sábado, 24 de outubro de 2009

Ópera-rock sobre o cárcere de Abaetetuba

1 – os fatos

Tinha quinze anos e subtraíra um Rolex made
in China ou um CD by Zona Franca de Manaus.

Por isso fora jogada
numa cela úmida de suor e porra.

Uma cela ocupada por homens exemplares,
educados na arte da pederastia e da extorsão
– onde trocava um copo d’água por uma chupada.

Tinha quinze anos e roubara pouco mais
de uns reais, que não lhe pagavam a fome.

Por isso fora jogada
numa cela feita de aço, músculo, testosterona.

Uma cela abarrotada de orações sinceras,
de sífilis, de gonorréia
– onde trocava fiapos de colchão por tapas na cara.

Tinha quinze anos e roubara um pedaço de pão
ou uma carteira de couro de avestruz.

Por isso fora jogada
numa cela fedendo a desinfetante de menta e cu.

Uma cela decorada com frases de ódio
e estelares bocetas globais
– onde trocava um prato de comida por uma trepada.


2 – o carcereiro

Nada perturba o seu sono.
O canto da navalha, no pescoço de quem dorme,
não lhe tira o apetite
– treta de cigarro, mulher ou cocaína:
é com sangue que se assina esses contratos.

(O trânsito é um problema que o incomoda:
busina, semáforo, lhe tiram do sério.)

Nada perturba o seu sono.
O choro noturno de quem será enforcado
não lhe rouba a disposição
– o cinto e o cadarço cumprem o papel
que Deus lhe designou.

(O chuvisco na TV é um empecilho:
não há riso sem o programa, sem o comercial.)

Nada perturba o seu sono.
A emboscada que culmina em desgraça
não lhe inibe o descanso
– ordem natural das coisas:
quatro homens no banheiro, outro que não é mais.

(Futebol é algo que o desconcerta:
o empate é inadmissível; a derrota, insuportável.)

Nada perturba o seu sono.


3 – os detentos

Um cultivou o seu amor com agrotóxico,
enterrou o corpo na horta,
onde nunca mais nasceu couve.

Outro, em nome da honra da filha,
cortou o pinto do vizinho e jogou na rua
– ali, brincavam de varinha atrás.

Mais ao fundo, um unha-de-fome
que têm o estômago como mentor
intelectual de seus atos

– roubava supermercados
com a prudência de ser preso: nada lhe
era melhor que a comida sem sal do Estado.

Alguns, resignados, assumiram crimes alheios
afim de quitarem carnês de jogatina e tráfico:
confessaram uma degola, adotaram umas fraturas

– em sua maioria ritualísticos ladrões de galinha
e usuários recreativos de cola de sapateiro,
que não teriam mesmo outro lugar para irem.

Há aqueles que não possuem crime algum
senão terem nascidos inclinados ao soco,
atraídos pelo grito, propensos ao ódio.

Aqui o sol é o mesmo para todos
e o interruptor o apaga.


4 – fim

cada casa é uma trincheira
que se defende de um inimigo invisível

(talvez seja o vizinho
ou nós mesmos – algo nos diz)

e rua a rua a guerra é perdida
pelo avanço de exército nenhum



*

13 comentários:

Diario da Fafi disse...

Uau!

Li e Reli.
É isso aí, como diria Hilda Hirst:

"É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora."

Adriana Godoy disse...

Nolli, espetacularmente trágico esse conjunto de poemas. De qualidade excelente, de poesia nua e crua, de um verdadeiro poeta. Parabéns, que a vida pede. beijo.

tenório disse...

meu deus, homem! o que você quer que eu comente? isso só posso chamar de obra-prima, cidadão! peloamordedeus, nolli.

Assis de Mello disse...

Belíssimo poema tarja preta, Nolli. Li várias vezes e vou ler mais. Trágico gardenal com absinto e cal.

Flávio Otávio Ferreira disse...

Muito bom este poema do Nolli. Texto crítico com foco em um acontecimento triste e constrangedor numa sociedade dita democrática! Abraços!

Vera Pinheiro disse...

Dá um nós nas tripas! Coisa de louco esse Nolli... Ele torce a gente por dentro.

Vera Pinheiro disse...

Deu um nó até no que eu ia dizendo. Um NÓ nas tripas e faz delas coração que o aplaude. Codelôco!

TON disse...

Uma pintura sonora e fétida de uma realidade distante, de um horror onde encerramos o refugo de nós mesmos e enterramos qualquer possibilidade de compaixão. Esses versos são vísceras cruas a expor a indiferença, o poder e a desgraça absoluta do que de pior produzimos. Um espelho de nós. Bravo, corajoso, repugnante. É difícil nos vermos no lixo que produzimos. Isso deveria ser esfregado nas fuças de todos.

Felipe da Costa Marques disse...

Epopeia neo realista
fotografia preta no branco
Filme que não quer calar...

boa Nolli!

Renata de Aragão Lopes disse...

FANTÁSTICO!
É impressionante como você
transforma em arte
uma realidade fétida...

Abração, colega!

Barone disse...

Rapaz.... que porrada.

Joe_Brazuca disse...

...diria, gangorrada na cara, de um pulo incerto, mas inexorável.

excelente

L. Rafael Nolli disse...

Amigos, agradeço pela leitura e pelos comentários! Muito obrigado!