sexta-feira, 24 de julho de 2009

Os Agentes B

Para Rodrigo de Souza Leão
(04/11/1965 - 02/07/2009)

1 – TOP SECRET

O poeta trazia um chip escondido no corpo.
Aos 23 soube que era rastreado –

numa sala escura um monitor Toshiba
piscava uma luz verde que era ele:

se súbito virasse à esquerda
e corresse até o tênis acabar eles saberiam.

Mergulhar por dias numa piscina, de escafandro,
ou enfiar o dedo na tomada não adiantava –

era a prova d’água, imune ao curto-circuito.

A luz continuaria piscando, indicando
aos agentes que ele estava onde estava.

Com a faca arrancá-lo seria em vão.
Outro seria posto no lugar do primeiro –

à noite, pelo pai; ou num ato violento por eles.

Novamente internado, voltaria
com a tecnologia re-implantada –

up grade da versão dois ponto zero,
mais moderna, com sinal via satélite.


2 – Fuga e outros movimentos

Certo dia, perseguido por todos,
desceu correndo os treze andares da CEF,
contando cuidadosamente cada degrau.
(Diante do impasse, quase voltou para conferir)

Os macacos em seu encalço
– mordendo o calcanhar do tênis Nike –
seria uma prévia de tantas outras perseguições.
(Análogas às exibidas na Sessão da Tarde)

Aquele era o momento de lamentar não ter fu-
gido com Rimbaud – companheiro de manicômio
onde trocavam figurinhas do time do Flamengo.
(Álbum Campeonato Brasileiro, 1989)


3 – Necrológio

Acordou vinte anos depois
– ressaqueado de Haldol –
seu nome inscrito no obituário.

Levantou da cama
– a hora havia chegado –
e comunicou a todos que iria morrer.



*

13 comentários:

Renata de Aragão Lopes disse...

Excepcional, Nolli!

O começo lembrou-me Matrix.
Que nada!
Estava mais para "Bicho de 7 cabeças"!
(risos)

Aprecio muito o que você escreve.
A propósito, ainda não adquiri o livro!
Entrarei em contato por e-mail.

Um abração!

Felipe da Costa Marques disse...

Verdade. Seu poem é:
Uma Epopeia Surrealista Cinematográfica !
Congratulações Mil!
Abraços

Joe_Brazuca disse...

uma viagem insólita, dentro da paranóia humana...

excelente, dá pra virar um curta "de prima, sim...

abraço

Adriana Godoy disse...

Já tinha lido em seu blog, mas foi muito bom reler esse poema aqui, ainda mais como uma homenagem tão especial ao Rodrigo Leão que se foi tão cedo. Parabéns mais uma vez por esse trablho. bj

BAR DO BARDO disse...

++++++++++ RafAEL, PArabÉNS!????????????????????????????? i'M chap ou chiiipaDO/////>>..


(siLENCe]

mUitO bom
um réquiEM

TON disse...

Também percebi uma linguagem em movimento. Mais se assiste que se lê.
Se houvesse trilha sonora seria algo com tipo "Identidade Bourne".
Esse chip todos nós temos. Ele está cravado em nossa mente, monitorado por nosso ego. Acabe com um que o outro será controlado. É uma questão de definir quem está no comando.

Hercília Fernandes disse...

Grande texto, Rafael!

É sempre uma alegria imensa figurar ao seu lado no Poema Dia.
Seus textos são intensos, apresentam excelente linguagem e riqueza contextual. Isso tudo junto aponta para a grandeza imaginária e técnica do escritor.

Muito bom ler os seus agentes B, Rafael, mais uma vez lhe parabenizo pela criatividade e fortuna de conhecimentos de sua obra.

Beijos :)
H.F.

Benny Franklin disse...

De prima, Rafael!

Barone disse...

Preciso reler. Curto circuito de informações.

tenório disse...

Muito bom! Cinema puro... É impressionante como o Rafael subverte a poesia, usando seu espaço para fazer até cinema!

Flávio Otávio Ferreira disse...

muito bom o poema...se tratando do trabalho do Nolli, há sempre algo contagiante e meio que "cinematográfico", como muitos já disseram... sensacional homenagem ao Rodrigo de Souza Leão e seus cachorros azuis... abraço, camarada e, Parabéns!!!

tenório disse...

Excepcional!! Precisei voltar e dizer isso.

tenório disse...

Excepcional!! Precisei voltar e dizer isso tb.