domingo, 5 de fevereiro de 2012
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Pinheirinho
deveria ser só um símbolo do natal
sobrenome de jogador
diminutivo banal
quis o destino
os patrões
e seus assassinos
que virasse árvore
do mal
exemplo da maldade
do ódio brutal
que algum deus
proteja essas famílias
e receba os que foram
em ilhas de paz
e peço mais:
que algum outro deus
da justiça
e da espada
condene os opressores
e suas almas amaldiçoadas
a uma eternidade
sofrida
solitária
no alto
de suas coberturas
envidraçadas.
sábado, 28 de janeiro de 2012
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
anunciação
não sabe Vasco
do novo mundo,
do ultravioleta,
do ultravioleta,
do outro Vasco.
- permanece
na eterna surpresa:
do velho mundo
e outras violetas.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
XYZ-PQP-Sampa!

“ãn passã”
sampa, sampa, sampa
n’est pas , sampá?
san pá tupi
turiaçú anhaguera
ibirá puera ita quera
a aldeia é aqui
sampa nipon
sampa sam
arigatô japon
samp’italia
san genaro
san paolo
te quiero pita
aglio ed oglio
sampa de nossosinhô
do bom retiro
sampa da bahia
de todos os sampas
oxiiii...axé...oxalá
shana tova!
sampa states
of course!
loco_motion
loco_motivation
sampa loka paca
paca no tietê
sujo-absujo
surdo-absurdo
mudo?-não mudo
só saio e volto no voto
e...só saia se for
à praia!
paulista_no
devoto...
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joe canônico,
joe_brazuca
a contrapelo
ando por ontens
porvires saturados
de agoras
na memória,
fragmentos riachos
tempos-espaços
não restaurados
que tu me sopras,
escovas, ao vagar
ainda que não...
*Arte: Nicoletta Ceccoli.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Trecho do romance "um dia desses"
29
Permiti minha vida às ruas da cidade. Febre avassaladora movendo minha percepção pelo sombrio corredor humano: dínamo diabólico nos sugando para as polaridades obscuras do nada; Caronte, imenso imã escondido debaixo das montanhas ao norte do paraíso, ou de qualquer coisa impossível, nos atraindo como pequenos parafusos – as moedas sobre nossos olhos, os marcapassos, o ferro em nossas veias, nossos pensamentos de chumbo sobre a morte debaixo dos pneus dos carros ou da vida voando e cagando estanho derretido sobre nossas cabeças.
O corpo fechado, incapaz de conter o halo de ira que escapa pelos poros, ilumina o dia, se confunde com o néon das fachadas das lojas, se mistura aos faróis dos ônibus e se perde entre o clarão do fósforo riscado.
Permiti minha vida à correnteza de carne humana escorrendo pelas vias da cidade: as idéias coletivas sobre qualquer coisa dispensável se misturando num único cardume que é devorado mais adiante, para renascer novamente após a travessia da rua. Alguém que chora passa despercebido, ainda que destoando da desarmônica orquestra magistral. Penso: “era o que todos estariam fazendo se os sapatos não ditassem o ritmo frenético da metrópole e as pernas insistissem em devorar o caminho”.
Sobre minha cabeça, reclames do tráfego se mesclam aos sinais invisíveis dos celulares, às ondas do rádio e da tv, que se unem antes de comunicar aos homens a necessidade da pressa e do temor.
Mais tarde não haverá mais minha vida, porém a cidade prossegue. Ergo o controle-remoto e mudo de canal.* Caros amigos, o romance está prontinho, aguardando uma boa oportunidade para aparecer... Abraços!
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nolli
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Significâncias
nem toda flor é rosa
nem todo azul é céu
nem todo texto é prosa
nem todo doce é mel
nem todo espelho é mágico
nem toda prece é fé
nem todo amor é trágico
nem toda meia é pé
nem todo pão é trigo
nem todo pó é sal
nem todo anjo é amigo
nem todo lobo é mau
mas toda brisa é saudade
todo lençol é divã
todo soluço é verdade
toda esperança é manhã
Publicado em 6 de janeiro no Doce de Lira.
Fotografia minha: nem todo mar é bravo.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
canção de despedida II
o jantar estava posto
a mesa enfeitada
em silêncio invadiu o quarto
com a pressa dos desesperados
arrumou poucas peças na mala
não deixou um bilhete
como fazem os suicidas
não deixou pistas
como fazem os assassinos
ficou o vazio
um poema por escrever
uma canção de despedida
que não se cantará
cortou com navalha o fio de vida que restava.
Flávio Machado
a mesa enfeitada
em silêncio invadiu o quarto
com a pressa dos desesperados
arrumou poucas peças na mala
não deixou um bilhete
como fazem os suicidas
não deixou pistas
como fazem os assassinos
ficou o vazio
um poema por escrever
uma canção de despedida
que não se cantará
cortou com navalha o fio de vida que restava.
Flávio Machado
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Presságio
Apressarei então, os passos e as palavras, pendurando-as nos pedregulhos do caminho, para apressá-las também.
Apressarei-me em ser morada de um acaso onde nunca é por acaso que se deseje chegar até você.
E num espaço, faço um laço, um canto e encanto-me nas suas rimas, deslizando os olhos de menina por cada detalhe seu.
Poetizo-te como quem debruça à beira da estrada, qualquer síntese da manhã.
Apressarei-me em ser morada de um acaso onde nunca é por acaso que se deseje chegar até você.
E num espaço, faço um laço, um canto e encanto-me nas suas rimas, deslizando os olhos de menina por cada detalhe seu.
Poetizo-te como quem debruça à beira da estrada, qualquer síntese da manhã.
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Samara Bassi
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Querendo luas...
Estranha essa manhã.
Para ser sincero eu nem vi a noite passar.
Por um instante, no fim da última tarde, eu te vi aqui ao lado e decidi que aquela
era a imagem ideal para me salvar de outra madrugada, digamos… insípida.
Fixei meus olhos na tua miragem e te disse algum adjetivo carinhoso.
Você como sempre… riu, debochou e em seguida me abraçou.
Me contou que a lua lá fora mudava de posição, como certa vez,
numa terra onde os sonhos existem.
Eu disse que duvidava, mesmo sabendo que a nossa lua,
faria qualquer peripécia, por nós dois.
E em meio ao meu devaneio noturno, saudamos o nosso céu.
Brindamos com whisky, calamos com beijos e voamos alto,
com alegria, suor, gozo e esse amor, tão nosso, tão puro.
Mais perfeito que tua pele morena junto da minha,
somente se fosse no nosso paraíso… aquele, secreto.
Adormecemos enlaçados, como em passado recente e perfeito.
Mas agora pela manhã, acordei como sempre.
Compondo frases.
Querendo luas.
Buscando vida.
Te amando, enfim…
Para ser sincero eu nem vi a noite passar.
Por um instante, no fim da última tarde, eu te vi aqui ao lado e decidi que aquela
era a imagem ideal para me salvar de outra madrugada, digamos… insípida.
Fixei meus olhos na tua miragem e te disse algum adjetivo carinhoso.
Você como sempre… riu, debochou e em seguida me abraçou.
Me contou que a lua lá fora mudava de posição, como certa vez,
numa terra onde os sonhos existem.
Eu disse que duvidava, mesmo sabendo que a nossa lua,
faria qualquer peripécia, por nós dois.
E em meio ao meu devaneio noturno, saudamos o nosso céu.
Brindamos com whisky, calamos com beijos e voamos alto,
com alegria, suor, gozo e esse amor, tão nosso, tão puro.
Mais perfeito que tua pele morena junto da minha,
somente se fosse no nosso paraíso… aquele, secreto.
Adormecemos enlaçados, como em passado recente e perfeito.
Mas agora pela manhã, acordei como sempre.
Compondo frases.
Querendo luas.
Buscando vida.
Te amando, enfim…
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
O Capítulo 1 seria assim:
Viaduto da Borges de Medeiros, Porto Alegre.
Já fazia alguns minutos que olhava ora para o horizonte, ora para baixo, meio que admirando a vista, meio que admirando seus próprios pensamentos. Estes lhe eram mais freqüentes quando se apoiava no alambrado do viaduto, olhando entre os prédios de forma cada vez mais nebulosa, conforme a noite chegava.
Muitas pessoas passavam às suas costas, apressadas, sem talvez lhe notar. Caminhavam simplesmente, o miravam quiçá, mas não interviram de forma alguma em seu transe, em suas divagações solitárias consigo mesmo. Parecia que a noite chegava às pessoas junto com a fome, o sono ou algo assim... Uma pressa incontida, que lhes fazia olhar sempre à frente, meio que desviando umas das outras, se chocando às vezes. Quantos não eram os que morriam porque se quer percebiam os automóveis, quem dirá um guri encostado no corrimão, de costas para a rua.
E ele seguia ali, parado, vagando entre idéias ou entre nada, pois, sabia, nem sempre pensava, e isso lhe confortava. Quando não pensava, tudo era melhor, mas o problema se tratava exatamente em não conseguir esvaziar a mente. E sua mente era rápida, inconstante, fervorosa, ardente, atormentadora, torturante. Não conseguia controlar seus pensamentos, e então, como muitas vezes já o fizera, ia àquele viaduto, no centro da cidade, e ficava lá, nos fins de tarde tumultuadas de pessoas apressadas para chegarem a suas casas, deixando seus pensamentos tomarem conta de si, como se fosse ele deles, e não o contrário.
O movimento da rua diminuía conforme a noite se prolongava. Isso era estranho: conforme a noite chegava, mais pessoas saíam às ruas e, de repente, elas sumiam, desapareciam. Por que, ao contrário, a intensidade da noite não era seguida pela intensidade de pessoas caminhado às suas costas? Talvez fosse o fascínio e o medo que a noite causava: no começo, parecia que a curiosidade tomava conta das pessoas, e todas saíam de seus escritórios e fábricas para ver o dia ir embora; mas logo que o dia se esvairava, o sol sumia e a luz se extinguia, o medo lhes tomava conta, e todos corriam para suas casas, fechavam suas portas e dormiam, para que aquela escuridão fosse embora rapidamente, e o dia voltasse logo quando acordassem, e tudo tivesse dado a impressão de ter sido um sonho.
O único que se mantinha ali era aquele rapaz, de costas para todo esse movimento, olhando simplesmente a noite chegar, sem prestar atenção nisso, todavia. Sua atenção ia e vinha como a maré, e só se dava conta disso quando percebia a luz se tornar ainda mais escassa, e as luzes dos faróis dos carros começarem a se confundir com as luzes dos prédios, numa confusão visual que lhe fazia sucumbir mais ainda em pensamentos longínquos, distantes, em terras sem nome, a pessoas sem identidades.
Se posicionar daquele jeito no alambrado do viaduto era uma coisa comum para ele: fazia sempre naquele horário, quase todos os dias, principalmente os de semana, que, para ele, eram os mais monótonos. Às vezes, levava consigo uma lata de cerveja, algo que facilitasse a fuga de seus pensamentos que, parecia, lhe tornavam sufocantes sempre no mesmo horário. E conforme a noite tomava conta das ruas, fazia o mesmo ritual: erguia a perna direita primeiro, e a colocava no primeiro vazamento da ponte antiga, como que pensando no que fazia, mesmo que, geralmente, sem pensar em nada. Ficava assim por alguns minutos, parado, até apoiar o outro pé, da mesma forma, e ficar suspenso no ar, olhando para baixo, largando a lata de cerveja sobre o alambrado, quando a tinha em mãos, ou quando se apoiava, enfim. Mais alguns minutos, até os pensamentos se tornarem mais claros, e deveras começar a pensar no que fazia, e a escuridão ia se desfazendo aos poucos pela sua mente, passando por ela os anos anteriores, a vida que por ele passara, as noites insones, cada gota de água gelada que lhe caíra nas costas em banhos noturno, em chuveiros ruins, e cada sensação que tivera nesse tempo todo – tempo curto, mas marcante como ferro quente encostado na pele de um animal vive, que estremece não pela dor, mas por saber que aquela marca será para sempre.
Conforme a escuridão se vai de sua cabeça, suas pernas se tornam mais firmes, e o apoio das mãos vai sendo dispensado, até que a coragem lhe possibilite subir mais um degrau do alambrado, e este baixar de sua cintura, e o vento já perturbar seu equilíbrio aí. E se antes as pessoas não lhe prestavam atenção porque estavam apressadas, a essa hora já estavam talvez dormindo em frente à televisão, e ninguém havia ali que lhe recomendasse descer, ou lhe estimulasse subir ainda mais, para ver até onde suportaria o vento. Estava só, com os braços abertos sobre a avenida lá embaixo, o busto suspenso, olhos abertos e o vento no rosto, lhe transfigurando não só sua face, mas seus pensamentos, e todo o universo de nostalgia que lhe rodeava naquela quinta-feira de clima ameno.
Por um momento, porém, e como sempre, seus olhos se focaram por entre os prédios, o fazendo baixar os braços e novamente se apoiar-se no alambrado do viaduto. Vagarosamente como subiu, desceu pé a pé os vazamentos da ponte, um após o outro, num tempo superior ao que essas linhas conseguem descrever. Na sua cabeça, mais vagarosamente ainda, meio que acordando de um longo hibernar, sem entender exatamente a causa de tamanha escuridão da noite, chegada num piscar de olhos, num raio de consciência.
De volta à terra firme, e como sempre, olha para os lados meio que envergonhado, meio que tentando entender o que se passara, e mesmo sabendo que aquilo se passara sempre, ou quase sempre, quase todas as noites, e quase sempre no mesmo horário. Mãos paralelas ao corpo, vira-se, simplesmente, e sai andando na rua, com a naturalidade verdadeira de quem vive algo deveras simples. Os passos lentos iniciais são acompanhados por outros cada vez mais velozes, até que sua caminhada de volta à casa se torna uma corrida, mais e mais rápida, até suas pernas pararem de serem sentidas, e o vento voltar a bater no seu rosto, como se ainda estivesse lá, prestes a cair do viaduto, com os braços abertos sobre a avenida movimentada, com a noite tomando conta da paisagem, e seus pensamentos desencontrados. A diferença era que, agora, e como sempre, estava voltando para casa.
Muitas pessoas passavam às suas costas, apressadas, sem talvez lhe notar. Caminhavam simplesmente, o miravam quiçá, mas não interviram de forma alguma em seu transe, em suas divagações solitárias consigo mesmo. Parecia que a noite chegava às pessoas junto com a fome, o sono ou algo assim... Uma pressa incontida, que lhes fazia olhar sempre à frente, meio que desviando umas das outras, se chocando às vezes. Quantos não eram os que morriam porque se quer percebiam os automóveis, quem dirá um guri encostado no corrimão, de costas para a rua.
E ele seguia ali, parado, vagando entre idéias ou entre nada, pois, sabia, nem sempre pensava, e isso lhe confortava. Quando não pensava, tudo era melhor, mas o problema se tratava exatamente em não conseguir esvaziar a mente. E sua mente era rápida, inconstante, fervorosa, ardente, atormentadora, torturante. Não conseguia controlar seus pensamentos, e então, como muitas vezes já o fizera, ia àquele viaduto, no centro da cidade, e ficava lá, nos fins de tarde tumultuadas de pessoas apressadas para chegarem a suas casas, deixando seus pensamentos tomarem conta de si, como se fosse ele deles, e não o contrário.
O movimento da rua diminuía conforme a noite se prolongava. Isso era estranho: conforme a noite chegava, mais pessoas saíam às ruas e, de repente, elas sumiam, desapareciam. Por que, ao contrário, a intensidade da noite não era seguida pela intensidade de pessoas caminhado às suas costas? Talvez fosse o fascínio e o medo que a noite causava: no começo, parecia que a curiosidade tomava conta das pessoas, e todas saíam de seus escritórios e fábricas para ver o dia ir embora; mas logo que o dia se esvairava, o sol sumia e a luz se extinguia, o medo lhes tomava conta, e todos corriam para suas casas, fechavam suas portas e dormiam, para que aquela escuridão fosse embora rapidamente, e o dia voltasse logo quando acordassem, e tudo tivesse dado a impressão de ter sido um sonho.
O único que se mantinha ali era aquele rapaz, de costas para todo esse movimento, olhando simplesmente a noite chegar, sem prestar atenção nisso, todavia. Sua atenção ia e vinha como a maré, e só se dava conta disso quando percebia a luz se tornar ainda mais escassa, e as luzes dos faróis dos carros começarem a se confundir com as luzes dos prédios, numa confusão visual que lhe fazia sucumbir mais ainda em pensamentos longínquos, distantes, em terras sem nome, a pessoas sem identidades.
Se posicionar daquele jeito no alambrado do viaduto era uma coisa comum para ele: fazia sempre naquele horário, quase todos os dias, principalmente os de semana, que, para ele, eram os mais monótonos. Às vezes, levava consigo uma lata de cerveja, algo que facilitasse a fuga de seus pensamentos que, parecia, lhe tornavam sufocantes sempre no mesmo horário. E conforme a noite tomava conta das ruas, fazia o mesmo ritual: erguia a perna direita primeiro, e a colocava no primeiro vazamento da ponte antiga, como que pensando no que fazia, mesmo que, geralmente, sem pensar em nada. Ficava assim por alguns minutos, parado, até apoiar o outro pé, da mesma forma, e ficar suspenso no ar, olhando para baixo, largando a lata de cerveja sobre o alambrado, quando a tinha em mãos, ou quando se apoiava, enfim. Mais alguns minutos, até os pensamentos se tornarem mais claros, e deveras começar a pensar no que fazia, e a escuridão ia se desfazendo aos poucos pela sua mente, passando por ela os anos anteriores, a vida que por ele passara, as noites insones, cada gota de água gelada que lhe caíra nas costas em banhos noturno, em chuveiros ruins, e cada sensação que tivera nesse tempo todo – tempo curto, mas marcante como ferro quente encostado na pele de um animal vive, que estremece não pela dor, mas por saber que aquela marca será para sempre.
Conforme a escuridão se vai de sua cabeça, suas pernas se tornam mais firmes, e o apoio das mãos vai sendo dispensado, até que a coragem lhe possibilite subir mais um degrau do alambrado, e este baixar de sua cintura, e o vento já perturbar seu equilíbrio aí. E se antes as pessoas não lhe prestavam atenção porque estavam apressadas, a essa hora já estavam talvez dormindo em frente à televisão, e ninguém havia ali que lhe recomendasse descer, ou lhe estimulasse subir ainda mais, para ver até onde suportaria o vento. Estava só, com os braços abertos sobre a avenida lá embaixo, o busto suspenso, olhos abertos e o vento no rosto, lhe transfigurando não só sua face, mas seus pensamentos, e todo o universo de nostalgia que lhe rodeava naquela quinta-feira de clima ameno.
Por um momento, porém, e como sempre, seus olhos se focaram por entre os prédios, o fazendo baixar os braços e novamente se apoiar-se no alambrado do viaduto. Vagarosamente como subiu, desceu pé a pé os vazamentos da ponte, um após o outro, num tempo superior ao que essas linhas conseguem descrever. Na sua cabeça, mais vagarosamente ainda, meio que acordando de um longo hibernar, sem entender exatamente a causa de tamanha escuridão da noite, chegada num piscar de olhos, num raio de consciência.
De volta à terra firme, e como sempre, olha para os lados meio que envergonhado, meio que tentando entender o que se passara, e mesmo sabendo que aquilo se passara sempre, ou quase sempre, quase todas as noites, e quase sempre no mesmo horário. Mãos paralelas ao corpo, vira-se, simplesmente, e sai andando na rua, com a naturalidade verdadeira de quem vive algo deveras simples. Os passos lentos iniciais são acompanhados por outros cada vez mais velozes, até que sua caminhada de volta à casa se torna uma corrida, mais e mais rápida, até suas pernas pararem de serem sentidas, e o vento voltar a bater no seu rosto, como se ainda estivesse lá, prestes a cair do viaduto, com os braços abertos sobre a avenida movimentada, com a noite tomando conta da paisagem, e seus pensamentos desencontrados. A diferença era que, agora, e como sempre, estava voltando para casa.
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
domingo, 15 de janeiro de 2012
"- Palhaço! "

O Bar é um circo
Onde todos se acham
(Sob maquiagem borrada)
No direito de ser protagonista !
O bêbado?
Eterno palhaço!
(No retocar da maquiagem)
Só quer mesmo comer a trapezista !
[ Da série: Ano novo, poema velho]
Saudações
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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
O vinho (a morte de Deus)
- Wine, wine!
Gritava em oração o velho que ficara sozinho em sua fazendola em algum lugar tropical. Era a maior seca que esse gorducho já havia visto.
- Oh meu senhor, pai celestial, Deus todo-poderoso, que tudo sabe, que tudo vê. Cujo cajado – serpente engolidora de poder transformada em madeira – tem gravado em suas escamas, recortadas na nobre matéria prima, toda história, presente, passado e futuro. Criador de todas as coisas, cuja cabeça guarda um Aleph verdadeiro. Por que castigas este teu servo? Que sempre lhe serviu, na medida que sendo humano me foi permitido, é verdade, mas com todo o fervor e devoção. Por que me abandonaste?
Então no meio de sua plantação de Peyote surgiu um gigantesco e plasmático ser. Por onde passava os cactos abriam caminho e as flores floresciam, aos olhos do humilde senhor gorducho, vítima da horrível seca que assolava aquela região.
- Oh meu pobre servo, sou eu, o Deus-Morto. Sim, estou morto. Lá nas terras que o senhor não conhece fui assassinado! Os homens não crêem mais em mim! O senhor está atrasado.
- Mas Como podem não crer, basta que faças uma visita como estas fazendo a mim!
- Não meu caro, isso, o que restou de mim, vive no inconsciente dos atrasados como o senhor, não tenho mais poder, pois não estou mais no inconsciente e consciente da maioria.
Então o que farei? Estou sem proventos, tenho sede e não tenho vinho!
- Vai, faz o que sempre foi feito, tenha vontade e aja, busque água na fonte da sabedoria.
- Mas como? Sem sua ajuda?
- O senhor ainda não entendeu? Um ser que só existiu em consciências ia lhe ajudar como? Vai, volta tua força para terra, é com ela que deves contar, esquece o mundo que não vês, espera tudo desta vida, não fujas para o além, não contas com pós-mundos. Agora de deus já sabe a verdade.
O gorducho saiu a procura de água, achou a velha fonte, tomou alguns goles. Logo lembrou da sua plantação de paraísos artificiais, antes mesmo de matar totalmente a sede tratou de encher seu balde e correndo foi fazer um bendito, do Nirvana, da Beatitude, chazinho do Cacto Sagrado.
- Quem sabe falo de novo com o Divino Deus que me salvou da morte! - Pensou o pobre velho enquanto dava um gole no líquido que leva ao paraíso.
Gritava em oração o velho que ficara sozinho em sua fazendola em algum lugar tropical. Era a maior seca que esse gorducho já havia visto.
- Oh meu senhor, pai celestial, Deus todo-poderoso, que tudo sabe, que tudo vê. Cujo cajado – serpente engolidora de poder transformada em madeira – tem gravado em suas escamas, recortadas na nobre matéria prima, toda história, presente, passado e futuro. Criador de todas as coisas, cuja cabeça guarda um Aleph verdadeiro. Por que castigas este teu servo? Que sempre lhe serviu, na medida que sendo humano me foi permitido, é verdade, mas com todo o fervor e devoção. Por que me abandonaste?
Então no meio de sua plantação de Peyote surgiu um gigantesco e plasmático ser. Por onde passava os cactos abriam caminho e as flores floresciam, aos olhos do humilde senhor gorducho, vítima da horrível seca que assolava aquela região.
- Oh meu pobre servo, sou eu, o Deus-Morto. Sim, estou morto. Lá nas terras que o senhor não conhece fui assassinado! Os homens não crêem mais em mim! O senhor está atrasado.
- Mas Como podem não crer, basta que faças uma visita como estas fazendo a mim!
- Não meu caro, isso, o que restou de mim, vive no inconsciente dos atrasados como o senhor, não tenho mais poder, pois não estou mais no inconsciente e consciente da maioria.
Então o que farei? Estou sem proventos, tenho sede e não tenho vinho!
- Vai, faz o que sempre foi feito, tenha vontade e aja, busque água na fonte da sabedoria.
- Mas como? Sem sua ajuda?
- O senhor ainda não entendeu? Um ser que só existiu em consciências ia lhe ajudar como? Vai, volta tua força para terra, é com ela que deves contar, esquece o mundo que não vês, espera tudo desta vida, não fujas para o além, não contas com pós-mundos. Agora de deus já sabe a verdade.
O gorducho saiu a procura de água, achou a velha fonte, tomou alguns goles. Logo lembrou da sua plantação de paraísos artificiais, antes mesmo de matar totalmente a sede tratou de encher seu balde e correndo foi fazer um bendito, do Nirvana, da Beatitude, chazinho do Cacto Sagrado.
- Quem sabe falo de novo com o Divino Deus que me salvou da morte! - Pensou o pobre velho enquanto dava um gole no líquido que leva ao paraíso.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
voz do povo - boca de deus
À
palavra
enorme
em
cima da mesa:
O
que somos,
onde
estamos,
o
que faremos...
No
vazio tampo?
Ficaremos
na mesma.
Um
horizonte pronto invoca o juízo,
não
se pode antecipar uma fagulha do tempo sequer.
Suposição
– isso tem o vacilo dos que jogam...
Atacando
a coisa toda em si.
Largo.
Claro.
Nada diga
desta água
nunca:
palavra
paga
palavra...
Nunca
caduca.
Voz
do povo - boca de deus!
Imagem::Usinaemporium
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renato de melo medeiros
domingo, 8 de janeiro de 2012
[ EM VEZ DE FICAR APENAS SONHANDO ACORDADO ]
andei / acordando meus sonhos sonhados / procurando a certeza de que nossa boca louca saiba salivar de tanto desejo / virando ventania / rondando o rumo do remo das retinas.
de cabo a rabo / olho no olho / em ziguezague, de lá pra cá e de cá pra lá. / subi/desci duas ladeiras / pulei antes de cair da cadeira / escancarei sorrisos daqueles risos dos quais eu mais preciso. / passei na frente da porta / parei bem antes da sala / cansei no primeiro degrau da escala. / calculei contas erradas / colei cacos / cravei semelhanças na beirada do prato. / despistei a insônia perdida / amei / rusguei no rasgo da rusga / entrei correndo no quarto / catando doces pecados / sozinho / pés no chão da dança. / como a espera sempre me alcança / serenei sentado no jardim das ilusões / acolhi brisas iluminadas.
tanta tensão também traz tesão / adrenalina no edredom dos sentidos / morri feliz / deitado no lençol das vontades.
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Cleber Camargo Rodrigues
sábado, 7 de janeiro de 2012
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
alvos ao tiro
não há peças
de encaixe
módulos no chão
esparramados.
não há alvos
que se acerte –
nada é certo
nada é
certo é resistência
é constância –
não há razão
e tolerância
para quem chega
atrasado
(um dia atrás do outro)
... o mundo gira é fato
mas translada
do outro lado
(noite noite noite
nada dizem as estrelas!?)
de encaixe
módulos no chão
esparramados.
não há alvos
que se acerte –
nada é certo
nada é
certo é resistência
é constância –
não há razão
e tolerância
para quem chega
atrasado
(um dia atrás do outro)
... o mundo gira é fato
mas translada
do outro lado
(noite noite noite
nada dizem as estrelas!?)
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sidnei
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
MOVIMENTOS DE MIM
![]() |
| Fotografia by Lee Jeffries |
Se sua vida está queimando bem, a poesia é apenas a cinza."
[Leonard Cohen]
I
Hoje
estou sordidamente ambulante.
Hoje
que sou livre por engano
faço-me falta e meu recôndito segredo
perdeu-se no oceano.
Hoje
que alcei o cigarro e acendi a cruz
debandei minha solidão diatópica
e minha gordura redundante
mais doidivana.
II
Hoje
que voei aos meus cometas atemporais
e temporais
permaneci utópico, seco;
mirei nos meus orvalhos extravagantes
e fui algemado;
cozi os meus estômagos dourados
e fiquei faminto, cru.
III
Hoje
que me sorvo por todos os cachos
estou crucifixadamente nativivente.
Hoje
que quero ir ter comigo
não me vou esquartejar,
sou quem eu não tinha.
Hoje
que quero ir ao nirvana
observar movimentos de mim,
não me quero mais
como miséria da poesia.
[Benny Franklin]
* Mídias Sociais
* Blogs Poéticos
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benny
POEMA(S) DE ANO NOVO
POEMA DE ANO NOVO
as palavras conhecem os dias
percorrem as semanas
fazem os meses
mas é nos anos
paragem obrigatória
a chegar à vida do momento!
Assim
ANO NOVO DO POEMA
o momento balança seu fruto
na árvore da língua age
seiva a linguagem
o poema
procura dar nu
no Ano Novo 1 novo poema!
Mim
as palavras conhecem os dias
percorrem as semanas
fazem os meses
mas é nos anos
paragem obrigatória
a chegar à vida do momento!
Assim
ANO NOVO DO POEMA
o momento balança seu fruto
na árvore da língua age
seiva a linguagem
o poema
procura dar nu
no Ano Novo 1 novo poema!
Mim
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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Ano Ovo
nasce um ano
de novo
feito um ovo
cozido
no fogo baixo
da esperança
que geme
na gema
que amarela
mas não foge
na clara
presença
do futuro
incerto
assim
seguimos
espertos
pondo um ovo
por ano
em pé
e descobrindo
américas
de novos
ovos-sonho.
de novo
feito um ovo
cozido
no fogo baixo
da esperança
que geme
na gema
que amarela
mas não foge
na clara
presença
do futuro
incerto
assim
seguimos
espertos
pondo um ovo
por ano
em pé
e descobrindo
américas
de novos
ovos-sonho.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
ENSAIOS
Será que sabes desta agonia
que, ligeira, transmuta o meu sangue
(numa intumescida alquimia)
a partir do efusivo instante
em que surges, ampla e cintilante,
por entre os vazios do meu dia,
entorpecendo-os − à revelia −
com o teu elixir paralisante.
Lateja nos ramais das minhas veias
um rio − de tirana correnteza −
tenso − de lava e de labareda −
que atiça a febre dos gametas.
Quero o teu tudo − todo − imerso
no mar do meu gozo e do meu verso.
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