quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Noites de ausência

Claro que é possível ser feliz sozinha!
Mas não precisava existir noite de sexta-feira
Nem devia haver madrugadas
Quando a vida se mergulha em saudade.

A noite avança vagarosamente,
O silêncio é cúmplice do pensamento,
Pensar acorda fantasmas do passado.
Em noites vazias como esta,
A melancolia invade o coração
E tudo se preenche de ausência.

É como estar lindamente vestida
E entrar em um salão para festa
De que somos convidadas.
A orquestra toca a música predileta,
Mas todos já foram embora.
Estamos enfeitadas, o lugar é belo,
Ainda existe melodia, mas não há
Quem tenha permanecido à nossa espera.

Perdemos a festa
E só nos resta voltar às relembranças,
Tirar a roupa que fantasiou a felicidade,
Desfazer a maquilagem que desenhou um sorriso,
E adormecer sonhos, esperas e ilusões.

Quando acorda, no dia seguinte,
A gente não sabe se viveu ou se sonhou.
Apenas sente que o vazio não se preencheu.

Vera Pinheiro

15 comentários:

Renata de Aragão Lopes disse...

Vera,

falei de forma semelhante
em "Fim da festa", lembra-se?

"Tirar a roupa
que fantasiou a felicidade"
"A gente não sabe
se viveu ou se sonhou"

Eu simplesmente
ADORO o tema! : )

Um grande abraço, amiga!

Vera Pinheiro disse...

Querida Renata, não lembro do teu "Fim de Festa", mas vou procurar aqui. Espero não ter, inadvertidamente, te plagiado...rsrsrs. Na realidade, a dor de uma mulher é a de todas, assim como a cura de uma é bálsamo para a alma de todas.
Para ser sincera, não adoro o tema, mas o vivo até as entranhas. E dói. Mas um dia se cura, boto fé!
Beijos e meu carinho.
Em tempo, e de forma recorrente: eu gosto muito dos teus escritos, poeta!
Vera

Vera Pinheiro disse...

“Fim da Festa”, da maravilhosa Renata de Aragão Lopes, é um dos quinze selecionados no IV Prêmio Literário Livraria Asabeça - Poesias, Contos e Crônicas, realizado em 2005, pela Scortecci Editora, e que integra a respectiva antologia. O post, de 23 de fevereiro de 2009 no Poema Dia, é uma leitura encantadora. Perdi o “Fim da Festa”, querida Renata, mas li hoje e te cumprimento com quase um ano de atraso. É muito mais bonito o teu escrito sobre o tema. Beijos e carinho de novo!

Indelével disse...

Sempre o vazio...

Lírica disse...

Vera, esta sensação de vazio, esta melancolia, de perda, de que pensar suscita fantasmas indesejáveis me preocupa... ainda mais quando se atribui isto às mulheres. Tudo bem, Freud já o dizia. Mas Lacan me confortou dizendo que este é um sentimento universal e não feminino: a sensação de incompletude, de falta com a qual precisamos aprender a conviver.
Mas você simbolizou bem com a idéia da festa.
Parabéns.

Rafael Castellar das Neves disse...

Vera...antes de mais nada: como entendo o seu "noite de sexta-feira"!! Cai como uma luva...acho que: ou não deveria existir ou ninguém deveria ficar sozinho, pelo menos nas noites de sexta-feira...muito verdade!! rs

Gostei muito do texto...por ser bom mesmo e por afinidade: parece que vejo muitas ideias, que coloquei em textos meus, salpicadas pelo seu...muito bom!

Rafael

Vera Pinheiro disse...

Lirica, a dor da ausência talvez não seja um sentimento feminino, mas universal, mas sou mulher e assim sinto o vazio. Não posso falar pelos homens e, na verdade, gostaria que ninguém experimentasse isso, que todos os seres fossem felizes. Beijos.

Vera Pinheiro disse...

Rafael, ou se acabam as sextas-feiras ou a gente dá um jeito de ser feliz apesar delas, se viver as ausências que estragam um dia tão bonito e que não tem, diretamente, a ver com isso. Fiquei, de certa forma, aliviada por saber que esses sentimentos são compartilhados por um homem. Injustamente, às vezes penso que o vazio é uma vivência essencialmente feminina. Larica apoiada por Lacan, disse que não é. Eu sei apenas o que vivo, sinto, compartilho e posso assinar embaixo.
Abraços na virada de quinta para sexta. Mais uma sexta!

Vera Pinheiro disse...

Indelével, pois é, o vazio está por aí, por(r)aqui, a espera de que se preencha da felicidade que a gente quer e merece. Não faço teoria do vazio nem das ausências, experimento e escrevo, cravando letras onde as palavras, gestos, afagos e presença se ausentam. Beijo!

Rafael Castellar das Neves disse...

Pode ficar tranquila, Vera...os homens também sentem este tipo de coisa sim (e muitas outras). Mas é difícil admitir e quando admitido é difícil expor..há uma cobrança cruel em cima do "perfil machão"...acredite!

Então, que tenhamos uma excelente sexta-feira!!

L. Rafael Nolli disse...

Vera, poemaço esse!

Vera Pinheiro disse...

Rafael, acredito, sim, e lamento muito. Honro a tua sensibilidade e a tua coragem, como também honro todas as pessoas incompreendidas que se permitem ser, sentir e se revelar, apesar das expectativas alheias que querem enquadrá-las num modelo previamente estruturado, mas em desacordo com o jeito de cada um, suas histórias, dores e aprendizados.

Vera Pinheiro disse...

Nolli, querido, obrigada. A vida é muito mais. Ela, sim, é um poemaço, que emociona, faz rir, chorar, crescer. Abraço grande com carinho.

Joe_Brazuca disse...

Vera

nós AINDA pegamos as migalhas da sobremesa do banquete da festa...

o que sobra aos nossos filhos ?...nada

eles terão, cada vez mais, que arpender a viver "em solo"...

muito bom !

bj

Vera Pinheiro disse...

Enquanto isso, Joe, aprendamos a conviver com a solitude. Beijo agradecido.