quinta-feira, 5 de abril de 2012

GOLFANDO O ARDUME

Fotografia By Lee Jeffries

I

Como um boto
que vai aos bailes com suas prováveis vítimas                   
                            desprezando o antes-gozo;

                 Como um buraco negro
que lança galanteios às supernovas
desdizendo da após-aurora esmeraldina,

                              Assim
o instante desdenhando do bíceps.

Assim
  a imaginação do benjaminzeiro
     concebendo à fórceps.

                              Assim
o verbo golfando sob o ardume.

II

Há poetas
com saliências verborrágicas
  para iludir o pranto
                   e
      olhares insulares que servem de analgésicos
          para confundir a vida.

III

         Há poemas

e não 
fingimentos

que crescem mais do que a alma 
pode suportar,

esses

são brotos ortodoxos
da
consciência

necessários

à satisfação de suas masturbações.

VIAJANTE ININTERRUPTO


procuro a dura realidade...

nesta expressão interessante
para iniciar um poema
onde quero fazer meu texto
com a natureza de nuvem

viajante ininterrupta
das energias do planeta
a jogar a sua sorte
da condensação à precipitação

procuro a dura realidade
na dissolução das moléculas
como um pensamento desfeito
onde sou viajante ininterrupto

quarta-feira, 28 de março de 2012


terça-feira, 27 de março de 2012

A Todos e a Ninguém

Tens por ponte teu nome,
Entre o além-homem e o animal.
Ontem, o tempo todo,
Querias ser outro amanhã.
Mas foi o mesmo, o tempo
Inteiro, até mais tarde.
Inventa a tua vontade
E a mata, existindo.
Quando o mundo redimido
Sob o teu holocausto,
pensarás um deus
consumido, consumado,
Noutro que não o teu.
Em virtude do além-homem,
Amarás a inexistência do teu nome,
Amarrado sobre o penhasco
que sucumbes, lentamente.

domingo, 25 de março de 2012

Elegia

Briton Revière  (1840 – 1920)  - Daniel na Cova dos Leões

De fato, sua morte não
nos livra de nossa própria morte.

Antes,
nos mostra outras formas de morrer –
comum em todos os lugares
onde há rios de gordura
& grandes nuvens de açúcar

(como se sua morte – e toda a
burocracia em torno de seu corpo –
suspendesse a morte que trazemos conosco)

De fato, sua morte não
nos salva de nossa própria morte.

Antes,
nos mostra como iremos morrer –
verdade apontada
em pequenos sinais diários
& centenas de páginas de hemogramas

(como se sua morte – e todas as
obrigações em torno de seu corpo –
impedisse o andamento da nossa)

*

Dando o nó na gravata...


Perpasse tangencialmente o estirante
contornando o laço à frente
Segure as pontas para não entortar
bem como na vida da gente...
Com um dos dedos da mão direita
estique e segure a fita estreita
olhando sempre adiante
como quem "tipo", espreita...
Prenda firme no pescoço
não importa se velho ou moço
e já verá um esboço
o nó de uma vida se aproxima
bela figura, quanta estima,
te sentirás um pequeno colosso !
Dê duas voltas assimétricas
segure o fôlego, esqueça o poço
porque agora falta pouco
pra de repente, ficar louco
e cair numa crise histérica..
E, se não vier a conseguir um nó
e lenvantou somente muito pó
comece tudo de novo
tente botar em pé, um ovo
tenha em mente o espelho à frente
siga tentando bravamente
dê logo esse nó, meu amigo
ela chega até o umbigo,
é só um nó...Tenha dó !

sábado, 24 de março de 2012

estados



não tendas a decifrar-me,
amado meu

hoje estou chuva
amanhã, saberá deus?

nuvem muda...




eu?
de lua

porque há dias
de sol

outros,
de chuva




hercília fernandes


terça-feira, 20 de março de 2012

coríntios

desolação e a precariedade das certezas
amores inabaláveis
a urgência das decisões faliveis
sofrimento transitório
fruto de dor passageira

temporária
efêmera

o vento das tempestades
revezando com os dias de sol
cárcere e liberdade
festa e velório

nascimento
morte.


Flávio Machado

segunda-feira, 19 de março de 2012

Fábula

sentei-me à sombra
daquela árvore de anos
que me contou suas histórias
de adormecer canários,
de compartilhar formigas,
de florescer horários
nos seus galhos de
acariciar o tempo.
[Samara Bassi]

domingo, 18 de março de 2012

Baú da Alma




Resolvi abrir o baú da minha alma.
Estava lotado.
Retirei um monte de ilusões.
Para a minha alegria,
ele ainda está abarrotado de sonhos.

(Anderson Julio Lobone)

sábado, 17 de março de 2012

Saciedade


sinto
que sei
o que sou.

E quiçá
sei
somente
isso.

saudade


essa coisa que dá um nó na gente
que aperta aperreia e faz chorar
e não tem jeito claro pra explicar
que diacho é aquilo que se sente
mais parece ser coisa de demente
não é raiva ou tristeza nem mania
nem remorso ou amor nem latomia
alegria então mesmo é que não é
é uma falta de ver quem ver se quer
é querer ter quem tanto se queria



Márcia Maia


sexta-feira, 16 de março de 2012

donadecasahipocondríaca

acordoucom
dordecabeça
levantoulabirintite
trêscapsulas
começoualimpeza
dobanheiro
refluxogastrite
esfregouchãoparede
artroseartrite
doiscomprimidos
limpouquartos
herniadedisco
salaevaranda
hipoglissemia
quarentagotas
lavouasroupas
brancasecoloridas
leveanemia
cincopílulas
passoudobrou
fortesinusite
escolheufeijão
asmabronquite
picouacarne
esquentouarroz 
oitocomprimidos
úlceranervosa
lavoucopos
arritmiatremedeira
noventagotasduaspílulas
secoupratos
capsulascoloridas
guardoutalheres
arrumougavetas
espasmosalucinação
comprimidospílulasgotas
fraquezacovulsão
morreucaída
entreaspanelas
depressão

Isaac Ruy

quinta-feira, 15 de março de 2012

Bem Amigos da Casa do ©aralho !


Resolvi temperar a vida com Sazon...
Fiquei foi hipertenso!
Regulei a moral com Activia...
Maior piriri tenso!

Crime corporativo no café da manhã...
Entre queijo do reino e requeijão processado
Consta um abismo imenso!

Vou passar lustra móveis na fuça...
Justificar absurdo com “bom senso “ !
Ser filho da puta é o senso comum...
No cartório e tudo, por extenso!

Jeitinho brasileiro “dôtô”...
Pode construir que depois a prefeitura regulariza!
Seja da massa, jovem, fiel ou nação...
Dia de futebol é tomar cerveja e vestir a camisa!

Que democracia sólida, não?
Se não for obrigado a votar, me avisa!
Bem que podia votar meu próprio salário
Esquecer as Casas Bahia e tirar férias em Ibiza!

Acorda sangue bom, acorda!!!
No máximo tomar 51 e atropelar mendigo ao fazer baliza!

Arrumar um bom advogado e ficar sussa...
(Se pagar bem o corno anfíbio, é claro!)
Lamúrias de um pobre tupiniquim na montanha russa!
(Inadimplente tapinha nas costas resolve? Meu caro.)

quarta-feira, 14 de março de 2012

nirvana


terça-feira, 13 de março de 2012

poema urgente

           
                "compaixão é fortaleza"
                             
renato russo

a compaixão ergue muralhas
blindando o ego
pra que não saia por ai
a ferir semelhantes
condenando sentimentos
aos infernos de dante

a compaixão
é o que pode
e só ela 
salvar nosso mundo




domingo, 11 de março de 2012

cum.pli.ci.da.de


...

Dizem q
em boca fechada
entra tão pouco mosca q
ficaríamos horas aqui
feito tolos 
esperando, loucos
para tomar uma sopa...


cum.pli.ci.da.de
s. f. Ato ou qualidade de cúmplice.

quinta-feira, 8 de março de 2012

CRIO ASAS E TODO SORRISO QUE EU PRECISO É PRA PODER VOAR...


eu ando, como quem não quer nada e quer tudo e um pouco mais, ainda.
volto, revolto e dou meia volta e volta e meia, coisa à toa que independe da teia.
sumo do suprassumo, resumo da ópera, presumo que tudo que já é agora daqui a pouco já era – torcicolo na fila de espera.
freio na frente da tela, tecendo coisas e cores, rasgo o risco e rabisco palavras indeléveis.
o sono sorri da sina e do sim dos sons, romântico o coração seduz minha alma nua, minha alma sapeca é toda levada da breca.
lágrimas salgadas silenciosamente rolam pelo meu rosto, mas não lavam minha alma – até aqui, meu coração é minha alma lavada, minha arma sem travas, minha ligação sem trotes...

Hedonista



Foi mesmo pra isso que vim:
a propósito do prazer.

Porque
enquanttro você me der,
fico e aceito ser sua mulher.

Fala só o que quero ouvir
senão
peço uma segunda opinião

e dou
ouvidos,
subo
a saia,
cruzo
as pernas,
aguço
os sentidos,

lanço no ar
o cheiro
de caça
e fico aberta
à temporada
de mata.

terça-feira, 6 de março de 2012

tábua das marés

no extremo do dia
barcos aportam
na extremidade da praia.

mansas ondas refletem
o que ainda resta de sol
em suas brancas arestas

trazendo em antagonia
mensagens de náu-
sea e maresia.

dentro dos barcos redes
dentro das redes peixes
(e crustáceos e moluscos...)

entrelaçados em ulvas e sargaços
se reverberam em saltos – mórbidos
traços – no ultimato da pesca.

outros – livres das vísceras –
se repartem em simetria
na ultimada fome de homens e aves

(sobre o deserto da areia
a noite já respira
enquanto em uivos o vento provoca o mar).

segunda-feira, 5 de março de 2012

BAFOS DE POEMAS PÊCOS

Fotografia By Lee Jeffrey


Para Joe Bennett
[Mago dos Desenhos em Quadrinhos]


I
Ah, Joe!
Vozes mal ejaculadas de poemas pêcos pelo silêncio
[Prostradas sob as impaciências dos lodaçais intermitentes]
Perdem-se nos filamentos dos gêmeos fazimentos.


Nesses tempos de rubras gérberas,
Após um trago, e quando a chuva cai apodrecida,
Desando a falar das mangueiras recheadas de ervas daninhas
Lambuzadas de bafos de azulejos ejaculados pelos casarões de Belém
Como punidas por serem glandes em jatos de gôzo,
Excrementos que jorram ao relento.


Comparado a Ti,
Sou um verme cult em quadrinho,
Símile coloração da verborragia vestida de lubricidade prematura,
Traspasse e rumor da antes-partida.


II
Ah, Joe!
Restos de sonhos expostos às rapinagens dos obituários tristonhos
E Flores baldias de falas indormidas
E Pensamentos e cortinas mangueirícias que se rasgam em pencas
Como domadas por asas desvirginadas,
São lumes de pétalas de alumínio e paralelepípedos de boulevards metafísicas
Que espelham faíscas renitentes em rostos impacientes.


Nesses tempos de gradação cheia de nódoas,
Após um trago, e vendo a manga amarelecer desmerecida,
Desprezo as fêmeas gargalhadas que cingem de féretros
A acidez da fúria.


III
Ah, Joe!
Vômitos sensíveis entopem meu cálice de nada.


Após um trago, e depois da algema recusar o gemido:


Quem chorará sobre uma sepultura sem pedigree?
Quem sairá para colorir as arquiteturas dos enganos?
Qual palavra se afugentará da pontiaguda superfície do verbo?
Qual Deus a Aurora Boreal balbuciará quando o poeta se for?


Aqui, Chopps Bennyanos gemam
à ilharga do ocaso,
Ultimam a tarde oferecendo enxames de orgasmos.


Aqui, Benjaminzeiros de carne e infinito
Não são páreos
Para suas criações carnívoras metamorfoseando-se às claras.


IV
Ah, Joe!
Monstros geniais são línguas insones
E flechas perpétuas abotoadas pelas lágrimas
Das laudas abandonadas.


Ilógicas e lunáticas,
As argamassas das tímidas crucificações
Penetradas por enormes mênstruos poéticos
Com langorosos betumes zunindo alucinadamente
Põem-se à peleja
E miram ventanias de vulvas peraltas
Como punidas
A estancar o sussurro das putas arreganhadas
Expostas à penetração do vazio.


V
Ah, Joe!
Os tempos são outros.


Nota do Autor:
Joe Bennett [Bené Nascimento] é paraense e desenhista exclusivo da  Major Americana DC Comics 


By Benny C Franklin
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PLÁSTICA E PROJETO

PLÁSTICA E PROJETO
Assim & Mim

A PLÁSTICA DO VERSO

lembrei da importância
dada a este dia
de hoje

procurando fazê-la
fui definindo

toda a plástica do verso
Assim

O VERSO PROJETADO

depois dum alçado feito
detenho-me agora
com a planta

feito o perfil da obra
visualizar a base

a imagino numa espiral
Mim

domingo, 4 de março de 2012

Os bloco

os bloco
é como uns floco

de neve

de neverland e adjacências
com suas indecência

de fora

os bloco
é como uns troço

de sujo

de suburbands e foreveres
com suas minhoca

de metro.

sexta-feira, 2 de março de 2012

ABSTRAÇÕES

Vejo formas de rostos nas paredes descascadas,
 nas falhas dos chapiscos de muros incompletos,
                   nos vestígios furta-cores das demãos do passado
                   e na sujeira da vida impressa na tinta asséptica.

                   Ouço vozes e desconheço de onde elas partem
                   e nem sei se de fato partem; se estas ocas audições
                   (que se tornam tensas diante destes misteriosos apartes)
                   são recados imaginados ou gemidos dos meus porões.

                   Degusto o vento; quero-o, anseio-o a cada intervalo,
                   seja feito brisa morna que amacia a cama do dia,
                   seja feito lâmina gélida que deita a saudade e fatia
                   o abismo em degraus e a morte em desejo adiado.

                   Exalam invasoras ao redor das minhas narinas
                   o chorume e a fragrância bandida das esquinas,
                   uma a uma, olor a olor, nota crua a crua nota
                   que passam ligeiras, enquanto a alma se transporta.

                   Pego o verso somente quando o caço feito a um rato
                   e ele morde, me lança em chamas, não quer ser escravo
                   e concreto armado de fogo natimorto: algo fracassado
                   que já partiu no ocaso, mas deixou seu anzol armado.

                   O poeta tem inexatos treze pedaços soltos na curva:
                   cinco sentidos, sete pecados e um poema em fuga.