sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Herança

foto: Rafael Nolli: http://www.facebook.com/pages/L-Rafael-Nolli/158326134260842
                
Não sei se vou dizer
em que caminha a esperança no fruto
                                    ainda na semente,
 
ou se digo
– se devo dizer
algo sobre a certeza nas coisas quadradas
que se alongam até arredondarem-se.
 
Não sei se falo
aindavoz
de equações químicas que se resolvem em silêncio,
                               nos livros que nunca caducam,
 
ou se conjeturo
a luta que enfrentaram os que, antes de nós,
domesticaram os grãos a nascerem
próximo ao apelo da mão.
 
Não sei se retrato a terra sitiada
de onde escapou o musgo
            que cobre as pedras
            como uma pelagem de inverno,
ou se explico
resta um filete de canto
os vislumbres de um futuro próximo
onde ainda se morre como em
             Comerciais de Metralhadora.
 
Não sei se devo
ou se me permitem –
relatar as dificuldades dos homens nas fornalhas,
derretendo o minério que irá virar bibelô de madame
  ou maçaneta de táxi, e conto,
de mãos postas, a sua dieta fria, isenta de calorias
 
não sei se romantizo
os vagabundos noturnos que chamo pelo nome
ou se narro as noites em que sonho com a Poesia
 – a inevitável
                         e acordo de pau duro.
 
Não sei se confirmo
– se é lúcido confirmar
as verdades
sobre a ternura dos ditadores para com suas esposas
                                                                  & amigos;
o carinho dos carrascos
 & torturadores dispensados aos seus filhos
    & amantes,

ou se, simplesmente, me calo.
 
Não sei,
talvez o poeta esteja mudo
diante dos outdoors do apocalipse.

 

 do livro comerciais de metralhadora

Um comentário:

lucas repetto disse...

O poeta! O desenhista! O cantor! O dançarino! As artes!

Filtros de uma humanidade que ao longo se misturam com a desumanidade.