sábado, 4 de abril de 2009

Calamidade pública

perdi meu senso prático
na ouvidor com rio branco

deixei de passar no banco

atravessei sem olhar
o trânsito
ultrapassei sem pesar
o lento
atropelei sem freio
o velho

encontrei meu motivo lógico
na praça do passeio público

sou um animal nocivo
ao interesse

mútuo.

26 comentários:

Renata disse...

Gostei muito!

Em especial,
do ritmo das proparoxítonas
e do divertido desfecho
"nocivo ao interesse mútuo".

Renata disse...

A propósito...

Acabei de visitar seu blog e de perceber que, ao menos em um primeiro momento, sua forma de escrever é bem assim mesmo: leve, despretensiosa e divertida.

Muito legal, Tião!

Victor Meira disse...

Bacanérrimo, Tião.

Judô e Poesia disse...

Lindo. De uma densidade leve. Inteligência potente guardada por palavras, mas solta. Bom estar aqui e te ler.

Tião Martins disse...

Bom que vcs gostaram, obrigado!.

Renata: não se deixe iludir. Sou um ser pesado, pretensioso e triste!

rsrsrsrsrsrsrsrsrrsrssrr

Compulsão Diária disse...

Ritmo e construção. Quase é Construção do Chico mas é do Tião.
Adorei

Felipe Vasconcelos disse...

Sensacional, Tião. Me satisfaça uma curiosidade: esse esbarrão ocorreu mesmo na sua vida? O Gullar diz que os poemas que tem inspiração na vida são melhores. Ele disse algo tipo "os poemas são melhores quando a vida contribui". Eu fiquei com isso na cabeça.

Felipe Vasconcelos disse...

Renata,

Eu também adoro os poemas do Tião, mas fiquei surpreso por você achá-lo leve. Despretensioso ele é mesmo, mas não sua poesia, que vai longe. Talvez não pareça por causa da tendência esculhambativa dele, que não poupa o próprio poema, mas isso já é pista para a complexidade das coisas que ele escreve. Divertido eu concordo com você, desde que entendamos que um Beckett é tão divertido quanto um Chaplin. Mas leve? Vou dar um exemplo:

FINADOS DE CARTOLA

queixo-me aos mortos
mas que bobagem
os mortos não falam
simplesmente os mortos
exalam
o perfume que roubam
da vida.

E mais esse:

UIVOFRIO

quando um cão uiva na noite
passa um mau presságio
ágil
pela mente

quanto mais feliz você for
pior será
o senso
do diferente

quando um cão uiva na noite
algo calafrio
na gente
mas calma
ânimo
temos só o destino

pela frente.

Ou esse, que me comove pra burro:

REUNIÃO EM FAMÍLIA

alegria sorrisos
há quanto tempo
vira-latas faísca
abana o sono
nossa
como cresceu
a cara do pai
é minha filha
eu só carreguei
sai cachorro indecente
cheira as coisas da gente
deixa o animal
é tão natural
mas vamos entrando
não reparem a bagunça
que nada cunhada
tá tudo ótimo
ninguém conserta
como deus permite
que cheiro bom de feijão
é coisa tão simples
comida de pobre

a gente comia
a gente brindava
a gente brigava
a gente sempre voltava

sai faísca
cachorro indecente...

Não sinto leveza nesses poemas, acha-os quase trágicos. Acho eles meio rodrigueanos. O Tião não te lembra um pouco o Nelson Rodrigues, não?

Mas aí eu pensei mais nesse intervalo, eu cheguei nisso: será que você está falando da maneira com que ele constrói os versos? Aí talvez você tenha razão. São versos livres e curtos, coloquiais, sem frescura, que fogem do hermetismo e do vocabulário pernóstico. Será que está aí a despretensão a qual você se refere?

Cordialmente,

Felipe

Tião Martins disse...

Oi Felipe: na verdade não ocorreu um esbarrão específico... mas vários. Sou um tanto avoado, e quando ando no centro do Rio tudo pode acontecer... rs. Uma vez saltei de um ônibus andando na Praça XV e fiz um autêntico "strike" no ponto.

Quanto à "contribuição da vida" para os poemas isso pra mim é indiscutível. O poema que vc lembrou, por exemplo, "Reunião em família", é basicamente construído com frases dos meus parentes nos encontros de família. Inclusive o Faísca existiu mesmo e muito, rs, pois foi um simpático vira-latas que durou 21 anos.

No mais, obrigado pelos elogios e comparações que, cá entre nós, sempre acho que não mereço. Gosto muito do Nelson e creio que, em comum com ele, tenho mesmo é a paixão pelo Fluminense.

Abração.

Tenório disse...

Eu sou fã do Tião! Tudo que ele escreve eu acho sensacional!

Barone disse...

Muito bom Tião.

Felipe Vasconcelos disse...

hehehehehe
Fluminense, é?
Obrigado, Tião, pela resposta. Eu estou inclinado a concordar com o Gullar também; venho prestando atenção na obra de vários poetas e os poemas que mais gosto geralmente contém indicações de que foi criado a partir de circunstâncias da vida. Ando na rua agora que nem um idiota, sempre à espera de alguma epifania, como levar um esbarrão de um poeta.

Abração!

Renata disse...

Ei, Felipe!
Só agora vi que iniciou um diálogo comigo. Bacana conversarmos sobre a obra do Tião.

Você, ao final de sua exposição, chegou exatamente onde eu queria: Tião pode falar de qualquer tema, até do mais trágico, mas o fará sempre com a mesma leveza - a menos que propositadamente a dispense.

Sua leveza está, sim, na construção dos versos, na escolha das palavras, no coloquialismo do discurso (no que, de fato, assemelha-se ao Nelson) e, talvez (só o Tião para nos dizer), em sua opção quase velada por realçar, de alguma forma, o bom, o belo, o feliz.

Em "Finados de Cartola", por exemplo, ele fala dos mortos (e com os mortos! rs), mas o que sobressai no poema, ao menos pra mim, é o perfume! Tema denso em abordagem delicada.

Como disse lá no alto dessa janela, fiz, há pouco, minha primeira visita ao blog do Tião. O que postei aqui foram minhas impressões iniciais sobre o que ele produz. Acompanhando-o, pode ser, inclusive, que eu mude de entendimento.

Obrigada, Felipe, por esse proveitoso contato. Fuçarei agora em sua gaveta! rs

Até!

Felipe Vasconcelos disse...

Renata,

Que bom que você viu. Pois é, não pensei que os comentários ficam "escondidos", você poderia nunca ter percebido. Mas obrigado pela resposta: compreendo melhor sua leitura e tens razão.

Mas, pelo menos na minha interpretação, o "perfume" é uma ironia, o "perfume" é o cheiro fétido de podre que os cadáveres exalam, cheiro esse roubado da vida, que por sua vez fede de podre, e da qual é inútil se queixar, porque nós, vivos, estamos de alguma forma, mortos. Eu adoro a ambiguidade dos mortos desse poema; não creio que sejam apenas mortos literais. Pode ser que minha interpretação espelhe um pouco meu próprio estado de decomposição (hehe), mas é que eu acredito que por mais negativa que uma obra de arte possa vir a ser (como "Guernica", por exemplo), ela é, no fundo, tanto um aviso quanto um apelo por um mundo melhor. Além do que, exalar é um verbo sempre associado com mau cheiro, portanto não vejo outra maneira de ler esse perfume senão ironicamente. Mas vejo a leveza desse poema da forma que você coloca; os versos se encadeiam musicalmente, de forma análoga à canção do Cartola.

Paro por aqui, abruptamente, que tenho que sair. Obrigado por dar um carinho aos meus "guardados". :)

Beijo.

Tião Martins disse...

Renata e Felipe,

Devo confessar que é bem estranha a sensação de ler duas pessoas conversando sobre o que eu escrevo. Ainda mais levando-se em conta (Felipe sabe, já trocamos e-mails sobre isso) a forma como faço meus poemas: direto nos blogs, na hora da postagem. Praticamente não reflito, não tenho nenhuma intenção específica. Sou levado pelo ritmo, pelo som das palavras, salvo uma ou outra ambiguidade ou ironias propositais.

"Calamidade pública", por exemplo, é filho da preguiça com o desleixo. De repente me dei conta de que era dia de postar no blog. Com preguiça de criar algo novo, pensei: "caraca, não tô com saco de fazer um poema agora... vou pegar alguma coisa que eu ache legal lá no meu blog!". Como estava usando o notebook, me atrapalhei todo (me enrolo sem o mouse) na hora de copiar e colar. Daí, por força de uma preguiça e atolamento maiores, me veio à cabeça o seguinte: "puta merda, sou uma calamidade pública, não consigo nem copiar essa porra! Mais fácil fazer um novo!" E o título "calamidade pública" me soou atraente, dando origem ao poema.
Por isso agradeço os elogios mas acho que não vale a pena vocês me discutirem... rs! Feliz fico sim por mais uma vez perceber que o que escrevemos não nos pertence. Como nossos filhos, seguem por aí independentes do que somos ou do que sonhamos para eles. Antes assim, porque espero mesmo um mundo em que todo filho seja melhor que os pais que os concebem, bem como todo leitor é melhor que a obra e o autor que a escreve.

Beijos carinhosos!

Felipe Vasconcelos disse...

Grande Tião,

Morri de rir. Depois, me enterneci e, por fim, sorri.

Obrigado por tudo e um grande abraço!

Renata disse...

Poxa, Tião!

Então mantenha o método: escreva sempre de última hora, no "desleixo"! rs

Repito: apreciei muito tudo que li, até agora, de sua autoria.

Abração.

Tião Martins disse...

Obrigado a vocês.

Renata: to tentando ser menos desleixado. Minha mulher exige que eu faça a barba com mais frequencia.

Felipe Vasconcelos disse...

rsrsrsrsrsrsrs

Renata disse...

kkkkkkkkk

Tião Martins disse...

Enquanto isso... o pau continua quebrando na postagem acima...
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Renata disse...

"Ouvidor com Rio Branco" virou ponto de encontro! rs

Tião e Felipe, para variarmos um pouco, por que não marcamos uma ida ao meu espaço? Lá a saudade é em 3 atos! rs

Receberei, com enorme prazer, a crítica de vocês à minhas postagens (dia 23).

Um abraço.

Renata disse...

Ops! "Às" minhas postagens.

Tião Martins disse...

Renata: dito e feito.

Fui, vi e adorei!

E comentei!

Renata disse...

Já conferi e agradeci!

Tião Martins disse...

E eu virei freguês do seu blog.