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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

lavoisier





a natureza me diz
[em sua mudez]
:
mude

ao modo do vento
à maneira das marés
valse
enlace as manias
das mutantes
nuvens

o instinto fala
[à minha miudez]
que toda hora
tem sua aura
toda espera tra[i]rá o agora
que a natureza até  transforma

e este amor
por ti, meu bem
é  lei maior
e não se t[r]oca


valéria tarelho


*imagem: página de título do primeiro volume do Traité de Chimie Élémentaire, 
por A L Lavoisier

segunda-feira, 14 de maio de 2012

babel

ilustração de Jan Limpens


o the end foi reticente
saiu à francesa
falando grego
típico discurso
para inglês ver

foi russo
e sem intérprete

pé na bunda gringo
nem com tecla sap
google translate
psicanálise

traduzo


valéria tarelho

sábado, 14 de abril de 2012

dos contatos


não bato papo
trato com tato
falo a língua
viva que vibra

da boca
na boca [que há borda]
do olho
no olho [que há fundo]

toco vida e verso
no gesto quase
no mezzo jeito:
sopro e sulco

- suave soo
vinco intenso -

pretendo
perto [que há visto]
viso
dentro [que há tento]

do resto raso
despeço-
me te

se

a tempo


valéria tarelho

quarta-feira, 14 de março de 2012

nirvana


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

intuição



rosa não
nem pássaro
mas ousei jardins
alcei voos

sua não
mas sei
seu rocio
e céu


valéria tarelho

* poema “provocado” após leitura deste abaixo, de Emily Dickinson

No Rose, yet felt myself a’bloom,
No Bird – yet rode in Ether -

*ilustração de Penelope Dullaghan


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

empírico



te toma de
assalto. rouba
teu íntimo. sopra
no início. suga
no último
ato.

tem um quê de
fome. é fúria.
regojizo.

te faz carícias.
inflama. é artifício
da alma
humana.

é divino. abstrato.
e vês. acolhes
nos braços.

é amor. te
mata
de.


valéria tarelho

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

couvert

[com introdução do meu poema "arte sã"]

letra: Valéria Tarelho
música: Marcos de Assis [ao violão]
interpretação: Denise Dalmacchio



couvert 


puxe pelos
cabelos
todo verso
que ofereço

encoste as
verdades [nuas]
de costas
contra a parede

jogue no chão
os apelos
unhe o azedume
morda os medos
até que o poema uive

e caia 
venha entre
chegue junto

e depois quem sabe até possamos
civilizadamente
jantar juntos



valéria tarelho

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

um dia de cada vez


viver dói, dear
dá náusea
dor de barriga
sangra
faz ferida

viver - essa úlcera -
não cicatriza

viver
é uma febre
por dia
virose após virose
epidemia

viver - essa doença -
contagia

viver alucina
viver é dose
viver consome
viver leva à morte

viver - essa narcose -
vicia

só por hoje, vida
[sobre]
viva


valéria tarelho

quinta-feira, 14 de julho de 2011

à unha

 via Google imagens


uma dose
de minúcia
: cisco asterisco pulga

coisa mínima
que [no mínimo]
coce a vista
belisque a língua
atice o tímpano

: preciso

                                             poema
                                             sem cílios postiços
                                             sem mamão com açúcar
                                             que salte sugue sangre
                                             soe sem ruído

                                             : persigo


valéria tarelho

sábado, 14 de maio de 2011

poema em desalinho

ilustração de Gabriela Andrade com trecho do Poema em Linha Reta, de Álvaro de Campos


ser de torcer o nariz
sem temer a sorte
e sua foice

ser acinte
ser açoite

ser um demônio
o anjo em si
sem temor ao fogo
e sua fonte

ser afronta
ser o front

ser a faca da palavra
fincada à fala flácida
sem render-se ao jugo
e a farsa da jogada

ser o saque
ser o sangue

[soco que lambe]

em suma ser
alguma teima
que não tema

ser poema


valéria tarelho

quinta-feira, 14 de abril de 2011

interlúdio

Madrugada Interdita I

há uma
loba lua
de língua lábil
a lamber
libido-lembranças
no lóbulo
do olvido

há uma
felina dúvida
que arranha
uma ursa sina
que abocanha
uma víbora sanha
assaz
tirana

duvido do bis
do vis-à-vis
da lábia vez
(au
daz)
que ainda uiva
idas luas
insinua
íntimas unhas
crava nu[n]cas
inocula
sua peçonha

façanhas
de um céu insone
sobre insignes
arranha-cios


valéria tarelho
out/2010

* imagem: Madrugada Interdita , de Carlos Botelho

segunda-feira, 14 de março de 2011

são as mágoas de março

imagem via meme.yahoo.com/explore


são as mágoas de março
[ou qualquer fossa assim]


eu te chamo
de sol a cio
tu me evitas
luas a f[r]io

recordo o início
quando tu
eras apenas [pó]
promessa
de tempo bom

- aguou -

chove a cântaros
desde então

[ é pau pedra fim caminho
esto oco ouco inho
aco idro ida ol
oite orte
aço anzol
- só
para não sair
do tom ]



valéria tarelho
em Escritoras Suicidas - ed. 39

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

ficar com certeza maluco beleza



pouco importa
se amor é porto
ou precipício
       
amar é parto 
de certo risco
inferno dentro
do paraíso

fomos feitos
para isso
:
um pé no spa
outro no hospício


valéria tarelho


*imagem daqui

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

a seda azul do papel que envolve a maçã

"E aquela num tom de azul
Quase inexistente, azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar"


pintura: Beneath the Sargasso Sea - Henry Powers




topázio esse seu olho pedra úmida. lápis-lazúli. safira. água-marinha. impreciso humor de gemas. ímã que me suga via íris.  
sonho oceanos. voo céus. viajo bocas. anos-luz em sua busca. 
rastejo por um beijo que tivesse um blue. serpenteio anis delicadezas.
velvet. organza. voal. papel de seda. um toque tafetá. turquesa.
wide sargasso sea. deseo piscina. sede hortência.
à ana c : ceda.
sangre azul.


valéria tarelho

* os trechos um beijo que tivesse um blue e wide sargasso sea foram retirados de poemas de ana cristina cesar, do livro 'a teus pés'.
** impreciso humor de gemas - os olhos de meu pai, que eram, ora azultodosostons, ora verde-água, conforme o humor.
*** deseo : o perfume do texto.
**** título a la caetano.

"E o céu de um azul
Celeste celestial"

Caetano - Trem das Cores

domingo, 14 de novembro de 2010

das iminências

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

para as eternas crianças


clique na imagem para ampliá-la

Dona Joaninha e Dona Baratinha


A casa da Joaninha
fica bem vizinha à minha.
Vou lhe fazer uma visita
porque moramos bem pertinho.

Toc, toc, toc
(Bato à porta
porque não tem campainha).

"— Aqui é sua vizinha
Dona Baratinha,
vim fazer suas unhas!"
Ela responde enfadonha:
"— Pode entrar, estou no banho!
Falta secar minhas asinhas!
Espere só um minutinho."

"— Não tenha pressa - eu replico -
vou esperar na cozinha
que é meu local preferido."

E fiquei ali sozinha,
comendo um pedaço de sonho
e assistindo desenho.

Acabou me dando um soniiiinhooozzzzzzzzzzzzzzzzz


valéria tarelho - poesia infantil

*em Caderno de Apoio de Língua Portuguesa, vol. 2, 4º ano do Ensino Fundamental, produzido pela Fundação Padre Anchieta e Prefeitura de São Paulo.



terça-feira, 14 de setembro de 2010

ave, césar


Google imagens


[a ana c., ave]
valéria tarelho

1

sopro



ana c
tem sido (sombra)
constante
especialmente aos domingos
(cansativos, so boring)
em que ele dorme
(numa nice)
e cultivo
o eu insone
que consome livros
traça poesia
rói o osso
insosso do ócio
após a ceia
rica em mal passadas
vísceras
como só ana (sui
generis)
sabe cozer
:
loucura crua
doída lucidez

[e eu talvez
possua
:
pulso ou
pane pare_
cid(i)o]


2

a teus pés


aos domingos
sinto vontade
de jogar
ócio para o alto
e assistir caindo
— veloz
via remoto
[des]controle —
até tocar o solo

[ouço até o baque seco
do contato com o asfalto
vibro ao sangue
da não vida se esvaindo]

neste domingo
foi diferente: tive sede
gana de deixar tudo aí
no limbo tv
no lodo net
e simplesmente saltar
— saturado satélite —
do último andar
de um livro de ana c.

[livre
assim como ela:
ave]


3

azo

o pássaro
pousa
passivo
na pauta
do poente
pausa
em compasso
de espera
passa tempo
tempo passa
pensa
pondera
ousa
e abre
as asas
rumo
ao sol
no fim
do túnel


4

"os gêneros da poesia são: lírico, satírico, didático, épico, ligeiro"
[ana cristina césar]



ana célere

fez
do fim
da linha
poesia

[gênero ligeiro]

rimou
um pulo
com
epílogo

pingo
nos ii
em fim

sábado, 14 de agosto de 2010

sem açúcar e não calóricos



sem eira, nem beira:
de bobeira, cheia de dúvida,
aguardo a segunda-feira.

à frente, um magro (can)sábado,
seguido de um domingo pálido,
minguado de prosa & poesia.

dias lights,
de pausas diets,
fartos
de zero causas.




valéria tarelho
* poema do baú

** foto de arquivo pessoal

quarta-feira, 14 de julho de 2010

há sombra


Google imagens


alvoreço
anoiteço
"zumbizo"
:
nenhuma surpresa
me pega
de improviso

nenhum palpite
atinge o poente
no hiato da noite
nenhuma ponte

inexiste horizonte
plano crástino
destino sísmico

não há
mísero efeito
mínima causa
o menor movimento

no ar
[noir]
nenhum porvir
excêntrico

nenhum mistério
me leva a sério
[affonso]
a ponto de aprontar
assombros


valéria tarelho
(à sombra dos Assombros de Affonso Romano de Sant'Anna )


Assombros

Affonso Romano de Sant'Anna


Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

neologismo

[valéria tarelho]

Google imagens

I

humpty dumpty

[p]ovo
pólvora
palavra
:
não fui eu
que descobri
a fórmula

mas invento 'palólvoras'
explosivas

elixir da vida
nova arma


II


misturo línguas
confundo foda com romance
crio uma história
com fada família pets

[e o patético final clichê:
foram felizes para sempre
sorrindo no portrait]

se ele não liga não procura
some da galáxia evapora
transformo o fora em fúria

o poema empunha
- feito foice -
a bandeira das palavras
"que traduzem a ternura mais funda"

obtenho, por exemplo
'metamorfoda-se'

indicativo
meu amor

metalinguístico