sábado, 3 de abril de 2010

Poema de Beneficência - Sylvia Beirute

POEMA DE BENEFICÊNCIA

introduza um colapso numa dúvida. recolha-a por elementos. coloque perguntas ao redor. as respostas situam-se entre tempos verbais. um detalhe apaga-se para dar lugar a outro. a memória como um todo. qualquer força para medir é uma inexpressão na arte. não há um só caminho aberto em direcção a um caminho aberto. imperdibilidade é um modo feio de beleza. as coisas mais belas são decíduas porque não assíduas. como aquele fragmento de biografia sem palavras que procura corporalidade no texto. o seu instinto difásico é como um diálogo em que as duas linguagens se friccionam e encontram como que numa orla central em que tudo o resto se autopune até à morte, ficando um quadro de órgãos estrelados. quem entrou aqui introduziu um colapso numa dúvida, recordo. quem tem dúvidas não morre verdadeiramente. recolher elementos de dúvida é uma ocupação como qualquer outra. os ocupados não morrem. a estética escultural do olfacto é mais importante do que as auto-estradas. por isso, vá a pé na imaginação férrea do silêncio. cheire a paisagem que se absorve lentamente ao fundo e que rasga com ternura a ternura do céu de outono. não ande demasiado. quanto mais andar mais esperança surge. surgir esperança é surgir um espelho, e um espelho é difuso apenas na interioridade. intimidade. é como o poema. o poema que mudou. que se deslocou até aqui porque fez uso das possibilidades, probabilidades, matemáticas e deslumbres que a arte oferece. ontem, quando o visitei, o poema era literatura. hoje é mistificação das bases. e ter um pensamento único, convenhamos, é a fruição da vanguarda. a vanguarda converte porque gera metades de tudo o resto. e tudo o que é metade se perde.

inédito

5 comentários:

Vera Pinheiro disse...

Sylvia, querida, há passagens lindas no que escreveste, mas fiquei um tanto incomodada com a forma, que comprimiu as palavras e me oprimiu, assim como a falta de maiúsculas depois de pontos em uma prosa. Talvez seja intencionalmente poético e eu não tenha assimilado bem, mas respeito.
Beijo!

Mário Resende disse...

excelente poema com muita reflexão. adoro este versos longos a exigirem leitura lenta.

Benny Franklin disse...

Gostei. Prosa-poema de prima!

BAR DO BARDO disse...

instinto difásico

ora pois

ótimo

Cíntia Thomé, Jornalista, Poeta . disse...

Uma prosa cheia de vigor da alma...um andar a ter mais e mais esperança, modifica-se na pressa ou na lentidão, mas se escreve com muito amor sempre

Bárbaro

Como gosto de ler coisas assim...