terça-feira, 8 de maio de 2012

GOSTARINÂNCIAS



o cheiro atiça o afeto
a saudade permanece estendida
o café, torrado na hora
traduz sabor em prosa
sem pressa

gostarinâncias impregnadas
na sensualidade das chamas
da fumaça, do remexer, dos grãos, do ser
no banzo de cada história
de cada dia, toda hora é do agora.

[poema de Cleber Camargo Rodrigues, musicado pelo maestro Jaime Alem para o show De Sol a Sol]

Separação de Corpos


Eu, camiseta, calcinha
e meia amarela,
Le(n)do Ivo
- destesto novelas -

Ele, cueca samba canção,
apenas um pênis
que não mais me apetece
e assiste ESPN.

domingo, 6 de maio de 2012

uni-verso grávido


no primevo instante
adimensional


(espaço engolindo o tempo)
o universo reprimido


explode radiante e se duplica
auto-fecundado
 

: mundo viramundo
roda gira brota


deriva circularmente
do cordão azul - tensão umbilical

como onda seguindo onda
exacerbadamente


condensa e se expande
fruto inerente
 

dos elementos
cores sons palavras


(fundamentais)
(imagem: Geraldo Matos)
Sidnei Olivio

sábado, 5 de maio de 2012

FUGA DO SILÊNCIO



"Prepara tua fuga com cuidado." 
[Virgílio]

I]
Foge 
uma coisa é indispensável  fugir pelo silêncio
é raspar a consubstancialidade do verbo:
aquele 
 que estertora a página em branco
   sem pedir paga.

II]
Foge 
 neste esfalfamento de lógica obscena 
  fugir 
   é alcançar a rapidez do nada.

III]
Foge.
Dá-te fuga
...Sê canhão em atilamento
... Amante do exato

Foge
...Sê inteiro contigo
...Metamorfose da tempestade.

IV]
Foge.
Buscai & buscai
 a dilatação
  da pluralidade 
    dos gemidos 
      que, indecorosos, transvestem-se de semideuses
        na vastidão dos antipoemas

V]
Foge.
Sê dilatado [poema habitado]
       para 
     que as sombras 
   proativas do mormaço
possam afinar-se com os bruscos 
                                        céus 
                                          selvagens.


By Benny Franklin

(D)ENTRO


os poetas vão escasseando
até um dia deixarem de existir
quando os poemas silenciosos
não se resgatarem nas palavras
a viverem a aventura dos versos

dentro da margem da folha
pendurado no espaço do dizer
o dito hesita a sua existência
procurando ter este êxito

um sorriso mostrando os dentes
a rir da boca para fora de dentro

terça-feira, 1 de maio de 2012

O aroma dos teus
Cabelos negros
É como olhar
Estrelas em noite escura

Afogo meus lábios
Em teu negrume
Buscando a luz
De sóis ocultos

Enxugo meus olhos
Nestes anéis de seda
Ouvindo mundos
Que nascem e morrem em mim

sexta-feira, 27 de abril de 2012

só penso a fonte quando flui


há mais pudim no não-pudim
há mais alimento no não-alimento
há mais fome na não-fome
há mais asfalto no não-asfalto
há mais caminho no não-caminho
há mais bandeirante no não-bandeirante
há mais engrenagem na não-engrenagem
há mais lógica na não-lógica
há mais cidade na não-cidade
há mais chinês no não-chinês
há mais guggenheim no não-guggenheim
há mais molécula na não-molécula
há mais fósforo no não fósforo
há mais matéria na não-matéria
há mais essência na não-essência
há mais virtude na não-virtude
há mais vontade na não-vontade
há mais zarathustra no não-zarathustra
há mais carlos no não-carlos
há mais verdade na não-verdade
há mais certo no não-certo
há mais afirmação na não-afirmação
há mais tudo no não-tudo
há mais nada no não-nada
há mais presente no não-presente
há mais passado no não-passado
há mais futuro no não-futuro
há mais arte na não-arte
há mais vida na não-vida
há mais verso no não-verso
há mais alguma coisa na não-alguma coisa
que agora eu já esqueci...

quarta-feira, 25 de abril de 2012

S.O.S

São tempos tombados
Olhares profundos
Sorrisos trincados

Serpentes cavalgam
Ostentam a guerra
Separam as almas

Santos entoam
Odes aos anjos
Serafins dos tempos...


terça-feira, 24 de abril de 2012


Os filhos de Oppenheimer


Ele apertava parafusos. Não havia uma finalidade clara nisso. Seu princípio e fim estava ligado a faculdade prática de apertá-los. Assim como havia aquele que de longe – prancheta era seu instrumento – contemplava seu afazer, havia aquele que anteriormente colhera o metal nas montanhas, havia aquele que o derretia e aquele que sulcava em hélice seu corpo metálico, finalizando-o. Eles mesmos, enquanto homens, foram colhidos nas montanhas, retirados do barro, moldados e cozidos por outros operários que desconheciam o fruto de sua labuta.
O que faziam do material anônimo que ele crivava de parafusos? Nunca se perguntara se o preenchiam de alma, se o dotavam de utilidade: atarraxava com suas mãos-aptas-à-chave-inglesa e pronto. Sequer cogitara a origem daquela peça anteriormente moldadas por outros como ele, que também não deixavam marca alguma no produto fabricado. Eram alienados, sobretudo, por não conhecerem a pergunta para a resposta que possuíam.
(Um dia juntaram todos no pátio, apertaram um botão vermelho em algum lugar distante e pulverizaram tudoenorme cogumelo fazendo sombra sobre o cadáver da fábrica. E morreram felizes para sempre.)
The end.

eleito




o meu poema preferido
é aquele que, de mim, não sai
se atento ao escrito,
ele diz-me ao pé do ouvido:
não prendo navio ao cais




hercília fernandes




*Arte: Tempestade no mar, de Aivazovsky.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

cine odeon

as mesas arrumadas
na calçada tomada pela chuva

a qualquer momento
alguém gritaria: ação !
e todos se moveriam
como uma cena de cinema.


flavio machado

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Fragmentos da Revolução


Neruda y Matilde



Lia os “Últimos Poemas” de Neruda.
O quarto ao lado sussurrava revoluções.

Deixei minha flâmula atrás da porta;
lavei as mãos sujas de sangue
recolhendo-me à rotina.

Hoje a poeira e a fumaça industrial
tomam conta de meus ideais;
não conheço os homens;
me desconstruo.
Minha criatividade se perde
entre as estruturas metálicas
que se ergueram dia-a-dia.

Vou comendo o pão envelhecido
acompanhado de uma “Coca” em lata
que comprei mecanicamente;
é como o óleo que lubrifica
as máquinas:
vou seguindo robotizado
de cabeça baixa.
Vou matando em meu íntimo
os resquícios da poesia existente,
as leituras de poemas
vão ficando cansativas.
Prossigo insatisfeito 
em padrões disformes,
metido em uniformes indigestos.

Olho para a porta da Fábrica
sonhando descavernar-me,
desalienar-me.
Lá fora homens murmuram frases prontas
que definem este meu olhar como insano;
vou me perdendo
me prendendo à certeza de me perder.

Volto aos Poemas de Neruda
desavisado não o creio comunista.
O quarto ao lado se cala,
acostumou-se ao sistema!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Poesia de Mim

Ao abrir a porta...
um futuro escrito
apenas no rito
de nanquim e pena...

Sem o mar das linhas
há tempos lendárias
encontro teus olhos
em meio às araucárias.

Não decifrei os pedidos
que neles moravam.
Mas a súplica era tanta
que trôpego disse, sim.

E num bailar de encantos
à tanto rascunhados
enfim, ouvi acalantos
para os dias nublados.

Ah poesia de mim!
O que fazer do sonho
agora renascido assim
nas noites que lhe proponho?

O que era sonho poético
agora são olhos reais
de um outono senão épico
mas de penumbras fatais.

(Anderson Julio Lobone)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Assobio e Assobio



assobio
canções
que são musicas
da alma
da minha alma
dos anjos
que se comunicam
dos pássaros, com quem converso
assobio
descanso o corpo
repouso os olhos
relaxo meus sons
ao ouvir
a minha trilha
enquanto
assobio
e assobio

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Itinerário


Um gentleman sem dama...


__Solidão

___ Lucidez

_____Silêncio


Nem camisa de força doma !

sábado, 14 de abril de 2012

dos contatos


não bato papo
trato com tato
falo a língua
viva que vibra

da boca
na boca [que há borda]
do olho
no olho [que há fundo]

toco vida e verso
no gesto quase
no mezzo jeito:
sopro e sulco

- suave soo
vinco intenso -

pretendo
perto [que há visto]
viso
dentro [que há tento]

do resto raso
despeço-
me te

se

a tempo


valéria tarelho

sexta-feira, 13 de abril de 2012

open you window

para edna costa


nem penso
em contrariar
o pedido de ella

mesmo
com os aviões passando
sobre nossas cabeças
e sem o lençol
de embalar sonhos

:é sempre
a mesma viagem
quente elegante
de uma voz divina

***

música aqui

quarta-feira, 11 de abril de 2012

a loucura mora ao lado




"E, no meu caso particular, a loucura, 
além de morar ao lado, usa frequentemente o meu telefone."
Bruna Lombardi


E vem...
amarga
com o passado almeja
vazia com sua busca, tentando
me extirpar. Imolando a afeição.

Fadado a muitas festas
lhe explico com vontade de rir,
de ti, desse teu cheiro de burra na chuva:
a solidão desses dias pode ser uma miragem
mas a noite traz vontades
cópias nuns desejos
de sua vulva em meus lençóis.
Calma, só ela, permitida a caprichos que a excitação explora.
Fadado a ir devagar, sem essas palavras tolas que tua veia solta
e maluca às vezes é como uma falta de ar no meio da música.


 

Meticuloso, pacientemente vou testando,
digitalmente procurando encontrar
um ponto que seja o G
de geral.

Desligando na tecla,
o que te faz de besta.


Imagem::Usinaemporium

segunda-feira, 9 de abril de 2012

canto meio desesperado

arte: rafael godoy

me ensine a percorrer esses
caminhos sem sombras
me diz embora o dia nublado
e os homens cinzas
que a noite vem com estrelas

tenho as mãos secas de agonia
imploro para que preserve os meus olhos
esses ossos e o coração já vacilante
que a morte é certa mas não precisa ser agora

descobri que tenho me escondido em vão
e o meu grito se estende como uma estrada longa e sem volta

vejo em você o que não queria ver em mim
e me assusto sempre
então me mostre o que não sei
e deixe a marca de seu amor

me contamine
nesse dia
que essa febre não vai me matar
pelo menos hoje não

domingo, 8 de abril de 2012

Érebo, três horas da tarde


Esses Páris e Orfeus
não chegam ao fim de nada.

E os que chegam, como Teseu
logo depois se vão embora.

Não sou Helena ou Eurídice
já lhe disse!

Prefiro ser essa Revolta
(deusa brasileira da cor da Caipora)

Faço feitiços, tomo aviões, me desfaço
e se ele não me quiser
digo que me mato, me vingo
morro e renasço.

Assim sou uma dorzinha lá no fundo
que não passa.

Arrume uma Ariadne, uma coitada
tenha os filhos que eu não posso
e mesmo assim não me esqueça
(pro meu antídoto
só eu tenho a doença)

e saiba, não volto
nem que de joelhos
me peça.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

GOLFANDO O ARDUME

Fotografia By Lee Jeffries

I

Como um boto
que vai aos bailes com suas prováveis vítimas                   
                            desprezando o antes-gozo;

                 Como um buraco negro
que lança galanteios às supernovas
desdizendo da após-aurora esmeraldina,

                              Assim
o instante desdenhando do bíceps.

Assim
  a imaginação do benjaminzeiro
     concebendo à fórceps.

                              Assim
o verbo golfando sob o ardume.

II

Há poetas
com saliências verborrágicas
  para iludir o pranto
                   e
      olhares insulares que servem de analgésicos
          para confundir a vida.

III

         Há poemas

e não 
fingimentos

que crescem mais do que a alma 
pode suportar,

esses

são brotos ortodoxos
da
consciência

necessários

à satisfação de suas masturbações.

VIAJANTE ININTERRUPTO


procuro a dura realidade...

nesta expressão interessante
para iniciar um poema
onde quero fazer meu texto
com a natureza de nuvem

viajante ininterrupta
das energias do planeta
a jogar a sua sorte
da condensação à precipitação

procuro a dura realidade
na dissolução das moléculas
como um pensamento desfeito
onde sou viajante ininterrupto

quarta-feira, 28 de março de 2012


terça-feira, 27 de março de 2012

A Todos e a Ninguém

Tens por ponte teu nome,
Entre o além-homem e o animal.
Ontem, o tempo todo,
Querias ser outro amanhã.
Mas foi o mesmo, o tempo
Inteiro, até mais tarde.
Inventa a tua vontade
E a mata, existindo.
Quando o mundo redimido
Sob o teu holocausto,
pensarás um deus
consumido, consumado,
Noutro que não o teu.
Em virtude do além-homem,
Amarás a inexistência do teu nome,
Amarrado sobre o penhasco
que sucumbes, lentamente.