sábado, 24 de dezembro de 2011

Novos tamancos


é chegado o fim do ano

mais um ano...
mais um ano...

um ano para esquecer
um ano para acalentar
um ano para redescobrir

o que seria de nós se não houvesse os relógios?
e os ponteiros e os calendários e os seus óbitos?

se não existissem demarcações?
nos olhos, nas luzes, nas sombras, nas combustões?

o que faríamos, nós, com a existência de um grau zero?
uniríamos começo, meio, fim...
e destilaríamos nos caldeirões os seus mistérios?

e se deixássemos ser a chuva?
e sermos leveza, transparência, flor, candura...
e a tudo transformar?

é chegado o fim do ano
embora eu já tenha comprado os meus novos tamancos
não tenho nenhuma pressa em calçá-los!...




*Arte: Salvador Dalí.

Memórias à beira de um estopim

XXXVI31/12/03
...e é, na mesaque nos diferimos. É na ceia que nos diferenciamos. Esse ano que passa nos mostra mais uma vez que é a mesa (repleta ou escassaque nos divide em pólos distintos.

... logo, a criança que se debruça sobre a lata de lixo irá parar por um instante para ver os fogos... senhor, zelai pela nossa miséria! Que as latas de lixo amanheçam repletas! Que assim seja!

Mas que seja hojesenhorpois esse ano-velho amanhã será tão velho quanto os ossos do peru que o cão enjeitou, e que apodrecem na rua... tão velho quanto a fome do menino de ontem, debruçado, um lixo... amém.


.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

manifesto I

ando na contra mão do movimento literário
esteticamente
politicamente

não compartilho do modus operandi
das ideologias dominantes
tomo o caminho
aberto nas trilhas dos pesadelos

vivo exilado
sem canto nas palmeiras
sem o elogio fácil das coriolas literatas

abraço causas perdidas em proveito proprio
não comungo das diretrizes partidárias das esquerdas

isolado no pensamento minoritário
permaneço no fogo das inquisições
invento a minha escola
meus sinceros desacertos
neoliberalizo o fazer poético
desestabilizo o estado oficial.


Flávio Machado

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Menino Poeta



Poema qual pluma tal pena
Brincando no colo do dia
É pipa que voa bem alto
É vento que sopra tão frio

Poema pequeno menino
É rima sobre rolimãs
É lima, é pé de romã
Pomar de doces frutas

O verso, menino que brinca
É nosso brinquedo bendito
É nosso segredo escondido
Rimando de tanto brincar

Menino peralta e sapeca
Com sua mania de versos
Criando imagens diversas
Gritemos bem alto: POETA.

Sol(idão)

São como caminhos que vertem do chão em areias finas, as andanças solitárias e regadas à pó e só.
Desatinando no deserto dos olhos, um inverso qualquer de incostância na procura desses tantos anjos sonoros que talvez, cantem pra um sono sereno, na sua dose diária de solidão.
A necessária palavra que brota diante dos lábios, são raízes impostas nas mãos calejadas dos sonhos e marcadas ainda na nicotina do cigarro, na fuligem do dia, sedento por brilho e de colorir os olhos, ainda o verso que uni o inverso, gravado na retina daquilo que não tem medida.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Sou tua

Sou tua
por um tempo...
Ou no advento
em que lembras
que o melhor de ti
está entre minhas coxas.

Sou tua.
Como antes...
e como logo adiante,
em que leviana
e somente amante,
te faço saber
que o inferno é depois!

Sou tua.
Com zelo e esmero
e enquanto te espero,
admito:
Me divirto as custas
das proibidas escutas
de quem, não te tem
de verdade
como eu.

Sou tua.
Da forma mais cruel.
Ando nua...
do inferno ao céu
que te crio
quando me compras,
e quando me usas.
Como qualquer alguém
que gastar o seu vintém.

(Anderson Julio Lobone)

sábado, 17 de dezembro de 2011

Rotinas Urbanas

Reza a lenda que todas as manhãs, logo que amanhecia, se levantava preguiçosamente, punha o café a passar, e saía para seu único passeio diário pelas ruas ainda desertas. O sol iluminava somente parte dos prédios, e a brisa da manhã ainda era fresca. Seu passeio era curto, apenas por algumas ruas vizinhas, às vezes até o rio, onde parava por alguns instantes. Depois, voltava para casa e finalmente tomava o café, aos goles curtos que o faziam perdurar, gelado, até quase ao meio-dia.

Nesse meio tempo, gostava de ler. Abria um de seus muitos livros com uma mão, segurando a xícara com a outra, e gastava a manhã inteira para ler nunca mais que cinco páginas, entre goladas e caminhadas pensativas pela casa. Quando se esgotava o tempo, fechava o livro e o guardava. Na manhã seguinte, seria outro. Nunca os lia completamente, embora freqüentemente os repetisse, reiniciando, porém, de novo da primeira página.

A hora do almoço era solitária. Não que as outras não fossem, mas era quando mais as percebia assim. A refeição era simples: porções de arroz e feição requentadas, alguma carne, de vez em quando massa sem molho. Gostava de cozinhar algumas coisas, e até achava que cozinhava bem, mas tinha preguiça de o fazer somente para si. Cozinhava pouco para ter pouca louça para lavar. Comia segurando o prato sob o queixo, às vezes escutando algum programa esportivo, ou de humor, no rádio.

Enquanto isso, o sol subia até o ponto mais alto do céu. As tardes eram os piores momentos dos dias, ansiosas e calorentas. Sua mente fervia. Pensava em mudar radicalmente sua vida, tomar alguma atitude, fazer alguma coisa, mas aquele sol batendo sobre os móveis e o ritmo maluco que observava pela janela sugavam suas iniciativas. Algumas coisas eram tão rotineiras quanto essas sensações: por exemplo, havia sempre alguma reforma, algum martelar, algum barulho de furadeira, na casa de algum vizinho. Todas as tardes, a tarde inteira, agonizantemente. Não conseguia tranqüilizar-se para continuar a leitura iniciada na manhã, e, então, ficava revezando entre o rádio e a TV, não prestando atenção nem num, nem noutro, também aos goles, mas, nessa vez, de um guaraná já sem gás há semanas.

Até que a noite finalmente chegava, aos poucos, e era quando percebia que o dia havia passado. Olhava a geladeira para ver se havia alguma coisa para comer na janta, torcendo para que não houvesse, para que precisasse ir até o mercado comprar pão, queijo e presunto, mas geralmente havia. Torcia, então, para que algum amigo lhe telefonasse o convidando para uma cerveja, embora soubesse que não deveria fazer isso numa terça-feira, ou quarta, ou quinta, embora também soubesse que, sinceramente, isso não lhe fazia a menor diferença. Mas nada disso acontecia, e então jantava algum sanduíche, novamente com um prato sob o queixo, e novamente ao som do rádio, nessa vez escutando a um programa de canções melosas que lhe faziam lembrar os pequenos namoricos do tempo de colégio, compartilhadas com outros ouvintes que ligavam para a rádio as pedindo. Somente depois, já de madrugada, ia banhar-se e preparar-se para dormir.

Apagava as luzes consternado, cansado, mas ainda sem sono, torcendo, agora, para que o dia não amanhecesse chovendo. Quando amanhecia chovendo, tinha que esperar o café passar em casa, olhando para a cafeteira

dezembro


vago sentir de ausências
entre estrelas sem brilho
e árvores de papel



Márcia Maia


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Versos Pluviais



Das nuvens de meus pensamentos
letras
pingam
em
gotas,
palavras fluem em enxurradas.
Idéiasrelâmpagos.
Gritos. Trovões.

Dilúvio de rimas de risos de medos de cheiros de choros de imagens de gostos de gestos de sonhos de sons...
Dilúvio de vida.

Garoa fina... calmaria...

Chovo, em forma de poema.

Isaac Ruy


Imagem de Valdinei Calvento

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Mãe Dináh

Em 2012
Faço 27 anos
Medo?

" Os últimos serão os primeiros... "
Disse a profecia

" Hoje não!! hoje não...
Hoje sim !!! "

Disse o narrador...
Rubinho, que ironia!

Um beijo ao profeta
E um brinde ao novo dia !
;)

http://www.youtube.com/watch?v=PZeM8e6PBu0&feature=related
(Referência)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

empírico



te toma de
assalto. rouba
teu íntimo. sopra
no início. suga
no último
ato.

tem um quê de
fome. é fúria.
regojizo.

te faz carícias.
inflama. é artifício
da alma
humana.

é divino. abstrato.
e vês. acolhes
nos braços.

é amor. te
mata
de.


valéria tarelho

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Três poeminhas

I

Antônimos do universo

O próprio paradoxo
Um libertário caga regras
Liberdade,
só para sua verdade


II

Tive prazer ontem, um prazer necessário
Proporcionei um prazer superfluamente necessário
Aliviei minha culpa, que não é minha culpa
Fui feliz, ó fui, melancolicamente, hipocritamente

Acreditem ou não
Ninguém virá nos salvar
Os filósofos, os profetas, ninguém
Abriram, aumentam e aumentarão as trilhas
O caminho é infinito

Barato

Comedias baratas
Baratas na revolução nuclear
Cola é barata

domingo, 11 de dezembro de 2011

por.quê



Tem seu cheiro nesse minucioso memorial, pelos cantos, adivinho. Escutando das paredes seu sussurro já antigo - meus nervos não sabem...
É hora de libertá-la da lembrança exata e refazê-la com maestria... 
Entre todas: a mais vadia... 



Quem de mim
recolhe o grito
tem-me seu,
castelo criou.




Pássaro grande
leva-me pelos ares
distantes.

Sendo teu canto
uma sepultura
às amarguras.

























O porquê, 
entregar contigo 
as mesmas cartas...






por.quê
s. m. Causa, motivo, razão.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

simples, assim

na sombra tresloucada do talvez
minha agonia atravessou sozinha a linha telúrica da preguiça do meio dia.
feito pedaço de feitiço de fruta madura esperando acabar a gula
é simples, assim:
às vezes, eu sou apenas mais um sortudo surdo que não ouve o próprio coração...

Radical

Hoje não tem fossa e bolero
nem lentas sílabas
de drama e espera.

Sofrer? Não, hoje não quero!

Que venha a dor aguda
de ser afinada
nesse corpo grave

e ao me jogar nas cordas da sua guitarra,
que eu tenha a pele
toda recortada.

Vai me Fender, enfim,
no seu colo ávido
quando soar metálica
entrecortada e trágica
entre seus dedos mágicos.

Essa noite é heavy metal.
Vou ceder, elétrica,
ao som de um Sepultura,
Def Leppard overture,
overdose hardcore,
qualquer coisa que arda e cure.

Ainda que depois eu sobre
flor esmagada
entre suas partituras.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Eu queria ser o Bortolotto

Mário Bortolotto - arquivo pessoal


Eu queria ser o Bortolotto


Noventa por cento das pessoas que conheço
me ignoram.
Os outros dez por cento... nem tchum!

E (no sentido de "mas"), e eu me acho o cara,
o do caralho, um gênio que
de ingênuo não tem nada.
Sabe, eu queria ser às vezes o Bortolotto,
embora eu seja bem melhor que o chapa,
porque eu sei fazer sonetos
shakespearianos.
Posso parecer pedante,
intelectualzinho babaca
que já foi entrevistado pela Folha
porque foi ignorado pelo Estadão.
E (ainda no sentido de conjunção adversativa), e se eu
dissesse que
invejo vários dos poemas
que o Nolli e a Maria Gomes publicaram
aqui no Poema Dia?!
Olha só!, eu não sou carioca,
eu nasci foi na Resende
da gloriosa AMAN.

Tá, confesso que a minha dramaturgia é um lixo.

Um beijo!



***

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

VIAGEM DE BUSCAR

Fotografia By Ana Mokarzel

[Dedicado às memórias de "Sócrates" e "Léo" - dois paraenses da gema]




Era viagem ao centro de Mim
e ocorreria entre granitos e vômitos
― mas estive em pânico
para ir viajar tão cedo sob ameaça de terminar o namoro 
   como um encurtado quartzo
                          em gôzo.

Não fosse o poema
[sombrear-se] em pedaços
Eu prostrar-me-ia aos pés de um fogoso estofo de vida
pelo muito fogo que gala...

E dar-me-ia a posição de Lótus 
                         para as pernas
antes do Sol 
  que tende a coagular-se...

E beijaria as mangabas do cajueiro, 
           a cuba
da geleira manufaturada que nem madrepérola
                                              desvirginada...

E afrontaria o ânimo da foice,
o aço cirúrgico do bacio broxado,
o após-roxo da fala 
que apenas com o fantasma do medo
[im]pediu-me
a fuga.

IMORTALIDADE E CRENÇA

as frases soltas, soltam-se…
só sabemos tê-las escrito
porque…
elas já não nos pertencem
nelas…
vamos esculpindo poesia,
esse mais sublime achado
duma consciência humana
procurando matéria onde
os deuses se revelam
para os podermos amar
com uma adoração devida
ao amor incondicional
para com tudo que nos dá
vida, imortalidade e crença!

domingo, 4 de dezembro de 2011

Revertério

nunca me levem a sério
não digo nada que presta
sou um revertério
ser ao contrário
sem nenhum mistério
medíocre como qualquer média
mediano igual um hemisfério

nunca
nunca

me levem a sério
no fundo dessa mina
no raso dessa rima
rio
sem minérios.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011


Quero escrever um poema de sangue
destes que me arrancam de mim
que me acordam na noite

Quero escrever um poema
que liberte meus olhos
e me faça mais vivo

Quero escrever um poema de sangue
destes que arrebatam as gentes
que azucrinam ouvidos moucos

Quero exaurir o poema
suá-lo por meus poros
pari-lo