terça-feira, 20 de outubro de 2015

Múltipla, de Flá Perez


domingo, 2 de agosto de 2015

MENSAGEIRO DO VENTO



Veio na 
varanda um 
vento no rosto 
quase velho
quase novo
nesta noite 
quase primavera 
de um quase
inverno ameno
quase frio
quase sereno.


Veio na
varanda um
vento que
trouxe seu
cheiro quase 
ambrosia 
quase agridoce 
quase droga
que me entorpece
que me agita
e me sufoca.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

O vendedor de algodão doce

o vendedor de algodão doce
se anunciava com um apito

senhor de diversas cáries
distribuía nuvem cristalizada
tingida de azul ou rosa

aceitava cascos de cerveja
que guardava em um saco de batatas

quando passava por uma criança
que não atendia ao seu apito
ou simplesmente não se interessava
saía resmungando

curvado sob o peso do fardo



25/01/2015

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Lugar, território, paisagem



1
menina com flor no cabelo
parada na calçada
aguardando para atravessar
levanta o corpo na ponta dos pés
sobre uma sandália vermelha
(a batata das pernas enrijecida)
para ver sobre os carros
o outro lado da via

2
ao cruzar a rua
passa por tantas outras meninas
nenhuma que lhe devolva o olhar
ou congregue de sua alegria

quando alcança o outro lado
a trégua com os carros se rompe
e a rua é novamente inundada
pela feroz matilha

3
não vai se lembrar
de nenhum dos dois lados
ou do que viu entre eles
(ao olhar sobre os carros)
quando chegar a hora
de contar a sua jornada


21/01/2015


do livro Poemas é um péssimo título

domingo, 24 de maio de 2015

Martelo, Gelado, Cinzel


Para Heleno Álvares
1
tomemos por exemplo um arqueólogo
que descobre uma cidade submersa
& em um infindável número de equívocos
interpreta tudo errado
& cria uma nova civilização

ou, percebendo as possibilidades do erro
refaz o mundo descoberto
para a glória de outros visitantes,
perplexos
perdidos entre as ruínas e o poema

2 (poesia = arqueologia)

cabe ao poeta descobrir a palavra
que passa rolando pelas cavernas do tempo
saber colhê-las entre detritos
– talvez o que há de melhor nelas –
ir aonde descansam
& instaurar o caos

3
fora isso
o poeta não passa do dono da festa
chapado de ponche
que desliga o som e manda todo mundo embora

ou o dono da bola
que acaba com o jogo ao ser driblado
ou mandado para o banco

fora isso
o poeta só arranha a superfície

descobre uma cidade submersa & grita
do alto de sua glória (ou burrice):
“é uma cidade submersa!”



20/01/2014


do livro Poemas é um péssimo título

sexta-feira, 24 de abril de 2015

23 h 56 min e 4,09 seg


para Érico Baymma
1
dias ruins
por coisas pequenas
quase-nada
pingo no i na letra errada
tropeço no cadarço desamarrado

dias ruins
por grandes problemas
estouro de boiada
um caminhão entalado bloqueando a paisagem
azia no banqueta das musas

dias ruins
por bobagens corriqueiras
coisas banais
azar no jogo
– dardo, RPG, carta –
ter que repetir a frase
(quando não se disse nada)

2
dias bons
por coisas pequenas
ou por nada
um sorriso (alado)
um pássaro pousado no retrovisor do carro

(ou por qualquer coisa fugaz rápida
como a queda de um meteorito
o bote de uma naja)

dias bons
por coisas grandiosas
que tomaram tempo
& cansaram o espelho
que consumiram a tinta do calendário

dias bons
por coisas improváveis inesperadas imprevistas:
encontrar um novo amor
ao pegar o caminho errado

(ficar perdido
até ter que mudar de casa)




do livro Poemas é um péssimo título

terça-feira, 24 de março de 2015

Cidade dos sonhos


Antes do amanhecer
estarão tomando a praça central.

A imensa cavalaria
sedenta pelos jardins,

arqueiros posicionados
no alto das colinas,

a infantaria
dinamitando as pontes.

Pé ante pé, rua a rua,
as posições sendo tomadas.

No entanto,
antes que declarem o seu triunfo,

um golpe decisivo dissolve o inimigo.
Abro os olhos: acordar basta.

2
Um dia a guerra estará perdida
e o povo daquela cidade,
que só existe em meus sonhos,
ficará entregue a própria sorte.

Um dia, quando eu não acordar mais,
a cidade se extinguirá
com todos que por lá transitam,
ou eles migrarão para outros sonhos?

Quem sabe, enfim,
esse seja o dia em que terei que defendê-la
de corpo presente, com as próprias mãos...

3

Saberei eu no sonho de quem?



do livro Poemas é um péssimo título

segunda-feira, 2 de março de 2015

SIDERALIDADES

        
                 (Matinê)

Vem do céu de novo o meu espanto,
não somente pelo seu furta-cor
desse sol contra as nuvens em branco
− agora rochas de tons de marrons
de toda a sorte, claros ou âmbares,
ocres ou quase amarelos fortes.
Tem nome tamanha exuberância
desde o meu sul até o meu norte?
Desce pela tarde um raro cinza
suave que derrama seu clamor
para que este amor, quase morno,
vire verso. E mire poesia.
E quantas cores sem nome eu vejo
no céu do poema que eu desejo.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Memória

Nunca te esquecerei,
diz o amante ao objeto amado
ou os amigos que se separam
ou a mãe ao filho que parte
(uma viagem, a morte,
a roda do acaso)

E ficam nebulosos,
transportando a ideia
(única forma de não olvidar),
até que chegue o momento
de serem esquecidos –


ou transportados.





*

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

POUCO A POUCO



As pálpebras da tarde

− em raro escarlate −

sucumbiram ao peso

e ao desassossego

 

febril do breu da noite

que veloz e audaz

apaga horizontes

e cega astrolábios.

 

O nanquim que tingiu

o céu não dividiu

a escuridão plena

da dor que representa

 

esta tua ausência,

esta sede sedenta,

esta cor modorrenta,

esta peste endêmica

 

e que sem dó desdenha

da minha morte. Lenta.
 
 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Elas herdarão o reino dos céus


crianças
algumas ainda muito pequenas
sem saber o que escrever
desenham corações
& flores
nas bombas
que matarão outras crianças







*

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

LIVRE


Se estou dentro de você,
estou em outra dimensão,
estou com o olhar de Zeus:
imenso na imensidão.

E tenho uma liberdade 
de gozar uma liberdade 
inversa, pois só se liberta 
no pomar fundo dos teus cachos.

O voo, com você entendo,
mais alto sempre vem de dentro.
 
 

domingo, 24 de agosto de 2014

Processos Mnemônicos



Para não esquecer:
é um poema
não como um poema de Shakespeare
algo menos formal, mais raso
tampouco inferior em ferir o tato
incomodar, mover, tirar do lugar
– às vezes um passo basta

Para não esquecer:
é um poema sobre um homem
não o canalha da capa do pasquim
boçal, babando sobre a bandeira
por certo, um homem que não existe
se existe, existe somente nesse poema
– e isso basta

Para não esquecer:
todas as estrofes abrem com a mesma sentença
(como em um poema de Lorca)
e uma palavra, uma palavra, uma palavra
as encerra, sem ponto final:
serão mesmo a mesma palavra
ou apenas fingem que são?

Para não esquecer

– isso basta

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

FEITIO



as palavras pularam sem dizer mais nada
era apenas mais um dia que se abria
não havia código a decifrar
nada.

desembrulhamos as dores escondidas
um sorriso
minha mão escorregando e trazendo estrelas - onde antes fazia cócegas
outros sorrisos sumiram diante do brilho dos olhares de silêncios perturbadores.

sim, sim, sim
há sinais
na vida
no inimaginável pQ das manhãs, das manhas e das coisas de ser...


[CléberCamargoRodrigues]

segunda-feira, 28 de julho de 2014

July Friend


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Exercício de semântica


Uma calda espessa escorre
apagando a paisagem
o estranho molho molha
a cauda do camundongo
a fachada da sede do AA
a sede do camelo no Saara
a estampa do tecido do tudo
até que não sobre nada sobre nada

Faço um acordo com os deuses do sono

e acordo

quarta-feira, 2 de julho de 2014

TATUAGENS


Morar no teu pensamento
é feito colher uma flor
num deserto sem fim.
Não importa se sim
não importa se não...
Este amor aqui ultrapassa
as respostas do homem:
e só há sins no meu horizonte,
porque, contigo, todos os ontens
são eternos. E gritam o teu nome.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Oceano



Tudo é efêmero diante do mar
navegadores, sereias, tritões
o encanto dos celacantos
a cor dos corais        

Nada dura diante de suas dunas
grandes impérios, conquistadores
A memória não sabe nadar
sofre de enjoo, é presa fácil
em tempo de tempestade

Só pra nos lembrar
(que tudo é efêmero diante do mar)
o mar  o mar o mar
sobe as encostas
encharcando as nuvens

alterando a geografia do ar

sábado, 24 de maio de 2014

Dois Poemas Um poema



1
Eu digo NÃO!
estar de acordo é acovardar
doença do caráter, falta de decoro:
é preciso ser obstinado em desobedecer

Aceitar tudo, calado
só para os que venderam a alma $
ou esqueceram o cérebro em casa –
levados aos montes pela correnteza
rio acima, rio abaixo
como cardume de peixes adestrados

Eu digo não e reconheço meus inimigos
ao vê-los gritarem SIM!, pelas praças!

2
Eu digo SIM!
Tudo que caminha, caminha para um fim
dos escombros da velha cidade
uma nova cidade
onde o povo ri duas vezes mais alto

As coisas estão aí para serem mudadas
the times they are a-changin

Regresso só para os amantes
que se frustraram
dando com a cara na murada
e os peregrinos exaustos da viagem

Eu digo sim!
e reconheço os meus inimigos

ao vê-los pintarem NÃO!, nas fachadas!

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Calvário

 









Mesmo se, numa remota possibilidade,
não tivesse existido o Cristo Jesus,
não importaria mais, esta iniquidade,
pois o sofrimento que se fez e deduz
a um corpo mutilado, auferido ao estigma,
nos intriga ainda mais ao dulcíssimo enigma,
de um ser de luz, que a todos conduz
ter-se dado ao calabouço da vida
numa ação por si mesmo, pré concebida,
de padecer e morrer pela humanidade
pregado à nossa eterna cruz...

terça-feira, 8 de abril de 2014

SEM TÍTULO NEM FREIO

mandei florescer a flor
perdi a rima
raspei o tacho
pesei na pausa
passei no passeio do passado.

no fim da madrugada que desagua na manhã de meus dias
preguei os olhos
olhei os pregos pregados
barco à vela - suor à deriva
nau sem rumo
arrumo assuntos
assumo prumos.

enquanto a vida se derrama em ramos 
no barro branco da beirada do barranco
o berrante berra na boca do boiadeiro, 
mas o boi apenas olha a vaca lamber o capim cheiroso.

penso na vida sem mim
penso, insisto, resisto
visto a cara lambida de pura e instigante traquinagem

deixo escorrer sorrisos sem freios...

[Cléber Camargo Rodrigues]

sexta-feira, 28 de março de 2014

fiufiu

Passaro

 musica do féloche

sábado, 8 de março de 2014

CARTA A UMA AMIGA INSONE

Moça da cor dos sorrisos secretos!
Como a gente brincava, quando crianças: “Oi!!!” - [oi é boi que já foi, uai...]
Nalgumas vezes a insônia tem sido minha companheira também, com uma constância desnecessária pra meu gosto. É uma coisa de gosto muito duvidoso este trem de ficar acordado contando carneirinhos. Não gosto. Não conto carneirinhos e pronto.
Acho as madrugadas sem sono muito cruéis pra quem perdeu uma série de hábitos e que, com o passar dos anos, perde também um pouco da paciência entrelaçada com umas fatias de esperança, no aprumar dos rumos que a vida espreita diariamente.
Quando o sono não vem, a cabeça vai. Fervilham ideias e dramas, sonhos e medos, esperanças nuas e tristezas paralisantes. Na necessidade, na oportunidade de mais uma manhã que se apresenta, saúdo a vida que renasce nas madrugadas dos ombros cansados – na solidão das horas que fazem o relógio dos sentidos.
Existem as melhores madrugadas quando rir é pros fracos. Existem as melhores madrugadas onde gargalhar é a senha que avista o silêncio que habita no olhar do teto e das paredes brancas da sala de amar.
A falta de sono, confesso, coloca os ânimos no ‘'talo da goiaba' – cansa. Confesso que ainda tenho a utopia como companheira mais próxima e alegre. Não estou falando de namorada e da pele da musa amada.
Falo da sorte de estar e ser, do momento em que minha emoção sobrevive. Falo de passar os elefantes nos buracos das fechaduras, sempre, desde sempre. Falo da entortamento de nossas realidades.
Falo de 'contrariar as estatísticas', do pare ou siga. Falo de sinais vermelhos e verdes.  Falo de sorrir sem medos. Falo da esperança sóbria que nos impõe limites às viagens na maionese, mas não nos impede de sonhar com outras cócegas em nossas almas simples.
Falo das almas nuas que carregam toda a garra e vontade de conquistar o melhor dos mundos, mesmo sabendo que tudo tem sua hora.
Não deves sentar e esperar que aos teus pés venham as soluções da vida e os pagamentos de tuas contas e desejos.
Deves lutar a cada dia, como lutam os guerreiros e seus amores. Deves ousar nos voos e ter a ousadia dos pousos. É do nascedouro da vida a ebulição de sentimentos que consomem nossa calma. É também do nascedouro da vida, constantemente, voltar os olhos pra nossos sonhos e fazer cócegas em nossos corações e almas...
Desejo que a ansiedade natural dos que sonham demais nestes tempos modernos dê lugar à mais serena tradução da mulher que encanta meus olhos e olhares.
Desejo que a fé inarredável seja sua companhia mais frequente quando você assumir as limitações do que pode e consegue mudar em sua sina, em seu caminho de vida – que não faltem, que nunca faltem forças e armas para lutar ‘armada’ de amor até os dentes – que você siga amando de seu coração.
Que você siga amando, sempre...
As madrugadas são pequenos e simples detalhes de nossos dias. A vida é quase tudo, meu bem. A vida. As nossas vidas...
Deixo um abraço, um beijo e um pedaço de queijo minas de São Gonçalo do Rio abaixo).


[Cléber Camargo Rodrigues

sábado, 8 de fevereiro de 2014

"ENQUANTO A CHAMA ARDER"

parece que foi ontem | e eu | aqui, neste canto da sala | pensando no que há de ser e acontecer na esquina do futuro. | daqui há não sei quantos vinte anos | que vento | que prosa | que pressa | que rosas espalharão perfume sobre teu cheiro? | que sal salvará o sabor de teu tempero? | pele mansa | suor escorrendo em gotas e magias. | ah! | eu colocarei minha mão no teu ombro | olharei dentro de teus olhos - como fiz na primeira vez | quando olhei bem dentro de tua alma | alisarei com calma cada pedacinho de tua face. | não guardarei sorrisos imprecisos | não esquentarei murmúrios - também | eu não sei medir o tamanho de uma saudade de verdade... [CléberCamargoRodrigues]