segunda-feira, 28 de julho de 2014
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Exercício de semântica
Uma calda espessa
escorre
apagando a paisagem
o estranho molho
molha
a cauda do
camundongo
a fachada da sede
do AA
a sede do camelo no
Saara
a estampa do tecido
do tudo
até que não sobre
nada sobre nada
Faço um acordo com
os deuses do sono
e acordo
Marcadores:
l. rafael nolli
quarta-feira, 2 de julho de 2014
TATUAGENS
Morar no teu pensamento
é feito colher uma flor
num deserto sem fim.
Não importa se sim
não importa se não...
Este amor aqui ultrapassa
as respostas do homem:
e só há sins no meu horizonte,
porque, contigo, todos os ontens
são eternos. E gritam o teu nome.
são eternos. E gritam o teu nome.
terça-feira, 24 de junho de 2014
Oceano
Tudo é efêmero
diante do mar
navegadores,
sereias, tritões
o encanto
dos celacantos
a
cor dos corais
Nada dura diante de
suas dunas
grandes impérios, conquistadores
A memória não sabe
nadar
sofre de enjoo, é
presa fácil
em tempo de
tempestade
Só pra nos lembrar
(que tudo é efêmero
diante do mar)
o mar o mar o
mar
sobe as encostas
encharcando as
nuvens
alterando a
geografia do ar
Marcadores:
l. rafael nolli
sábado, 24 de maio de 2014
Dois Poemas Um poema
1
Eu digo NÃO!
estar de acordo é
acovardar
doença do caráter,
falta de decoro:
é preciso ser obstinado
em desobedecer
Aceitar tudo, calado
só para os que venderam
a alma $
ou esqueceram o cérebro
em casa –
levados aos montes pela
correnteza
rio
acima, rio abaixo
como cardume de peixes
adestrados
Eu digo não e reconheço
meus inimigos
ao vê-los gritarem
SIM!, pelas praças!
2
Eu digo SIM!
Tudo que caminha,
caminha para um fim
dos escombros da velha
cidade
uma nova cidade
onde o povo ri duas
vezes mais alto
As coisas estão aí para
serem mudadas
the times they are
a-changin
Regresso só para os
amantes
que se frustraram
dando com a cara na
murada
e os peregrinos
exaustos da viagem
Eu digo sim!
e reconheço os meus
inimigos
ao vê-los pintarem
NÃO!, nas fachadas!
Marcadores:
l. rafael nolli
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Calvário
Mesmo se, numa remota possibilidade,
não tivesse existido o Cristo Jesus,
não importaria mais, esta iniquidade,
pois o sofrimento que se fez e deduz
a um corpo mutilado, auferido ao estigma,
nos intriga ainda mais ao dulcíssimo enigma,
de um ser de luz, que a todos conduz
ter-se dado ao calabouço da vida
numa ação por si mesmo, pré concebida,
de padecer e morrer pela humanidade
pregado à nossa eterna cruz...
terça-feira, 8 de abril de 2014
SEM TÍTULO NEM FREIO
mandei florescer a flor
perdi a rima
raspei o tacho
pesei na pausa
passei no passeio do passado.
no fim da madrugada que desagua na manhã de meus dias
preguei os olhos
olhei os pregos pregados
barco à vela - suor à deriva
nau sem rumo
arrumo assuntos
assumo prumos.
enquanto a vida se derrama em ramos
no barro branco da beirada do
barranco
o berrante berra na boca do boiadeiro,
mas o boi apenas olha a vaca
lamber o capim cheiroso.
penso na vida sem mim
penso, insisto, resisto
visto a cara lambida de pura e instigante traquinagem
deixo escorrer sorrisos sem freios...
[Cléber Camargo Rodrigues]
sexta-feira, 28 de março de 2014
sábado, 8 de março de 2014
CARTA A UMA AMIGA INSONE
Moça da cor dos sorrisos
secretos!
Como a gente brincava,
quando crianças: “Oi!!!” - [oi é boi que já foi, uai...]
Nalgumas vezes a insônia
tem sido minha companheira também, com uma constância desnecessária pra meu
gosto. É uma coisa de gosto muito duvidoso este trem de ficar acordado contando
carneirinhos. Não gosto. Não conto carneirinhos e pronto.
Acho as madrugadas sem
sono muito cruéis pra quem perdeu uma série de hábitos e que, com o passar dos
anos, perde também um pouco da paciência entrelaçada com umas fatias de
esperança, no aprumar dos rumos que a vida espreita diariamente.
Quando o sono não vem, a
cabeça vai. Fervilham ideias e dramas, sonhos e medos, esperanças nuas e
tristezas paralisantes. Na necessidade, na oportunidade de mais uma manhã que
se apresenta, saúdo a vida que renasce nas madrugadas dos ombros cansados – na
solidão das horas que fazem o relógio dos sentidos.
Existem as melhores
madrugadas quando rir é pros fracos. Existem as melhores madrugadas onde
gargalhar é a senha que avista o silêncio que habita no olhar do teto e das
paredes brancas da sala de amar.
A falta de sono, confesso,
coloca os ânimos no ‘'talo da goiaba' – cansa. Confesso que ainda tenho a
utopia como companheira mais próxima e alegre. Não estou falando de namorada e da
pele da musa amada.
Falo da sorte de estar e
ser, do momento em que minha emoção sobrevive. Falo de passar os elefantes nos
buracos das fechaduras, sempre, desde sempre. Falo da entortamento de nossas
realidades.
Falo de 'contrariar as
estatísticas', do pare ou siga. Falo de sinais vermelhos e verdes. Falo de sorrir sem medos. Falo da esperança
sóbria que nos impõe limites às viagens na maionese, mas não nos impede de
sonhar com outras cócegas em nossas almas simples.
Falo das almas nuas que
carregam toda a garra e vontade de conquistar o melhor dos mundos, mesmo
sabendo que tudo tem sua hora.
Não deves sentar e esperar
que aos teus pés venham as soluções da vida e os pagamentos de tuas contas e
desejos.
Deves lutar a cada dia,
como lutam os guerreiros e seus amores. Deves ousar nos voos e ter a ousadia
dos pousos. É do nascedouro da vida a ebulição de sentimentos que consomem
nossa calma. É também do nascedouro da vida, constantemente, voltar os olhos
pra nossos sonhos e fazer cócegas em nossos corações e almas...
Desejo que a ansiedade
natural dos que sonham demais nestes tempos modernos dê lugar à mais serena
tradução da mulher que encanta meus olhos e olhares.
Desejo que a fé
inarredável seja sua companhia mais frequente quando você assumir as limitações
do que pode e consegue mudar em sua sina, em seu caminho de vida – que não
faltem, que nunca faltem forças e armas para lutar ‘armada’ de amor até os
dentes – que você siga amando de seu coração.
Que você siga amando,
sempre...
As madrugadas são pequenos
e simples detalhes de nossos dias. A vida é quase tudo, meu bem. A vida. As
nossas vidas...
Deixo um abraço, um beijo
e um pedaço de queijo minas de São Gonçalo do Rio abaixo).
[Cléber Camargo Rodrigues]
sábado, 8 de fevereiro de 2014
"ENQUANTO A CHAMA ARDER"
parece que foi ontem | e eu | aqui, neste canto da sala | pensando no que há de ser e acontecer na esquina do futuro. | daqui há não sei quantos vinte anos | que vento | que prosa | que pressa | que rosas espalharão perfume sobre teu cheiro? | que sal salvará o sabor de teu tempero? | pele mansa | suor escorrendo em gotas e magias. | ah! | eu colocarei minha mão no teu ombro | olharei dentro de teus olhos - como fiz na primeira vez | quando olhei bem dentro de tua alma | alisarei com calma cada pedacinho de tua face. | não guardarei sorrisos imprecisos | não esquentarei murmúrios - também | eu não sei medir o tamanho de uma saudade de verdade... [CléberCamargoRodrigues]
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Genealogia
Para Eduardo Martins Nolli Duarte
As
raízes
1
Descendo
de uma linhagem de homens
que eram
chamados
pelo nome do rio mais próximo
Como
ela, mantinham-se íntegros,
enfeitá-los
com códigos
de barra
& impor tarifas de exportação .
brotava
do seio de uma máquina
que subjugava o solo
esvaziando
o conteúdo que
ele escondia
fervilhando
nos rugidos
das onças
no assovio do vento .
os
inimigos
que
nos massacrava, violentava,
respondiam
de prontidão .
o
sangue na mão
compartilhado nos
2
Eu
estava entre os portugueses
ensinei
aos índios o beijo
que apodrecia a boca
&
que corroia os dentes
–
o
abraço que
desfigurava as carnes
(que deixa em rubor toda a técnica
transformando
sua água
em sangue ,
cobrindo
os leitos com
cadáveres , era
pouco .
e
envenenava as crianças –
3
Descendo
de mulheres
o segredo
da cura .
Sabiam
extrair da menor
partícula da mata
a
verdade sobre
o todo .
Contemplaram
um dia ,
na face da água ,
uma
terra desolada que
não prestava
o
filho de seus
ventres esterilizando o chão
havia
sido decretada a era do estupro .
4
e
viviam apenas do que
precisavam.
E
assassinar nunca
fora problema
& na cruz
o álibi .
5
Um
selvagem impressionado
o
homem de quem
descendo
tremendo
ao ver a ponte
(pouco antes
temera o oceano
Margareth
Tacher agradece.
6
Descendo
de uma linhagem de homens escuros como o asfalto, velozes como os carros:
homens que foram assassinados em suas pátrias e trazidos para cá, para comerem
a areia da praia e se tornarem donos de dores não-catalogadas.
Os
que ficaram pelo caminho foram estraçalhados pelas lâminas dos corais, viajaram
pelo intestino de tubarões, sedimentaram seus sonhos junto ao assoalho
encharcado do mar.
Foram
lançados de navios como carne podre: mulheres, homens, crianças, reis, heróis entregues
ao dorso suado do oceano e suas milhares de garras.
Para
futuro semelhante foram arrastados os que a travessia preservou:
–
para cultivar os bigodes dos coronéis
–
para manterem impecável a fazenda das mocinhas
–
para financiar os estudos em Paris ou Coimbra
de
vagabundos jovens advogados.
A
língua que colocaram em suas bocas não podia ser entendida pelos seus deuses,
enfurnado no alto-demais das nuvens – pululavam jesuítas com seu livro que
pesava uma tonelada.
Aqui
ficaram sozinhos os homens de quem descendo: a solidão que havia era a mesma de
todo lugar – eles apenas a aperfeiçoaram.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
ABRE-TE, SÉSAMO
floresça!...
abra-te em sorrisos
quando a manhã sussurrar loucamente em teus sentidos...
[CléberCamargoRordrigues]
abra-te em sorrisos
quando a manhã sussurrar loucamente em teus sentidos...
[CléberCamargoRordrigues]
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Iminente
“Quando a vista ficar confundida,
e a lua se eclipsar,
e o sol e a lua se unirem, nesse
dia o homem gritará:
para onde é que se pode fugir?
Oh, não haverá refúgio!”
Surata
75
Nos tempos de minha
infância alimentava, à noite , uma náusea
sem nome .
Achava em silêncio – não havia palavras
suficientes guardadas em mim para desfraldar esse sentimento – que algo
de inevitável estava próximo
de se consolidar .
Algo
ruim .
Não
sabia dizer se achava que
o escuro do quarto iria espalhar-se sobre o mundo e derramar seu pavor
rastejante sobre as coisas coloridas da vida .
Nem se
seria escuro esse
caos .
Não
sabia dizer se esse
fim estava sendo urgido numa sala celeste , onde os deuses discutiam com
seus investidores um modo viável de esvaziar o
conteúdo do cálice
e por fim
à criação .
Tampouco
sabia se os deuses teriam algo a ver com isso .
Não
sabia dizer se esse
desconforto – que me
parecia em avançado
estágio de consolidação
– viajava sentado na cauda de algum
meteoro lançado a milhões de anos ,
impelido a cruzar o universo para nos abalroar como
se fôssemos um navio
de H. Mellvile.
Não sabia,
sentado em meu
medo infantil , o que seria essa certeza
perversa , tão
nítida no apelo das árvores .
O que seria esse
conhecimento explícito em mim como um amor
inflamado? O que seria essa dor que vinha
escondido no prato de comida e tirava o apetite ?
Que vinha entrelaçado
na fala dos desenhos
animados e enfartava o riso? Onde brotava, num peito
pequeno de menino ,
uma água tão
escura ? Quando
ela rompera o tecido e começara a escorrer pelo corpo ?
Fôra antes de me ver refletido mais vezes
em fundos de privadas
do que em
espelhos ?
Antes de Rimbaud
me seduzir para a venda
como escravo sexual
aos asseclas do rei
de Choa?
Fôra antes de cantar a Internacional , as quartas ,
ao lado de pederastas ,
alcoólatras , poetas
e açougueiros
que ainda acreditavam em
Deus aos domingos ?
Quando
compreendi que não
era o que
se escondia no guarda-roupa que me causava aquele mal , mas
a certeza de que
o mundo – não apenas
eu e as minhas
fraquezas – acabaria?
Então
aguardei a sua consolidação
em noites
de trovões , em dias
de discussão adulta – que
traçavam o rumo de suas
vidas conjugais e a permanência
do eu no limiar
das coisas alegres .
Então o
aguardei impregnando-o de imagens retiradas dos livros
de gravuras . Na fala
da gente humilde ,
sempre a rever na cozinha
seus temores e suas
certezas catastróficas,
complementei minha visão tingindo-a de sangue
humano – substituindo árvores tombadas por homens
tombados.
Não via no rosto das
pessoas esse medo
que me
tirava o sono . Não via
em seus
gestos de prazer uma tentativa
reconfortante de aproveitamento
imediato – o fim
estava próximo , algo me
dizia em forma
de pânico pediátrico
– e haveria mortes ,
talvez fogo nas ruas e
no cabelo das mulheres
– e haveria dor no coração
e nos braços
ensangüentados das enfermeiras.
Não via em seus gestos de ódio uma revolta
consciente ,
um ato de reprovação:
o fim do mundo talvez já
caminhasse nas ruas
escolhendo a dedo uma forma de melhor efetuar a
sua desgraça
– e haveria confusão :
talvez mães chorando crianças
despedaçadas,
e haveria desespero nos olhos do menino
sem mãe
para
consolá-lo.
Não via no choro das
mulheres – tão evidentes
– nem na lágrima seca que rolava quando as crianças
não estavam um choro
ou uma lágrima
a respeito da verdade que a todo instante me redimia a um
único pensamento .
Talvez o fim já houvesse sido deflagrado: lento e preciso, se espalhando pelo
ar, como a sombra de uma nuvem envenenada, apodrecendo sobre as cidades.
Nada se avistava
no tempo, ou nas ruas.
Aguardar, essa
era a palavra de ordem.
*
“E para cada dia bastará apenas o
seu mal”
Mateus 6:25-34
Assinar:
Postagens (Atom)





