sábado, 8 de fevereiro de 2014

"ENQUANTO A CHAMA ARDER"

parece que foi ontem | e eu | aqui, neste canto da sala | pensando no que há de ser e acontecer na esquina do futuro. | daqui há não sei quantos vinte anos | que vento | que prosa | que pressa | que rosas espalharão perfume sobre teu cheiro? | que sal salvará o sabor de teu tempero? | pele mansa | suor escorrendo em gotas e magias. | ah! | eu colocarei minha mão no teu ombro | olharei dentro de teus olhos - como fiz na primeira vez | quando olhei bem dentro de tua alma | alisarei com calma cada pedacinho de tua face. | não guardarei sorrisos imprecisos | não esquentarei murmúrios - também | eu não sei medir o tamanho de uma saudade de verdade... [CléberCamargoRodrigues]

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Genealogia

Para Eduardo Martins Nolli Duarte
As raízes

1
Descendo de uma linhagem de homens que eram
chamados pelo nome do rio mais próximo
ou tomavam de empréstimo o nome de alguma árvore. 
Como ela, mantinham-se íntegros,
anônimo pelos séculos
sem registrar os seus frutos em cartório
sem adoçá-los com aspartame
enfeitá-los com códigos de barra
& impor tarifas de exportação.

Mas vieram aqueles que nos batizaram
             com as águas de um rio da Judéia;
mais tarde, com  água mineral, engarrafada,
que não era de lugar nenhum:
brotava do seio de uma máquina que subjugava o solo
esvaziando o conteúdo que ele escondia
para os homens que ainda estavam inexistidos –
fervilhando nos rugidos das onças
              no assovio do vento.

Nada mais dizia respeito às nossas raízes.
Quando gritávamos por nossos irmãos
os inimigos
que nos massacrava, violentava,
respondiam de prontidão.

éramos donos dos mesmos nomes
o sangue na mão compartilhado nos
cumprimentos matinais.

2
Eu estava entre os portugueses
em suas fileiras de caravelas:
ensinei aos índios o beijo que apodrecia a boca
& que corroia os dentes
o abraço que desfigurava as carnes
(que deixa em rubor toda a técnica
 homicida hoje empregada)
eu trazia cínico,
em nome de Deus e da Rainha.

Mas era pouco a varíola e a gripe.
Matar os peixes dos riachos
transformando sua água em sangue,
cobrindo os leitos com cadáveres, era pouco.

Pouco foi a chuva futura
            que derretia a calha das casas
e envenenava as crianças –
             que insistiam que a felicidade
poderia estar na rua, que não era de ninguém.

Mas era. O nome na placa indicava.

3
Descendo de mulheres
que compactuavam com as ramas
                        o segredo da cura.
Sabiam extrair da menor partícula da mata
a verdade sobre o todo.

Contemplaram um dia, na face da água,
uma terra desolada que não prestava
sequer para enterrar o cadáver dos chacais
o filho de seus ventres esterilizando o chão
            com o toque dos pés.

Porém, antes que pudessem fazer algo,
havia sido decretada a era do estupro.

4
Tampouco deixei de ser contemplado
quando da expropriação das terras
que passaram a ser nossa
desde que nos fosse possível assassinar
cada um dos que nela viviam:

insolentes & preguiçosos homens
que não haviam inventado a guerra
e viviam apenas do que precisavam.

E assassinar nunca fora problema
para quem tinha na pólvora o poder
& na cruz o álibi.

5
Um selvagem impressionado
o homem de quem descendo
tremendo ao ver a ponte
que atravessava o Rio Apurimac.

Um bárbaro, meu predecessor,
que acreditou que a bacia amazônica
era formada por rios de ouro

(pouco antes temera o oceano
que escondia monstros sublimes &
era salgado pelas lágrimas dos náufragos).

Margareth Tacher agradece.

6
Descendo de uma linhagem de homens escuros como o asfalto, velozes como os carros: homens que foram assassinados em suas pátrias e trazidos para cá, para comerem a areia da praia e se tornarem donos de dores não-catalogadas.

Os que ficaram pelo caminho foram estraçalhados pelas lâminas dos corais, viajaram pelo intestino de tubarões, sedimentaram seus sonhos junto ao assoalho encharcado do mar.

Foram lançados de navios como carne podre: mulheres, homens, crianças, reis, heróis entregues ao dorso suado do oceano e suas milhares de garras.

Para futuro semelhante foram arrastados os que a travessia preservou:
– para cultivar os bigodes dos coronéis
– para manterem impecável a fazenda das mocinhas
– para financiar os estudos em Paris ou Coimbra
de vagabundos jovens advogados.

A língua que colocaram em suas bocas não podia ser entendida pelos seus deuses, enfurnado no alto-demais das nuvens – pululavam jesuítas com seu livro que pesava uma tonelada.


Aqui ficaram sozinhos os homens de quem descendo: a solidão que havia era a mesma de todo lugar – eles apenas a aperfeiçoaram.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

ABRE-TE, SÉSAMO

floresça!...
abra-te em sorrisos
quando a manhã sussurrar loucamente em teus sentidos...

[CléberCamargoRordrigues]

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Iminente

“Quando a vista ficar confundida, e a lua se eclipsar,
e o sol e a lua se unirem, nesse dia o homem gritará:
para onde é que se pode fugir? Oh, não haverá refúgio!”
Surata 75
 
Nos tempos de minha infância alimentava, à noite, uma náusea sem nome. Achava em silêncio – não havia palavras suficientes guardadas em mim para desfraldar esse sentimento – que algo de inevitável estava próximo de se consolidar.
            Algo ruim.
 
Não sabia dizer se achava que o escuro do quarto iria espalhar-se sobre o mundo e derramar seu pavor rastejante sobre as coisas coloridas da vida.
 Nem se seria escuro esse caos.
 
Não sabia dizer se esse fim estava sendo urgido numa sala celeste, onde os deuses discutiam com seus investidores um modo viável de esvaziar o conteúdo do cálice e por fim à criação.
Tampouco sabia se os deuses teriam algo a ver com isso.
 
Não sabia dizer se esse desconforto – que me parecia em avançado estágio de consolidação – viajava sentado na cauda de algum meteoro lançado a milhões de anos,
impelido a cruzar o universo para nos abalroar como se fôssemos um navio de H. Mellvile.
 
Não sabia, sentado em meu medo infantil, o que seria essa certeza perversa, tão nítida no apelo  das árvores. O que seria esse conhecimento explícito em mim como um amor inflamado? O que seria essa dor que vinha escondido no prato de comida e tirava o apetite? Que vinha entrelaçado na fala dos desenhos animados e enfartava o riso? Onde brotava, num peito pequeno de menino, uma água tão escura? Quando ela rompera o tecido e começara a escorrer pelo corpo
 
Fôra antes de me ver refletido mais vezes
em fundos de privadas do que em espelhos?
 
Antes de Rimbaud me seduzir para a venda
como escravo sexual aos asseclas do rei de Choa?
 
Fôra antes de cantar a Internacional, as quartas,
ao lado de pederastas, alcoólatras, poetas e açougueiros
 
que ainda acreditavam em Deus aos domingos?
 
Quando compreendi que não era o que se escondia no guarda-roupa que me causava aquele mal, mas a certeza de que o mundo – não apenas eu e as minhas fraquezas – acabaria?

Então aguardei a sua consolidação em noites de trovões, em dias de discussão adulta             – que traçavam o rumo de suas vidas conjugais e a permanência do eu no limiar das coisas alegres
 
Então o aguardei impregnando-o de imagens retiradas dos livros de gravuras. Na fala da gente humilde, sempre a rever na cozinha seus temores e suas certezas catastróficas,
complementei minha visão tingindo-a de sangue humano – substituindo árvores tombadas por homens tombados.
 
Não via no rosto das pessoas esse medo que me tirava o sono. Não via em seus gestos de prazer uma tentativa reconfortante de aproveitamento imediato – o fim estava próximo, algo me dizia em forma de pânico pediátrico
 
 – e haveria mortes,
talvez fogo nas ruas e no cabelo das mulheres
 
– e haveria dor no coração
e nos braços ensangüentados das enfermeiras.
 
Não via em seus gestos de ódio uma revolta consciente,
um ato de reprovação:

o fim do mundo talvez caminhasse nas ruas
escolhendo a dedo uma forma de melhor efetuar a
sua desgraça
 
– e haveria confusão:
talvez mães chorando crianças despedaçadas,
e haveria desespero nos olhos do menino sem mãe para
                                                                      consolá-lo.
 
Não via no choro das mulheres – tão evidentes – nem na lágrima seca que rolava quando as crianças não estavam um choro ou uma lágrima a respeito da verdade que a todo instante me redimia a um único pensamento. Talvez o fim já houvesse sido deflagrado: lento e preciso, se espalhando pelo ar, como a sombra de uma nuvem envenenada, apodrecendo sobre as cidades.
Nada se avistava no tempo, ou nas ruas.
Aguardar, essa era a palavra de ordem.
  
 *

“E para cada dia bastará apenas o seu mal”

Mateus 6:25-34

domingo, 8 de dezembro de 2013

DECORAÇÕES ou DE CORAÇÕES ENCOSTADOS

enquanto ela partia | mesmo querendo voltar aos braços dele | ele apenas sorria | com aquele sorriso que ela bem conhecia. | era um sorrisinho danado de mineiro | daqueles sorrisos que escorrem do lado esquerdo dos lábios | e que fazem brotar um cheiro de desejo e sensualidade no ar. | depois de perceber que ela percebera seu sorriso no canto dos lábios deliciosamente sensuais | ele apenas disse | sem olhar pra canto algum | apenas na direção dos olhos dela: | "somente um coração é capaz de entender outro coração". | pode parecer piegas | e é | mais do que parece | é da essência da vida que estamos tratando. | é do combustível da vida que falam os sorrisos e o amar sem medos. | ele abrira sua alma ao sorrir nos olhos brilhantes da musa. | sem direito a setas na mesma direção | os dois seguiram amando... [CléberCamargoRodrigues]

domingo, 24 de novembro de 2013

Comedìa


I - Inferno



Nenhuma pista ou clareira 
para tentar a aterrissagem
e, ademais, 
o trem de pouso emperrado

Retornar ao lar
– oh estações, oh castelos –
e ninguém ter dado pela sua falta


II - Purgatório

A TV ligada para ninguém
– em consultórios ortopédicos –
o cheiro do tédio das atendentes
& o clamor dos telefones

A fila de mulheres pensativas
– nos pronto-socorros –
as crianças tossindo em seus colos
o senhor debruçado sobre as rugas

A ante-sala dos CTI’s
as antecâmaras das policlínicas
os  azulejos brancos, o ventilador de teto
– nas salas de espera dos centros de radiologia –

E nos demais lugares onde a morte fareja


III - Paraíso

Praticamente nada a fazer senão para o pobre agente do Centro de Controle de Pragas. A nuvem de veneno borrifada sobre as macieiras rouba o brilho das asas dos anjos e embaça o aço de suas espadas. De manhã, o batalhão de arcanjos em ordem unida, treinando para a possível batalha. E é sempre manhã, aonde quer que se vá. Longa manhã de profunda ressaca. Os que leram estão de acordo, é o mesmo paraíso descrito por Dante. Um saco! 



*

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

QUANDO O CORAÇÃO AMANHECE ARRANHANDO A TERNURA DO DESEJO

...coisa de gente sem frescuras | cê qui sabe | mas | ternura cura | faz remelexo na textura da vida | mesmo na vida da gente que anda correndo de um lado pra outro | sem tempo pra apalpar o sorriso impreciso do silêncio das horas.

olhar desejante | eu revejo um dedim de prosa que não tirei | eu revejo uma brincadeira deliciosa que deixei escapar | eu revejo amigos 'panhando' manga maranhão no quintal da casa de minha vó materna. 


nesta tresloucada correria | olhar desejante | eu revejo a força índia.negra.brasileira de minha vó paterna que nunca vi em carne e osso. 


olhar desejante | eu revejo todas as mulheres | amigas irmãs imãs parceiras companheiras queridas mães filhas musas | amadas | que são fadas a encantar minha estrada | a alargar meus sorrisos | a fazer de meu coração uma bússola | bálsamos que são | estrelas a guiar | norte de vida e viver inteiros. 


olhar desejante | miro a sina | a vivência | o mundo além da esquina.


olhar desejante | sigo, amando... 


[CléberCamargoRodrigues]

foto (c) Simão Kursselldorff

terça-feira, 5 de novembro de 2013

QUESTÃO DE POESIA


adoro saborear a morte
com excesso de requinte
dizendo-o quando seja
um momento esperado

eu não espero nada
nem quero saber
acima de tudo
fico meio mudo

encaro o mundo
com uma surpresa
de defunto ao fundo
das palavras olhando

uma questão de poesia?
cada interpretação alia
uma verdade própria
do dia ou da noite

saio a andar
sobre a estranheza
desejando o regresso
para poder beber um copo

Acabo De Recordar

(tinha este título
para poder declamar
de castigo, uma vez, duas;

nem uma, calhou assim)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Hefesto/Vulcano/


Era um deus, no entanto.
Porém, não o poupavam. “Coxo Coxo
         Coxo”
sussurravam pelas ruas.

Nos inferninhos e na boca do lixo
o consenso era geral:
“feio como um beliscão no cu”
“a própria mãe reconhece a merda que fez”
& demais despautérios.

Entre os seus, em língua grega
– ou naquela que lá se fala
& tampouco compreendemos –
a fama de corno corria aos quatro cantos:

“vencido por um amor de espuma”
“enfeitiçado pelos olhos de cigana oblíqua...”
& coisas do tipo.

Distraído, no cômodo do fundo,
iluminado pelo fogo da fornalha
ele nada ouvia
senão o som do martelo malhando o metal.












terça-feira, 8 de outubro de 2013

era de amor

era de amor que a gente falava | quando em profundo silêncio olhamos | um no olho do outro | olhando bem fundo | como se procurássemos ver a calma de nossas almas. | era de amor que falávamos | quando nossos sorrisos imprecisos escorreram | nus | livres e leves | no canto de nossas bocas. | era de amor que nós falamos | quando soltamos nossos melhores suspiros | deixando aflorar sem medos todos os arrepios. | era de amor que eu e ela falamos quando nossos corações saíram em disparada | sem saber o fim da estrada. | é de amor a essência de cada gota de ternura que escorria | enquanto falávamos. | é com amor que temperamos os beijos mais ardentes | o tesão mais intenso | a saudade mais deliciosa. | é mais | muito mais... [CléberCamargoRodrigues]