musica do féloche
sexta-feira, 28 de março de 2014
sábado, 8 de março de 2014
CARTA A UMA AMIGA INSONE
Moça da cor dos sorrisos
secretos!
Como a gente brincava,
quando crianças: “Oi!!!” - [oi é boi que já foi, uai...]
Nalgumas vezes a insônia
tem sido minha companheira também, com uma constância desnecessária pra meu
gosto. É uma coisa de gosto muito duvidoso este trem de ficar acordado contando
carneirinhos. Não gosto. Não conto carneirinhos e pronto.
Acho as madrugadas sem
sono muito cruéis pra quem perdeu uma série de hábitos e que, com o passar dos
anos, perde também um pouco da paciência entrelaçada com umas fatias de
esperança, no aprumar dos rumos que a vida espreita diariamente.
Quando o sono não vem, a
cabeça vai. Fervilham ideias e dramas, sonhos e medos, esperanças nuas e
tristezas paralisantes. Na necessidade, na oportunidade de mais uma manhã que
se apresenta, saúdo a vida que renasce nas madrugadas dos ombros cansados – na
solidão das horas que fazem o relógio dos sentidos.
Existem as melhores
madrugadas quando rir é pros fracos. Existem as melhores madrugadas onde
gargalhar é a senha que avista o silêncio que habita no olhar do teto e das
paredes brancas da sala de amar.
A falta de sono, confesso,
coloca os ânimos no ‘'talo da goiaba' – cansa. Confesso que ainda tenho a
utopia como companheira mais próxima e alegre. Não estou falando de namorada e da
pele da musa amada.
Falo da sorte de estar e
ser, do momento em que minha emoção sobrevive. Falo de passar os elefantes nos
buracos das fechaduras, sempre, desde sempre. Falo da entortamento de nossas
realidades.
Falo de 'contrariar as
estatísticas', do pare ou siga. Falo de sinais vermelhos e verdes. Falo de sorrir sem medos. Falo da esperança
sóbria que nos impõe limites às viagens na maionese, mas não nos impede de
sonhar com outras cócegas em nossas almas simples.
Falo das almas nuas que
carregam toda a garra e vontade de conquistar o melhor dos mundos, mesmo
sabendo que tudo tem sua hora.
Não deves sentar e esperar
que aos teus pés venham as soluções da vida e os pagamentos de tuas contas e
desejos.
Deves lutar a cada dia,
como lutam os guerreiros e seus amores. Deves ousar nos voos e ter a ousadia
dos pousos. É do nascedouro da vida a ebulição de sentimentos que consomem
nossa calma. É também do nascedouro da vida, constantemente, voltar os olhos
pra nossos sonhos e fazer cócegas em nossos corações e almas...
Desejo que a ansiedade
natural dos que sonham demais nestes tempos modernos dê lugar à mais serena
tradução da mulher que encanta meus olhos e olhares.
Desejo que a fé
inarredável seja sua companhia mais frequente quando você assumir as limitações
do que pode e consegue mudar em sua sina, em seu caminho de vida – que não
faltem, que nunca faltem forças e armas para lutar ‘armada’ de amor até os
dentes – que você siga amando de seu coração.
Que você siga amando,
sempre...
As madrugadas são pequenos
e simples detalhes de nossos dias. A vida é quase tudo, meu bem. A vida. As
nossas vidas...
Deixo um abraço, um beijo
e um pedaço de queijo minas de São Gonçalo do Rio abaixo).
[Cléber Camargo Rodrigues]
sábado, 8 de fevereiro de 2014
"ENQUANTO A CHAMA ARDER"
parece que foi ontem | e eu | aqui, neste canto da sala | pensando no que há de ser e acontecer na esquina do futuro. | daqui há não sei quantos vinte anos | que vento | que prosa | que pressa | que rosas espalharão perfume sobre teu cheiro? | que sal salvará o sabor de teu tempero? | pele mansa | suor escorrendo em gotas e magias. | ah! | eu colocarei minha mão no teu ombro | olharei dentro de teus olhos - como fiz na primeira vez | quando olhei bem dentro de tua alma | alisarei com calma cada pedacinho de tua face. | não guardarei sorrisos imprecisos | não esquentarei murmúrios - também | eu não sei medir o tamanho de uma saudade de verdade... [CléberCamargoRodrigues]
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Genealogia
Para Eduardo Martins Nolli Duarte
As
raízes
1
Descendo
de uma linhagem de homens
que eram
chamados
pelo nome do rio mais próximo
Como
ela, mantinham-se íntegros,
enfeitá-los
com códigos
de barra
& impor tarifas de exportação .
brotava
do seio de uma máquina
que subjugava o solo
esvaziando
o conteúdo que
ele escondia
fervilhando
nos rugidos
das onças
no assovio do vento .
os
inimigos
que
nos massacrava, violentava,
respondiam
de prontidão .
o
sangue na mão
compartilhado nos
2
Eu
estava entre os portugueses
ensinei
aos índios o beijo
que apodrecia a boca
&
que corroia os dentes
–
o
abraço que
desfigurava as carnes
(que deixa em rubor toda a técnica
transformando
sua água
em sangue ,
cobrindo
os leitos com
cadáveres , era
pouco .
e
envenenava as crianças –
3
Descendo
de mulheres
o segredo
da cura .
Sabiam
extrair da menor
partícula da mata
a
verdade sobre
o todo .
Contemplaram
um dia ,
na face da água ,
uma
terra desolada que
não prestava
o
filho de seus
ventres esterilizando o chão
havia
sido decretada a era do estupro .
4
e
viviam apenas do que
precisavam.
E
assassinar nunca
fora problema
& na cruz
o álibi .
5
Um
selvagem impressionado
o
homem de quem
descendo
tremendo
ao ver a ponte
(pouco antes
temera o oceano
Margareth
Tacher agradece.
6
Descendo
de uma linhagem de homens escuros como o asfalto, velozes como os carros:
homens que foram assassinados em suas pátrias e trazidos para cá, para comerem
a areia da praia e se tornarem donos de dores não-catalogadas.
Os
que ficaram pelo caminho foram estraçalhados pelas lâminas dos corais, viajaram
pelo intestino de tubarões, sedimentaram seus sonhos junto ao assoalho
encharcado do mar.
Foram
lançados de navios como carne podre: mulheres, homens, crianças, reis, heróis entregues
ao dorso suado do oceano e suas milhares de garras.
Para
futuro semelhante foram arrastados os que a travessia preservou:
–
para cultivar os bigodes dos coronéis
–
para manterem impecável a fazenda das mocinhas
–
para financiar os estudos em Paris ou Coimbra
de
vagabundos jovens advogados.
A
língua que colocaram em suas bocas não podia ser entendida pelos seus deuses,
enfurnado no alto-demais das nuvens – pululavam jesuítas com seu livro que
pesava uma tonelada.
Aqui
ficaram sozinhos os homens de quem descendo: a solidão que havia era a mesma de
todo lugar – eles apenas a aperfeiçoaram.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
ABRE-TE, SÉSAMO
floresça!...
abra-te em sorrisos
quando a manhã sussurrar loucamente em teus sentidos...
[CléberCamargoRordrigues]
abra-te em sorrisos
quando a manhã sussurrar loucamente em teus sentidos...
[CléberCamargoRordrigues]
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Iminente
“Quando a vista ficar confundida,
e a lua se eclipsar,
e o sol e a lua se unirem, nesse
dia o homem gritará:
para onde é que se pode fugir?
Oh, não haverá refúgio!”
Surata
75
Nos tempos de minha
infância alimentava, à noite , uma náusea
sem nome .
Achava em silêncio – não havia palavras
suficientes guardadas em mim para desfraldar esse sentimento – que algo
de inevitável estava próximo
de se consolidar .
Algo
ruim .
Não
sabia dizer se achava que
o escuro do quarto iria espalhar-se sobre o mundo e derramar seu pavor
rastejante sobre as coisas coloridas da vida .
Nem se
seria escuro esse
caos .
Não
sabia dizer se esse
fim estava sendo urgido numa sala celeste , onde os deuses discutiam com
seus investidores um modo viável de esvaziar o
conteúdo do cálice
e por fim
à criação .
Tampouco
sabia se os deuses teriam algo a ver com isso .
Não
sabia dizer se esse
desconforto – que me
parecia em avançado
estágio de consolidação
– viajava sentado na cauda de algum
meteoro lançado a milhões de anos ,
impelido a cruzar o universo para nos abalroar como
se fôssemos um navio
de H. Mellvile.
Não sabia,
sentado em meu
medo infantil , o que seria essa certeza
perversa , tão
nítida no apelo das árvores .
O que seria esse
conhecimento explícito em mim como um amor
inflamado? O que seria essa dor que vinha
escondido no prato de comida e tirava o apetite ?
Que vinha entrelaçado
na fala dos desenhos
animados e enfartava o riso? Onde brotava, num peito
pequeno de menino ,
uma água tão
escura ? Quando
ela rompera o tecido e começara a escorrer pelo corpo ?
Fôra antes de me ver refletido mais vezes
em fundos de privadas
do que em
espelhos ?
Antes de Rimbaud
me seduzir para a venda
como escravo sexual
aos asseclas do rei
de Choa?
Fôra antes de cantar a Internacional , as quartas ,
ao lado de pederastas ,
alcoólatras , poetas
e açougueiros
que ainda acreditavam em
Deus aos domingos ?
Quando
compreendi que não
era o que
se escondia no guarda-roupa que me causava aquele mal , mas
a certeza de que
o mundo – não apenas
eu e as minhas
fraquezas – acabaria?
Então
aguardei a sua consolidação
em noites
de trovões , em dias
de discussão adulta – que
traçavam o rumo de suas
vidas conjugais e a permanência
do eu no limiar
das coisas alegres .
Então o
aguardei impregnando-o de imagens retiradas dos livros
de gravuras . Na fala
da gente humilde ,
sempre a rever na cozinha
seus temores e suas
certezas catastróficas,
complementei minha visão tingindo-a de sangue
humano – substituindo árvores tombadas por homens
tombados.
Não via no rosto das
pessoas esse medo
que me
tirava o sono . Não via
em seus
gestos de prazer uma tentativa
reconfortante de aproveitamento
imediato – o fim
estava próximo , algo me
dizia em forma
de pânico pediátrico
– e haveria mortes ,
talvez fogo nas ruas e
no cabelo das mulheres
– e haveria dor no coração
e nos braços
ensangüentados das enfermeiras.
Não via em seus gestos de ódio uma revolta
consciente ,
um ato de reprovação:
o fim do mundo talvez já
caminhasse nas ruas
escolhendo a dedo uma forma de melhor efetuar a
sua desgraça
– e haveria confusão :
talvez mães chorando crianças
despedaçadas,
e haveria desespero nos olhos do menino
sem mãe
para
consolá-lo.
Não via no choro das
mulheres – tão evidentes
– nem na lágrima seca que rolava quando as crianças
não estavam um choro
ou uma lágrima
a respeito da verdade que a todo instante me redimia a um
único pensamento .
Talvez o fim já houvesse sido deflagrado: lento e preciso, se espalhando pelo
ar, como a sombra de uma nuvem envenenada, apodrecendo sobre as cidades.
Nada se avistava
no tempo, ou nas ruas.
Aguardar, essa
era a palavra de ordem.
*
“E para cada dia bastará apenas o
seu mal”
Mateus 6:25-34
domingo, 8 de dezembro de 2013
DECORAÇÕES ou DE CORAÇÕES ENCOSTADOS
enquanto ela partia | mesmo
querendo voltar aos braços dele | ele apenas sorria | com aquele sorriso que
ela bem conhecia. | era um sorrisinho danado de mineiro | daqueles sorrisos que
escorrem do lado esquerdo dos lábios | e que fazem brotar um cheiro de
desejo e sensualidade no ar. | depois de perceber que ela percebera seu sorriso
no canto dos lábios deliciosamente sensuais | ele apenas disse | sem olhar pra
canto algum | apenas na direção dos olhos dela: | "somente um coração é
capaz de entender outro coração". | pode parecer piegas | e é | mais do
que parece | é da essência da vida que estamos tratando. | é do combustível da
vida que falam os sorrisos e o amar sem medos. | ele abrira sua alma ao sorrir
nos olhos brilhantes da musa. | sem direito a setas na mesma direção | os dois
seguiram amando... [CléberCamargoRodrigues]
domingo, 24 de novembro de 2013
Comedìa
I -
Inferno
Nenhuma
pista ou clareira
para tentar a aterrissagem
para tentar a aterrissagem
e,
ademais,
o trem de pouso emperrado
o trem de pouso emperrado
Retornar
ao lar
– oh estações, oh castelos –
– oh estações, oh castelos –
e
ninguém ter dado pela sua falta
II -
Purgatório
A TV
ligada para ninguém
– em
consultórios ortopédicos –
o cheiro
do tédio das atendentes
&
o clamor dos telefones
A
fila de mulheres pensativas
–
nos pronto-socorros –
as
crianças tossindo em seus colos
o
senhor debruçado sobre as rugas
A
ante-sala dos CTI’s
as
antecâmaras das policlínicas
os azulejos brancos, o ventilador de teto
–
nas salas de espera dos centros de radiologia –
E
nos demais lugares onde a morte fareja
III
- Paraíso
Praticamente
nada a fazer senão para o pobre agente do Centro de Controle de Pragas. A nuvem
de veneno borrifada sobre as macieiras rouba o brilho das asas dos anjos e
embaça o aço de suas espadas. De manhã, o batalhão de arcanjos em ordem unida,
treinando para a possível batalha. E é sempre manhã, aonde quer que se vá. Longa
manhã de profunda ressaca. Os que leram estão de acordo, é o mesmo paraíso descrito
por Dante. Um saco!
*
*
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l. rafael nolli
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
QUANDO O CORAÇÃO AMANHECE ARRANHANDO A TERNURA DO DESEJO
...coisa de gente sem frescuras | cê qui sabe | mas | ternura cura | faz remelexo na textura da vida | mesmo na vida da gente que anda correndo de um lado pra outro | sem tempo pra apalpar o sorriso impreciso do silêncio das horas.
olhar desejante | eu revejo um dedim de prosa que não tirei | eu revejo uma brincadeira deliciosa que deixei escapar | eu revejo amigos 'panhando' manga maranhão no quintal da casa de minha vó materna.
nesta tresloucada correria | olhar desejante | eu revejo a força índia.negra.brasileira de minha vó paterna que nunca vi em carne e osso.
olhar desejante | eu revejo todas as mulheres | amigas irmãs imãs parceiras companheiras queridas mães filhas musas | amadas | que são fadas a encantar minha estrada | a alargar meus sorrisos | a fazer de meu coração uma bússola | bálsamos que são | estrelas a guiar | norte de vida e viver inteiros.
olhar desejante | miro a sina | a vivência | o mundo além da esquina.
olhar desejante | sigo, amando...
[CléberCamargoRodrigues]
olhar desejante | eu revejo um dedim de prosa que não tirei | eu revejo uma brincadeira deliciosa que deixei escapar | eu revejo amigos 'panhando' manga maranhão no quintal da casa de minha vó materna.
nesta tresloucada correria | olhar desejante | eu revejo a força índia.negra.brasileira de minha vó paterna que nunca vi em carne e osso.
olhar desejante | eu revejo todas as mulheres | amigas irmãs imãs parceiras companheiras queridas mães filhas musas | amadas | que são fadas a encantar minha estrada | a alargar meus sorrisos | a fazer de meu coração uma bússola | bálsamos que são | estrelas a guiar | norte de vida e viver inteiros.
olhar desejante | miro a sina | a vivência | o mundo além da esquina.
olhar desejante | sigo, amando...
[CléberCamargoRodrigues]
foto (c) Simão Kursselldorff
terça-feira, 5 de novembro de 2013
QUESTÃO DE POESIA

adoro saborear a morte
com excesso de requinte
dizendo-o quando seja
um momento esperado
eu não espero nada
nem quero saber
acima de tudo
fico meio mudo
encaro o mundo
de defunto ao fundo
das palavras olhando
uma questão de poesia?
cada interpretação alia
uma verdade própria
do dia ou da noite
saio a andar
sobre a estranheza
desejando o regresso
Acabo De Recordar
(tinha este título
para poder declamar
de castigo, uma vez, duas;
nem uma, calhou assim)
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Hefesto/Vulcano/
Era
um deus, no entanto.
Porém,
não o poupavam. “Coxo Coxo
Coxo”
sussurravam
pelas ruas.
Nos
inferninhos e na boca do lixo
o
consenso era geral:
“feio
como um beliscão no cu”
“a
própria mãe reconhece a merda que fez”
&
demais despautérios.
Entre
os seus, em língua grega
– ou
naquela que lá se fala
&
tampouco compreendemos –
a
fama de corno corria aos quatro cantos:
“vencido
por um amor de espuma”
“enfeitiçado
pelos olhos de cigana oblíqua...”
&
coisas do tipo.
Distraído,
no cômodo do fundo,
iluminado
pelo fogo da fornalha
ele
nada ouvia
senão
o som do martelo malhando o metal.
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