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| Foto: John Sexton |
Ó menino que fui
dono de uma infância sabor novalgina
sofrendo delírios por doses excessivas
de xarope para o pigarro e a tosse! –
infantil viagem sob o sol
dos trópicos, onde te perdi?
Ó fotocópia do pai
imprudente criatura
amassando com o calo dos pés
os caramujos da esquistossomose:
educado naturalmente por um brejo
povoado por destemidos vermes –
que vida era aquela
onde a felicidade se escondia
no pequeno peixe que resistia
em meio às fezes e ao detergente
expelidos pelos intestinos da civilização?
Ó minúsculo sonhador
que escapou do coice de cavalos humanizados
pelas placas de trânsito
e a convivência com as rádios AM –
que motivo havia para se ser feliz
nas axilas daquela cidade
que produzia mangas
e goiabas melhores do que homens?
Ó incansável infante
que o tempo mastigou com tuas engrenagens
até torná-lo meu antepassado
te procuro tremendo de medo
das guerras televisionadas
em horário nobre;
dos vazamentos radioativos
discutidos nas mesas de bar –
que estupidez geográfica te levava
a crer que a tua casa seria o próximo alvo?
Ó ignorante de si mesmo
te procuro mijando sobre as flores do jardim
num dia esquecido por todos
por não haver algo de novo nele –
que risos você riu nessas tardes
por nada que valesse a pena
ou merecesse apreço?
Ó curioso moleque
interessado na decomposição dos ratos
na fratura exposta, no fogo nas petroquímicas –
me encontro em ti
no olhar no passo na voz
e retorno em seguida
para a merda da vida que será tua.
* do livro comerciais de metralhadora