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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Leitmotiv



¿que fazer com tão vasto dicionário
– repleto de palavras duras
– de ódio –
dessas que insuflam catástrofes
colocam matrimônios por terra
azedam festas de fim de ano

¿que fazer desses socos
– possivelmente letais –
– & nunca postos em prática –
aprendidos na adolescência
com os filmes do Bruce Lee
com o quebra-pau na porta dos puteiros

(tanto ódio guardado
& ninguém digno de merecê-lo)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

sábado, 24 de novembro de 2012

1 – Criogenia



b) Ötzi, o Homem do Gelo 

Resta o corpo imolado
guardado nas entranhas
dos Alpes Ötzal                                 

Oferecido em hecatombe
a montanha –
que tem os seus caprichos –
guarda intacta a oferenda

A dieta de raízes
& os ossos de um mamífero               [Ochotonidæ] 
revelam seu cardápio final

O imenso freezer preservando
as tatuagens, a cor dos olhos             [primeira cor na escala de Martin Schultz]
a artrite                                                 [Borreliose de Lyme]

para que o Aquecimento Global
ou um alpinista o resgate
– Lázaro –                                [אלעזר]
de volta à luz dos holofotes



* do livro Elefante - editora Anfisbema, 2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Poema # 5


domingo, 24 de junho de 2012

Inventário de um rio # 2

1
Aquele havia sido o meu Eufrates.
Ainda que inexpressivo
– sequer constava no mapa –
não teria havido nada sem ele

(a água era tão pouca
e de tão má qualidade
– pombos sedentos agonizavam
às suas margens –
que nada sobrevivia em seu bojo
[além de vermes aquáticos
e caramujos da esquistossomose])

Aquele havia sido o meu Aqueronte.
Quando corria –
quase sempre estava engasgado
com o cadáver de cão –
conduzia a inframundos
governados por Hades

(pouca era a sua água
e de tão má qualidade –
espessa como a baba de um condenado –
que ela se mostrava incapaz de refletir o céu
[senão simulá-lo
com um azul de olho vazado])

2
Aquele que havia sido o meu rio
se arrasta por galerias de concreto
– como um fantasma do Lete –
roendo pacientemente os pilares da cidade

quinta-feira, 24 de maio de 2012

memóriasàbeiradeumestopimmemóriasà


um estopim                                                {meu verso}

memórias à beira de um estopim,
ou de como vivemos de negações para colher afirmativas

                                  {como uma mão aberta esperando
      um cumprimento que não vem}

memórias à guisa de um motim,
ou de como o fato de existirmos anula a existência de Deus

memórias à beira de um estopim,
ou de como a lágrima que não derramei
 pelas torres gêmeas são verdadeiras

memórias à beira de mim mesmo,
ou de como, em mim mesmo,
sou memórias e fatos – sou concreto e acontecimentos

    {como uma boca aberta
                                      esperando um beijo que não vem}

memórias à guisa de um motim,
ou o motim em torno de minhas memórias?
        :         expludo?

estopim à beira de minhas memórias,
ou de como o pavio descansa em minhas mãos
– e o fogo em tuas
:     explodimos?                                   !

                                   {como uma trincheira aberta
                                 esperando a granada que vem}
memórias a

domingo, 25 de março de 2012

Elegia

Briton Revière  (1840 – 1920)  - Daniel na Cova dos Leões

De fato, sua morte não
nos livra de nossa própria morte.

Antes,
nos mostra outras formas de morrer –
comum em todos os lugares
onde há rios de gordura
& grandes nuvens de açúcar

(como se sua morte – e toda a
burocracia em torno de seu corpo –
suspendesse a morte que trazemos conosco)

De fato, sua morte não
nos salva de nossa própria morte.

Antes,
nos mostra como iremos morrer –
verdade apontada
em pequenos sinais diários
& centenas de páginas de hemogramas

(como se sua morte – e todas as
obrigações em torno de seu corpo –
impedisse o andamento da nossa)

*

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Herança

foto: Rafael Nolli: http://www.facebook.com/pages/L-Rafael-Nolli/158326134260842
                
Não sei se vou dizer
em que caminha a esperança no fruto
                                    ainda na semente,
 
ou se digo
– se devo dizer
algo sobre a certeza nas coisas quadradas
que se alongam até arredondarem-se.
 
Não sei se falo
aindavoz
de equações químicas que se resolvem em silêncio,
                               nos livros que nunca caducam,
 
ou se conjeturo
a luta que enfrentaram os que, antes de nós,
domesticaram os grãos a nascerem
próximo ao apelo da mão.
 
Não sei se retrato a terra sitiada
de onde escapou o musgo
            que cobre as pedras
            como uma pelagem de inverno,
ou se explico
resta um filete de canto
os vislumbres de um futuro próximo
onde ainda se morre como em
             Comerciais de Metralhadora.
 
Não sei se devo
ou se me permitem –
relatar as dificuldades dos homens nas fornalhas,
derretendo o minério que irá virar bibelô de madame
  ou maçaneta de táxi, e conto,
de mãos postas, a sua dieta fria, isenta de calorias
 
não sei se romantizo
os vagabundos noturnos que chamo pelo nome
ou se narro as noites em que sonho com a Poesia
 – a inevitável
                         e acordo de pau duro.
 
Não sei se confirmo
– se é lúcido confirmar
as verdades
sobre a ternura dos ditadores para com suas esposas
                                                                  & amigos;
o carinho dos carrascos
 & torturadores dispensados aos seus filhos
    & amantes,

ou se, simplesmente, me calo.
 
Não sei,
talvez o poeta esteja mudo
diante dos outdoors do apocalipse.

 

 do livro comerciais de metralhadora

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Trecho do romance "um dia desses"

29    
            Permiti minha vida às ruas da cidade. Febre avassaladora movendo minha percepção pelo sombrio corredor humano: dínamo diabólico nos sugando para as polaridades obscuras do nada; Caronte, imenso imã escondido debaixo das montanhas ao norte do paraíso, ou de qualquer coisa impossível, nos atraindo como pequenos parafusos – as moedas sobre nossos olhos, os marcapassos, o ferro em nossas veias, nossos pensamentos de chumbo sobre a morte debaixo dos pneus dos carros ou da vida voando e cagando estanho derretido sobre nossas cabeças.
            O corpo fechado, incapaz de conter o halo de ira que escapa pelos poros, ilumina o dia, se confunde com o néon das fachadas das lojas, se mistura aos faróis dos ônibus e se perde entre o clarão do fósforo riscado. 
            Permiti minha vida à correnteza de carne humana escorrendo pelas vias da cidade: as idéias coletivas sobre qualquer coisa dispensável se misturando num único cardume que é devorado mais adiante, para renascer novamente após a travessia da rua. Alguém que chora passa despercebido, ainda que destoando da desarmônica orquestra magistral. Penso: “era o que todos estariam fazendo se os sapatos não ditassem o ritmo frenético da metrópole e as pernas insistissem em devorar o caminho”.
            Sobre minha cabeça, reclames do tráfego se mesclam aos sinais invisíveis dos celulares, às ondas do rádio e da tv, que se unem antes de comunicar aos homens a necessidade da pressa e do temor.
            Mais tarde não haverá mais minha vida, porém a cidade prossegue. Ergo o controle-remoto e mudo de canal.






* Caros amigos, o romance está prontinho, aguardando uma boa oportunidade para aparecer...  Abraços!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O mesmo título de um poema de Konstantinos Kaváfis

(e um plágio confesso, evidentemente)
Behemoth e Leviathan - tela de William Blake
 Vencidas as montanhas
eles rumam à cidade.

Quilômetros a serem devorados
e o ar já se torna irrespirável –
um bafo antediluviano
lambendo a pele do campo.

A caminho, calcinando a paisagem,
vão comendo a pata dos cavalos –
mera ilusão para a fome que carregam
sobre o lombo de animais elétricos.

Vencidas as montanhas
eles rumam à cidade.

Distâncias a serem consumidas
e o chão já se comporta mal –
a terra, cortada pela frieira,
expõe a carne de raízes retorcidas.

Em seus rastros, rios nauseados
vomitam sobre o próprio corpo –
peixes abortados à flor da água
oferecem as entranhas às moscas.

Vencidas as montanhas
eles rumam à cidade.

2
E não merecemos nada
além de sermos assassinados.




*do livro Comerciais de Metralhadora

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Evocação inútil

Foto: John Sexton


Ó menino que fui
dono de uma infância sabor novalgina
sofrendo delírios por doses excessivas
de xarope para o pigarro e a tosse! –
infantil viagem sob o sol
                        dos trópicos, onde te perdi?

Ó fotocópia do pai
imprudente criatura
amassando com o calo dos pés
os caramujos da esquistossomose:
educado naturalmente por um brejo
povoado por destemidos vermes
que vida era aquela
onde a felicidade se escondia
no pequeno peixe que resistia
                em meio às fezes e ao detergente
                expelidos pelos intestinos da civilização?

Ó minúsculo sonhador
que escapou do coice de cavalos humanizados
pelas placas de trânsito
            e a convivência com as rádios AM –
que motivo havia para se ser feliz
nas axilas daquela cidade
que produzia mangas
           e goiabas melhores do que homens?

Ó incansável infante
que o tempo mastigou com tuas engrenagens
até torná-lo meu antepassado
te procuro tremendo de medo
                     das guerras televisionadas
                                  em horário nobre;
dos vazamentos radioativos
discutidos nas mesas de bar

que estupidez geográfica te levava
a crer que a tua casa seria o próximo alvo?

Ó ignorante de si mesmo
te procuro mijando sobre as flores do jardim
num dia esquecido por todos
por não haver algo de novo nele –
que risos você riu nessas tardes
por nada que valesse a pena
                                     ou merecesse apreço?

Ó curioso moleque
interessado na decomposição dos ratos
na fratura exposta, no fogo nas petroquímicas
me encontro em ti
no olhar     no passo     na voz

e retorno em seguida
            para a merda da vida que será tua. 



* do livro comerciais de metralhadora

sábado, 24 de setembro de 2011

2 [curriculum vitae]

Acaso tivessem nascido no Camboja
sobre a égide do Khmer Vermelho
teriam herdado terra & poder

Eram porcamente alfabetizados –
o pouco que sabiam, o sabiam mal,
exceto o tempero da dor e seus requintes

A eles restavam os prazeres gratuitos:
incendiar um supermercado e,
aos chutes, por fim à vida de um cão

Enquanto suas mães – em segredo –
lastimavam o dom da maternidade
e maldiziam o fruto do próprio ventre




para ouvir: