética. Adoro poemas assim... BJ

Adriana Godoy disse...

belo e denso

Faust Sotam disse...

Boa reflexão, afinal nós é que somos as nossas lanternas, não há mais outros local onde procurar. A chuva que cai pertence-nos, assim como Sol que desponta é nosso. Paz.

Luana Camará disse...

Por entre palavras soltas, encontro-me e deixo-me perder novamente, seja pelo gesto ou simplesmente pela doçura da leveza do aparo que desliza suavemente pelas linhas impressas na folha de papel outrora imaculado e agora marcado pelo cunho da minha caligrafia.Flutuo e sou simplesmente eu.

Toco-te e sinto-te a percorreres o meu corpo falando uma linguagem só nossa.
Mergulho em ti e paro o tempo.

Encontro o meu porto de abrigo, o meu refúgio, o meu lar.
Sou feliz.Só. Assim me sinto no nada em que me encontro.
Respiro. O oxigénio alimenta e liberta a minha raiva, a minha dor.

Só. Um vazio enorme que me engole, consome, devora.
Escrevo. Solto todas as amarras que me prendem e estrangulam.

Só. Não o estou mas sinto-me, perdida no eu infinito que despertou e, inclemente, reclamou como sua a realidade em que me insiro.
Choro. Lavo a mágoa que me marca e fecho a ferida aberta no recanto escondido do meu coração.

Só. Vivo.

l. rafael nolli disse...

Maria Helena, um belo texto, metafórico, repleto de força poética. Tem um tom de mistério, de silêncio, de medo, de espera. Muito bom.

Renata de Aragão Lopes disse...

"moeda de troca com o delírio"

Parabéns, Helena!

Helena disse...

Obigada Cosmunicando, Sidnei, Adriana, Faust, Luana Nolli, Renata.

Fico muito feliz por estar aqui, um dos poucos lugares na Net onde encontro sempre boa ou excelente poesia.

grande abraço,

Helena

Compulsão Diária disse...

A moeda de troca com o delírio? A fé? Interessante espera ativada pela poesia. Se entendi . Mas, pela fé não se espera. é uma conquista. Boa, Helena

Daisy Melo disse...

Querida Mhel!

Lindo e denso (como disse a Adriana Godoy) e repelto das suas metáforas instiganes e misteriosas!

Obrigada pelo seu comentário sobre o meu poema "Se eu fossse pop star"

arinho,

day

Felipe da Costa Marques disse...

Muito Bom!

minha alegria voltou e a tristeza, essa continua, mas chovendo.

abraços