terça-feira, 9 de novembro de 2010

sem assobio

mulher/ técnica: carvão/ rafael godoy

tenho que te dizer hoje que a lua está linda, imensa
as palavras agitam a minha cabeça
não se encontram, não são amigáveis
uma garrafa com café já velho, um cigarro pra acender
essa tela brilhante do computador, a minha lua
nessa noite os gatos estão em silêncio
um assobio calmo e afinado destoa-se do resto da cidade
é esse assobio que me faz pensar
o homem do assobio não sabe que olho para ele da minha janela
não sabe a força de seu assobio
não sabe que sua paz incomoda
penso um jeito de parar com isso
assim a música acabaria
assim tudo ficaria igual
sem assobio, sem nada

24 comentários:

Renata de Aragão Lopes disse...

"não sabe que sua paz incomoda"

Que poema mais contundente, Dri!

Até a leveza do assobio alheio
eleva o desassossego...

Sua fã,
Doce de Lira

tonhOliveira disse...



Hein!
Psiu!
e o silêncio... fugiu?

:)

Mirze Souza disse...

Maravilha, DRI!

A imagem e o texto se fundem. Dpa para sentir a vontade de ficar só com a lua e quem sabe um dia, lembrar do assobio!

Demais!

Beijos

Mirze

José Carlos Brandão disse...

Poema forte, Adriana. Poema que incomoda - como a paz do assobiador (e eu que nem sei assobiar!).
Beijo.

BAR DO BARDO disse...

JCM disse "incomoda".
Como é bom esse incômodo.
Namastê!

Assis Freitas disse...

cronica de tão refinado acontecimento, desses assim que não passam despercebidos, como o assovio, o verso, a lua, um conhaque,



beijo

Barone disse...

Forte, como sempre.

Lírica disse...

Não é a suposta paz que incomoda, mas não partilhar dessa paz, né Adriana? Sentimos tanta raiva que preferimos achar que seja alienação, inconveniencia, infantilidade... "Olha lá que felicidade ridícula"... E o meu café tá velho, minha luz é a do computador, meu calor é o do cigarro e até os gatos estão em silencio. Ao mesmo tempo em que sou só, só um conjunto tão uniforme que o diferente é inaceitável. Descubro que destoar do todo é que é o problema. Assim nos tornamos censores dos outros, vigias dos outros, carrascos dos outros. A solidào até a suportamos, mas as diferenças... a liberdade de escolha... isso incomoda!

[ rod ] ® disse...

Sem esse som quase não saberia viver! Sem o som que só o querer sabe fazer.

Bjs moça e aqui também a reverenciar o seu dia.

VERA PINHEIRO disse...

Um desassossego que incomoda, mas merece altos elogios. Parabéns, Adriana!

Adriana Godoy disse...

Agradeço a cada um que veio e deixou registrado seu comentário.

Namastê! Como diz o Bardo.

Lírica, não acho que a felicidade do homem que assobia seja ridícula, nem há censura, mas sim um incômodo. Apenas um momento que não passou despercebido.
Aliás, não sou eu, é o eu-lírico..

Agradeço suas considerações.

Lírica disse...

Adriana, longe de mim querer advinhar os seus sentimentos. Só pretendi passar o que eu senti. Quando publicamos algo, isso se torna público, cada um abraça como pode, né? Pra mim bateu assim. O termo ridícula aí foi enfático, mas não pejorativo. eu gosto de comentar mais detidamente os poemas pra criar uma discussão, propor uma outra visão. Por favor não se ofenda, eu amei o seu poema.

Francisco Coimbra disse...

Adriana,
Sempre releio os teus poemas, pelo meio ficam as leituras que enriquecem minha segunda leitura, também a galeria de imagens que vais deixando é peça que não quero deixar de comentar. Este é um dos poemas onde a forma mais é maltratada, o que não quer dizer "mal tratada", tudo dá significado: vem e fica com os signos. Tudo nos conduz para a força, a energia, entropia onde semeias as palavras em imagens e, é o puzzle, o busílis, o pulsar da matéria nas metamorfoses das ideias por onde procuramos conduzir o pensamento. Obrigado!

Adriana Godoy disse...

Oi, Lírica.

Você tem toda razão. Cada um sente o poema do jeito que quiser ou puder. Acho que eu não devia ter explicado nada. Perde a graça. Mas não resisti. Obrigada mais uma vez por sua leitura atenta.

Abraço.

Adriana Godoy disse...

Francisco, agradeço sinceramente suas palavras.Gostei de sua leitura. Não tinha pensado nisso.
Realmente, não há preocupação com a forma, talvez com o ritmo e principalmente com o conteúdo. Aliás, quase todos os meus poemas são assim.
O desenho é meu filho Rafael.
Grata.
Um abraço

Francisco Coimbra disse...

Oi Adriana,
Por vezes digo besteira, fico ao nível da besta, quando consigo sentir não ter resposta para o que afirmei, causa para a afirmação produzida.
Isto é a minha reacção a esta afirmação «Este é um dos poemas onde a forma mais é maltratada».
Isto... deveria exigir uma explicação! Onde a forma está maltratada?
Importa o poema, mas isso importaria... se houvesse uma explicação sustentada, o que não acontece, dai a "besteira".
O que a motivou, uma leitura apressada! Numa segunda leitura, tudo se articulava na perfeição.
Quanto à "forma do poema", o que dizer da forma quando o verso é livre e a rima branca?
Quando a rima é branca, quer dizer que não há rima, haverá apenas ritmo; quando o verso é livre, também se pode dizer que é branco, não apresenta uma medida certa, são versos irregulares. O que se pode dizer da forma quando, estruturalmente... ela está dependente do ritmo e do valor semântico, sintáctico e lexical?
Não são poucas as condicionantes para podermos ajuizar da bondade ou da menos valia mas, falar da forma implica ir directo no que interessa: como está a sintaxe tratada no fraseado dos versos? Foi aqui que primeiro tive dúvidas e... "botei a boca no trombone" errada_mente... Fica feita a "mea culpa".
Obrigado pela resposta tranquila, a minha afirmação também era tranquila :) mas considerei-a errada e vinha corrigir, gostei de ler a resposta que me esperava. Meu abraço.

Francisco Coimbra disse...

Claro... já tinha mencionado, falta destacar: parabéns para o Rafael, faz uma bela equipe com a mãe.

Adriana Godoy disse...

Francisco, não precisava de tanto...mais uma vez agradeço suas palavras e carinho. Em nome do Rafael também.

Um grande abraço.

L. Rafael Nolli disse...

Adriana, poema afiado e certeiro! Sempre o poema certo na hora certa!

Tomaz disse...

Caraca, eu demoro pra ler mas quando leio me surpreendo...
Lindo tudo isso, ainda mais para um "lunático" desvairado como eu :)

Um beijão pra tu, Adriana !
Parabéns pelo ótimo poema.

Vinícius Paes disse...

Adriana,
Você é a poetisa contemporânea que mais me inspira. És minha preferida, uai! rs.

Seus poemas tiram minha paz, isso é bom. A minha paz me irrita.

Beijos.

Adriana Godoy disse...

Nolli, Tomaz e Paes, trio que me deixa pra lá de feliz. Valeu a presença de cada um, valeram as palavras tão inspiradoras, demais!!!!

Paes, assim vc me deixa sem graça, porra, mas valeu ,mesmo!

Beijão

Úrsula Avner disse...

Oi Dri,

Acho que já tinha lido este poema antes... Muito bom ! A tela do filhote também é linda como de costume. Bj.

Anônimo disse...

Assobio é coisa pra quem não tem o que fazer. É um barulho nojento acompanhado de olhar invejoso que rouba o sossego do outro.