terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A Serenata


Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
— só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?


Adélia Prado

2 comentários:

Renata de Aragão Lopes disse...

Delícia de leitura!

"Quando ele vier,
porque é certo que vem,
de que modo
vou chegar ao balcão
sem juventude?"

Linda.
Doida.
Santa.

Feliz 2010 a todos!

Diario da Fafi disse...

Adélia.
Singela e bela.
Boa escolha.