terça-feira, 9 de março de 2010

cenas de rua


no vago tom da noite
a árvore parada e morna
com seus galhos feito mãos inúteis
assombram os que passam incautos
o passeio é um deserto esticado
e a rua com asfalto recente geme
quando carros deslizam loucamente
com suas buzinas ensurdecedoras

do outro lado da rua
um homem fuma solitariamente
não sorri, apenas olha a fumaça que sobe
a moça passa: tem fogo?
nesse momento o seu corpo é uma fogueira
a moça mostra o cigarro apagado e ergue a mão
tem fogo?- repete
ele todo é uma fogueira
a moça sorri com o cigarro apagado
o homem arde e olha a fumaça que sobe
a moça já virou a esquina

um cão atravessa a rua
as pessoas dormem com janelas fechadas
a luz vermelha e azul do carro de polícia
a sirene que berra
uma lua pálida no céu
a figura de um homem com um cigarro aceso entre os dedos
é vista virando a esquina

29 comentários:

Francisco de Sousa Vieira Filho disse...

A descrição do quadro deixa o preciso espaço pra imaginação do leitor preencher e dá-lhe um norte... lindo, menina!

Cotidiano não-interiorano...

Lara Amaral disse...

Lindo mesmo, daqueles de traçar em nossa mente a cena meio urbana e pitoresca.

Beijos.

Renato Barros disse...

Não costumo comentar, mas esse poema me deixou uma sensação tão forte e mágica. É como se visse um filme, um curta. Excelente. Parabéns. Bj

Lou Vilela disse...

Dri,

Você pinta cenas urbanas de formz singular. ;) Muito bom, minha cara!

Beijos

Flá Perez (BláBlá) disse...

li de um fôlego.
essa cena entre eles ficou demais!

TON disse...

Realmente, a leitura desse poema é como a visão de um curta-metragem. Prende tanto que parece durar bem mais que o tempo da leitura, mas o tempo da percepção.
Ao ver a foto percebi que quando vamos ao encontro da luz, nossas sombras nos seguem. Quando nos afastamos das luz, nossas sombras nos precedem.

Leonardo B. disse...

[cinemática precisão, a palavra incauta, agarrada pela sua mão...]

um imenso abraço, Adriana

Leonardo B.

L. Rafael Nolli disse...

Adriana um retrato muito interessante da cidade - você captou muito bem esse instante efêmero, de iluminação. O que mais me agrada é que esses momentos casuais, no coração da cidade, quase sempre são estéreis, inférteis e você sou retirar poesia disso tudo. Abraços.

Assis de Mello disse...

Belo cena a ser filmada em branco e preto. Pede uma continuação... E se o homem apressasse os passos e alcançasse a moça novamente ? ...
Adorei...
Bjão do Chico...

Mirse Maria disse...

DRI!

Você sempre dá asas à minha imaginação.

É um cenário e tanto!

Maravolhoso, como sempre!

Beijos

Mirse

Wania disse...

Dri

Bela "poesia" noir...

Descreves com muita propriedade, é facil entrar na cena! Parabéns!

Bjs

sidnei olívio disse...

Repito o q o Nolli disse e lhe envio um beijo.

Adriana Godoy disse...

Adorei os comentários. É o que faz a diferença e faz querer continuar. Obrigada, muito obrigada. Beijos.

Úrsula Avner disse...

Oi Adriana,

você como sempre, sabe poetizar bem e com sensibilidade cenas do cotidiano. Muito bom ! Bj,

Úrsula

Joakim Antonio disse...

Qualquer cena pelo ponto de vista da poeta, nos leva para dentro dela.

Parabéns!

[ rod ] ® disse...

Fostes precisa ao fumo e ao fogo... a fogueira que arde mesmo ao extintor que se liga! Em corpos há sempre uma brasa a corroer... Bjs moça!

Fred Matos disse...

O poema é um retrato, não obstante, permite múltiplas leituras, e tem um ótimo ritmo.
Gostei muito, Adriana.
Ótimo fim de semana.
Beijos

Adriana Karnal disse...

Adri Godoy, xará
Que descrição mais precisa de uma noite "noir"...adorei os tons de escuridão.

Brilho da Lua disse...

Delícia... de sentir

Tarcísio Buenas. disse...

parece um roteiro de cinema. as imagens estão nítidas. do jeito que eu gosto.

bj

BAR DO BARDO disse...

... releitura. Me gusta.

Barone disse...

Estou te vendo sentada à beira da janela do apartamento. Apenas sua silhueta destacando-se na penumbra do quarto ou da sala. Um cigarro na ponta dos dedos, olhando o mundo lá embaixo.

sopro, vento, ventania disse...

"as pessoas dormem com as janelas fechadas", que belo, Adriana.
Ainda bem que, ao menos, você está com as janelas e os olhos abertos para poder reler tudo assim (a dor, a solidão e tudo o mais do mundo), tão docemente.
Um beijo,

Marcos Satoru Kawanami disse...

perguntaram pro Freud se o charuto era um símbolo fálico, ao que el respodeu: "um charuto é só um charuto".

mas então é assim que as mulheres enxergam um cigarro...

José Carlos Brandão disse...

Valeu reler. Não se diz que o poema é bom quando sustenta uma releitura? Parabéns. Beijo.

Batom e poesias disse...

Uma crônica poética, um retrato do cotidiano, um mistério...

Bom te ler.
bjs

Rossana

Sylvio de Alencar. disse...

Um poema bem de cidade, reforçado pela foto meio 'vazia'...

Vera Pinheiro disse...

Adriana, estou atrasada, mas hoje pude vir para o abraço aos teus versos. Lindos!

Cíntia Thomé, Jornalista, Poeta . disse...

Que bela textura deu às palavras nesta
noite em nuances e esquinas...

Bárbarooooo!!!!