domingo, 24 de novembro de 2013

Comedìa


I - Inferno



Nenhuma pista ou clareira 
para tentar a aterrissagem
e, ademais, 
o trem de pouso emperrado

Retornar ao lar
– oh estações, oh castelos –
e ninguém ter dado pela sua falta


II - Purgatório

A TV ligada para ninguém
– em consultórios ortopédicos –
o cheiro do tédio das atendentes
& o clamor dos telefones

A fila de mulheres pensativas
– nos pronto-socorros –
as crianças tossindo em seus colos
o senhor debruçado sobre as rugas

A ante-sala dos CTI’s
as antecâmaras das policlínicas
os  azulejos brancos, o ventilador de teto
– nas salas de espera dos centros de radiologia –

E nos demais lugares onde a morte fareja


III - Paraíso

Praticamente nada a fazer senão para o pobre agente do Centro de Controle de Pragas. A nuvem de veneno borrifada sobre as macieiras rouba o brilho das asas dos anjos e embaça o aço de suas espadas. De manhã, o batalhão de arcanjos em ordem unida, treinando para a possível batalha. E é sempre manhã, aonde quer que se vá. Longa manhã de profunda ressaca. Os que leram estão de acordo, é o mesmo paraíso descrito por Dante. Um saco! 



*

2 comentários:

João Luis Calliari Poesias disse...

Não nos resta outra saída, a não ser...a não ser...a não ser ponto final. Muito bom, Rafael. Abraço.

Celso Andrade disse...

Muito bom! magnifico! Também tenho um blog e faço poemas! estou começando. http://maisnicotina.blogspot.com.br/
olha lá! e comente se puder! obrigado!