segunda-feira, 4 de julho de 2011

a mão que arrota - Poema de Gavine Rubro


Imagem por Eudoxya

eu escrevo com uma pena e tinta
tinta-da-china
brinco:
escrevo com a esferográfica que estiver mais perto
embora o seu toque na minha mão
é que se transmuta mentalmente numa pena amuleto
pelo gozo borboletal que me dá a sua possibilidade em avessar-me do eu,
inverter eus residentes na minha identidade
autenticando-os no poema

escrevo porque apetece

tal e qual quando se fuma
por todo o prazer em mirar o fumo efémero
escapulir-se pelo tempo e por nós
interpretando-o ao expoente estranho e minucioso do sangue e da razão

tal e qual o bife poema dentro da boca
triturado ao jantar devagar
pelo paladar paciente do vice-versa de respostas circunscritas em questões

ou o doce café poema para melhor processamento corpóreo das refeições e dos dias

vicio, necessidade, álibi
arbítrio, disparo da veia e do neurónio.

não para que aplaudam
não para que chorem, riam
sim, para dar vida a telas
de tinta adubo para irreais respiradores

verdades utópicas para muitos
um animal vivo para mim, e para alguns
e claro, também vácuo, nulos ou vazios para outros

é minha propriedade e quando partilho
é de todos.

é gomo de laranjas de outras cores
amaciador ou nódoa selectiva
flecha
prego
lençol
asa
ou rupestre anzol camuflado para peixes vis

é arroto da minha mão
porque arrota-se quando a pança está satisfeita ou enojada
e entenda-se que cada um de nós é uma pança gigante chamada sentimento

sorriam ou chorem,
amem ou odeiem
será cheio sinal:
foi-vos eco ou reflexo
de qualquer coisa importante que valeu a pena.

Gavine Rubro

4 comentários:

Ana Ribeiro disse...

A mão que arrota para aliviar uma pança que é puro sentimento... Uma imagem mesmo muito original.
Abraço,
Ana

Jão disse...

Escrever é vomitar o que sentimos, é colocar ao ventos nossas sensações sobre o tudo.


Abraços!

Francisco Coimbra disse...

Do outro lado da escrita a leitura, una-as sempre uma a-ventura: Parabéns!

Henrique Pimenta disse...

Da poesia e seus gases, daí a Humanidade.

Bom desenvolvimento de tema.

Gostei!