sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Ode a Maiakovski



IV
Oh, Maiakovski! Que ânimo te arrebataste
Desta vida estúpida?
Que verme atravessara-lhe a alma
A corroer todas vossas esperanças?
Ah, meu caro poeta, seus versos traduziram
O espírito de uma época...
Teu grito, tua voz ecoaram na revolução.
Mas, onde foste?
Que miserável sentimento tomara conta de ti?
Não compreendo! Lançaste sobre vós,
Sobre vosso próprio corpo, toda a ira,
Todo despropósito em viver.
Oh, meu amigo, por que puseste uma bala
Em teu próprio peito?
Que motivos, que revoltas, que amores?
Tu foste homem, foi poeta.
Decidiste com coragem seu próprio destino,
Escreveste com a pena vossa própria pena,
E eu? O que faço de minha vida?..
Não sou tão homem, nem tão poeta,
Encolho-me sob minha casaca,
Escondo-me nas multidões,
Sou mais um, enchendo o papel de palavras,
Gritando meus silêncios e mais nada.
Ah, meu irmão, meu camarada...
Se houvesse em mim uma gota de coragem
Chegaria “às vias de fato”, esmagar-me-ia, pois.
Mas, não sou grande como vós,
Nem tenho sobremaneira vossa postura,
E, meus versos são calejados, inspirados
Na insatisfação que é a vida: que vida!
Ah, se pudesses me ouvir!
Que conselho me darias, proletário poeta?
Há tempos a vida perdeu a cor e razão
E minha inspiração está no enfado, no tédio.
Não encontro sentido na revolta, na luta,
Tudo se transformou em uma névoa obtusa,
Numa escuridão infinita, que nem percebo
O brilho da vida.
Sim, terei um dia, no desconsolo de um quarto
Escuro, a hombridade de silenciar-me.
Calarei para sempre esta voz
Que insistente vos declara minha covardia;
E, quando cessar-me de ser covarde,
Não haverá tempo para ter coragem,
Pois minhas mãos, tremendo de velhice,
Aceitarão, resignadas, a loucura que é viver
À espera da morte.

12 comentários:

Audemir Leuzinger disse...

somente pela lembrança, já valeria um 10.
e ainda é um belo poema. the old and good vlad te ofereceria vodka para celebrar essa trégua do tédio.
abs

Daniel "Gárgula" Braga disse...

Muito bom! Gostei muito de ler este poema!

Parabéns!

L. Rafael Nolli disse...

Já conheço e é um prazer reler. Belo poema.

Alice Salles disse...

Precisamos lembrar daqueles que nos dão vida... SEMPRE.

Felipe da Costa Marques disse...

"desvida ao prazer" "despalavras que nascem..." Cor ação!

compulsão diária disse...

Ode e pedido de conselho ao poeta. Desafio e tanto.

Benny Franklin disse...

Gostei. Palavras de cacho.
Boa!

Mariana disse...

bão! é de minas...rsrs

Flávio Otávio Ferreira disse...

Valeu, pessoal!!!
Paz e Poesia sempre...
Sucesso ao POEMA DIA!!!
Abraços!

Barone disse...

Bem vindo Flávio. Maiakovski é um dos meus poetas prediletos.

rogerio santos disse...

Curti muito ler o teu texto, Flávio. Diálogo fino.
Abraços
Rogerio Santos

Márcia disse...

Tão bom reler aqui. Bravo,Flávio!