sábado, 20 de outubro de 2012

sobre a canção de Bob Dylan


quase não sei o que dizer
a respeito de blowin’ in the wind
talvez tente traduzir a letra literalmente
sem importar a falta de sentido
soprando ao vento

apenas ouvir a voz anasalada do cantor repetir
sem contar quantas vezes
blowin’ in the wind

sentir o ar na penumbra do quarto
esperando a inauguração do dia
a festa silenciosa das luzes
movimento crescente de máquinas e gente

e confessar
o quanto isso deixa comovido.


Flávio Macahdo

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Declínio




Depois da noite
Vem um dia qualquer.

Depois do rei
O reinado destituído.

Depois do doce
A água que refresca.

Depois do amor;
O dinheiro sobre a cômoda
E o caminho a se seguir!






*** Poema do livro Itinerário Fragmentado (Quártica Premium, 2009)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Novelo

Como um novelo a correr pelo tapete, vi minha alma nua e cantada em falsete, se perder no tempo e orbitar na lua. Num choro mudo qual um vazadouro em noite escura, guardei sob escudo folheado a ouro, a minha ternura. Até que na tarde pintada num azul “papel de maçã”, chegastes em alarde trazendo do sul um fio de lã. Tecendo abraços em pontos precisos em cada madrugada, me destes os passos bordados em risos... com o fio da meada.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012


SÁBADO 03 DE NOVEMBRO
AS 19:30 HS NA CASA DAS ROSAS
TEM SARAU A PLENOS PULMÕES
Lançamento do Livro da poeta Flá Perez , "POESIA SE ESCREVE COM T"
ENTRADA FRANCA MICROFONE E PALCO ABERTO
Av. Paulista , 37 Casa das rosas
Apresentação : Marco Pezao, Carlos Galdino e Jaime Matos




sábado, 6 de outubro de 2012

De verdade


Retomando o primitivo

(profundo e obscuro mundo)

quero dizer: nada é novo.

Tudo é certo e errado

e perigoso: Deus e o diabo.

 

Mas em verdade eu te digo:

do lado de dentro, a dor

mais dura, vem acordar

o que ainda dura: amor.

 

Insisto no assunto: amor, amor, amor...

Está escrito nas escrituras gregas.

Está pintado nas figuras das igrejas.

Está servido no meu prato sobre a mesa.

Este amor me mata?

 

Já não sei o que eu sinto

(este amor me mata?).

Mas em verdade eu te digo:

eu te amo mesmo assim!

Mas em verdade eu te digo:

eu te quero mesmo assim!

Mas em verdade eu te digo:

o amor se constrói no perigo.


Sidnei Olivio

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

NATUREZA DOS VERSOS


eu que tenho direitos hereditários
a todos os sonhos do mundo
bem como aos títulos de nobreza
de quem se arma cavaleiro
pela pureza do coração intacto
ungido da inspiração divina
dos adivinhos da beleza em tudo
ou qualquer coisa feita poética
duma natureza diversa dos versos

pois sou eu, assim mesmo, uno
com o Universo pejado de astros
onde viajantes errantes viajam
meteoritos de uma vida precária
cujo impacto se pressente vindo
das memórias minerais e outras
cada uma mais real que a outra
no conjunto informe das formas
arquetípicas do natural primeiro

sou republicano ao rés do riso
cristalino das crianças felizes
cuja natureza acredita a verdade
sem desconfiar de Deus e ainda
menos da não existência do Pai
Natal de todos os dias nascidos
Para serem aniversário de Jesus
sem necessidade de ser pregado
a nenhuma cruz, assino de cruz

X
(celebrando o V de Outubro,
data da Implantação da República
em Portugal)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Poemeto para estes nossos novos tempos...

Como na vida, por aqui, ou no "FB"
nada é mais do que antes,
tudo é velho, tudo se prevê
vem e passa, vira escombros

uma coisa se sobrepõe à outra
o que era novo e sui generis,
agora dá-se aos ombros...
Todo passado vai ao baixio
se afoga rapidamente,
soterrado inclemente,
vira puro extravio...
Por aqui, como na vida
quando vem o dito novo
o velho já é coisa banida...
o que agora se exorta
num átimo ,não mais nos importa
sucumbem-se em si mesmos
enterra-se e fecha-se a porta...



segunda-feira, 24 de setembro de 2012

instante



Arte: Bia, Sob a lua.


se houvesse lua
se você pudesse ouví-la

mas nenhum canto
é preciso,
sugestivo o bastante

nem este instante
em que, nua, ela chama



hercília fernandes



Elefante

Capa do livro elefante, 2012.

O elefante

o tratador com a cabeça
a b e r t a
não pode explicar
a possível dinâmica da            FUGA

nada sai de sua boca
senão                                                               /m i a s m   a/
moscas & frag
men
tos
dos dentes                  /marfimanchados/

(sangue sobre o chão pisoteado
[a arena no triunfo do touro
  ou do toureiro])

um milico emerge na cena
pequeno & inútil
o .38 na mão:

o primeiro disparo
põe fim a ladainha dos cães
e ascende das crianças o berreiro



* Para adquirir um exemplar do livo: coletivoanfisbena@hotmail.com

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

em exposição



era um animal enjaulado
a superfície da pele se confundia
com as grades de tal forma
que ficava invisível
naquele improvável zoológico.




Flavio Machado

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Amor Fragmentado





Como dois vultos,
lado a lado,
estavam divididos
pela distância.
Separados metafisicamente
na incoerência
do que se perdera no tempo.
Sentados cada qual na extremidade
de um banco de ponto de ônibus,
num silêncio irrevogável,
olharam-se,
sorriram ao bom-dia mudo.






*** Poema do livro Itinerário Fragmentado (Quártica Premium, 2009)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Viajante

Vi pegadas. E uma após outra, lá estava eu a seguir tua assinatura na terra molhada daquela primavera doce qual flor de cacau. No meu espanto ao ver a pegada derradeira, ergui meu olhar ante a jardineira de tua janela. Você, que ali de posse de risada cândida, cantava feliz por minha alma... lânguida, que enfim ancorava junto à tua. E sem preço, sem óbolo ou fatura, descansei em teus véus de doçura, e me perdi nas curvas que fazem de mim um eterno viajante.

domingo, 16 de setembro de 2012

Fluxo I


tanta coisa passava na sua cabeça naquele instante que não conseguia raciocinar muito bem afinal o que ele poderia querer com ela ali naquele lugar porque nunca tinha ido até ali mesmo com a bela paisagem que podia-se ver daquele ponto nunca tinha ido até ali com ninguém era estranho uma atitude estranha realmente por isso trouxe a faca no bolso era sempre bom estar prevenida contra qualquer tentativa estranha que pudesse vir daquele homem mesmo que trocassem olhares e sorrisos de vez em quando era muito estranho marcar um encontro em um lugar estranho ele chegou atrasado mas sorrindo como sempre aquele sorriso que sempre deixava ela sem saber o que fazer de repente antes de dizer qualquer coisa fez um movimento que realmente a surpreendeu e antes que pudesse finalizá-lo ela já estava com a faca em seu peito perfurando diversas vezes e depois correndo sem ao menos ver as belas flores amarelas que ele trazia escondidas no casaco

Isaac Ruy

sábado, 8 de setembro de 2012

PRA AMIGA QUE PRECISA DE UM ABRAÇO, MANDO UM MONTE DE PALAVRAS PRA ENCURTAR DISTÂNCIAS.


se você estivesse aqui 
ganharia em silêncio um abraço apertado
- daqueles abraços que esquentam o coração da gente
e escorrem em sorrisos pelo rosto afora.

daqueles abraços que fazem a gente tremer as pernas 
e gaguejar na hora de falar
abraços que fazem a gente ouvir estrelas.

daqueles abraços que fazem querer abraçar o mundo todo 
e todo mundo
abraços que são a cara da gente.

daqueles abraços que chegam na hora que mais precisamos 
de um abraçar cheio de afeto e carinho
abraços que pedem música pra dançar 
ou que fazem a gente dançar sem música.

daqueles abraços que despertam sorrisos 
e gargalhadas até a barriga doer
abraços que abraçam quando a gente mais carece,
mesmo quando a gente menos espera.

na certeza da distância
sabendo que correio não entrega abraços perfumados
envio palavras e torço
que seu coração acorde sorrindo.

[CleberCamargoRodrigues]

Iniciática

Esgarça
a gaze branca que me cobre.

Na meia-taça
derrama qualquer bebida,
mesmo a menos nobre.

Tinge de chamas, aguardentes,
se embriaga em auréolas rosadas
- de anjo elas não têm nada -

Asas caídas, no meu céu ungido:
Segue esse líquido até perto do umbigo.

Percorre um Zênite, a anca
junção do Elísio e Inferno,
e dorso-ventral
e inversamente
desemboca sua boca na nascente.

Absorve o seu Karma
meu gozo e presente:

Absolvo sua alma,
conservo seu corpo,
éter e semente...


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

PARTILHA



PARTILHA

quando o POEMA DIA
está uma semana fechado
passa a ser um desafio
sentir sobre os ombros
a importância de manter
toda a coerência capaz
de enfrentar o tempo

garantindo este dia
achas chegada a altura
de fazer crónica breve
tendo por tema o dia
com a presença dada
à necessária poesia
de partilhar poemas

a coisa é sumamente
simples e só requer
vontade de escrever
vazando o conteúdo
dentro desta forma
de formas generosas
versando seus versos

prometendo o corpo
a quem dele se faz
o devoto ou devota
capaz de votar nele
os prazeres da carne
unidos pelo espírito
na votação da acção

onde ficar é navegar
às quatro partidas
do mundo concebido
para viver concepção
da inspiração capaz
de dilatar cada peito
a sentir a inspiração!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

karawane

jolifanto bambla ô falli bambla
grossiga m'pfa habla horem
égiga goramen
higo bloiko russula huju
hollaka hollala
anlogo bung
blago bung
blago bung
bosso fataka
ü üü ü
schampa wulla wussa ólobo

hej tatta gôrem
eschige zunbada
wulubu ssubudu uluw ssubudu
tumba ba- umf
kusagauma
ba - umf

(1917) Hugo ball

sexta-feira, 24 de agosto de 2012


Esparsos em maio de dois mil e três


1
Vencendo barreiras e himens,
galgando distâncias e reentrâncias,

superando obstáculos, seios e vaginas,
plantando pênis, semeando porra:

o sexo de ontem faz os homens de amanhã.

Elaborando idéias e césio 137,
construindo bases aéreas e área 51,

demolindo pastos, homens e culturas,
plantando urânio, napalm e armas bacteriológicas:

o imperialismo de ontem faz os revoltosos de amanhã.  

3
Refugiados em florestas, haxixes e cocas,
escondidos em escombros, fuzis e desertos,

falando o latino, o soviético, o molotove,
arando terra invadida, amolando foices no escuro:  

todos os caminhos que nos separam da liberdade
 passam pelo cabo Horn.

4
Carregando trouxa de roupas e embargos econômicos,
superando estiagens e dívidas externas,
nós prosseguimos nos fechando.  

Levando compras e ordens,
vivendo de especulações, inflações e salários mínimos,
nós prosseguimos nos escondendo.

E não haverá casa, muro ou vala,
não restará refúgio, guetos ou exílios:
e nós prosseguimos atados por correntes e nós.









segunda-feira, 20 de agosto de 2012

mercado de peixe

ana enxergou o mau cheiro
como única verdade

a mulher grávida joga iscas
ao canal poluído

aprisionava pequenos peixes
no sorriso da manhã.



 Flávio Machado