terça-feira, 10 de março de 2009

Rio para professoras II

E levanto a voz em tom ameaçador
de desorganizar vidas supondo que
o calor atenue o ímpeto das desmedidas
para um sinal sonoro de escola superar
a fala
enquanto saio correndo pelo entorno da baía
a vergar o corpo de cal, suor e chuva
porque também chove e porque também os olhos
são graves de tarefas, plenos de ataques a crediários,
encostas, ementas, trens e teorias.
No largo da carioca o almoço é um enxame sem favos;
a rapidez é desonesta feito a bondade infinita das dicas para
cursos preparatórios de língua portuguesa e mandarim. Não falar
de si e da incompreensão do suicídio de ian curtis ou dever chorar
o intervalo da tarde somente minutos antes da plenitude dos remédios
atravessando em andor para tantas eras de raridade amparo
provimento, que dormir em vidros de coletivo parece conforto mítico.
E se não bastasse a fé de percorrer três cidades durante um dia, eu
diria que o afago inexiste nas trincheiras e mais: há todos os outros dias
que não segunda-feira
de pé quatro e vinte e cinco da manhã
em cozinha a demandar reparos de eletricidade
e encanamento inaugurando a língua com fervor
e doçura de cafeína preparada então para
desvirginar o primeiro metrô do dia
num vagão só para mulheres ferozes
de cansaço já nas primeiras horas matutinas.
E a pavuna me receberá resplandecente, no cheiro
de fritura e creolina em desajuste
com o volume e o fulgor das frutas
irrompendo o mundo para apaziguar
as dores órfãs e domésticas dos meus pés
irreparáveis e contínuos para asfalto e infantaria.
Voltar significava acúmulo, pétala soltando
a condição de rio em nome de uma voz alterada
grave e enorme como a poeira de quem aguarda
transporte alternativo na linha do trem nos centros
das cidades da baixada. E se volto à condição de
aprender, é grande o impedimento de falar para um
homem e para a disputa cruel das crianças: posso dar
o peito do poema a elas e esperar que sejam
nutridas pela falsidade insustentável de outros
desconfortos, mas que tragam a mim os alfinetes
das insígnias que forjarão a narrativa de suas
dramáticas tragédias encenadas no dispositivo
insólito do que é real. Era um sonho saber
o que fazer disso,
saber como cruzar histórias díspares e iguais
sem corromper o medo ou sobrepujar a ética
mas parece que ultimamente pouco
importa
o quanto sabotamos as próprias guerras
e o que fazemos solitários depois da
trigésima gestação de risco. porque os
pais chegam abruptos e também eu
assino termos de condenação e julgamento
prometendo, no que resta para o mundo,
não mais interceder no que é humano e
esquecer por definitivo os desdobramentos
dos rios das palavras e do amor sobre a terra.

6 comentários:

Maria disse...

UM HOMEM E A REALIDADE

Certamente já vivi uma vida de alegria contigo
homem compacto
deliberadamente estabelecido em aparências(...)
incitado porém reafirmado-(...)-,
certamente já vivi uma vida de alegria contigo.

Passos largos
rápidos
olhar firme
se transforma em moldura
com detalhes minuciosos

Modelo singular
sem qualquer risco
Sem demonstrar nenhuma vontade de indultar-me
ou a si mesmo(...)
Vai embora sem nenhuma citação
Sem saber se possui o bem da terra
movimentos juntados em seu corpo
são filtrados em si mesmo
em linhas silenciosas...sem sentimentos
reais.

Eliana Mara Chiossi disse...

Diários:

conheci agora e queria ter conhecido antes. Adorei a proposta. Vou seguir e indicar para alunos de oficinas de leitura e produção de textos.
Adorei!

Adriana disse...

Um tratado espetacular sobre o cruel cotidiano de muitos que exercem esse ofício, que esbanja poesia, incomoda lá no fundo e toca a alma. Belo poema. Beijo.

Compulsão Diária disse...

Magnífico nas imagens e sonoridade de um poema que atira na cara o cotidiano cruel. A verdade dos dias.
Tatiana, meus parabéis pela excelente contribuição. Um dos mais belos textos que li aqui e além.

Joe_Brazuca disse...

Neste rio não se afoga, se nada, à braçadas...
se nada ou tudo, se navega...

o dia termina e é bom...

um beijo

Barone disse...

Tatiana, só hoje li seu poema. Forte, contundente, urbano, real. Adorei.