domingo, 15 de novembro de 2009

Invólucro



para L.Rafael Nolli, que me ajudou a aparar as arestas do poema.

Só sou sincero no momento do orgasmo.
Para todo o resto na vida há as mentiras.

No jorro de um branco híbrido
Lançamos ao mundo ralas tentativas
De ilustrar divindade.
O sêmen é a alma em estado líquido.

Tive sede de verdades.
Degustei-as antes de engoli-las,
Gota após gota,
Saboreando em minha curiosa língua
Litros e mais litros
Temperados por minha cínica saliva
Tendo os dentes como represas…

A minha busca é fina.
Já percebo a sutileza do que finda
E busco sua perpetuação.
Um aceno de mão, um gesto,
Um giro de tronco,
Um arquear de pernas,
Um dar de ombros,
São movimentos efêmeros,
Como peixe escrevendo na água.
Uma vez feitos
Perdem sua força de intenção,
Esgotam-se no espaço.
Por isso os guardo para mim.
Porque são mais poderosos quando não existem.
Minha busca é neutralizar o supérfluo,
É conter energia avulsa, potencializando-a.
Por isso me sinto tão bem aqui dentro,
É todo o chão que preciso.
A atrofia do corpo dilata a mente.
Fortalece as utopias.

De quase tudo me livrei.
Do verbo ainda não,
Esse movimento invisível
Igual vôo de pássaro riscando horizonte.
Ainda não o sublimei.
Ainda escrevo palavras fantasmagóricas:
Cheias de som, mas sem corpo algum.

Quem sabe quando morrer
Ou então
Quando não forem meus dentes mais represas
Nem minha língua abrigo de cinismo
Nem minha saliva o motivo da minha embriaguez
Quem sabe
(talvez) Eu me cale?

O paraíso foi antes.

12 comentários:

L. Rafael Nolli disse...

Fico simplesmente sem palavras. É um prazer ter meu nome associado a esse poema. Agradeço, meu camarada!

rogerio santos disse...

O texto é muito bom, muito forte !
Abraços, Rogerio

wcastanheira disse...

nem minha lingua abrigo de cinismo...uma delícia sua poesia, é mto bom viajar um pouco nesta hamoniosa página, é mto bom estar aqui, ler, analisar, sentir este aroma poético, gosto mto disto, bjos, bjos, bjosss

Adriana Godoy disse...

Prabéns, Tenório. Belo e forte poema. Gostei muito. beijo.

Tião Martins disse...

Grande Tenório! Qd vamos nos livrar do verbo? Um dia seremos...ou não?
rsrsrsrsr

Heyk Pimenta disse...

esse desenhoé capa do livro do berimba de jesus, você conhece ele?

tenorio disse...

Ei Heyk, conheço pouco e há pouco. Descobri o blog, Carta de Doações e achei uma das melhores coisas da semana.

sidnei olívio disse...

Gostei demais, Tenório. Belo e forte. Abraço

Anônimo disse...

Parabéns, cara! vc, como sempre, dá aula!
Muuuuito bom!!!
Antônio Quintão.

Luis Claudio disse...

Muito bom. Mais que poema, é um tratado. Parabéns.

Barone disse...

Muito bom Tiago!

tenório disse...

Obrigado a todos, que dão algum sentido a esse espaço...