terça-feira, 24 de março de 2009

Bilhete encontrado em um buquê de rosas



*
Se eu não te amasse, te mataria com prazer.
Te esqueceria numa cova rasa, em beira de estrada,
para que cães pudessem lhe desenterrar –
arrastá-la pelo asfalto em pedaços repletos de vermes
______________e de moscas.

Se eu não te amasse, te jogaria da ponte –
como se lê todos os dias nos jornais –
só para vê-la voar desesperada, sujar o chão
e menstruar a cara de merda dos passantes
______________e suas blusas impecáveis.

Se eu não te amasse, te sufocaria com o travesseiro
(seria perigoso dormir comigo). Te picaria
com a faca cega da cozinha. Pela noite,
prepararia uma travessa de yakisoba
______________e me tornaria canibal.

Se eu não te amasse, te atormentaria amiúde.
Faria com que Hitchcock dirigisse os teus
pesadelos. Te acordaria com sussurros de so-
cos no ouvido – se eu não te amasse,
______________seria isso que eu faria.






*
Do livro Comerciais de Metralhadora

23 comentários:

Renata disse...

Forte, marcante, lúgubre.

E, por isso, logo me lembrei de sua postagem anterior!

Relendo-a, percebi ainda mais: que, curiosamente, ainda que de maneira distinta, seus quatro textos nesse blog falam em morte.

Mera coincidência ou é, de fato, um tema que aprecia?

TON disse...

O contraponto deste amor seria o ódio ou o não amor?
Um destrói e outro apenas segue.
Desculpe-me, mas estas palavras me parecem alguns tons acima.
Reflexo da mente não filtrada pela consciência.
Como todo o respeito - mas como gosto é pessoal - desnecessário.

L. Rafael Nolli disse...

Olá, Renata, agradeço pelo comentário. Gostei do link que você fez entre os meus textos. Mas a morte, sinceramente, não me interessa nenhum pouco. Em todos os meus poemas ela é apenas um contraponto: uma imagem definitivamente forte, ainda que desgastada e desbotada pelo uso ao longo dos séculos e mais séculos de boa e má literatura. Minha intenção, creio, é tentar extrair uma questão maior, uma crítica social, uma observação sobre a alienação, sobre a caretice que impregna a poesia, etc. Note que o amor é a medida do poema, se não fosse ele (o amor) tudo seria possível – matar, picotar, surrar – e o amor e a vida são entidades poderosas, maiores que tudo isso! O mesmo ocorre no poema XXXII, que trata do mesmo assunto, porém com uma abordagem mais social, sobre a alienação social, sobre a dificuldade de se relacionar em um mundo em guerra, mergulhado na desigualdade social, na fome, etc. Fico feliz com o comentário e a observação. Abraços.

Helena disse...

Noll, eu adorei este seu poema de amor/ódio. tenho alguns assim (e prosa mais ainda). O amor, especialmente a paixão, e o ódio são muito próximos.

Engraçado que pensei em publicar um ontem que tinha tudo a ver com este seu.

Gostei também porque ele apesar do tema emocional é bem realizado e tem música própria.

abração,

helena

L. Rafael Nolli disse...

Olá, Helena! Pois é, uma linha muito tênue - ás vezes - os separam. Tenho visto muitos poemas aqui girando em torno de assuntos próximos, fazendo ótimas conexões!

* Que bacana o seu parentesco com o - grande - Bandeira!

Victor Meira disse...

Hahahaha, Rafael, FANTÁSTICO mano. Muito bom, muito trágico e sádico. O texto lateja com uma verdade enlouquecida. É muito divertido, muito bom mesmo, nego.

Um dia eu recito isso no desespero.

Bom demais, cara, muito bacana.

L. Rafael Nolli disse...

Meu camarada, agradeço demais! Um abração!

Tenório disse...

Camarada, já tinha lido no seu blog, mas não comentei. SENSACIONAL! Você é um absurdo, é um dos meus preferidos aqui. Quero escrever assim quando crescer, rs. Sério, muito bom, muito foda.

Tenório

L. Rafael Nolli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
L. Rafael Nolli disse...

Meu camarada, agradeço as suas palavras! Tenório, você escreve pra caralho - eu que quero escrever como você quando crescer! Abraços!

Tenório disse...

Cê tá doido! Tô falando sério, pombas, não tô te elogiando não: a sua poesia é motim, é líderança, é causadora de tumulto. Isso que eu quero causar um pouco. Por isso fiz aquele poema no meu blog inspirado por seu estilo. Uma poesia que inspire jovens, quiça futuros políticos, para causarem mudanças que o poema não. Sou teu fã!

L. Rafael Nolli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
L. Rafael Nolli disse...

Vamos juntos nessa luta, meu brother! Fico sem palavras!

Helena disse...

Nolli, Pois é, eu sou neta do Antonio, aquele do "sinos da paixão, pelo meu irmão". Durante muito tempo eu escondi o parentesco, mas hoje tenho o maior orgulho de revelar

Adriana disse...

Um poema de versos e sentidos fortes. Há um certo humor negro que permeia todo o poema. Gostei muito.
"Se eu não te amasse, te atormentaria amiúde.
Faria com que Hitchcock dirigisse os teus
pesadelos." Bom demais. Bj

Compulsão Diária disse...

Poema bomba. Esse "se eu não te amasse" mostra que amor e ódio são opostos complementares e não um o contrário do outro.
Corajoso, corajoso.
Gostei das imagens depois de me recuperar do susto. Essa de pesadelo dirigido por Hitch....é demais (concordo com Adriana)
E começa muito bem. A reslação , para o homem, entre prazer e amor.

Renata disse...

Entendi, Nolli.

A morte como mero argumento ou pano de fundo para suas críticas.

Intento bacana.

Gostei, particularmente, de seu Manifesto, publicado em 24 de fevereiro. Instigou-me a escrever, vez ou outra, de forma mais... "bruta"?(risos)

Um abraço.

Hercília Fernandes disse...

Gostei muito de seu poema, Rafael.

As imagens utilizadas servem como instrumentos para assegurar ao “outro” (leitor?) a intensidade dos sentimentos. A “densidade” configura-se como estratégia lúdica, um exagero externalizador [e catalizador] do poeta para cantar e comprovar através de figuras opostas, sobretudo vinculadas ao “ódio”, os sentimentos de amor.

Abraços,

H.F.

L. Rafael Nolli disse...

* Pois é, Adriana e Compulsão - Hitch é um craque e sabe o que faz! Agradeço os comentários de vocês. Um abraço!

* Renata, muito bom o diálogo que você iniciou aqui, faz desse espaço um espaço cada vez melhor, de maior interação! O Manifesto é pra por fogo em tudo mesmo, acabar com o papai-mamãe da poesia! Abraços!

* Hercília, lindo o seu poema. Agradeço o seu comentário: disso tudo! Um prazer dividir esse dia contigo!

Vera Pinheiro disse...

Rafael Nolli, meu querido, resumo todo o sentimento: virei tua fã! De carteirinha, fã-clube etc e tals. Putz, que lindo, que inteira emoção, e que vontade de gritar esses versos na janela ou com as mãos crispadas no pescoço da pessoa amada ou numa cesta de flores que eu tivesse coragem de mandar, julgando que aquele merecesse receber. Que vontade de dizer que eu odiaria se não amasse tanto... Aplausos, bandeirinhas e beijos. O autógrafo ficas me devendo!

Barone disse...

Violento este, Rafael.

L. Rafael Nolli disse...

Vera, que isso, fico até sem palavras! Agradeço o carinho! Barone, aquele abraços, meu camarada!

L. Rafael Nolli disse...

É isso aí, TON, agradeço a visita e o comentário! Bom receber um comentário discordante, o que me faz refletir, as vezes mais que um elogio, sobre a minha poesia. Abraços.