segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

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O Louco Diante do Espelho
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( Para Michael McClure,
Ann Waldman e Gary Snyder )
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Estou no rastro
das noites
; busco a leveza
do óleo
e o ímpeto hormonal
do meio-dia
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É com olhos
e lentidão molusca
que vejo o mundo
e também trago a casa às costas
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Relevo toda viscosidade
todos os géis, plasmas
; qualquer latejar é um caro amigo que tenho
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Afago a brisa e o vento
Retribuo suas carícias
quando meus pelos se eriçam
nas touceiras dos guaraxains
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e bendigo o leite da lua
que se derrama sobre a flora
que penetra na solidão ondulante do mar
que reluz, concentrado, na superfície limosa da turfa
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Já paraste num acidente da paisagem
pra sentir nesses átimos
teu próprio respiro ?
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pois então... diz-me quem sou
que
dessas coisas
me nutro
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Nunca deixei de enaltecer o leite
----------das fêmeas
o leite que veio do leite do macho
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e sempre há, ao longo das trilhas
um lagarto verde
que me acena
co’a cauda
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Sou também sensível ao tempo
e ao tato
feito uma planária na planície
ou uma pequena elevação
de tecido erétil
encravado no vértice
de um pequeno fiorde
logo ao norte de Kristiansund
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daí
encrespo-me ao vento
, como disse
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E não sou homem de bares
Cultivo um mar de samambaias sob a pele
um mar de avencas
e bons presságios
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e por mais que migrem os pássaros
as batuíras sempre retornam a mim
pois sou homem de amar

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Já desfiei tramas densas de sisal e ódio
mas clareio as olheiras
dos que minguam na sombra
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; destilo iras
e devolvo alento
Retorno afeição
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Há quem me veja
----------como o louco na torre
o doidão na bastilha
( Mas também não se vive de ilha ? )
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Silêncios também me sustentam
: mesmo mortos
os escribas de Hamurabi
os grão-vizires
Bach e o tropel dos hunos
ressoam
em minhas manhãs
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Prefiro ter-me
como o airado aéreo das amplidões
, aquele a quem
as antigas bruxas
cantam e cavoucam a terra
dando forma a meus jardins
Tenho brisa perfumada
no alvorecer
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E tu
que ora me fitas nos olhos
e súbito baixas a guarda
quando me desligo
pra elaborar um pensamento
, como é que tu me estimas ?
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O que dizes
das qualificações que recebo
dos robôs cartesianos
que passam a vida
repetindo tarefas
e
etiquetando latas ?
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De que vale
semear relógios ?
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Esta compulsão
ao pentear a barba
me traz alívio
momentâneo
Portanto sou feliz
e abraço o mundo
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e nunca vi galinhas
a desprezar insetos
nem porcos um banho de lama
então repito que sou feliz
e abraço o mundo
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Na estação das águas
contemplo os canteiros das bruxas
; no estio
retiro os camarões das tocas
- eis de onde vem minha extrema felicidade
em abraçar o mundo
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Eis de onde vem
o primeiro cio das potras
a paisagem em semi-tons
e o olvidar constante
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13 comentários:

Benny Franklin disse...

Puta'que'pariu!

Penso que poesia é isso.

Penso que quando exulto por causa
da poesia grande como essa, motivo tenho de sobra para masturba-me.

Arrepiante;...

Boa; Chico!

d'Angelo disse...

Do nonsense que reverbera em suas tardes e manhãs ao oceano de sutilezas que você carrega sob a pele, sua poesia sempre é um acontecimento na paisagem. Ave, Chico.

Anônimo disse...

Uma explosão em eus e na terra...Nada tão explosivo e doce...
Aplausos de pé.
Cintia Thomé

rogerio santos disse...

Que palavras usar para adjetivar um poema desses ? Melhor só contemplar.

Tratar as palavras com tamanha simplicidade e riqueza é só para os bambas que sabem bem o que fazer com a emoção.

Portanto, vou me utilizar de um substantivo: Diamante.

compulsão diária disse...

Espelho, espelho meu ... diz-me quem é mais poeta, mais hippie-beat, mais ecológico e encantador do que Assis? Se Snider - Chofu listening to the wind - na Sierra Nevada, Mccure in human be in com Jaguar Skies, príncipe de Frisco e os animais? Quem sabe Ann Waldman - Outrider - de Nova Iorque zarpando pra algum fiorde norueguês? Nenhuns, nem todos juntos mais zumbi do que este "louco" diantel de mim, do espelho dele que assopra poesia na natureza. Magnífico ímpeto neste meio do meu dia;))

Guto Leite disse...

Gostei muito também do poema! De algumas partes, gostei mais! Sobretudo nos versos que mentes não dizer nada, que finges só relatar, de uma mirada, eventos que aparecem, é de poesia imensa e encantadora! Abraço grande e poesia!

L. Rafael Nolli disse...

Concordo com a turma aí em cima quanto ao valor do poema, que é uma delícia de se ler. Gostei das referências a biologia que salpicam aqui e ali. Bacana!

Barone disse...

Sensacional.

"É com olhos
e lentidão molusca
que vejo o mundo
e também trago a casa às costas"

"então repito que sou feliz
e abraço o mundo"

Felipe da Costa Marques disse...

Poesia de todos os lados!
Sem matemática!
Puro Prazer!

fernando disse...

é duka!
a palavra tá aí
não há margens
arrebenta / arrebatando-nos
de tanto sentir!

evoé!

Joe_Brazuca disse...

olhe bem :

para mim, isto é um Libreto !

Vamos à opera ?

Dá samba...

es......plên......di......do !!!

Adriana disse...

É bom buscar e encontrar um poema desse porte. Incrível. Fantástico. Beijo.

mariagomes disse...

muito bom este poema!
perdoem-me se vou devagar, mas a poesia tem que ser lida, assim, aos bocadinhos... quando se der e nós a quisermos.
A poesia, a verdadeira, exige muito mais que a prosa!

maria