terça-feira, 24 de julho de 2012

Quebra-cabeça



1
Com super bonder®
por de pé o esqueleto da ave:
ofício repleto de ócio –
horas sobre ossos ocos
roídos por secreta mágoa

(o ar e o uso)

Silêncio do bico desgastado pelo canto
O formol roubou o brilho das penas.
Largo gesto de asas, premeditado.
O olho olha a parede e não vê.

Mente quem diz: parece vivo.

2
Palavra por palavra
para por de pé o poema:
bateia roendo o leito do rio

(o anel & o piercing
– de amores extintos –
resgatados para brilharem
   – again and again
sobre uma luz cada vez mais fraca)

Palavra por palavra
para por de pé o poema:
broca em busca da cárie

3
Nada de novo no front
as palavras de sempre
sobre nova maquiagem

como mulher de revista pornô
: punheta para photoshop

Nada de novo no front
o poeta se gabando por
descobrir terra já cartografada 

habitada por centenas
milhares de babacas.

vestida de amor


vieste estranho,
tamanho silêncio a queimar

lábios

em sonho, versos rosados
drapeados à pele castanha

a dizer-me, entranha, quão
estranha estou

isso, por tu me vestires

de amor

 
hfernandes





sexta-feira, 20 de julho de 2012

declaração



busco a simplicidade
trabalhos manuais
visões particulares

evito a arrogância erudita
presente na maioria dos poetas atuais
quase todos saídos de única fábrica

não acredito em oficinas de literatura
na padronização do sentimento
mecânica engendrada de escritas semelhantes

aprendo e desaprendo nos enganos
sou meu próprio professor
incompetente por diversas horas

construtor de utopias
inverto discursos
semeio os erros gramaticais

invisto tempo no vazio
nunca serei visto na rodas intelectuais
comentado nos cadernos literários

repito aqui a frase lida
em página de um amigo poeta (Sergio Bernardo)
só quem nada a favor da corrente
é peixe morto.



Flávio Machado

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Insônia


Eu vou levando a vida
até a última gota
até o último gole
dessa cachaça amarga.

Vou a desagrado
aos sonhos de outrem
aos meus próprios
moldando-me nesta amálgama.

Vou transbordando incoerência
fadiga e insônia
em conflitos tão meus!
Não canto nenhum canto
que encante quem ouve,
embora grite bem alto
para que as estruturas metálicas
percam a frialdade
e não mais me envolvam
de poeira e pó e fuligens.

Vou entediado e sem remédio
para elevar o ânimo;
para descobrir caminhos,
para transformar espinhos em sonhos.

Vou pequeno quando grande
sou maior que o mundo
e menor que o coração palpitante
de um recém-nascido;
vou prosseguindo em minhas algemas,
desconstruindo e destransformando.
Sou singular e assim prossigo
numa pluralidade descontente;
só preciso de uma nota musical
para definir minha canção.

E alguém diz friamente:
__ Tenha dó!




*** Poema do livro Itinerário Fragmentado (Quártica Premium, 2009)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Azul

Sob as nuvens andei... sobre a areia abri os braços... E nos compassos tão loucos da minha canção, fui aos poucos então, te vendo ao longe... te vendo "ao leo"... sem ver que o céu se abria por nós dois tanto tempo depois tantas almas vividas. E na perfeição do momento nem vi o firmamento mostrar o cruzeiro certeiro... do sul... unindo nossas vidas para sempre naquele azul.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Meu Pequeno Mundo Torto

imagem: olhares.uol.com.br



Mundo incorreto,
de retas tortas,
círculos ovalados.

Distrações ao redor
de concentrações frágeis.

Vida, viver, vivo, vou...

Sobrevivo...

Sobrevoo...

A observar imperfeições,
a descobrir desgostos
desse mundo incorreto,

impreciso,

de formas equivocadas
a se remodelarem
sempre erroneamente,
sem saberem o que querem ser,
parece,

como se eu soubesse
(o que quero ou)
avaliar formas que,
na verdade,
nunca vi

e não sei imaginar.

versos de circunstância


porque é inverno e chove
porque por acaso faz frio

os frascos da memória
se me abrem

no cheiro acre de mofo
que emana das gavetas

no cheiro doce do chá
fumegando sobre a mesa

no vestir da blusa cinza
de lã fina

que me deste num antigo
aniversário

porque era inverno e chovia
porque por acaso era frio



Márcia Maia


sexta-feira, 13 de julho de 2012

pra não dizer adeus




deixo a porta encostada
entre sem bater
a saudade já fez seu estrago
e não tem analgésico
que faça parar de doer

mas venha

***
um dos 7 poemas a plenos pulmões
obs. no livrim, a ilustração é de daaniel araújo

livrim delivery
_samucafsantos@gmail.com

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A Curvatura da Miopia

Quando deu por si a paisagem do parque
No qual sentara não estava mais ali
Num campo de batalha jaziam corpos Mutilados, decapitados, amputados
Gritos, gemidos e catatônicos olhavam o horizonte

Então, algo inexplicável se deu
Passado-presente se mostraram de uma vez
Todo império era uma função
E sua trajetória uma parábola
Como a vida nasciam, cresciam e morriam
Ascensão e decadência
 
Será esse o único modo de ser do bicho homem?
Dominar-explorar o próximo por uma vontade de poder míope...
Deixaremos ao pós-homem algum outro modo de ser ou entre nós há possibilidades?

quarta-feira, 11 de julho de 2012

jus.ti.fi.car


Sendo efêmera...



As palavras bolam, 
decaem, rimam... O passado habitam...
Às ações nos livros dormitam...













.
.
.
A vida, 
única é: 
sendo injustificável!



jus.ti.fi.car

v. 1. Tr. dir. Declarar justo, demonstrar ou reconhecer a inocência de, descarregar da culpa imputada. 2. Tr. dir. Teol. Reabilitar, declarar justo, inocente; absolver. 3. Pron. Demonstrar a boa razão do seu procedimento, provar a sua inocência; reabilitar-se. 4. Tr. dir. Provar judicialmente por meio de justificação. 5. Tr. dir. Desculpar. 6. Tr. dir. Explicar com razões plausíveis. 7. Pron. Provar que é. 8. Tr. dir. Tip. Fazer com que uma linha fique do tamanho das outras, aumentando ou diminuindo os espaços entre palavras.
Imagem::Usinaemporium


terça-feira, 10 de julho de 2012

FOGUEIRA DE INVERNO



no conforto dos braços da 'musamada'
arrepio cabelos e meus sóis
risco, rabisco e trisco
faço barulho e silêncio
teço teias, reinvento
olho além das horas e dos horizontes
sou pequeno e vou gigante
bebo água sem lamento...

no conforto dos braços da 'musamada'
dou nó em pingo d'água
lavo a alma, em cada momento
dou de mim sem dó e doido
sou o sim do som da sina
viro mel no rumo da abelha
me lambuzo de esperança
tenho fome, sede e dor
vou aonde o riso for
trilho trilhas, dou bobeira
viro o fogo da fogueira, a caminha, a madeira...

[cleber camargo rodrigues] 

domingo, 8 de julho de 2012

Masoquismo

Tem uma faca na boca
e com ela me sangra
- mas depois de cortar,
me estanca -

Essa faca tem força,
busca sempre o pescoço
me esvai e cega,
expõe nervo e osso.


depois desce assim pelo corpo
misericordiosa e precisa.

Sem perguntar
trata-me como fruta madura

e me cauteriza.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O Discóbolo de Míron

 

(para o poeta  Benny Franklin)
Clássico entalhe da anônima
vitória.
E a icônica arte confinada
no plano altar, transita
(plena) em ângulos di-
versos, em versos angulares, re-
versos independentes. Além
da vista, sob pontos e pontes,
vomita
a estética postura do disco (movi-
mento que precede o lança-
mento). Onde a cinese ganha
distância, com a força
mítica
do músculo perfeito, me lanço
ícone
da (es)cultura anatômica.
Até o limite da parábola
construo um poema harmônico
: mente e corpo e palavras vivas.
Vívidas. Vivo agora, dentro e fora,
a descrever a pose e o
pós.

sidnei  olivio

quinta-feira, 5 de julho de 2012

SER EM POEMA

em cinco estâncias
a poesia vence
todas as distâncias
percorrendo tempo
neste dia vivido

aos cinco dias
do sétimo mês
neste ano doze
do século XXI

na quinta-feira
desta semana
primeira do mês

os versos fazem
todas as  estrofes

até serem poema!

VERSOS DE COMBUSTÃO


Gravura By Katerina Dramitinou

[Para o poeta e romancista Carlos Correia Santos]


E 
para que seja lógica 
 a caminhada
  com passos feitos de lua
   desejo
esperanças novinhas em folha,
   coisas
      que andei perdendo.

 Eu
rosário antigo!

 Taciturnidade quebrada por sombras
                           doridas.

 E
a crônica do rochedo
 arranca-me brutalmente do chão
  e faz-me sua cinza metálica
     ― estigma do repuxo 
    que sangra por ao menor
     toque planante.

 Do
palato para a Alma
 o alcatrão ruminante acompanha-me de perto
  como brasas em litígios
   que são escoltadas
    por vícios antipiedantes          
    com
arcos entesados 
    que brotam da nunquidade.

 À 
ternura do espanto,
 escritas 

  além 
   da curva.

By © Benny Franklin
Organizer of 100 Thousand Poets For Change
[Evento de Belém]

segunda-feira, 25 de junho de 2012

domingo, 24 de junho de 2012

Inventário de um rio # 2

1
Aquele havia sido o meu Eufrates.
Ainda que inexpressivo
– sequer constava no mapa –
não teria havido nada sem ele

(a água era tão pouca
e de tão má qualidade
– pombos sedentos agonizavam
às suas margens –
que nada sobrevivia em seu bojo
[além de vermes aquáticos
e caramujos da esquistossomose])

Aquele havia sido o meu Aqueronte.
Quando corria –
quase sempre estava engasgado
com o cadáver de cão –
conduzia a inframundos
governados por Hades

(pouca era a sua água
e de tão má qualidade –
espessa como a baba de um condenado –
que ela se mostrava incapaz de refletir o céu
[senão simulá-lo
com um azul de olho vazado])

2
Aquele que havia sido o meu rio
se arrasta por galerias de concreto
– como um fantasma do Lete –
roendo pacientemente os pilares da cidade

sábado, 23 de junho de 2012

Se é pra falar de amor


muito se fala de amor
antes do amor:


essa vontade
de ter o outro
ainda idealizado


essa saudade
de um encontro
apenas imaginado


é que a possibilidade de amar
parece amor consolidado


mas amor sem experiência
tem algum significado?




               também se fala de amor
               durante o amor:


               essa vontade
               de manter o outro
               enamorado


               essa saudade
               banida a cada encontro
               marcado


               é que a oportunidade de amar
               parece amor consolidado


               mas amor sem convivência
               não é um tanto precipitado?




                              e pouco se falar de amor
                              após o amor:


                              essa vontade
                              de ver o outro
                              sob cuidado


                              essa saudade
                              mantida a todo encontro
                              selado


                              a capacidade de amar
                              é amor consolidado


                              amor com resistência,
                              o único autenticado






No twitter: O amor já nasce velho.


Renata de Aragão Lopes


Publicado no Doce de Lira em 11 de junho de 2012.

Mar vagabundo



"O mundo é grande, mas em nós ele é profundo como o mar"
(Rilke).





Há um mar em mim.
Um mar de águas revoltas.
Nuvens pesadas circulam passageiras
Areias, em fileiras, atiram-me ao fundo
quase sempre certeiras.

Há um mar em mim
E eu tantas vezes nada entendi:
da cor que me veste olhos d'água
e do vento que me sopra à maré baixa.

Pois há um mar em mim
E eu não tive sequer escolhas
Não pude dizer (ao mar)
que parasse com esses cantos sombrios
Nem que me deixasse à não-mercê de tais desafios.

Por que esse mar é fora da lei
Não sabe o que é sorte, nem teme solidez
Tudo sente, nada sofre e me move à embriaguês.

Por que esse mar é poço sem fundo
Quanto mais arrasta, mais revira tão doce mundo
Secando-me as águas claras em tons cinza profundos.
Isso tudo porque esse mar é vagabundo...


Hercília Fernandes,
In Maria Clara: uniVersos femininos
(LivroPronto, 2010).


quarta-feira, 20 de junho de 2012

sentimento do mundo

quando li
as obras completas de Drumonnd
me interessou a narrativa mais íntima
sem dar conta de juízos de estilo
poema prosaico ou prosa poética
abandonei o medo de abrir
para visitação as salas da casa
as gavetas dos armários
as pequena e medíocres observações

ruiu como prédio mal construído
toda inabalável certeza
quando descobri essa poética nos livros de Drumonnd
restou a opção de continuar traçando planos
e permanecer fiel
coerente a uma maneira própria de enxergar o mundo
visão distorcida do reflexo
do que explicitamente penso sobre arte
discursando com as paredes
entendendo que nunca serei
o poeta que imagino

compreendendo tardiamente
não haver a menor chance de ser considerado
nas rodas eruditas um poeta importante para qualquer movimento
não sofro ou me penalizo com a constatação
permanecer anônimo
garante a liberdade de fracassar
para um público menor.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Ode a Igualdade


Inadvertidamente tropeço no avesso das palavras
Possuem um vazio, um eco inaudível
Um silêncio que se mistura à repugnância da vida
Todas as frases e poesias vêm carregadas do acre gosto
E, ainda, do cheiro podre
De vestimentas que encobrem o corpo lazarento
.
Impossível incorporar multidões
Onde o que há é apenas vazios, infindáveis vazios
Desertos de silêncio que encobrem o grito maldito
Que ecoa dos infernos cavernais
Onde o corpo lateja em desejos de vingança
.
É preciso se conter, conter os espasmos
Que revelam o lado claro, o lado lúcido
Das coisas obscuras
É preciso reviver os enigmas,
Dar vida aos segredos
Tirar das palavras o que há de mais reles,
O que há de pecado original
Causando nos espíritos o gozo
Que vai além dos sentidos
.
Os passos descompassados fazem o eixo certo
Atravessam com exatidão a linha divisória entre a vida e o não viver
E, não viver é crime contra a própria vida
Ter medo dos prazeres, ou ainda, ignorá-los é crime maior que qualquer pecado

...............................................................................................[que se diga original
.
Não há originalidade no que é inventado como preceito de escravidão
Apenas absurdos
Declara-se desde então, no momento crucial em que a poesia sai do casulo estigmatizante,
Que a partir de agora
Todo o misticismo é simplesmente pó da estrada
Que todos os deuses estão condenados ao esquecimento
E que o homem, em seus atributos cedidos pela natureza evolutiva,
Está apto a conduzir
Através dos anos sua vida, correndo o risco de incorrer em suas próprias escolhas,
Pois já não há céu sobre si,
Já não há quem o guie, quem o marionetize,
Quem por fetiche o torne fantoche da existência.
.
Eis que o homem é senhor de seu tempo
E reconhecerá em si, o princípio das coisas
E seu final, crucial na imensa cadeia que se liga em amplitude
.
Eis que o homem pode e deve se transformar
Sem os transtornos de estar amarrado pelas mãos
Liberto das correntes que o condenavam desde o nascimento
.
Eis que o homem é dono da história
E pode, pelo poder que dispõe, lutar pela sobrevivência
Sua e de seus semelhantes,
.
Eis que suas mãos podem fazer justiça contra os comparsas,
Contra toda e qualquer forma de enganação que visa manipular,
Destruir ou escravizar
.
Eis que o homem é irmão de todos, e a terra, esta grande mãe,
Os abraça com igualdade,
Igualdade tal que deve ser em seu sentido completo
.
O único sentido para todos os homens.


.
.
*** Poema do livro Itinerário Fragmentado (Quártica Premium, 2009)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Dois

Uma vida errada, uma outra não contada. Uma rotina incerta, uma alma deserta. Tantas histórias loucas, e as verdades, poucas. Os caminhos distantes, e o carinho, de antes. Ver o céu, vindo do inferno. Ter o mel, no beijo eterno. Ser o azul, em tons celestes. Ou canção, quando viestes. Diante do mundo improvável e ante ao sim impensável a tarde se fez eterna. E no laço de pernas fez-se o que ninguém supôs... o que a inveja se opôs... o que o amor compôs e o que agora chama-se... dois.

domingo, 17 de junho de 2012

como napalm


não rasgam-se as cortinas
nem cobrem-se os céus de relâmpagos

não ouvem-se trombetas
tampouco proclamas

só o silêncio escuro e espesso da ausência
entranha-se como napalm

à pele à mente à alma



Márcia Maia