quarta-feira, 24 de junho de 2009

IX

22/12/03

O homem que fugiu de casa ontem passou pelo meu verso numa correria desatada – os cabelos desgrenhados, a roupa esfarrapada. Em seu ouvido, ainda ecoava a fome de seus filhos esquecidos em dois cômodos e um banheirinho fedendo urina, fezes e vômito.

O homem que fugiu ontem de casa resvalou um olho cansado ao passar pelo meu poema – sua dor o levará a São Paulo, ou a outra grande cidade que fede a gás carbônico e vagina; o levará aonde disseram ser o dinheiro mais verde e o bolso menos fundo.

Ao homem que fugiu ontem de casa e que, por um momento, estacou-se diante desse poema, eu tenho apenas o meu respeito, nada mais; mas saiba que aqui também estou eu, escondido desde o momento em que fugi e resvalei com a fome dos que plantam, pescam e colhem a mesa que enfeita nosso jantar e produzem com suor e lágrimas o sono tranqüilo de nosso vizinho...





(do livro Memórias à beira de um estopim)

7 comentários:

Adriana disse...

Rafael,
sempre armado de poesia.da boa!

Helena disse...

Nossa, que poema forte, lindo! Parabéns. Sua poesia lembra a do Fernando Mendes Vianna, por cujos versos me apaixonei há anos, depois perdi de vista. Um dos meus contos tinha como epígrafe um verso dele "a vida, esta ponte frágil sobre o nada"

abração,

Helena

Adriana Godoy disse...

Rafael, um texto de arrepiar e ao poeta que não fugiu parabéns. Beijo.

TON disse...

Sempre um brado contra a hipocrisia.
Seus versos tem o efeito de um fio terra, em permanente contato com a realidade. Excelente!!!!!!

TON

Renata de Aragão Lopes disse...

Adorei o comentário do Ton logo acima. Seus versos mantêm, de fato, um contato estreito com a realidade. Algo admirável. Abração.

PS: ainda não lhe encomendei o livro por falta de tempo! Logo o farei!

Barone disse...

Rafael!
Mais uma vez visceral!

Hercília Fernandes disse...

Rafael,

seu poema é forte e meio amargo, nos deixa um doce travo na garganta.

Mais um belo texto, meu caro!

Abraços,
H.F.