segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

possível deserto

os rios de dentro estão quase secos
uma planície seca e árida se anuncia
o coração ainda guarda algum líquido
para ser despejado no momento certo

a voz rouca indica mau agouro
os abutres estão à espera calmos

uma única nuvem negra não faz chuva
mas encobre o sol vermelho

a manhã desperta silenciosa
atenta ao menor ruído
frágil a qualquer vento

a noite vem desesperada
atônita negra pesada
os pássaros noturnos sumiram

o corpo resta cansado
sem dor sem frio sem nada
a alma parte suave

e um possível deserto se faz agora

14 comentários:

Braga e Poesia disse...

adriana eu escrevi um poema na morte do meu sogro que tem muito desse poema.
o momento da morte de uma pessoa querida. é assim exatamente que eu sentia a vida naquele momento.

www.ronaldobragas.blogspot.com

Adriana disse...

Braga, você captou. É isso mesmo. Obrigada.

Luciano Fraga disse...

Fantástica a forma poética que encontrou para descrição de um desenlaçe.As perdas são causticantes e acontecem assim mesmo,sempre solitários,esperamos o coração despejar sua última gota para partirmos em direção ao nosso grande deserto.Cortante.Abraço.

V.M.Paes disse...

Fúnebre. Belíssimo.

pianistaboxeador21 disse...

Uma despedida? Frigidez? "os rios de dentro estão quase secos" Desamor? "uma única nuvem negra não faz chuva mas encobre o sol vermelho" Morte? Talvez tudo isto junto. O silêncio, o vazio e o desespero unem-se para formar um possível deserto.

Contundente,

Beijos,

Daniel

Tomaz disse...

Agora sim, te li no Poema dia ! hehehe
Por sinal, que belo Poema ! Escrevo ao fim do expediente, daqui a pouco minha alma parte emitindo este possível deserto... Com a cabeça no travesseiro.

Adriana disse...

Pessoal, obrigada pelos comentários. Foi minha estreia no "poema dia". Valeu! Beijos, Adriana.

Compulsão Diária disse...

Grau zero de excitação. é sempre a vida contra morte nosso desejo maior de nada suave

Barone disse...

Adriana, perdão pelo comentário tardio. Como sempre, tua poesia rasga os sentidos, revela a crueza da alma, nos incita a um olhar interno e profundo.

"a manhã desperta silenciosa
atenta ao menor ruído
frágil a qualquer vento"

Francisco Coimbra disse...

Bela expressão do poema: procura da totalidade, ir da plenitude do sentir sentidos ao esvaziamento. Assim as palavras são feitas e surgem com fulgor, fogo, folgo, para se poderem renovar sempre e para sempre na leitura. Para bens de todos os leitores, parabéns à poetisa que se dá... ao escrever/ a ler. Tem rosto, mostra-o... deixa um rasto.

Olhos de Folha Minha disse...

Padecer antes da ultima gota do olhar....
Parabens mesmo!

fernando disse...

ei adriana,

essa alma partida
pedaços de/espera
frágil tão densa
é alma água
é alma oásis...

muito forte
muito boa
muito tudo
essa
poesia deserto!

BAR DO BARDO disse...

perda de líquido.
perda de humor.
nem líquen
nem licor.

Felipe da Costa Marques disse...

matas do impossível, seu poema tem o silêncio.. da fumaça do seu cigarro... parabéns pela estréia.

Ótima poesia!!