sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O mesmo título de uma obra de Knut Hamsum

Ninho - foto Rafael Nolli


Seria aceitável se estivéssemos

firmados em um deserto de sal

devorando o pneu dos tratores.


Se fôssemos aniquilados por

terríveis gafanhotos bíblicos

estragando os olhos das mulheres.


Seria aceitável se nos achássemos

em terras incultas dentando os arados

e enferrujando os ossos dos homens.


Se vivêssemos sobre um chão

diurético, por décadas incontáveis

afogando as auto-estradas e os silos.


Seria aceitável se nos restasse uma terra

imprestável para sepultar os chacais,

dia-a-dia corroendo as mãos das crianças.


Se habitássemos um solo indisposto,

nauseado das sementes, asfixiando o céu,

estrangulando a paisagem.


* Do livro Comerciais de Metralhadora

7 comentários:

Hercília Fernandes disse...

Nem tudo é aceitável... há coisas que não se pode aceitá-las.

Belo texto, Rafael. Fez-me pensar!...

Beijo,
H.F.

Paola Vannucci disse...

Me ocorreu este pensamento

"Queria ter um mundo nas mãos onde não houvessem urubus, patrocinadores da fome...

Paola Vannucci

Nolli belas palavras

Bjs

Paola

tenório disse...

Já havia lido antes e acho um texto forte, que leva a gente a reflexão profunda. muito bom, camarada!

isaias de faria disse...

nolli,sua poesia me agrada, ela tem força vital. abraço do amigo isaias

Vera Basile disse...

Poema forte e belo! Amei a foto Nolli!
Abs.

Anônimo disse...

A FOME, de Knut Hamsum, é assustador. A fome é assustadora e inaceitável! Parabéns, Nolli!

TON disse...

Esse poema é como lâmina afiada na terra seca dos indiferentes e dos indignados que nada fazem.
Bravo, Nolli!