terça-feira, 6 de março de 2012

tábua das marés

no extremo do dia
barcos aportam
na extremidade da praia.

mansas ondas refletem
o que ainda resta de sol
em suas brancas arestas

trazendo em antagonia
mensagens de náu-
sea e maresia.

dentro dos barcos redes
dentro das redes peixes
(e crustáceos e moluscos...)

entrelaçados em ulvas e sargaços
se reverberam em saltos – mórbidos
traços – no ultimato da pesca.

outros – livres das vísceras –
se repartem em simetria
na ultimada fome de homens e aves

(sobre o deserto da areia
a noite já respira
enquanto em uivos o vento provoca o mar).

segunda-feira, 5 de março de 2012

BAFOS DE POEMAS PÊCOS

Fotografia By Lee Jeffrey


Para Joe Bennett
[Mago dos Desenhos em Quadrinhos]


I
Ah, Joe!
Vozes mal ejaculadas de poemas pêcos pelo silêncio
[Prostradas sob as impaciências dos lodaçais intermitentes]
Perdem-se nos filamentos dos gêmeos fazimentos.


Nesses tempos de rubras gérberas,
Após um trago, e quando a chuva cai apodrecida,
Desando a falar das mangueiras recheadas de ervas daninhas
Lambuzadas de bafos de azulejos ejaculados pelos casarões de Belém
Como punidas por serem glandes em jatos de gôzo,
Excrementos que jorram ao relento.


Comparado a Ti,
Sou um verme cult em quadrinho,
Símile coloração da verborragia vestida de lubricidade prematura,
Traspasse e rumor da antes-partida.


II
Ah, Joe!
Restos de sonhos expostos às rapinagens dos obituários tristonhos
E Flores baldias de falas indormidas
E Pensamentos e cortinas mangueirícias que se rasgam em pencas
Como domadas por asas desvirginadas,
São lumes de pétalas de alumínio e paralelepípedos de boulevards metafísicas
Que espelham faíscas renitentes em rostos impacientes.


Nesses tempos de gradação cheia de nódoas,
Após um trago, e vendo a manga amarelecer desmerecida,
Desprezo as fêmeas gargalhadas que cingem de féretros
A acidez da fúria.


III
Ah, Joe!
Vômitos sensíveis entopem meu cálice de nada.


Após um trago, e depois da algema recusar o gemido:


Quem chorará sobre uma sepultura sem pedigree?
Quem sairá para colorir as arquiteturas dos enganos?
Qual palavra se afugentará da pontiaguda superfície do verbo?
Qual Deus a Aurora Boreal balbuciará quando o poeta se for?


Aqui, Chopps Bennyanos gemam
à ilharga do ocaso,
Ultimam a tarde oferecendo enxames de orgasmos.


Aqui, Benjaminzeiros de carne e infinito
Não são páreos
Para suas criações carnívoras metamorfoseando-se às claras.


IV
Ah, Joe!
Monstros geniais são línguas insones
E flechas perpétuas abotoadas pelas lágrimas
Das laudas abandonadas.


Ilógicas e lunáticas,
As argamassas das tímidas crucificações
Penetradas por enormes mênstruos poéticos
Com langorosos betumes zunindo alucinadamente
Põem-se à peleja
E miram ventanias de vulvas peraltas
Como punidas
A estancar o sussurro das putas arreganhadas
Expostas à penetração do vazio.


V
Ah, Joe!
Os tempos são outros.


Nota do Autor:
Joe Bennett [Bené Nascimento] é paraense e desenhista exclusivo da  Major Americana DC Comics 


By Benny C Franklin
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PLÁSTICA E PROJETO

PLÁSTICA E PROJETO
Assim & Mim

A PLÁSTICA DO VERSO

lembrei da importância
dada a este dia
de hoje

procurando fazê-la
fui definindo

toda a plástica do verso
Assim

O VERSO PROJETADO

depois dum alçado feito
detenho-me agora
com a planta

feito o perfil da obra
visualizar a base

a imagino numa espiral
Mim

domingo, 4 de março de 2012

Os bloco

os bloco
é como uns floco

de neve

de neverland e adjacências
com suas indecência

de fora

os bloco
é como uns troço

de sujo

de suburbands e foreveres
com suas minhoca

de metro.

sexta-feira, 2 de março de 2012

ABSTRAÇÕES

Vejo formas de rostos nas paredes descascadas,
 nas falhas dos chapiscos de muros incompletos,
                   nos vestígios furta-cores das demãos do passado
                   e na sujeira da vida impressa na tinta asséptica.

                   Ouço vozes e desconheço de onde elas partem
                   e nem sei se de fato partem; se estas ocas audições
                   (que se tornam tensas diante destes misteriosos apartes)
                   são recados imaginados ou gemidos dos meus porões.

                   Degusto o vento; quero-o, anseio-o a cada intervalo,
                   seja feito brisa morna que amacia a cama do dia,
                   seja feito lâmina gélida que deita a saudade e fatia
                   o abismo em degraus e a morte em desejo adiado.

                   Exalam invasoras ao redor das minhas narinas
                   o chorume e a fragrância bandida das esquinas,
                   uma a uma, olor a olor, nota crua a crua nota
                   que passam ligeiras, enquanto a alma se transporta.

                   Pego o verso somente quando o caço feito a um rato
                   e ele morde, me lança em chamas, não quer ser escravo
                   e concreto armado de fogo natimorto: algo fracassado
                   que já partiu no ocaso, mas deixou seu anzol armado.

                   O poeta tem inexatos treze pedaços soltos na curva:
                   cinco sentidos, sete pecados e um poema em fuga.
                   

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sophia Prometteu


&



Deste lado
o
predomínio 
das imagens.

Engulhosa causa. 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Ave "Marias"

Ave Marias todas, mães dos cristos,
filhos todos de muitos pais...
Encha-nos os bornais, com tua graça,
esparja-nos todo teu Senhor que te habita...
Bendita é vossa terra-ventre, que sempre deu de todo fruto,
nem sempre todos como teu filho prodigioso, Jesus...
Santas de vários nomes todos, que és mãe de ti mesma
chora e ora por todos os que lhe saíram e sairão,
mais ou menos dias, inexoravelmente...
que venham sem pecados,
ou o mínimo que lhes caberão à sua sorte
desvia-nos daquelas que nos atinge a alma,
a falta do perdão, da caridade, da misericórdia
o amargor da verdadeira morte,

Assim seja !

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

des.fronteiras

Em diálogo com Não sei quantas almas tenho, de Fernando Pessoa.


não sei quantas almas tenho,
fernando, quantos pessoas

me divisam

às vezes, estrangeira
peregrina solo místico

noutras, alça deforme
jura de fé e ceticismo

se me pedes calma
minh’alma venta abismo

lembra as paisagens do ser
na altivez do espírito

mas se me pedes aridez
minh’alma é alvura

manto de ternura com qual
se alça criança



hfernandes

Herança

foto: Rafael Nolli: http://www.facebook.com/pages/L-Rafael-Nolli/158326134260842
                
Não sei se vou dizer
em que caminha a esperança no fruto
                                    ainda na semente,
 
ou se digo
– se devo dizer
algo sobre a certeza nas coisas quadradas
que se alongam até arredondarem-se.
 
Não sei se falo
aindavoz
de equações químicas que se resolvem em silêncio,
                               nos livros que nunca caducam,
 
ou se conjeturo
a luta que enfrentaram os que, antes de nós,
domesticaram os grãos a nascerem
próximo ao apelo da mão.
 
Não sei se retrato a terra sitiada
de onde escapou o musgo
            que cobre as pedras
            como uma pelagem de inverno,
ou se explico
resta um filete de canto
os vislumbres de um futuro próximo
onde ainda se morre como em
             Comerciais de Metralhadora.
 
Não sei se devo
ou se me permitem –
relatar as dificuldades dos homens nas fornalhas,
derretendo o minério que irá virar bibelô de madame
  ou maçaneta de táxi, e conto,
de mãos postas, a sua dieta fria, isenta de calorias
 
não sei se romantizo
os vagabundos noturnos que chamo pelo nome
ou se narro as noites em que sonho com a Poesia
 – a inevitável
                         e acordo de pau duro.
 
Não sei se confirmo
– se é lúcido confirmar
as verdades
sobre a ternura dos ditadores para com suas esposas
                                                                  & amigos;
o carinho dos carrascos
 & torturadores dispensados aos seus filhos
    & amantes,

ou se, simplesmente, me calo.
 
Não sei,
talvez o poeta esteja mudo
diante dos outdoors do apocalipse.

 

 do livro comerciais de metralhadora

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

segunda

essa tristeza
certamente é uma herança lusitana
de antigas viagens solitárias
de descobertas de novos mundos
fechados em particulares desventuras.



Flávio Machado

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Um canto para Paul Celan


Paul Celan


Eu me perdi no pó durante a caminhada.
Hoje, descaminho pelo vão da estrada!

Paul Celan cristalizou-se intuitivo,
o Sena levou-o em sufocante abraço.

Eu, aos gritos, vejo a poesia sufocada,
meu ato de contrição indolente.

As sombras carregam Paul,
forçam-no a cavar seu próprio túmulo,

sufoco do tempo, silêncio.

Assim o tempo é mais tempo,
e meu tempo é ampulheta imprecisa.

Sorrio um sorriso escasso e tímido
metade de mim grita um silêncio desmedido
e os outros pedaços estão expostos na calçada.

(des)Ala(da)

Hoje tem sido um dia estranho, uma noite estranha.
E a tristeza tem sido alegoria
desfilando meu domingo
mais como uma quarta feira de cinzas
que um típico carnaval.
[Samara Bassi]

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Medo e a Prosa

Haverá, sim…
uma esperança
além do que eu não disse…
além do meu último olhar
quando o mundo parou…
quando o taxi partiu…
quando a vida chorou
por nós dois…
por você sem mim.

Ainda quero o sim
na voz embargada…
Na noite chuvosa
no medo, na prosa
de mãos entrelaçadas
enquanto não parto
ou monto o seu quarto,
para assim caber
toda essa vida.

E assim espero o beijo
que vai mudar o mundo…
Que vai virar um samba
E que não deixará
o avião partir
rumo ao alto…
rumo ao planalto…
rumo ao mundo vazio
do amor de nós dois.

(Anderson Julio Lobone)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012


imagem: bastidoresdemim.blogspot.com
Nascido em águas mornas,
como nascem peixes dóceis,
sem amparo ou resguardos,
sem desejos ou querências,

mas aconchegados.

quase um poema de amor


enquanto adormecido me abraças escuto teu coração
que me fala de cansaço algumas dores pequenos prazeres

do gol marcado aos quarenta e seis e meio do segundo tempo
da dor súbita fisgada na coxa
fisgada outra no peito que não sara

de histórias de ônibus e jardins
de estradas desertas noites estrelas
música às vezes lua à porta dos pequenos povoados

fala de metrô e poesia de filhos pequenos e crescidos
de amores sonhados vividos perdidos
beijos sem fim em parati jasmins de inverno

no sono teu braço me envolve mais próximo adormeço
e seguem-se segredos
como se teu coração apenas falasse de nós
dos sonhos que se escondem no avesso de teus olhos
onde rio onde ris e me amas — amas?
tua mão em meu rosto roçar ligeiro lábios teus meus

desperto

entre os lençóis vazios sinto o calor do teu sono ainda
na boca o gosto do beijo que foi sem nunca ter sido



Márcia Maia

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Bastou um sorriso.
Desfiz-me em pó
e (in)ventei-me pelo ar.
Leve, me espalhei por seus pelos e cabelos:
leve-me, agora sou teu.
Deixe-me sentir suas curvas, seu balanço,
adentrar suas intimidades
antes que a chuva nos separe
e eu escorra
- solitário -
por seu corpo molhado
de volta ao barro da criação.


Isaac Ruy

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Infinito é Highway...


Vez singular penso que o inferno é eu

Escuto gargalhadas satânicas no plexo!

Desordeno idéia torpe com balbúrdia

Qualquer interatividade sem nexo!


Grudei o tédio ali, atrás da banca

Um contrato chamado sexo!

O amor que cruza na auto-estrada

Retrovisor com sobras de reflexo!


" Infinta Highway "

Tatuado na lombar do objeto anexo

Que safada...


Bêbado de solitude que se diz lúcido

Rabisca um soneto linear convexo!

Que piada...


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

intuição



rosa não
nem pássaro
mas ousei jardins
alcei voos

sua não
mas sei
seu rocio
e céu


valéria tarelho

* poema “provocado” após leitura deste abaixo, de Emily Dickinson

No Rose, yet felt myself a’bloom,
No Bird – yet rode in Ether -

*ilustração de Penelope Dullaghan


sábado, 11 de fevereiro de 2012

Céu.Vargem.


'do meu caderno ano.33
I


Sobra no corpo
enorme seu gesto
da vontade.

Apóia o vão. Silêncio.
Na escapada hora, onde teima
em pertencê-la
em outros sonhos que navegam


ou
traz na claridade
pretendida, estampando
seu sorriso na manhã.

II


Beijos em seu leito de jasmins.
É uma paz, não berra.
Tesão que não se encerra.
Cova rasa da imensidão.


No amplo
espaço
dos seus seios. Escalando
nuvens de espelhos,
não vejo
as horas se perdem
dormem.


Escalo,
sua a aurora.





Finda o calmo,
por instantes
selvagem sou. Fluxo.


E
no vão
cortina
de pelos que
protegem
seus lábios úmidos acariciando meus bagos,
vejo as gotas brancas de minha paisagem.  




quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

NARCARDIACONOLÁRIAS

perguntas, respostas
utopia escancarada 
vento no inimaginável.

o ver
o vir
o ser.

rouco de tanta ternura
o silêncio engasgado
uma espera.

uma esperança:
certeza viva não carrega cor
apenas balança, apenas balança...

CLEBER CAMARGO RODRIGUES - [ da Exposição de Sol a Sol 2012, foto (C) Maria Moreira ] 

Ultimato


Vem cá benzinho,
para de pensar se sua amada merece.

Ou dá ou desce!

As deusas não se negam
aos seres humanos.

Não vai gastar de usar
e mil podem aproveitar,
antes que caia o pano.

Escuta bem
e decide:

Ou te dou,
ou me dano...

domingo, 5 de fevereiro de 2012

ABERTA ()

a minha mulher
com o seu ar meigo
sensual e descuidado
está nua – passando              
nossa tarde de sábado
dedicada à leitura
dum romance

eu ouvindo música
com os olhos fechados
de auscultadores ligados
vivendo intensamente
a música aparecendo
magnifico estéreo

vi-a mover os lábios,
estava olhando a mim
com seu olhar tão lindo
onde se pintam suaves
nuas transparências

você vai querer tomar
meu corpo aqui mesmo
se o libertar das calças?
(pareceu-me ser isto.!.)

falou em libertar mas
não se levantou logo e
eu aproveitei e disse…

deixa-me escrever
teu convite em poema

pareceu-me ser isto.!.
(abri o parêntesis, ela
atenta, já percebeu…)

UIVOS REINVENTADOS


Fotografia By Lee Jeffrey

[Para Marven. Irmão-poeta de vida e sonhos.]

"Não há poema em si, mas em mim ou em ti."
[Otávio Paz]



I

Tempo; oh, tempo rude, oh!

Com um silêncio sem lógica
alçaste as asas fogosas das orgias dos céus de quartzo-magma
qual feroz condor. E os vômitos das antes-laudas rasuradas
e os espinhos-fêmeos cravados em tumbas indormidas
são soluços que cabem em ti ― como cartase poética
onde cabem burburinhos mortificados.

II

Tempo; oh, tempo rude, oh!

Como um caimento de estrelas mal calculadas
te vi cair sozinho na vil sarjeta da gramática torpe.
E os efeitos da nervura da palma
e a torpe falação do reparte
e a flutuação verborrágica da após-partida
permanecem em ti
até que o lume da lágrima
seja revestido de salivas assexuadas
e uivos reinventados;
até que o porvir da lauda hermafrodita
seja resguardado da agonia recozida
― como os cárceres frígidos onde não cabem 
olhares crucificados.

III

Tempo; oh, tempo rude, oh!

Covarde como uma mortalha pendente
no santuário do medo
rasgaste o manto da coragem
e amadureceste o sonho mal vingado.
Um poeta é de sempre [oh, tempo indefinível!]:
o que tu fazes hoje
é a mesma castração do verbo amargoso
que fizestes em recurva de agonia conjeturada
sob calibre de açoite langoroso.

IV

Tempo; oh, tempo rude, oh!

Agora o vômito
e o vinco da rodagem falante
num poema baldio
para celebrar o sacrifício poético da moenda solitária,
dos anéis de fumo infartado
e das glaciais mui apunhaladas.

V

Tempo; oh, tempo rude, oh!

Lá fora
a evocação do fuzil ingênuo nos símiles das falações
― e a puta e a vidente e o jardineiro recolhendo
folhas do abandono.

Lá fora
o vergar da aurora nos tímpanos das algemas
― e o guru e o monge e o pedreiro reinventando
verbos-filhos do amanhã.

VI

Tempo; oh, tempo rude, oh!

Sou e sou
a contradição amarga que [vos] toca
como fúria ― o âmago!

TESÃO

TESÃO
Assim & Mim


um Bom Ano Novo
com passas
boas

recheada
sorte premiada

vêm ao miado gata!
Assim

me rebentas de desejo
e entras na racha
assim aberta

tua palavra
liberta

meu tempo da espera!
Mim

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Pinheirinho

deveria ser só um símbolo do natal
sobrenome de jogador
diminutivo banal
quis o destino
os patrões
e seus assassinos
que virasse árvore
do mal
exemplo da maldade
do ódio brutal

que algum deus
proteja essas famílias
e receba os que foram
em ilhas de paz

e peço mais:
que algum outro deus
da justiça
e da espada
condene os opressores
e suas almas amaldiçoadas
a uma eternidade
sofrida
solitária
no alto 
de suas coberturas
envidraçadas.