sábado, 29 de maio de 2010

Acalanto




Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
ao aconchego de um outro corpo morno.


Paulo Henriques Britto

4 comentários:

Edu disse...

É como início de namoros... não basta ficar juntos, não basta uma cama, não basta o sexo. A única coisa que pode ser separado de dos amantes apaixonados é o cansaço e o sono... muito legal! O sentimento atravessa as palavras e o entendemos perfeitamente.

Anônimo disse...

Wonderful poem, a beautiful piece.

Assis de Mello disse...

Adoreiii

Flá Perez (BláBlá) disse...

mto bom!