segunda-feira, 18 de junho de 2012

Dois

Uma vida errada, uma outra não contada. Uma rotina incerta, uma alma deserta. Tantas histórias loucas, e as verdades, poucas. Os caminhos distantes, e o carinho, de antes. Ver o céu, vindo do inferno. Ter o mel, no beijo eterno. Ser o azul, em tons celestes. Ou canção, quando viestes. Diante do mundo improvável e ante ao sim impensável a tarde se fez eterna. E no laço de pernas fez-se o que ninguém supôs... o que a inveja se opôs... o que o amor compôs e o que agora chama-se... dois.

domingo, 17 de junho de 2012

como napalm


não rasgam-se as cortinas
nem cobrem-se os céus de relâmpagos

não ouvem-se trombetas
tampouco proclamas

só o silêncio escuro e espesso da ausência
entranha-se como napalm

à pele à mente à alma



Márcia Maia


sábado, 16 de junho de 2012

Influente


O mendigo, folheando o jornal, que lhe serviria de coberta, viu uma notícia anunciando que a obra "A fonte", de Marcel Duchamp, fora escolhida como a arte moderna mais influente da história.

Perguntou a uma mulher de óculos, sentada no ponto de ônibus, com cara de professora, o que significava "influente". Ela não soube explicar, mas o menino que estava ao seu lado retirou um enorme livro da mochila e leu em voz alta, para que ele escutasse. "Influente: que influi; que tem autoridade, prestígio; que exerce influência sobre os demais".
O mendigo voltou para o banco e, depois de muito observar a imagem do "mictório assinado", que ilustrava a reportagem, levantou-se e começou uma caminhada com passos firmes e destino certo.
Influenciado pela obra, pretendia assinar todos os mictórios e vasos sanitários do banheiro público da praça.
No caminho, já imaginava a quantos não "influenciaria" com aquele gesto simples, mas artístico, de assinar o local onde os homens urinam. Teria, desse modo, "prestígio, autoridade".
Chegando ao banheiro, notou que já havia assinaturas por todo lado: paredes, portas, chão, teto e até no espelho quebrado. De fato, não havia nenhuma assinatura nos mictórios, mas naquele momento lhe pareceu tão menor, insignificante e tolo assinar naquele lugar, que se escondeu em uma das cabines e ficou ali, cabeça baixa e em silêncio, sentindo-se envergonhado a pensar que aquele era, de fato,
 o lugar mais apropriado para que assinasse.
Levantando-se para sair, observou a quantidade de desenhos e frases escritas na porta. Seria aquilo arte também? Provavelmente sim.
Depois de ler e observar a arte que o encarava, sentou-se e, “influenciado” pelas pornografias descritas e ilustradas na porta, masturbou-se ali mesmo.
Saiu do banheiro, voltou para a praça, jogou a página da reportagem no lixo, se cobriu com o restante do jornal e, feliz, refletiu que, de fato, ele existia apenas para ser influenciado, não para influenciar ninguém.




sexta-feira, 15 de junho de 2012

Pândega !



Ela se diz ninfomaníaca
Do tipo que surta e dá porrada!
Faz da cama, coração...
E da buceta, sentimento!

Em seu olhar, vejo morte !
Vazio preenchido de nada...
Maquiando dor com uma trepada
Um motel abandonado ao som do vento

Que delícia de farsa, meu bem!
Tua mentira, tua trapaça
Agridoce, tipo vinho seco na taça
Uma porção completa de desdém

Não se espante com a falácia
É só a oração do sexo...
Sem amor, nem compromisso
Pode ajoelhar, dizer amém !

quarta-feira, 13 de junho de 2012

evangelho segundo ss



é muito difícil
crer no filho
feito cristo
e morrer cedo
feito personagem
do mais barato
folhetim
(depois
de revelar poderes
inclusive sobre a vida
e condenar riquezas)

muito mais fácil
crer em robin hood
cagando pros dogmas
,sem milagres
e só uma parábola
:a praxis social

***
velha boa vista
12.06.12

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Au.gusto




Está tudo pronto,
terminado.
Nada me importa
regressando à nado.




Augusto
adj. Que inspira respeito ou veneração: augusta proteção.
Grandioso, suntuoso; magnífico.
SAGRADO

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Confissão



Sou a mulher fanática de um incendiário.

Crescem em mim sua rebeliões diárias.
Todas em segredo, entre silêncios,
subterrâneas,
para que não as tomem
seu adversários.

Sou a mulher fecunda de um incendiário.
Templo das piores inquietações e perplexidades.

Sexo encharcado, ventre que o acolhe,
para que vingue nosso filho,
o Imaginário.

Sou a mulher sem culpa de um incendiário.

Queimo palavras na lingua umedecida,
Transformo em chamas cântaros de frases.

Um corpo necessário
a uma alma sagitário.

terça-feira, 5 de junho de 2012

SENTIDO DA VIDA


eu gostaria de poder responder
a uma pergunta que não tivesse resposta
possível, pela forma, pelo conteúdo,
por tudo o que de poesia se pode procurar
nos versos, dando uma vida própria
ao sentido da vida

deste modo comporia o riso
num sorriso misterioso que ouso
apenas tentar quando me dou ao poema
como possibilidade plena, sem pena
de não encontrar suporte para este voo
onde me precipito

domingo, 27 de maio de 2012

esse poema começa quando outro terminar de contar sobre si mesmo

há na areia esse espanto,
fixar-se no transitar.
no entanto, quebro pedras.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Transição


Numa segunda eu nasço
na terça eu cresço
na quarta, apareço
na quinta eu caso
na sexta, descaso
no sábado , entristeço
e domingo, eu passo...

quinta-feira, 24 de maio de 2012

memóriasàbeiradeumestopimmemóriasà


um estopim                                                {meu verso}

memórias à beira de um estopim,
ou de como vivemos de negações para colher afirmativas

                                  {como uma mão aberta esperando
      um cumprimento que não vem}

memórias à guisa de um motim,
ou de como o fato de existirmos anula a existência de Deus

memórias à beira de um estopim,
ou de como a lágrima que não derramei
 pelas torres gêmeas são verdadeiras

memórias à beira de mim mesmo,
ou de como, em mim mesmo,
sou memórias e fatos – sou concreto e acontecimentos

    {como uma boca aberta
                                      esperando um beijo que não vem}

memórias à guisa de um motim,
ou o motim em torno de minhas memórias?
        :         expludo?

estopim à beira de minhas memórias,
ou de como o pavio descansa em minhas mãos
– e o fogo em tuas
:     explodimos?                                   !

                                   {como uma trincheira aberta
                                 esperando a granada que vem}
memórias a

domingo, 20 de maio de 2012

rural


...vem vamos embora que esperar
não é saber quem sabe faz
a hora não espera acontecer...


as meninas do dce
tomaram de assalto o hotel
bradavam palavras de ordem
tinham idade para ser minhas filhas
senti um orgulho danado dessa possibilidade
mais ainda pelo resgate do movimento estudantil
cada vez mais atrelado ao governo
parafraseando Milllor não acredito em estudantes que falam a favor
as meninas da rural
a esperança recuperando a história recente do pais.


 Flávio Machado



PS: link para o documentário sobre a ocupação do Hotel da UFFRJ. http://www.youtube.com/watch?v=Xh7dOhC0l0M

sábado, 19 de maio de 2012

Roda viva

Sinto nesses campos de hoje em dia, moinhos e caminhos destroçando versos de uma colheita fora de época, na qual se tenta separar o jôio do trigo. Num sopro, ainda me tem em meus sentidos, a bonita impressão de ser a palavra, uma entidade viva e ativa nessa lavoura que tece sementes como quem traça des(a)tinos imutáveis nas linhas das mãos.

Se é vento o homem que sopra seu próprio destino, como dizer então dos traçados impostos e que nos cercam quando tentamos nos desviar das curvas, das amarras nos tornozelos, das ilusões dos nossos próprios delírios oculares?

Sinto meu oásis nesse deserto de opções e ainda assim, como quem guarda uma carta na manga, guardo um tesouro que dita o meu próprio amanhã, num garimpo de beiras e beiradas sem passos e sem chegada. Só para amanhã de manhã.

Será que despenco diante dos olhos, naquela minha distração breve, de cílios e de tempo?
[Samara Bassi]

Renúncia

Destituo-me de qualquer título,
entrego-te a pena para que faças dela o que quiseres,
não sou o que imaginas, tampouco o que desejas,
sou apenas um aluado devaneando sonhos!

Renego qualquer herança,
os rabiscos nos muros são mais sinceros,
mais honestos, mais poéticos. 
Estas palavras, aqui rabiscadas, nada valem.
Servem apenas de muleta onde escoro meu corpo fatigado
tentando equilibrar-me sobre as pernas que já não andam!

Meu rótulo é a cortina cerrada,
é o final da cena, o aniquilamento no escuro das coisas!



*** Poema do livro Itinerário Fragmentado (Quártica Premium, 2009)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O Presente

Ao te ver surgir ali entre os pingos da chuva tua vida, qual perfeita luva encaixou-se na minha. E então a linha do antes e do depois se pôs à minha frente e minha alma carente te quis assim, de presente. Desde então promessas, vidas às avessas e um mundo inteiro entre nós dois. Mas por uma fresta minha vida te trouxe para a festa, para o sonho, para o mundo, para mim... E agora minha boca salgada diz não querer mais nada. E o presente... é esse para sempre... na vida da gente. Anderson Julio Lobone

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Louça Suja



Palha de aço, sabão e detergente
Passeando cano abaixo água e gordura
No reflexo da fôrma vejo meus olhos
Engolidos pelo ralo (tristeza e fúria)

Repetição e melancolia
Garfos sujos de arrependimento
Ensaboando pensamentos imundos
Enxaguando-os com sofrimento

Os copos espelham rotina
Impregnados de agonia
Marasmo / Tédio / Solidão

Por fim, secando a pia
Consultório de psiquiatria
Contato direto com a podridão

segunda-feira, 14 de maio de 2012

babel

ilustração de Jan Limpens


o the end foi reticente
saiu à francesa
falando grego
típico discurso
para inglês ver

foi russo
e sem intérprete

pé na bunda gringo
nem com tecla sap
google translate
psicanálise

traduzo


valéria tarelho

domingo, 13 de maio de 2012

re.visão_2



os civilizados
precisamos de mitos
pra depois destruí-los
e em seguida resgatá-los


o motor da história

precisa sangue trágico
pra mover moer
reputações
e entregar ao vencedor
mais que batatas
verdades
inventadas a esmo

já não me interessa
o que foi zumbi
continuo regando a semente
implantada nos genes
que se chama liberdade

***
inspirado na matéria
_"
Livro reconstrói a biografia de Zumbi dos Palmares",
assinada por mateus araújo
no caderno c, jornal do commercio, 13.05.2012.


sexta-feira, 11 de maio de 2012

paz'ciência










Uma voz interna em mim é chama, me chama:

compensa essa ciência saber que não estou morto
porque lhe falo com químicas cores, canto de amores.



Acorda bem cedo esse gesto de permissão
confiando com certeza nos abraços de quem é alegria,

viciado apenas num sonho - livre entusiasmado,

parceiro confiante do dia-a-dia.




paz
s. f. 1. Estado de um país que não está em guerra; tranqüilidade pública. 2. Repouso, silêncio. 3. Tranqüilidade da alma. 4. União, concórdia nas famílias. 5. Sossego.
ci.ên.cia
s. f. 1. Conhecimento exato e racional de coisa determinada: C. do bem. 2. Sistema de conhecimentos com um objeto determinado e um método próprio: A lingüística é uma c. S. f. pl. Conjunto de disciplinas visando à mesma ordem de conhecimentos: C. naturais...


Imagem::Usinaemporium

terça-feira, 8 de maio de 2012

GOSTARINÂNCIAS



o cheiro atiça o afeto
a saudade permanece estendida
o café, torrado na hora
traduz sabor em prosa
sem pressa

gostarinâncias impregnadas
na sensualidade das chamas
da fumaça, do remexer, dos grãos, do ser
no banzo de cada história
de cada dia, toda hora é do agora.

[poema de Cleber Camargo Rodrigues, musicado pelo maestro Jaime Alem para o show De Sol a Sol]

Separação de Corpos


Eu, camiseta, calcinha
e meia amarela,
Le(n)do Ivo
- destesto novelas -

Ele, cueca samba canção,
apenas um pênis
que não mais me apetece
e assiste ESPN.

domingo, 6 de maio de 2012

uni-verso grávido


no primevo instante
adimensional


(espaço engolindo o tempo)
o universo reprimido


explode radiante e se duplica
auto-fecundado
 

: mundo viramundo
roda gira brota


deriva circularmente
do cordão azul - tensão umbilical

como onda seguindo onda
exacerbadamente


condensa e se expande
fruto inerente
 

dos elementos
cores sons palavras


(fundamentais)
(imagem: Geraldo Matos)
Sidnei Olivio

sábado, 5 de maio de 2012

FUGA DO SILÊNCIO



"Prepara tua fuga com cuidado." 
[Virgílio]

I]
Foge 
uma coisa é indispensável  fugir pelo silêncio
é raspar a consubstancialidade do verbo:
aquele 
 que estertora a página em branco
   sem pedir paga.

II]
Foge 
 neste esfalfamento de lógica obscena 
  fugir 
   é alcançar a rapidez do nada.

III]
Foge.
Dá-te fuga
...Sê canhão em atilamento
... Amante do exato

Foge
...Sê inteiro contigo
...Metamorfose da tempestade.

IV]
Foge.
Buscai & buscai
 a dilatação
  da pluralidade 
    dos gemidos 
      que, indecorosos, transvestem-se de semideuses
        na vastidão dos antipoemas

V]
Foge.
Sê dilatado [poema habitado]
       para 
     que as sombras 
   proativas do mormaço
possam afinar-se com os bruscos 
                                        céus 
                                          selvagens.


By Benny Franklin

(D)ENTRO


os poetas vão escasseando
até um dia deixarem de existir
quando os poemas silenciosos
não se resgatarem nas palavras
a viverem a aventura dos versos

dentro da margem da folha
pendurado no espaço do dizer
o dito hesita a sua existência
procurando ter este êxito

um sorriso mostrando os dentes
a rir da boca para fora de dentro

terça-feira, 1 de maio de 2012

O aroma dos teus
Cabelos negros
É como olhar
Estrelas em noite escura

Afogo meus lábios
Em teu negrume
Buscando a luz
De sóis ocultos

Enxugo meus olhos
Nestes anéis de seda
Ouvindo mundos
Que nascem e morrem em mim