quarta-feira, 2 de setembro de 2009

exilio


Vivo confinada,
num mundo á parte que inventei.
Uma geografia da solidão, sem luxúria, sem inferno...
Isolada.
Um refúgio cujas portas e janelas
dão pra dentro de mim mesma.

Quieta, conduzo as canções que sempre amei
como um maestro sem batuta.

Voraz, ali vivo como quero.

Presa numa fingida santidade, costuro dores antigas
como flores de fuxico
e as guardo como segredos
dentro de caixinhas de música.

Nas noites sem couraça,
decifro os sonhos que se recusam a envelhecer,
e que dançam alegremente entre os sonhos recentes
que ainda jovenzinhos dão seus primeiros passos.

E quando tudo parece perfeito,
sinto você compartilhando meu exílio...

Mas estás tão distante, que não adianta mais jogar a corda.
Eu não te alcanço mais.
O vento é forte.

E a correnteza leva tudo mesmo.

Negocio com o inevitável,te deixo ir, e continuo seguindo.

Nos dias claros,sento para apreciar o por de sol.
Ao meu lado, eu mesma, aos sete anos.

A garotinha me fala do amor pelo seu irmãozinho,
e de repente os dois saem brincando felizes,
como se nenhuma tragédia os tivesse atingido.

A liberdade é mesmo indecifrável...

Quando meus olhos me brindam com o impossível,
percorro meu mundo descoberto
onde meu pai me olha com seus olhos verdes calmos,
e caminha em minha direção com seus tamancos
me cantando uma canção sem cicatrizes:
- Ó Maria, tu és a mais bonita de todas que eu amei...

E eu choro.

Benvida é minha mãe que chega em meu socorro,
e com seu longos e antigos cabelos seca os
meus olhos de mansinho.

É quando tudo se completa,
e me sinto abraçada nessa fórmula perfeita.

E quando preciso voltar pra minha vida inquilina,
Vou desolada.
Esperando que meus pés encontrem, sozinhos, o caminho.

8 comentários:

Renata de Aragão Lopes disse...

"Nos dias claros, sento pra apreciar o por de sol.
Ao meu lado, eu mesma, aos 7 anos.

A garotinha me fala do amor pelo seu irmãozinho
e de repente os dois saem brincando felizes
como se nenhuma tragédia os tivesse atingido."

Triste,
mas uma bonita imagem...

TON disse...

Sublime expressão de quem, me parece, aprendeu a, mais que lidar, a perceber uma dor específica, e quase guardá-la de forma associada às boas lembranças. Fica difícil não ter compaixão e não chorar junto.

Belo, muito lindo e terno.

TON

BAR DO BARDO disse...

... je suis desoleé...

Rubicreide disse...

"A liberdade é mesmo indecifrável..."
E é MESMO indecifrável.

Adriana Godoy disse...

Mutio bonito. E triste.

Audemir Leuzinger disse...

minha vida inquilina... lindo!

Felipe Marques disse...

dançante poemar!
beijos

Barone disse...

"Benvida é minha mãe que chega em meu socorro,
e com seu longos e antigos cabelos seca os
meus olhos de mansinho."