terça-feira, 24 de agosto de 2010

Pose para gravura de Rugendas

Para David dos Anjos Marat


No anno de nosso senhor de 1875,

a nascente imprensa

publicou num canto de página um annuncio

que hoje me estarrece:

tratava-se da fuga de um certo escravo,

de nome Adão, da cidade de Campinas.

O texto dava-lhe uns 40 annos,

estatura regular,

mão secca e falta dum dos dedos dos pés.

Falla grossa e feia.


De immediato uma photographia

se formou em minha cabeça:

por onde andou Adão? Que rumos tomou,

quebrando a unha-de-gato

com as pernas fracas pela lida paquidhermica?

Onde saciou a fome elephantica?

Em que capoeira deitou o corpo,

que sonho, que esperança, que temor,

serviram-lhe de abrigo?


Terá acordado, sobressaltado,

immaginando a aproximação dalgum capitão-do-mato?

Terá buscado um quilombo para resistir?

Como terá se arranjado com a mão secca,

precária para o trato com a pólvora,

incapaz de manejar o revólver?


Terá ouvido falar de Antônio Conselheiro,

arrebanhando gente para viver livre na caatinga?

Porém, não descarto a possibilidade

delle ter sido accomettido,

antes de encontrar refúgio,

pelo rheumatismo ou pela melancholia –

ou por outra affecção mysteriosa

que resolveu se exhibir em hora inngratta:

um emphysema, uma asthma, ou uma syphilis.


Aas vezes gosto de pensar que Adão

saiu aa cata de ouvintes aptos

e numa noite clandestina elevou a falla grossa e feia

para discursar sobre coisas sublimes

a respeito da Liberdade e da África –

sua voz se transformando numa música refrão:

blues ancestral iluminando a taberna

______com um rythmo maccio, mystico.


Gosto de imaginá-lo, tão negro, a voz gutural,

elaborando a sublevação, premeditando o confronto:

uma bella barba áspera crescendo em seu rosto,

contornando a bocca isenta de carícias.


Que imagens terá evocado? Terá sido um discurso breve,

dolorido? Ou um apello contundente,

chamando a attenção

para além dos pigmentos da epidherme?


Mas me ocorre que Adão talvez tenha morrido de sede,

perdido na esclerose da geographia sertaneja.


Ou que a guerra bacteriológica,

hoje produto atual da moderníssima indústria do fratricídio,

tenha dissipado a sua vida.


Sim,

o que poderia saber Adão,

negro que fugio dalguma senzala em Campinas,

sobre escravos tomados de peste

que tinham a fuga facilitada

para que encontrassem o foco da resistência

e disseminassem por ali a desgraça que traziam na tosse,

nas chagas, nas roupas?


O que poderia saber Adão, procurado,

sumariamente caçado

(ainda que tudo indicasse sua inutilidade à lavoura,

ao roçado),

sobre um milhão de negros

enviados à guerra do Paraguay para morrer?


O que poderia

ele saber sobre a machina de moer carne humana

que havia sido implantada no sul do continente,

e que estava sendo de extrema utilidade ao Império?


Talvez pudesse contar,

não esqueçamos de sua voz feia,

barbaridades da Casa Grande:

sinhás mutilando mucamas por ciúmes

– naquela época corriam boatos

de sinistros ensopados de seios,

de guisados com clitóris servidos aos senhores;

ou talvez pudesse descrever

algo de horrível sobre o assovio do chicote

e o canto pavoroso do açoite.


Talvez Adão pudesse falar de grilhões,

ou de como a igreja acreditava que eles

não eram dotados de alma

e por isso passivos de escravidão! Ou quem sabe

ele soubesse algo acerca das 3. 900 orelhas

que Bartolomeu Bueno do Prado

apresentou como prova de seu êxito

na campanha contra os creoulos!


Terá sobrevivido,

me perguntei em um dia desses,

até o anno de 1888,

quando a lei áurea fôra assinada,

propiciando um novo caminho

para a manutenção da velha elite no poder?


[Engraçado como] não sei nada além de que se procurava,

no anno de nosso senhor de 1875,

por um pobre dum negro que se chamava Adão,

com uma mão secca, sem um dos dedos dos pés,

dono duma voz feia e grossa,

que se meteu pelo interior do país

e se transformou em multidão!



*

10 comentários:

Albuq disse...

Muito bom, muito boa história.

Francisco Coimbra disse...

Perfeita história, ritmada pelo verso, dando à leitura uma graça toda própria para, no seu progresso, encontrar versos perfeitos feitos... ao correr da pena? «algo de horrível sobre o assovio do chicote», hoje e sempre a loucura humana deve ser lembrada. Mesmo porque, sendo sem cura, em canto, em Poesia, aqui sim... deve ser tentada: cantada. Parabéns!

Priscila disse...

ah como adoro essa galera aqui do Poema Dia... quando é que vocês vão organizar uma antologia, hein?

abraço
www.priscilalopes.com

Vera Pinheiro disse...

Nolli, vou subir a montanha para te dar um abraço! Que profunda sensibilidade e que escrita!

Felipe Marques disse...

Um poema estória atemporal!

Adorei.

Abraço

Flávio Otávio Ferreira disse...

Poema digno de se dizer um épico. Embora não cante glórias, mostra as agruras de um indivíduo que, ainda, de forma silenciosa ecoa pela sociedade.
Muito bom trabalho, Nolli.

Benny Franklin disse...

Belíssimo arranjo, poeta.

TON disse...

Cara, em teus poemas as palavras obtém alforria, e eu as leio como um negro fujão. Bravo!

sidnei olívio disse...

Bravíssimo, Nolli, repito tudo o que já foi dito. Abraços.

Tenório disse...

Camarada, tenho um orgulho patriótico quando leio seus poemas. Você é um poeta tão grande. Gosto muito do que você vem fazendo, se ocupando.