sábado, 19 de janeiro de 2013

Talvez!


Talvez!

Talvez não percebas meu silêncio
nem escutes meus gritos ao longe
em áridos desertos no coração da África

Talvez de teu pão não me sobre migalhas
e, tu não percebas minha ausência

Talvez o meu corpo raquítico
não faça diferença
nem tenha semelhança
com teu rosto indiferente

Talvez a fome chupe nossos ossos
na mesma solidão e incertezas

Talvez sejamos espelhos
onde o que se vê
é apenas o reflexo do egoísmo

Talvez sejamos o próprio egoísmo
refletidos nos olhos calmos
de almas desumanas que pregam
(e, apenas pregam)
a igualdade entre os povos

Talvez sejamos juntos
explorador e explorado
num gladiar certeiro ante a morte.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Sussurros

Sussurros Em outra manhã que chega meus olhos vermelhos e cansados ainda esperam o sinal, ainda miram o azul... como que numa súplica. Diante do novo café Renego a insônia e quase inocente deixo a ânsia me trair achando ouvi-la. Sussurros infindos que se renovam vadios em cada dia que chega... a cada ilusão senil multiplicada em mim. A verdade muda então renasce quando adormeço... quando te esqueço até a outra manhã.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O último cigarro


     O último cigarro.
     O primeiro do dia.
     A primeira tragada lhe provocou uma certa tontura, típica do primeiro vestígio de fumaça invadindo brutalmente o pulmão.
     A última noite não lhe oferecera muitas recordações e o cheiro do último copo de whisky ainda lhe saia pelos poros. Não se lembrava da última vez em que saíra de casa - dias, semanas?
     O primeiro gesto foi se sentar e soltar lentamente a fumaça, desenhando uma cortina branca pela luz fraca dos primeiros raios de sol que passavam pela janela. Os cortes, rasos, no pulso, ainda ardiam.
             Cinzas no chão.
     O último cigarro seria um momento para reflexão, planejamento, mudanças - 
o primeiro pensamento que lhe veio a cabeça, enquanto tragava novamente, dessa vez mais pausadamente, quase um suspiro.
             Fumaça
     As últimas horas da noite anterior lhe vieram em flashes à mente.
     As primeiras lembranças, vagas, não lhe serviram como base para um reflexão. Estranhas. Esparças. Esfumaçadas
             Cinzas no chão
             Melhor ir mais longe, no passado. Tragou novamente.
     Primeiro, lembrou-se rapidamente da mãe. Estranho, pensou.
             Fumaça
     A última vez que visitara a mãe, prometera que iria mudar, parar de fumar, lembrou-se.
             Melhor pensar em outra coisa. Tragou. Profundamente.

             Fumaça

             Cinzas.
             Melhor pensar em alguma coisa, pensou.
             Tragou.
             Fumaça.
             Cinzas
     Primeiro pensar, depois refletir. Mas pensar em quê? Não havia nada para pensar.
             Melhor, então, planejar, buscar mudanças, tragou.
             Fumaça.
     Última tragada, não há mais tempo.
             Cinzas.
             Melhor deixar isso pra lá, bobagem, concluiu jogando a bituca no vaso do cacto morto.
             Fumaça
             Melhor apanhar mais um maço na gaveta antes de sair, refletiu, talvez passasse na casa da mãe mais tarde, planejou, e não queria ficar sem cigarros pelo caminho.
     Mudou o cato de lugar, talvez voltasse a viver com um pouco de sol; soprou as cinzas do chão e saiu sem protetor solar.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Último Capítulo

Seria tão mais fácil estar em novela da Globo, 
onde após o auge 
tudo se resolve.

Tenho andado por demais no clímax, 
ápice,
do momento-chave 
e nada acontece,
nenhum acidente grave, 
morte, tsunami, 
não chegam ets pilotando naves
com a resolução de todos os problemas
para me oferecer.

o meu roteirista é incompetente
ou deve ter Alzheimer.

sábado, 5 de janeiro de 2013

CONTINUO/ CONTINUA

CONTINUO

ah sim, sim
assim mesmo
renascido

um novo
ciclo

continuo tempo
Assim

CONTINUA

numa linha
de renovação
professa

o regresso
iniciado

contíguo tempo
Mim

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

amor





amo - te por trás das cortinas de concreto
tomo de assalto teu corpo em invasões bárbaras

imaginando - te em gozo
mordendo os lábios até manchar o vestido

arrancar a pele
despir devagar a cobertura de tecidos
removendo camadas de medo

absorver a essência do que renego
respirar o ar que respiras
e morrer como morrem os anjos caídos.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Superação




Dê-me de volta os passos
Que perdi a tempos idos.
Faz-me compreender a fadiga
Deste membro amputado.
Inclino a cabeça
E espero a sorte
Que me virá.

O corpo latejante se entrega;
A alma, no entanto é toda luta,
Enquanto a morte com a vida desespera;
A vida sobre a morte é absoluta.




*** Poema do livro Itinerário Fragmentado (Quártica Premium, 2009)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Mosaico

Mosaico Agora... quando as horas se avolumam e as pessoas fumam junto ao quadro da sala, respiro o que a vida exala nos dias de primavera. Feito erva que se macera para o banho de limpeza, com toda a destreza me decomponho. E ante ao futuro medonho, junto cores em mosaicos como se fossem meus “cacos” de sonhos, brisas e espinhos. Cristais com vinhos... Aromas de amores: Seios, nucas e flores. Num trago manso ainda me alcanço no brinde à vida. Minha taça erguida reflete a sede de minha boca de sal... O silêncio é o sinal de que na noite a esmo já não sou mais o mesmo.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

la.zer




Escolhas leves, bem breves.
Nesse ócio, estranho e fóssil...

Fazer não é lazer!

la.zer
(ê), s. m. Tempo livre, vagar, ócio.

domingo, 9 de dezembro de 2012

QUANDO MINHA ALMA ENCONTRA PESSOAS DA MESMA [MINHA] TRIBO



tenho comigo, desde sempre
um limão que a limonada alcança
um papel em branco pro lápis sem ponta
um embornal lotado de saudades silenciosas.

um reencontro aqui, outro ali
um quilo e meio de certezas depois
redescobri que 'um gambá cheira o outro'
desde então, é meu coração quem desnuda os perfumes mais gostosos...

[ CleberCamargoRodrigues ]

sábado, 8 de dezembro de 2012

Rachadura


Você estanca o corte, tampa a ferida,
(da maneira que pode)
e um dia
essa defesa cai,
a mão afrouxa, deixa de apertar,
(porque uma outra mão convida)
então
nada contém a correnteza forte
- ela sai desabrida,
tão raivosa,
correndo o tempo perdido por ser escondida -

o remédio é afogar-se:
nadar contra essa vontade toda
não pode ser considerado Vida.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

VERSOS PARES

Deixo os meus castelos
no ar, aos sonhadores
e suas mulheres.
As mulheres, sonhadoras,
são os seus homens,
deixo tudo a elas.

Eles, para serem merecedores
das mulheres que têm,
deixam tudo, aos seus
filhos, mulheres e cães.

O meu papagaio fica
para a vizinha, é tudo.

Agora, também, os ímpares.

Tudo deixo aos seres,
ao ser como eles, aprendi
a respeitar as pedras.

Abro da mão tudo,
deixo os ossos, as ideias
levo comigo as que tive.
Ficam as que fiz,
Nesta mistura de desejo.

sábado, 24 de novembro de 2012

1 – Criogenia



b) Ötzi, o Homem do Gelo 

Resta o corpo imolado
guardado nas entranhas
dos Alpes Ötzal                                 

Oferecido em hecatombe
a montanha –
que tem os seus caprichos –
guarda intacta a oferenda

A dieta de raízes
& os ossos de um mamífero               [Ochotonidæ] 
revelam seu cardápio final

O imenso freezer preservando
as tatuagens, a cor dos olhos             [primeira cor na escala de Martin Schultz]
a artrite                                                 [Borreliose de Lyme]

para que o Aquecimento Global
ou um alpinista o resgate
– Lázaro –                                [אלעזר]
de volta à luz dos holofotes



* do livro Elefante - editora Anfisbema, 2012

Existe Amor Pelo Povo Palestino?



Caros(as) Companheiros(as) de jornada poética do Poema Dia,

faço uso do meu dia de postagem para compartilhar a lágrima, a indignação e o apelo de paz, justiça e solidariedade do poeta Fernando Cisco Zappa em face do terror que se alastra sobre/sob a Palestina.




EXISTE AMOR PELO POVO PALESTINO?

não ouvimos
não sentimos
não vêmos
não nos tocamos
não existe amor pelo povo Palestino

não comem em paz
não cantam em paz
não sonham em paz
não riem em paz
não existe paz para os gestos mais vitais e simples na Palestina

as igrejas calam
os governos consentem
as armas gritam
a fome cresce
a esperança desaparece
o terror se alimenta
no coração de quem nasce na Palestina

não se cale diante do crime e dos noticiários favoráveis ao crime
da mídia global controlada pelo capital transnacional
o único sentido de tudo isso
é o vampirismo de um estado bélico
que para se manter no poder
se alimenta ferozmente da guerra
que extermina vidas, semitas árabes israelenses palestinas
eu quero que esta poesia se espalhe
eu quero que este falso espelho democrático do mundo se estilhace
eu quero que você se envolva
eu quero que você se mova
eu quero que nas praças do planeta as crianças cantem o amor pela Palestina
eu quero que vários tradutores assumam a transcriação deste poema
e que o poder da palavra ocupe a cena da guerra
e de uma vez por todas
lutemos para que os palestinos tenham o direito de viver
de comer de estudar de brincar de sonhar de criar
de construir cidades e mundos em paz na Palestina


cisco zappa
primavera do hemisfério sul
brasil
2012



terça-feira, 20 de novembro de 2012

racismo

o filme era de orson welles
e Almir o único negro naquela sala de cinema
de  ipanema

no ar desconforto silencioso
pelo fato de haver um invasor
quase  alienígena

cena mais forte
do que as verdades e mentiras da tela
acontecia no palco escuro

não disfarçava – se olhares e resmungos
explicito ataque
ao abusado transgressor

éramos dois intrusos naquele lugar
porque dessa maneira tratavam
negros e brancos pobres .

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Um corpo




O cortejo passa lento,
E nos braços,
os homens
Levam um corpo.
Não se pode descrever
A cena.
Não se deve falar
Da infâmia.
Levam um corpo
Levam um corpo
Levam um corpo
São murmúrios,
Cochichos em todas
As janelas.
Quem matou,
Quem morreu não sabem.
Mas vêem um corpo






*** Poema do livro Itinerário Fragmentado (Quártica Premium, 2009)

domingo, 18 de novembro de 2012

Círculos

Círculos Retornar... Eis o que me aflige. E com a velha efígie cunhada no ontem, caminho de encontro ao mesmo recomeço... Sem fim... O perigo de voltar hoje é meu enredo, e o futuro cortês já não faz segredo: eis me aqui outra vez. Seguir... Numa grande reta... sem placa, sem meta, nem ponte, nem nada... Ao horizonte sem seta. Partida sem chegada. Por fim... Os círculos só na poeira de uma lembrança turva. E sem eira nem beira, numa forasteira curva entre uma e outra reta, minha vida se completa. A J Lobone

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

lavoisier





a natureza me diz
[em sua mudez]
:
mude

ao modo do vento
à maneira das marés
valse
enlace as manias
das mutantes
nuvens

o instinto fala
[à minha miudez]
que toda hora
tem sua aura
toda espera tra[i]rá o agora
que a natureza até  transforma

e este amor
por ti, meu bem
é  lei maior
e não se t[r]oca


valéria tarelho


*imagem: página de título do primeiro volume do Traité de Chimie Élémentaire, 
por A L Lavoisier

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

VIVER MENINO, MORRER POETA




A poesia agarrou minhas mãos, de tal forma que ela parece um carrapato no lombo de um animal. Nós dois [eu e a poesia] agarramo-nos um no outro, eu nela, ela em mim, tal qual agarrados andam e vivem um casal de loucos apaixonados, apaixonados loucos.
Não sei onde dará isto, este ‘nheco nheco’ todo, mas é assim que tenho andado, agarrado à poesia, mesmo que eu ache uma bela duma loucura e em alguns momentos uma grande bobagem, viagem sem destino, passagem sem volta.
Uma linha fina divide o menino que carrego dentro de mim e o poeta que cismo ser, assim como a vida que levo e a morte que me espreita ao fim de cada verso despejado.
Sempre achei que a poesia ilumina cada minuto de nossos dias. Nunca imaginei tê-la tão presente em minha alma e em tudo que sou. O que me emociona tanto, vez ou outra incomoda, a mim mesmo, mais que o normal.
Abro asas, vou voar e no meio do voo descubro que não há asa alguma. Vejo o invisível bater à minha porta e acabo não me incomodando, mas quando o invisível cisma de bater na minha aorta, aí é que o bicho me pega. 
É assim que eu descubro de onde nascem as lágrimas salgadas que descem silenciosamente no meu rosto. [lembro que alguém me disse que homem não chora – eu sempre volto a ser criança].
Na gaveta da memória, uma tonelada e meia de sentimentos, um cansaço tão grande, uma briga boa e sem fim entre o ‘viver menino’ versus o ‘morrer poeta’...
[ CleberCamargoRodrigues ] 
[ foto (c) CleberCR/Gaveta da Memória ]

Esparta


A lágrima do macho forte
derramada diante da mulher
que lambe das suas costas toda a dor da guerra
deveria mesmo ser colhida em frascos.

Nunca chorar na frente da amada
é para os homens fracos.


Sarau do Mundo Mundano