sábado, 25 de março de 2017

A mulher começou a fumar


1
a mulher começou a fumar
não havia nenhum fumante na família
ocorrendo certo desconforto
– desde sempre, pelo que se lembrava –
quando fumavam perto dela

o turno na noite
– em um estacionamento de shopping –
convidava à solidão

às vezes
no descanso do lar, ocorria de ouvir
o som dos pneus, riscando o chão
quando manobravam antes da rampa

2
se lembrava da mãe comentar
– com uma ponta de ironia –
que se não estudasse acabaria secretária
fato que lhe parecia
– no momento
– convenhamos! –
melhor do que aquilo

o pai amenizava
contava nos dedos os diplomados
– só no seu lado da família –
que terminaram assim:
“muito trampo / pouca grana”

uma tia
– um tanto distante na genealogia –
– ele frisava –
tinha devorado os livros
e terminara em um caixa de supermercado
“contando o dinheiro dos outros”

3
certa noite
pegou um guimba no chão
– perto de onde os carros manobravam –
e deu o primeiro trago

não havia um único fumante na família
ela pensava entre um &
    outro trago



sábado, 25 de fevereiro de 2017

Elegia nº 2

1. Quando a indesejável das gentes chegar

o que estiver em andamento findará
& não haverá mãos que o resgate:

o pão com manteiga sobre a mesa
(mordido uma única vez)

a reforma do telhado
(antes da temporada das chuvas)

o poema derradeiro
(abortado na última estrofe –

restando apenas – talvez –
o ponto final)

2
pequenas coisas, de uma banalidade ímpar
exigindo algum engenho & muita paciência:

encontrar o carro estacionado em local ignorado
(em alguma rua nas proximidades –
não mais que dezenas delas em dois quarteirões)

“alguém precisa ir alimentar o gato
& dar de beber às samambaias –
sabe-se aonde guardava as chaves de casa?”

quitar uma pequena dívida no mercadinho
(duas maçãs, uma garrafa de mel, cachaça –
“não há nota”, diz o cobrador meio encabulado)

3
o morto não se enterra sozinho
havendo em torno diversos encargos:

alguém que pague tudo (caixão,
carneiro, lápide)
& seja justo no rateio entre os familiares –
“a cada um segundo as suas possibilidades”

cabendo a outrem a inglória parte
– quem há de fazê-lo sem se lastimar? –
de ligar para a mãe
(aquela que o carregou por 9 meses)
que antes de se desesperar
encontrará forças
para ligar na manicure
& desmarcar o horário



sábado, 18 de fevereiro de 2017

A noite do Rato


1
quando ela avistou o rato cruzando a cozinha
– de um extremo ao outro –
 o pavor que se instalou foi irracional

se se tratasse de um ladrão
o desespero não seria tão grande
talvez tentasse argumentar
dizer: as joias estão na cômoda!
ou pedir clemência: piedade, tenho um filho!

com o rato, não:
não havia diálogo

2
toda a esperança estava ali:
uma ratoeira – comprada às pressas –
armada na varanda
por onde o animal escorreu
passando debaixo
– vão minúsculo – da porta

naquela altura
já não havia para onde ir
nem pra quem pedir ajuda

a noite seria longa e insone
assim como a noite do rato
farejando e varrendo a escuridão
incansável em seu propósito

3
não convém relatar – haveria palavras? –
a reação da mulher, logo pela manhã
ao encontrar um pobre pardal
antes alegre sobre o muro
– isso ela não viu –
debruçado sobre a ratoeira
degolado



quarta-feira, 16 de março de 2016

Pas de deux


A bailarina, desiludida, apertou o corpete novo, escolheu o mais belo tutu, vestiu a meia, prendeu o cabelo num coque apertado, se maquiou, colocou a sapatilha de ponta, deu um laço em cada fita, passou a corda no pescoço e deu sua última pirueta pendurada no ventilador de teto - a pirueta mais longa de toda sua carreira. 


Isaac Ruy

domingo, 24 de janeiro de 2016

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Paraíso

Paraíso. Colagem Rafael Nolli


1
muito além das plantações de agrotóxicos
esquecido depois da derradeira ponte

do último homem que por ali passou
não resta o menor vestígio

o que ele viu – há tantos anos atrás –
é o mesmo que um satélite vê agora
da imensidão do espaço sideral

nenhum dos dois sequer suspeitou


2
onde hoje a árvore produz sombra
o prédio da prefeitura se erguerá

o rio prateado pelo sol
escorrerá
sinistro & pesado
dentro de uma galeria

pouco depois da colina
um sinal de trânsito determinará o fluxo
para o que agora é só vale e vento

3
sobre esse chão as pessoas
conhecerão fome e sede
e lutarão até as últimas forças

onde hoje prospera a grama miúda
a estátua de um boçal apontará o dedo
para a imensidão do espaço sideral


15/08/15



terça-feira, 24 de novembro de 2015

Comèdia

I - Inferno


Nenhuma pista ou clareira
para tentar a aterrissagem
ademais
o trem de pouso emperrado

Retornar ao lar
– oh estações oh castelos! –
e ninguém ter dado pela sua falta


II - Purgatório

A TV ligada para ninguém
– em consultórios ortopédicos –
o cheiro do tédio das atendentes
& o clamor dos telefones

A fila de mulheres pensativas
– nos pronto-socorros –
as crianças tossindo em seus colos
o senhor debruçado sobre as rugas

A ante-sala dos CTI’s
as antecâmaras das policlínicas
os  azulejos brancos,
o ventilador de teto
– nas salas de espera dos centros de radiologia –

e nos demais lugares onde a morte fareja


III - Paraíso


Praticamente nada a fazer senão para o pobre agente do Centro de Controle de Pragas. A nuvem de veneno borrifada sobre as macieiras rouba o brilho das asas dos anjos e embaça o aço de suas espadas. De manhã, o batalhão de arcanjos em ordem unida, treinando para a possível batalha. E é sempre manhã, aonde quer que se vá. Longa manhã de profunda ressaca. Os que leram estão de acordo, é o mesmo paraíso descrito por Dante. Um saco! 

sábado, 24 de outubro de 2015

Um casal se apaixona no banco da praça



1
o casal no banco da praça
até então em encontros casuais
viria a descobrir naquele dia
que a noite
que existe desde tempos imemoriais
fora criada exclusivamente para eles

a mesma noite desde sempre
sendo aperfeiçoada aos poucos
através das eras geológicas
sendo organizada com cautela
para de repente chegar em seu auge

depois daquele dia, tudo ruiria,
e as estrelas começariam a se apagar
uma a uma, até não restar mais nada

2
o casal no banco da praça
viria a descobrir de repente
que a noite que os cobria
vinha sendo, unicamente
para eles, aperfeiçoada

a mesma noite que iluminou os oceanos vazios
a mesma sobre animais já extintos

a mesma noite que
anos a fio
levou os primeiros dos nossos
– imperfeitos, ainda com rabos –
a se abrigarem em cavernas
a passarem horas de medo
sobre os galhos das árvores

3
depois de cumprida a sua tarefa
– iluminar um casal no banco da praça –

a noite iniciava o seu declínio

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Múltipla, de Flá Perez


domingo, 2 de agosto de 2015

MENSAGEIRO DO VENTO



Veio na 
varanda um 
vento no rosto 
quase velho
quase novo
nesta noite 
quase primavera 
de um quase
inverno ameno
quase frio
quase sereno.


Veio na
varanda um
vento que
trouxe seu
cheiro quase 
ambrosia 
quase agridoce 
quase droga
que me entorpece
que me agita
e me sufoca.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

O vendedor de algodão doce

o vendedor de algodão doce
se anunciava com um apito

senhor de diversas cáries
distribuía nuvem cristalizada
tingida de azul ou rosa

aceitava cascos de cerveja
que guardava em um saco de batatas

quando passava por uma criança
que não atendia ao seu apito
ou simplesmente não se interessava
saía resmungando

curvado sob o peso do fardo



25/01/2015

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Lugar, território, paisagem



1
menina com flor no cabelo
parada na calçada
aguardando para atravessar
levanta o corpo na ponta dos pés
sobre uma sandália vermelha
(a batata das pernas enrijecida)
para ver sobre os carros
o outro lado da via

2
ao cruzar a rua
passa por tantas outras meninas
nenhuma que lhe devolva o olhar
ou congregue de sua alegria

quando alcança o outro lado
a trégua com os carros se rompe
e a rua é novamente inundada
pela feroz matilha

3
não vai se lembrar
de nenhum dos dois lados
ou do que viu entre eles
(ao olhar sobre os carros)
quando chegar a hora
de contar a sua jornada


21/01/2015


do livro Poemas é um péssimo título

domingo, 24 de maio de 2015

Martelo, Gelado, Cinzel


Para Heleno Álvares
1
tomemos por exemplo um arqueólogo
que descobre uma cidade submersa
& em um infindável número de equívocos
interpreta tudo errado
& cria uma nova civilização

ou, percebendo as possibilidades do erro
refaz o mundo descoberto
para a glória de outros visitantes,
perplexos
perdidos entre as ruínas e o poema

2 (poesia = arqueologia)

cabe ao poeta descobrir a palavra
que passa rolando pelas cavernas do tempo
saber colhê-las entre detritos
– talvez o que há de melhor nelas –
ir aonde descansam
& instaurar o caos

3
fora isso
o poeta não passa do dono da festa
chapado de ponche
que desliga o som e manda todo mundo embora

ou o dono da bola
que acaba com o jogo ao ser driblado
ou mandado para o banco

fora isso
o poeta só arranha a superfície

descobre uma cidade submersa & grita
do alto de sua glória (ou burrice):
“é uma cidade submersa!”



20/01/2014


do livro Poemas é um péssimo título

sexta-feira, 24 de abril de 2015

23 h 56 min e 4,09 seg


para Érico Baymma
1
dias ruins
por coisas pequenas
quase-nada
pingo no i na letra errada
tropeço no cadarço desamarrado

dias ruins
por grandes problemas
estouro de boiada
um caminhão entalado bloqueando a paisagem
azia no banqueta das musas

dias ruins
por bobagens corriqueiras
coisas banais
azar no jogo
– dardo, RPG, carta –
ter que repetir a frase
(quando não se disse nada)

2
dias bons
por coisas pequenas
ou por nada
um sorriso (alado)
um pássaro pousado no retrovisor do carro

(ou por qualquer coisa fugaz rápida
como a queda de um meteorito
o bote de uma naja)

dias bons
por coisas grandiosas
que tomaram tempo
& cansaram o espelho
que consumiram a tinta do calendário

dias bons
por coisas improváveis inesperadas imprevistas:
encontrar um novo amor
ao pegar o caminho errado

(ficar perdido
até ter que mudar de casa)




do livro Poemas é um péssimo título

terça-feira, 24 de março de 2015

Cidade dos sonhos


Antes do amanhecer
estarão tomando a praça central.

A imensa cavalaria
sedenta pelos jardins,

arqueiros posicionados
no alto das colinas,

a infantaria
dinamitando as pontes.

Pé ante pé, rua a rua,
as posições sendo tomadas.

No entanto,
antes que declarem o seu triunfo,

um golpe decisivo dissolve o inimigo.
Abro os olhos: acordar basta.

2
Um dia a guerra estará perdida
e o povo daquela cidade,
que só existe em meus sonhos,
ficará entregue a própria sorte.

Um dia, quando eu não acordar mais,
a cidade se extinguirá
com todos que por lá transitam,
ou eles migrarão para outros sonhos?

Quem sabe, enfim,
esse seja o dia em que terei que defendê-la
de corpo presente, com as próprias mãos...

3

Saberei eu no sonho de quem?



do livro Poemas é um péssimo título

segunda-feira, 2 de março de 2015

SIDERALIDADES

        
                 (Matinê)

Vem do céu de novo o meu espanto,
não somente pelo seu furta-cor
desse sol contra as nuvens em branco
− agora rochas de tons de marrons
de toda a sorte, claros ou âmbares,
ocres ou quase amarelos fortes.
Tem nome tamanha exuberância
desde o meu sul até o meu norte?
Desce pela tarde um raro cinza
suave que derrama seu clamor
para que este amor, quase morno,
vire verso. E mire poesia.
E quantas cores sem nome eu vejo
no céu do poema que eu desejo.