sexta-feira, 24 de agosto de 2012


Esparsos em maio de dois mil e três


1
Vencendo barreiras e himens,
galgando distâncias e reentrâncias,

superando obstáculos, seios e vaginas,
plantando pênis, semeando porra:

o sexo de ontem faz os homens de amanhã.

Elaborando idéias e césio 137,
construindo bases aéreas e área 51,

demolindo pastos, homens e culturas,
plantando urânio, napalm e armas bacteriológicas:

o imperialismo de ontem faz os revoltosos de amanhã.  

3
Refugiados em florestas, haxixes e cocas,
escondidos em escombros, fuzis e desertos,

falando o latino, o soviético, o molotove,
arando terra invadida, amolando foices no escuro:  

todos os caminhos que nos separam da liberdade
 passam pelo cabo Horn.

4
Carregando trouxa de roupas e embargos econômicos,
superando estiagens e dívidas externas,
nós prosseguimos nos fechando.  

Levando compras e ordens,
vivendo de especulações, inflações e salários mínimos,
nós prosseguimos nos escondendo.

E não haverá casa, muro ou vala,
não restará refúgio, guetos ou exílios:
e nós prosseguimos atados por correntes e nós.









segunda-feira, 20 de agosto de 2012

mercado de peixe

ana enxergou o mau cheiro
como única verdade

a mulher grávida joga iscas
ao canal poluído

aprisionava pequenos peixes
no sorriso da manhã.



 Flávio Machado

domingo, 19 de agosto de 2012

Exame de balística (armapalavrarmada)



não vou fazer poesia
o silêncio marca o meu tempo
(ampulheta precisa do que foi e virá)

não farei das palavras meu grito
meu discurso não é uma guerra
não carrego a palavra como arma
(artifício de autodefesa e contra-ataque)

em minhas mãos não está o artefato leviano
que faz dos fortes vítimas do acaso
corrupção de corpos miseráveis
(a palavra é minha aliada)

não trago bandeira – símbolo escravizante –
apenas a palavra embargada
numa tentativa de dizer o desdito
(confirmo as hipóteses – não faço guerra)

as palavras que apresento
dormiam no dicionário
não apresento-as como armas
(apenas complemento de minha loucura)

o poema dorme na eternidade
entre as pernas de Sofia
 – abismo de prazer e insanidade –
(meu querer se expande)

tudo vai além da sorte do homem
que lambe o membro de Adão
(Circunvolução imediata)

o sêmen escorre por gargantas e labirintos
unindo versos extintos a várias eras
trazendo às mãos do carrasco um poema que sangra
(mênstruo ineficaz de Pandora)

não... não quero a palavra como arma
prefiro empunhar um Kalashnikov
declarando abertamente a insatisfação de nossas veias abertas
(não vou prostrar-me diante da águia – ave de rapina)

não vou submeter-me à tua onipresença
que se cristaliza na memória – deus infame –
a corromper o gênero humano
(não serei aliado de Cézar, nem de Marco Antônio, nem de Cipriano)

a poesia dorme num silêncio resoluto
enlutada transpira venenos – absorvendo os gases de câmaras secretas –
onde judeus putrefatos são exibidos em vitrines nazistas
(o mundo revive a paranóia do holocausto)

não quero possuir uma definição
não farei estatísticas – nem paralelos algébricos –
a poesia incorporou o fardo que é a inumanidade
(esta desumana causa corruptível do século dos séculos)

na tentativa de dizer a verdade
reinvento-me em transversais desejos
não serei apolítico – nem rebelde sem causa –
limpo a bunda do planeta com a bandeira burguesa
dando ao ianque o que é do ianque
e ao latino o que há muito o seu sangue derramado pede

A poesia exige presença
a palavra exige ser arma – meu domínio sobre ela já não basta –
levá-la-ei junto aos suprimentos
em bolsas, bolsos e mochilas: junto a projéteis
(empunharei os versos e o Kalashnikov)







*** Poema do livro Itinerário Fragmentado (Quártica Premium, 2009)

sábado, 18 de agosto de 2012

Transformação

Na manhã da vida avistei a última ferida ainda aberta… e na espera incerta de um outro movimento me dei por vencido. Distante de mim ignorei o meu fim e bradei por clemência. E minha inocência de homem comum que me cegou por dias… enfim, me levou por roças… me entregou ao tempo. De espírito refeito me dei o direito ao caminho reto. Distante da falha… na casa de palha, me dei por completo. Anderson Julio Lobone

sábado, 11 de agosto de 2012

há.li.to

29


detesta reconhecer os riscos e tranca
essa luta reta 

Procurando afasta do limite 
esse brusco nome 
que vaza e enlameia

A visão
desejo
somente à noite

Selvagem seu
vago

orando aos punhos
desejam soletrar
dissabores onde a nuvem descalça
num hálito
e o desejo norma

Pesa opinião
















há.li.to
s. m. 1. Ar expirado. 2. Cheiro da boca. 3. Exalação. 4. Bafo. 5. Poét. Brisa.

   Imagem: http://nuuro.tumblr.com/post/28930888093




quarta-feira, 8 de agosto de 2012

EU NÃO SEI O QUE DIZER ÀS PALAVRAS




Tem 07 chaves, cada palavra que cismo escrever. Porta aberta, silêncio quebrado e puro desafio, um kg e meio de desafio e êxtase – pra ser bem mais exato. São palavras que aliviam o peso do mundo que carrego nas costas.
.
De tanto querer aparecer [aprender], danadinhas que são e teimam de vir a serem, palavras acabam pulando pra dentro de poeminhas, textículos, rabiscos em qualquer papel e lugar, mal traçadas linhas, alamenórdulas sem gracistas de toda sorte, frasinhas de dizer alguma coisa e coisa nenhuma.
.
Palavras removem minhas tripas dizendo que estou com fome, doem meus bagos quando não sei o que dizer, usam meu peito cabeludo pra dormir aconchegadas, beijam minhas orelhas quando sussurram nos meus ouvidos de ouvir besteira, alisam a tampa da minha cabeça, refrescam minha nuca, olham minha careca, descalçam meus pés cansados, relam nas minhas coxas, ouvem minha boca de dizer sorrisos e abrem meus olhos de desejar bons dias. 
.
No fim de cada tarde, quando a lua anuncia a noite beijando o quintal de minha casa, palavras deixam meu corpo quase todo tatuado de puro amor / ardor / ar / dor.
.
Elas nunca foram embora, nunca me abandonaram, apenas descansam sem pedir benção, sem pedir licença, sem pedir nada. Traquineiam, escorregam, escorrem, correm, morrem, nascem, renascem, rimam, remam e riem pertinho de mim.
.
No final de tudo, que é início também, eu não sei o que dizer às palavras. Sei que ficam ecoando a ternura e a generosidade com que sou abraçado por elas, apenas isto, só isto e tudo o que mais houver no silêncio das horas, no silêncio da vida...

[ Cleber Camargo Rodrigues ]


Súbito

Dr. Jekill chega e dá logo um beijo
e me deixa perfumada,
me faz almiscarada.
Sinto na barriga seu desejo.

Mas se comporta, me larga
- bom moço para a boa moça -
e ainda na porta
mostra o que trouxe no bolso.

Dessa vez não são livros, nem flores.
É uma aliança e um pedido perigoso:

- Fica de vez comigo.

Começa a chover e não ligo,
pois me deita no chão
e reluz pela noite
o eterno na minha mão -

Penso que vai me tomar,
mas ao invés,
suga e beija meus dedos dos pés,
sobe entre as pernas até achar
onde a poção mágica está.

Pede, prova,
e bebe inteira.

Então chega a hora
de Mrs. Hyde atacar...


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

as sete faces da noite

1. bateu incerto o relógio (doze vezes) as horas certas do alto de uma igreja ignota. uma igreja erguida (agora) apenas em recordações.

2. numa rua qualquer desce lenta a noite. quente. vadia. um bar do outro lado. o chope gelado. um cigarro mal tragado. um poste sem luz. um bêbado sentado. mijado. rogando blasfêmias. sinal fechado. a vida na boca rasgada. no verbo furado. solto no ar.

3. no lado de lá um andar bem ligeiro. o apito noturno do guarda. um asilo de velhos. uma criança abandonada. um sistema arruinado.

4. na esquina um sobe e desce correndo. um estouro perdido no vácuo da noite. um crime premeditado. um cheiro de choro. de sangue. a vida (em tese) morrendo.

5. do outro lado do lado de lá: só a noite. escura e fria. versando a vida no enigma das casas. na sutileza de um segredo.

6. as ruas desertas: meu degredo! devo versar o segredo da noite? as ruas desertas... as palavras se perdem em grifos inexatos sobre os muros brancos entre o medo e a mudez na insólita sensação do irreparável.

7. sem a lua que me guie: caminho. a noite insiste teimosa. a insônia insiste teimosa. a solidão (inclusive).

sidnei olivio

domingo, 5 de agosto de 2012

O MELÃO

os poemas
são como os melões,
só depois de abertos se sabe
se são bons

abertos
pela fome, (com
vontade de (água a correr
comer… (na guela

divido (estâncias
em talhadas (sumarentas
o melão (es_cor_rendo…

até ficar (assim
com ele assim (exposto
aberto (em talhadas

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Parte

a parte interna da minha coxa             fria.
suava, suave parte minha.
sobe músculo, virilha...
à extremidade de colcha.
some sonoro o nosso sexo,
temer nisso ser espanto.
durar eternamente,
no entanto. muda.
muda...

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Arco íris



7 cores
Era uma vez
7 olores
um toque, uma tez
7 sabores
mais um beijo,
o que foi que me fez?

terça-feira, 24 de julho de 2012

Quebra-cabeça



1
Com super bonder®
por de pé o esqueleto da ave:
ofício repleto de ócio –
horas sobre ossos ocos
roídos por secreta mágoa

(o ar e o uso)

Silêncio do bico desgastado pelo canto
O formol roubou o brilho das penas.
Largo gesto de asas, premeditado.
O olho olha a parede e não vê.

Mente quem diz: parece vivo.

2
Palavra por palavra
para por de pé o poema:
bateia roendo o leito do rio

(o anel & o piercing
– de amores extintos –
resgatados para brilharem
   – again and again
sobre uma luz cada vez mais fraca)

Palavra por palavra
para por de pé o poema:
broca em busca da cárie

3
Nada de novo no front
as palavras de sempre
sobre nova maquiagem

como mulher de revista pornô
: punheta para photoshop

Nada de novo no front
o poeta se gabando por
descobrir terra já cartografada 

habitada por centenas
milhares de babacas.

vestida de amor


vieste estranho,
tamanho silêncio a queimar

lábios

em sonho, versos rosados
drapeados à pele castanha

a dizer-me, entranha, quão
estranha estou

isso, por tu me vestires

de amor

 
hfernandes





sexta-feira, 20 de julho de 2012

declaração



busco a simplicidade
trabalhos manuais
visões particulares

evito a arrogância erudita
presente na maioria dos poetas atuais
quase todos saídos de única fábrica

não acredito em oficinas de literatura
na padronização do sentimento
mecânica engendrada de escritas semelhantes

aprendo e desaprendo nos enganos
sou meu próprio professor
incompetente por diversas horas

construtor de utopias
inverto discursos
semeio os erros gramaticais

invisto tempo no vazio
nunca serei visto na rodas intelectuais
comentado nos cadernos literários

repito aqui a frase lida
em página de um amigo poeta (Sergio Bernardo)
só quem nada a favor da corrente
é peixe morto.



Flávio Machado

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Insônia


Eu vou levando a vida
até a última gota
até o último gole
dessa cachaça amarga.

Vou a desagrado
aos sonhos de outrem
aos meus próprios
moldando-me nesta amálgama.

Vou transbordando incoerência
fadiga e insônia
em conflitos tão meus!
Não canto nenhum canto
que encante quem ouve,
embora grite bem alto
para que as estruturas metálicas
percam a frialdade
e não mais me envolvam
de poeira e pó e fuligens.

Vou entediado e sem remédio
para elevar o ânimo;
para descobrir caminhos,
para transformar espinhos em sonhos.

Vou pequeno quando grande
sou maior que o mundo
e menor que o coração palpitante
de um recém-nascido;
vou prosseguindo em minhas algemas,
desconstruindo e destransformando.
Sou singular e assim prossigo
numa pluralidade descontente;
só preciso de uma nota musical
para definir minha canção.

E alguém diz friamente:
__ Tenha dó!




*** Poema do livro Itinerário Fragmentado (Quártica Premium, 2009)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Azul

Sob as nuvens andei... sobre a areia abri os braços... E nos compassos tão loucos da minha canção, fui aos poucos então, te vendo ao longe... te vendo "ao leo"... sem ver que o céu se abria por nós dois tanto tempo depois tantas almas vividas. E na perfeição do momento nem vi o firmamento mostrar o cruzeiro certeiro... do sul... unindo nossas vidas para sempre naquele azul.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Meu Pequeno Mundo Torto

imagem: olhares.uol.com.br



Mundo incorreto,
de retas tortas,
círculos ovalados.

Distrações ao redor
de concentrações frágeis.

Vida, viver, vivo, vou...

Sobrevivo...

Sobrevoo...

A observar imperfeições,
a descobrir desgostos
desse mundo incorreto,

impreciso,

de formas equivocadas
a se remodelarem
sempre erroneamente,
sem saberem o que querem ser,
parece,

como se eu soubesse
(o que quero ou)
avaliar formas que,
na verdade,
nunca vi

e não sei imaginar.

versos de circunstância


porque é inverno e chove
porque por acaso faz frio

os frascos da memória
se me abrem

no cheiro acre de mofo
que emana das gavetas

no cheiro doce do chá
fumegando sobre a mesa

no vestir da blusa cinza
de lã fina

que me deste num antigo
aniversário

porque era inverno e chovia
porque por acaso era frio



Márcia Maia


sexta-feira, 13 de julho de 2012

pra não dizer adeus




deixo a porta encostada
entre sem bater
a saudade já fez seu estrago
e não tem analgésico
que faça parar de doer

mas venha

***
um dos 7 poemas a plenos pulmões
obs. no livrim, a ilustração é de daaniel araújo

livrim delivery
_samucafsantos@gmail.com

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A Curvatura da Miopia

Quando deu por si a paisagem do parque
No qual sentara não estava mais ali
Num campo de batalha jaziam corpos Mutilados, decapitados, amputados
Gritos, gemidos e catatônicos olhavam o horizonte

Então, algo inexplicável se deu
Passado-presente se mostraram de uma vez
Todo império era uma função
E sua trajetória uma parábola
Como a vida nasciam, cresciam e morriam
Ascensão e decadência
 
Será esse o único modo de ser do bicho homem?
Dominar-explorar o próximo por uma vontade de poder míope...
Deixaremos ao pós-homem algum outro modo de ser ou entre nós há possibilidades?

quarta-feira, 11 de julho de 2012

jus.ti.fi.car


Sendo efêmera...



As palavras bolam, 
decaem, rimam... O passado habitam...
Às ações nos livros dormitam...













.
.
.
A vida, 
única é: 
sendo injustificável!



jus.ti.fi.car

v. 1. Tr. dir. Declarar justo, demonstrar ou reconhecer a inocência de, descarregar da culpa imputada. 2. Tr. dir. Teol. Reabilitar, declarar justo, inocente; absolver. 3. Pron. Demonstrar a boa razão do seu procedimento, provar a sua inocência; reabilitar-se. 4. Tr. dir. Provar judicialmente por meio de justificação. 5. Tr. dir. Desculpar. 6. Tr. dir. Explicar com razões plausíveis. 7. Pron. Provar que é. 8. Tr. dir. Tip. Fazer com que uma linha fique do tamanho das outras, aumentando ou diminuindo os espaços entre palavras.
Imagem::Usinaemporium


terça-feira, 10 de julho de 2012

FOGUEIRA DE INVERNO



no conforto dos braços da 'musamada'
arrepio cabelos e meus sóis
risco, rabisco e trisco
faço barulho e silêncio
teço teias, reinvento
olho além das horas e dos horizontes
sou pequeno e vou gigante
bebo água sem lamento...

no conforto dos braços da 'musamada'
dou nó em pingo d'água
lavo a alma, em cada momento
dou de mim sem dó e doido
sou o sim do som da sina
viro mel no rumo da abelha
me lambuzo de esperança
tenho fome, sede e dor
vou aonde o riso for
trilho trilhas, dou bobeira
viro o fogo da fogueira, a caminha, a madeira...

[cleber camargo rodrigues] 

domingo, 8 de julho de 2012

Masoquismo

Tem uma faca na boca
e com ela me sangra
- mas depois de cortar,
me estanca -

Essa faca tem força,
busca sempre o pescoço
me esvai e cega,
expõe nervo e osso.


depois desce assim pelo corpo
misericordiosa e precisa.

Sem perguntar
trata-me como fruta madura

e me cauteriza.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O Discóbolo de Míron

 

(para o poeta  Benny Franklin)
Clássico entalhe da anônima
vitória.
E a icônica arte confinada
no plano altar, transita
(plena) em ângulos di-
versos, em versos angulares, re-
versos independentes. Além
da vista, sob pontos e pontes,
vomita
a estética postura do disco (movi-
mento que precede o lança-
mento). Onde a cinese ganha
distância, com a força
mítica
do músculo perfeito, me lanço
ícone
da (es)cultura anatômica.
Até o limite da parábola
construo um poema harmônico
: mente e corpo e palavras vivas.
Vívidas. Vivo agora, dentro e fora,
a descrever a pose e o
pós.

sidnei  olivio